15 de setembro de 2011

AVISO À PRAÇA

quem não ler os meus poemas
será por mim amado
quem detestar os meus poemas
será por mim amado
quem se mostrar indiferente aos meus poemas
será por mim amado
entretanto quem gostar dos meu poemas
sem sofreguidão
sem dilaceramentos
sem convulsões
assim numa calma tranquila e pachorrenta cumplicidade
sofrerá os empuxos de minha paixão
e por amá-los amar-me-á
(e disso não abro mão)
uma vez que escrevo para ser múltiplo
eu que perdido nessa vaga pessoa em que me exponho


Souza-Cardoso, Pintura, 1914, Museu Municipal
Souza-Cardoso, Amarante, PT.

14 de setembro de 2011

A MÃE DO DOUTOR AFONSINHO

A mãe do Dr. Afonsinho era um libelo contra a atividade profissional do filho. Endocrinologista rigoroso com seus pacientes, tinha seu trabalho solapado pelas taxas de dona Cinira: todas escandalosamente acima do que recomendam os manuais médicos menos rigorosos.  Colesteróis, triglicérides, glicose: tudo pela tampa, como se diz popularmente.

Aí Dr. Afonsinho ficava sem moral para exigir de seus pacientes a parcimônia no consumo de costeletas de porco, linguiças, chouriços, massas e guloseimas em geral, sobretudo a excelente goiabada cascão com queijo gordo e a ambrosia de pôr a perder deuses do Olimpo que se faziam na região.
No entanto, dona Cinira havia decidido, tão logo enterrara o marido no campo santo do Morro do Cruzeiro, debaixo de luto fechado, que doravante teria outros prazeres que não apenas as saliências de lençóis, como era do agrado do finado e das quais, verdadeiramente, não achava muita graça. Então se dedicou a comer tudo aquilo que a saúde melindrosa do extinto marido, quando em vida, lhe limitava e cuja dieta se resumia a caldinhos, sopinhas, papinhas, coisas assim de uma sensaboria desgraçada.
Em vista deste seu novo comportamento, vez e outra, Dr. Afonsinho exigia de sua mãe que fizesse os controles habituais. E a encaminhava ao laboratório do amigo Hélio, especialista na aferição das taxas dos seus pacientes suspeitos. E lá ia dona Cinira, contrafeita, exibir seu braço para que o vampiro recolhesse dela a quantidade de sangue capaz de denunciá-la ao Conselho Regional de Medicina.
No entanto, por orientação de sua vizinha de muitos janeiros, descobriu uma fórmula eficaz para iludir as medições empreendidas pelo patologista: passava uma semana a poder de suco de couve, em jejum, e dieta de jiló, no almoço e no jantar, ao fim da qual se dispunha a fazer o tal controle exigido pelo filho.
Assim que recebia o resultado com os números dentro de limites civilizados, corria para a lanchonete Pastéis & Sucos, bem ali na rua que vai dar na ponte, e se agarrava a coxinhas, rissoles, pastéis, acompanhados por caldo de cana e refresco de groselha carregado no açúcar, de fazer o pâncreas se assustar.
Nesses momentos, indefectivelmente, passava algum colega do Dr. Afonsinho que, apavorado com os exageros da velha senhora, ligava para seu celular, a fim de que ele tomasse providência imediata, sob pena de dona Cinira sair dali em coma diabética grave, ou com entupimento definitivo das coronárias.
Quase sempre Dr. Afonsinho não podia, porque, naquele mesmo instante, estava em atendimento no hospital. Então providenciava uma ambulância de folga e determinava a dois enfermeiros que fossem lá na lanchonete resgatar sua mãe, antes que uma catástrofe se abatesse sobre ela e a Medicina não dispusesse de recursos para mantê-la no rol dos vivos.
Dona Cinira saía de lá, sob veementes protestos, implorando pela ajuda do proprietário daquela casa de perdição, Antônio Manuel, que infelizmente não podia fazer nada, já que ele mesmo estava sob a vigilância rigorosa do médico, visto também andar abusando de frituras, gorduras e açúcares.
E, olhando triste dona Cinira ser introduzida na traseira do reboque médico, como se fosse uma louca perigosa, dizia-lhe:
- Dona Cinira, se não é a senhora, sou eu! A senhora conhece seu filho, dona Cinira, mas abusa demais da conta! O que é que eu posso fazer, dona Cinira? O que é que eu posso?
Como grand finale, lá ia a ambulância, sirene ligada, pedindo passagem aos outros veículos e aos pedestres para, mais uma vez, salvar dona Cinira, como determinavam as recomendações rigorosas de seu filho endocrinologista e depositá-la em sua casa retirada da cidade, na chácara da Volta da Areia.

Rembrandt, A aula de anatomia do dr. Tulp, 1632 (imagem
em pt.wikipedia.org).

13 de setembro de 2011

INSTANTÂNEO MATINAL

expira o dia seu hálito perfumado de agosto
pela janela aberta sobre a manhã de frio.
um náufrago da madrugada dorme enregelado
no aconchego de jornais e trapos
sob a marquise do edifício:
eis aí também o rio.

(Imagem colhida em beagleclub.blogspot.com.)

12 de setembro de 2011

ÉDIPO E A ESFINGE

(Édipo e a esfinge, Museu do Vaticano.)
que país é este? interroga a esfinge
apenas finjo que não ouço
e continuo marchando no cordão desesperado
dos desterrados sem direção

que país foi este? pergunto à esfinge
que finge não me ouvir
e continua hirta sobre o abismo
em que nos iremos atirar logo a seguir

que país será este? indagamos os dois
mas fingimos que não estamos nem aí
antes de nos precipitar do alto do penhasco
no mar de lama que nos tragará a todos.

10 de setembro de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS VI

Imagem tragarte.blogspot.com.



Nestes novos pensamentos bem pensados, há uma forte tensão entre o politicamente correto e o político incorreto, de modo que alguns deles podem chocar, galar ou simplesmente gorar, como ocorre aos ovos.
Todos eles, é claro, cheios de pretensões humorísticas, que não estou aqui para dar lição de vida a ninguém. Isto fica lá para a extensa literatura (?) encontrada nas prateleiras das livrarias, com seus habituais autores, grandes arrecadadores de direitos autorais.
Apraz-me (Eta verbinho mais antigo!) apenas e tão-somente fazer algum chiste (Eta substantivozinho mais demodé!), porque sei que, com eles ou sem eles, minha conta bancária - que anda mais periclitante que a de alguns países europeus - não vai sofrer modificações significativas.
Vamos a eles, sem mais delongas!
1. Os gays, ultimamente, andam tão ativos, que já estou até achando os heterossexuais muito passivos.
2. Tenho um parente gay, e fico com muita vergonha, quando ele vem me dar esporro por eu ter feito alguma merda machista.
3. Quando um gordo sobe numa balança e ela indica seu sobrepeso, não sou eu o politicamente incorreto.
4. Neguinho safado é um cidadão afrodescendente politicamente incorreto por suas práticas antiéticas e prejudiciais a seus semelhantes.
5. Na Bahia, os movimentos sociais recrudescem até o meio-dia, quando, então, amainam, até encontrar uma rede, um ensaio do Olodum, ou a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim.
6. Os camarões pitus criados em Itu, sem exagero, são do tamanho de pirarucus.
7. Será que o movimento gay só dá para trás, ou experimenta algum progresso?
8. Machista, quando broxa, se sente mais acabado que bicha aposentada.
9. A prática recente da adoção de crianças por casais gays implicará necessariamente na adaptação de toda teoria freudiana. Serão dois pais ou duas mães, o que, convenhamos, é demais para qualquer equilíbrio emocional.
10. Não há nada mais improdutivo que mesas-redondas sobre a última rodada do campeonato brasileiro de futebol. Nem mesmo um singelo lateral será revertido, malgrado todas as críticas fundamentadas dos comentaristas abalizados.
11. Numa derrota por goleada, não há nada mais desonroso que o famigerado gol de honra.
12. Pior que ser goleiro de time de várzea, é só servir para bandeirinha e ainda correr do lado que tem urtiga e pó-de-mico.
13. Na linguagem jurídica, uma transa vira conjunção carnal. O mesmo não se dá com a gramática.
14. Pressupor que, um dia, o ser humano dará certo comprova a ideia de que o ser humano é mesmo incorrigível.
15. Nada do que o Júlio César, goleiro da Seleção Brasileira, já pegou nos campos de futebol se compara ao que ele pega à noite entre os lençóis no recesso do lar. Ai, ai!
16. Pior cego é aquele que, além de não querer ver, pragueja contra a escuridão, xinga o seu autor e mete a bengala no cão-guia.
17. Quando você lança o anzol num rio, para pegar um peixe, e fisga um pneu velho, é sinal de que, além do meio ambiente, seu almoço está perdido.
18. Um coxo e um mentiroso são pegos facilmente. Só que, com relação ao mentiroso, se você não conseguir provas cabais, será certamente processado por calúnia, injúria e difamação.
19. Um mero placar de 1x0, mesmo conseguido de forma irregular, derruba todas as estatísticas de jogo que eram francamente favoráveis ao derrotado.
20. Haverá dia em que os pessimistas terão total razão, o que obrigará os otimistas, consequentemente, a se tornarem também pessimistas. E, assim, felizmente, não haverá mais a axé music.
21. Em toda ditadura, os que têm a dita mole se sentem de oposição?
22. Quando o Brasil se vir livre das duplas de sertanejos universitários, será sinal de que elas ou passaram à pós-graduação lato e stricto sensu, ou, melhor ainda, foram jubiladas da universidade


23. Politicamente correto é uma virtude cívica raramente encontrada em ambientes politicamente frequentados, tais como câmaras, assembleias, congressos, ministérios, secretarias e governos em geral.

9 de setembro de 2011

DESCONSTRUÇÃO

detrás do tapume do prédio em construção
nos momentos de ócio
exala um cheiro forte de aguardente e sexo.
durante o trabalho no entanto
a resignação do operário
compõe o desenho lógico do projeto arquitetônico.
e tudo permanece nos eixos como sempre.

Imagem em olinguarudo.spaceblog.com.br.


8 de setembro de 2011

NEM JOÃO CABRAL ENTENDEU

a poesia resolveu atravessar a avenida rio branco
às cinco horas da tarde
e foi atropelada pelos sons da rua
ficou com fratura exposta
fígado rompido
traumatismo craniano
e um permanente estado de coma popular
coisa que nem joão cabral entendeu

Foto por Marcelo Carnaval, em oglobo.globo.com.