30 de setembro de 2011

PREVIDÊNCIA

de todas as dores do mundo
sofro apenas as mais brandas
de todas as alegrias
experimento as mais sóbrias
dos sonhos dos desesperos
elejo os mais exequíveis para este tempo
paixões e ódios não os provo ou evito
o amor que se acrescenta a cada dia
vou usando com parcimônia porém sem usura
é que minha caldeira emocional trabalha
a meia pressão
para não explodir a cada toque a cada anseio
e abandono
o amontoado psicossomático em que circulo

Aldo Bonadei, Casario (séc. XX).

29 de setembro de 2011

DECISÃO

Tomei a decisão agora há pouco:
Vou enterrar-te em cova bem profunda,
Denunciar-te ao Ministério Público,
Fazer tua caveira com a manicura,
Negativar teu nome no SPC,
Brecar teu crédito por toda a praça.
E, se for pouco e se não bastar,
Botar despacho numa esquina escura,
Incendiar tuas coisas, tua casa,
Encher o teu jardim de cinzas,
Encomendar vodu e amarrar teu nome
Na boca de um gordo sapo infame,
Para assim fazer completo descarrego,
Livrar minha vida desse desespero
Que te tornaste sem que me apercebesse.
Sai de mim, terrível exu caveira,
Encosto brabo, fantasma de figueira,
Imagem em centerblog.net.
Espírito baixo, vadia possessão,
Pois este corpo só a mim pertence.
Ou, pelo menos, meu pobre coração.

28 de setembro de 2011

CÉU DE ESTRELAS


Edvard Munch, Noite estrelada, 1922.

O velho carro, adaptado para rodar a gás de cozinha, pachorrentamente varava a noite no asfalto, com a pressa dos moribundos. Seu dono, piloto e mecânico, Geneci, ia socorrer outro carro enguiçado dali a treze quilômetros e vadiava a viagem com algumas histórias engraçadas, quase inverossímeis, sempre arrematadas por frases como “não quero ter pernas pra chegar em casa”, “por essa luz que me ilumina”.
E eu olhava meio incrédulo aqueles dois projetos de fachos de luz lançados dos faróis cansados, mas ria gostoso das histórias do mecânico, que me garantia pôr andando um carro em que outro gastou quatro horas para chegar à conclusão de que ele não andava por qualquer razão inexplicável.
De fato o carro andou depois de vinte minutos do toque mágico de Geneci, mecânico já mais que engraxado em eixos e bielas. Andou sob protesto até o fim da viagem, como se não quisesse chegar.
A noite, entretanto, estava tão estrelada, de quase nunca se ver, que talvez fosse melhor o carro ter empacado até o dia raiar, para que eu não perdesse um espetáculo que já há muito meus olhos simples deixaram de contemplar na cidade grande.

27 de setembro de 2011

NA PRAÇA DOS DESESPEROS

bem no meio da praça dos desesperos
plantada no centro da cidade
quase nada acontece
nos dias úteis.
nos inúteis
os uivos dos casais de namorados
os gritos dos perdidos
dos achados
e a devastação total
nos corações dos solitários.

Paul Garfunkel (*1900+1981), Os namorados da Praça da
República (em cultura.pr.gov.br)

26 de setembro de 2011

POEMAS MÍNIMOS III

I. GRAND MONDE

ave ovos e ovários!
ave vários!
aviários
e tudo é uma galinhagem só!


II. FORAM-SE AS POMBAS

houve pombas nos pombais
hoje há bombas arsenais
mas raia sanguínea e quente a madrugada
desintegrando nossos sonhos tolos


III. EU SOU ASSIM (OU QUASE)

tudo de mim/nada
pouco de mim/basta
tanto de mim/farta
nada de mim/mata
e se for só um tiquinho
aí é que nem cachaça


IV. TALVEZ

talvez saia
talvez fique em casa lendo jornais
a noite porém é tão propícia
que vale um desencanto
uma frustração
um porre
quem sabe um encontro


V. AMANHÃ INÚTIL

a expressão das faces dos que à beira dos copos se olham
fere a noite
e instala nas consciências a certeza de um amanhã inútil

Toulouse-Lautrec, No Moulin Rouge, 1892.

24 de setembro de 2011

SUSPEITA

Às vezes suspeito
De que o que eu suspeito
Desse bando de homem insuspeito
Tipo Zé Genoíno Zé Dirceu
Seja apenas defeito meu
Eu que brasileiro incréu e ateu
Pense de fato de um jeito
Que não dê margem a crer
Que essa gente impoluta possa ser
Gente de muito direito
E assim só veja defeito
Em gente de bem de respeito
E assim suspeitando
Quedo-me bastante aflito
Por achar que em todo político
Se esconda um vírus maldito
Se aloje sinistro vampiro
Que só queira sugar nosso sangue graxo
Nossa pretensão ética
E nossos sonhos ignaros

Imagem em nabalsa.blogspot.com.

23 de setembro de 2011

CORRIGINDO O POLITICAMENTE INCORRETO

Não quero ficar à margem da modernidade. Quero ser, como se dizia outrora, up-to-date. Detesto estar por fora, ainda mais que não sou umbigo de vedete (Na minha época de menino só as vedetes punham os umbigos de fora, o que gerou a frase: Mais por fora que umbigo de vedete. Depois as coisas começaram a melhorar.)
Por isso, estou antecipando-me às cabeças mais antenadas e venho propor a alteração do título de algumas obras, ou de algumas expressões consagradas na língua, porém eivadas (gostaram do adjetivo?) de preconceitos.
Aí vão elas.
O negrinho do pastoreio – Lenda do sul do Brasil também presente no Uruguai, contada pelo gaúcho Simões Lopes Neto no livro Contos Gauchescos & Lendas do Sul (1912), que agora, está totalmente fora dos padrões da correção política. Seu título será alterado para O afrodescendentezinho do pastoreio.
Criado mudo – Peça do tradicional mobiliário doméstico brasileiro, cujo nome foi dado, porque, à época de sua criação, os criados não tinham direito à voz. Hoje tudo mudou (sem trocadilho): quase ninguém tem mais criado em casa. Na verdade, boa parte das pessoas se cria nas ruas. Em todos os casos, se o tiver, deve adotar o nome criado deficiente falante (forma popular) ou criado afásico (forma culta), a fim de se enquadrar aos novos tempos.
Cachaça Nega Fulô – Cachaça de excelente qualidade – e digo isso de ciência própria – fabricada no município de Nova Friburgo/RJ. Por um descuido de seu fabricante, saiu o nome politicamente incorreto. Vamos corrigi-lo para Cachaça Afrodescendente Fulô. O porre pode ser até o mesmo, mas o nome não.
O navio negreiro – Talvez a obra (1869) mais representativa entre todas as que escreveu, no curto espaço de sua vida no século XIX, o bardo baiano Castro Alves, “poeta colosso, sujeito moço, mas soube o que fez”. Como sempre foi um batalhador das causas sociais, certamente estaria entre os combativos politicamente corretos de hoje e mudaria o título de seu belo poema para O navio fretado para o transbordo de afrodescendentes.
A moura torta – Célebre conto popular da Península Ibérica, surgido à época da sua ocupação por forças da Al-Qaeda medieval vindas do Oriente Médio, via Magreb, comandadas por Tárique, que atravessou o Estreito de Gribraltar, no início do século VIII. Por isso, portugueses e espanhóis criaram a história de uma moura extremamente feia que aterrorizava as criancinhas, só para sacanear os sarracenos. Como hoje fazer isso é um perigo medonho, sugiro a mudança para A conterrânea de Maomé portadora de deficiência física deformante. (A história pode muito bem nem ser essa, mas fica politicamente incorreta, não é?)
O velho e o mar – Romance famoso (1952, The old man and the sea, no original) do não menos famoso Ernest Hemingway, inveterado escritor, casador e bebedor norte-americano que acabou por suicidar-se aos 61 anos de idade. Hoje não se pode mais chamar velho de velho, como todos estão cansados de saber. Inventaram tantas expressões hipocorísticas para atenuar os problemas advindos da vida longa, que quase não se veem mais velhos por aí. Sua obra hoje certamente se intitularia O portador de hipertrofia etária e o mar.
O escudo negro – Filme hollywoodiano de 1954, estrelado por Tony Curtis e Janet Leigh, os bonitões da época, e dirigido... por quem mesmo? Naquela altura não se dava muita atenção a diretores, mas vá lá: Rudolph Mate. Norte-americano às vezes é meio sem-noção mesmo. Já quando do seu lançamento ocorriam historinhas desairosas sobre o título do filme, que foi levado às telas do Cine Monte Líbano, em Bom Jesus do Itabapoana, em sessão nobre de domingo.  Parodiando a paródia da época que fazia trocadilho infame, o título deve ser: Os ânus dos afrodescendentes.
Terça-feira gorda – Embora hoje ninguém mais use esta expressão em língua portuguesa para referir-se à terça-feira de Carnaval, é bom que se lhe troque, no mínimo, o adjetivo incorreto. Nos Estados Unidos ainda se usa a expressão francesa Mardi Gras, que é exatamente terça-feira gorda. Os problemas com a balança devem ser restritos a quem os tem. Os outros, sob pena de serem acusados de incorretos, devem abster-se desse tipo de juízo de valor. Isto também vale para a farra do Carnaval, que deverá ser, assim, terça-feira com sobrepeso, mas já está fazendo regime para emagrecer.

Olha o mardi gras aí, gente! (imagem em anaviaja.blogspot.com).

Chocolate Diamante Negro – A Lacta, apesar de branca em sua marca – Lacta é praticamente leite –, deu nome politicamente incorreto ao seu chocolate mais famoso. Hoje deve renomeá-lo para Chocolate Diamante Afro.
Anão de jardim – Peça decorativa, normalmente de cerâmica, de duvidoso gosto estético, que se vende em barracas à beira da estrada para Itaboraí/RJ. Embora tenha esse pedigree de baixa extração, não merece o nome que lhe deram. Sugiro: prejudicado verticalmente de jardim. Quem sabe o preço de venda não possa ser até maior?
O vermelho e o negro – Obra-prima da literatura francesa (1830), escrita por Stendhal, que teve muitos problemas por suas posições políticas. No entanto – como diz o ditado: casa de ferreiro, espeto de pau –, não atentou para o título incorreto, mesmo em francês, de seu romance, Le rouge e le noir. Proponho a retificação para O vermelho e o afro.
Cabra cega – Inocente brincadeira infantil, da fase pré-cibernética, que fazia alusão à impossibilidade de o animal ter a visão das coisas que o cercavam. A palavra usada, então, hoje está marcada por um odioso preconceito, embora cego continue não enxergando do mesmo jeito. Em todo caso, proponho a alteração para cabra deficiente visual, ainda que não veja (Veja só: será que eu sou um cabra cego?) criança nenhuma brincado mais disso.
Loura burra – Atualmente não é mais possível identificar as pessoas pela cor de sua pele – a não ser a própria, a fim de ganhar sua cota em diversos estamentos sociais –, ou pelo emaranhado e colorido de seus cabelos, nem pela circunferência de sua cintura, assim como suas inclinações eróticas. Estes são tempos realmente difíceis, que nos exigem um grande conhecimento de sinônimos, antônimos, parônimos, homônimos e, por que não dizer, homófilos. Tem-se a impressão de que o burra, na expressão, não ofende tanto quanto o loura, por isso proponho sua alteração para mulher portadora de cabelos desprovidos de melanina e deficiente do ponto de vista do quociente de inteligência e das informações culturais adquiridas (Vejam só o trabalho que dá a loura burra.)
Negro é lindo – Música que deu título a elepê (O troço é antigo, como podem perceber: é de 1971.) do compositor, cantor, músico e guitarreiro Jorge Ben, meu ídolo e hoje nomeado Jorge Ben Jor, fazendo a propaganda da beleza dos de pele tisnada. Mais correto seria, numa releitura carregada de boas intenções modernas e que, com toda certeza, aumentaria a arrecadação de direitos autorais: O afrodescendente não é feio, não!
Roda de fogo – Novela da Rede Globo, exibida entre l986 e l987, que faz grosseira referência a problemas que ocorrem no fiofó da pessoa que sofre de prurido anal. Na época, as coisas eram muito liberadas mesmo, e os autores lançaram mão desta expressão chula para se referir àquela parte da anatomia do herói que passava por problemas. Nela, é bom dizer, não havia o sentido subjacente de “queimar a rosca”, como querem os maledicentes. Como evoluímos bastante no quesito mestre-sala e porta-bandeira, bem como em evolução e harmonia, sugiro mudança do título, agora com viés médico: Hemorroidas ardem.
O caso dos dez negrinhos – Agatha Christie, a autora do livro publicado em 1939, não tinha nada que se meter no caso deles. Deixasse para lá. Era coisa que não dizia respeito a ela. Mas sabem como são os escritores, não é mesmo? Bastava não usar a palavra politicamente incorreta negrinhos, que pegou muito mal, tanto que nos Estados Unidos, o livro ganhou outro título, a fim de que não fosse acusado de racismo. A edição brasileira traduziu ao pé da letra a expressão little niggers presente no título inglês. É preciso mudar, sem esconder o caso deles, pois hoje está tudo muito liberado: O bofe dos dez afrodescendentezinhos.
Por aqui ficamos, por hoje.