13 de setembro de 2011

INSTANTÂNEO MATINAL

expira o dia seu hálito perfumado de agosto
pela janela aberta sobre a manhã de frio.
um náufrago da madrugada dorme enregelado
no aconchego de jornais e trapos
sob a marquise do edifício:
eis aí também o rio.

(Imagem colhida em beagleclub.blogspot.com.)

12 de setembro de 2011

ÉDIPO E A ESFINGE

(Édipo e a esfinge, Museu do Vaticano.)
que país é este? interroga a esfinge
apenas finjo que não ouço
e continuo marchando no cordão desesperado
dos desterrados sem direção

que país foi este? pergunto à esfinge
que finge não me ouvir
e continua hirta sobre o abismo
em que nos iremos atirar logo a seguir

que país será este? indagamos os dois
mas fingimos que não estamos nem aí
antes de nos precipitar do alto do penhasco
no mar de lama que nos tragará a todos.

10 de setembro de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS VI

Imagem tragarte.blogspot.com.



Nestes novos pensamentos bem pensados, há uma forte tensão entre o politicamente correto e o político incorreto, de modo que alguns deles podem chocar, galar ou simplesmente gorar, como ocorre aos ovos.
Todos eles, é claro, cheios de pretensões humorísticas, que não estou aqui para dar lição de vida a ninguém. Isto fica lá para a extensa literatura (?) encontrada nas prateleiras das livrarias, com seus habituais autores, grandes arrecadadores de direitos autorais.
Apraz-me (Eta verbinho mais antigo!) apenas e tão-somente fazer algum chiste (Eta substantivozinho mais demodé!), porque sei que, com eles ou sem eles, minha conta bancária - que anda mais periclitante que a de alguns países europeus - não vai sofrer modificações significativas.
Vamos a eles, sem mais delongas!
1. Os gays, ultimamente, andam tão ativos, que já estou até achando os heterossexuais muito passivos.
2. Tenho um parente gay, e fico com muita vergonha, quando ele vem me dar esporro por eu ter feito alguma merda machista.
3. Quando um gordo sobe numa balança e ela indica seu sobrepeso, não sou eu o politicamente incorreto.
4. Neguinho safado é um cidadão afrodescendente politicamente incorreto por suas práticas antiéticas e prejudiciais a seus semelhantes.
5. Na Bahia, os movimentos sociais recrudescem até o meio-dia, quando, então, amainam, até encontrar uma rede, um ensaio do Olodum, ou a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim.
6. Os camarões pitus criados em Itu, sem exagero, são do tamanho de pirarucus.
7. Será que o movimento gay só dá para trás, ou experimenta algum progresso?
8. Machista, quando broxa, se sente mais acabado que bicha aposentada.
9. A prática recente da adoção de crianças por casais gays implicará necessariamente na adaptação de toda teoria freudiana. Serão dois pais ou duas mães, o que, convenhamos, é demais para qualquer equilíbrio emocional.
10. Não há nada mais improdutivo que mesas-redondas sobre a última rodada do campeonato brasileiro de futebol. Nem mesmo um singelo lateral será revertido, malgrado todas as críticas fundamentadas dos comentaristas abalizados.
11. Numa derrota por goleada, não há nada mais desonroso que o famigerado gol de honra.
12. Pior que ser goleiro de time de várzea, é só servir para bandeirinha e ainda correr do lado que tem urtiga e pó-de-mico.
13. Na linguagem jurídica, uma transa vira conjunção carnal. O mesmo não se dá com a gramática.
14. Pressupor que, um dia, o ser humano dará certo comprova a ideia de que o ser humano é mesmo incorrigível.
15. Nada do que o Júlio César, goleiro da Seleção Brasileira, já pegou nos campos de futebol se compara ao que ele pega à noite entre os lençóis no recesso do lar. Ai, ai!
16. Pior cego é aquele que, além de não querer ver, pragueja contra a escuridão, xinga o seu autor e mete a bengala no cão-guia.
17. Quando você lança o anzol num rio, para pegar um peixe, e fisga um pneu velho, é sinal de que, além do meio ambiente, seu almoço está perdido.
18. Um coxo e um mentiroso são pegos facilmente. Só que, com relação ao mentiroso, se você não conseguir provas cabais, será certamente processado por calúnia, injúria e difamação.
19. Um mero placar de 1x0, mesmo conseguido de forma irregular, derruba todas as estatísticas de jogo que eram francamente favoráveis ao derrotado.
20. Haverá dia em que os pessimistas terão total razão, o que obrigará os otimistas, consequentemente, a se tornarem também pessimistas. E, assim, felizmente, não haverá mais a axé music.
21. Em toda ditadura, os que têm a dita mole se sentem de oposição?
22. Quando o Brasil se vir livre das duplas de sertanejos universitários, será sinal de que elas ou passaram à pós-graduação lato e stricto sensu, ou, melhor ainda, foram jubiladas da universidade


23. Politicamente correto é uma virtude cívica raramente encontrada em ambientes politicamente frequentados, tais como câmaras, assembleias, congressos, ministérios, secretarias e governos em geral.

9 de setembro de 2011

DESCONSTRUÇÃO

detrás do tapume do prédio em construção
nos momentos de ócio
exala um cheiro forte de aguardente e sexo.
durante o trabalho no entanto
a resignação do operário
compõe o desenho lógico do projeto arquitetônico.
e tudo permanece nos eixos como sempre.

Imagem em olinguarudo.spaceblog.com.br.


8 de setembro de 2011

NEM JOÃO CABRAL ENTENDEU

a poesia resolveu atravessar a avenida rio branco
às cinco horas da tarde
e foi atropelada pelos sons da rua
ficou com fratura exposta
fígado rompido
traumatismo craniano
e um permanente estado de coma popular
coisa que nem joão cabral entendeu

Foto por Marcelo Carnaval, em oglobo.globo.com.

7 de setembro de 2011

GALOS DE BRIGA

Gute ganhou um pintinho. Queria criar um galo de briga, ser o rei da rinha. Sonho de menino.

Tarcísio ganhou um pintinho. Queria criar um galo de briga, ser o rei da rinha. Sonho de menino.

Os dois combinaram criar, treinar, preparar os pintos frangos galos, juntos, até a galória final, isto é, até a glória final.

Foram exercícios para as pernas, aparas em penas, preparativos para o peito e o pescoço. Banho nos bichos, sacolejo nos bichos, susto nos bichos. Lá vão eles crescendo, encorpando. Serão excelentes galos da terra, plumagem escura, os reis do terreiro.

Conversas trocadas, impressões, informações de parte a parte. Expectativa de meninos, os futuros reis da rinha.


Briga de galo, imagem colhida em sergioaperon.com.br.

Até que um belo dia de um verão qualquer, os dois futuros esporões mortíferos, cristas rubras intumescidas, terror de todas as rinhas, acabaram por pôr um prosaico ovo cada um. Frangas incompreendidas que eram.

Viraram ensopado com mandioca no domingo seguinte.

6 de setembro de 2011

ENTRE TAPAS E BOFETÕES

Entre tapas e bofetões, o casal viveu nove meses, até que se desse a separação irreversível, de reconciliação impossível, nem mesmo diante de juiz togado. Neste tempo, suficiente para gerar um filho, marido e mulher geraram tão-somente um ódio recíproco, de raro registro nas páginas matrimoniais daqui e dacolá, d’hoje e d’antanho.
O último beijo que trocaram foi o selinho singelo, após o sim, diante do altar, o padre a incentivá-los, e com o testemunho insincero de um grupo de convidados muito mais interessados nos comes e bebes que viriam a seguir, do que na felicidade dos dois.
Por isso, não havia como aquele consórcio ter obtido qualquer êxito, por mínimo que fosse.
Já na viagem de lua de mel, de que não desistiram para não perder o dinheiro investido, começaram a se desentender, que nem a paisagem idílica do hotel localizado de frente para o lago de Como, em terras de Itália, refreou os embates que se seguiriam cada vez mais constantes.
O único momento que, pode-se dizer, foi de relativa paz se deu quando da tentativa de consumação do casamento, aquela história de botar o pingo no i, porque, hoje em dia, não há mais o que romper, pois já vem tudo rompido antecipadamente. Mesmo esse velho prazer machista de ser o primeiro não ocorreria com ele. Bem que não desse importância a isso. Mas, enfim, seria alguma coisa a marcá-los definitivamente: quem foi o primeiro, de quem eu fui o primeiro.
A viagem de volta se deu num silêncio que os antigos diriam sepulcral, constrangedor. Nem na hora de escolher o jantar, tiveram a educação de olhar um para ou outro. Mastigaram a gororoba aeroviária sem efeito sonoro que pudesse ser registrado por aparelhos de gravação.
Ao chegarem a casa é que se reiniciou o conflito cuja duração só terminou diante do magistrado, para o ponto final na pendenga instaurada.
Os advogados das partes entraram em acordo prévio, sacramentado pelo homem da lei, com a divisão equânime dos bens amealhados durante o período, para que ninguém se julgasse prejudicado na partilha: cinquenta por cento de ódio, pavor, indiferença para ele e para ela.
Três dias depois, ambos já estavam com sua intolerância disponível na praça, procurando por parceiros que quisessem compartilhá-la, até que tudo novamente recomeçasse.
Imagem em mandinhaevih.blogspot.com.