31 de agosto de 2011

CASO MÉDICO-GRAMATICAL

(Dedicado aos colegas que passaram pelos bancos do Instituto de Letras da UFF e aos meus muitos alunos da extinta e saudosa FACEN.)


O sujeito resolveu procurar socorro médico, porque estava com um acento grave atravessado nas cordas vocais, o que não lhe permitia emitir fonemas sonoros.

O médico que o atendeu, depois de examinar todo o seu conteúdo sintagmático, opinou que o problema era mais de acento agudo, pela posição do objeto direto no local. Mas, se era um objeto direto, como ter problemas com acento agudo, foi o que o sujeito pensou.

Como o médico alegou que, no momento, estivesse cheio de interjeições para entender, mandou que o enfermeiro fizesse sua classificação sintática prévia:
- Nome completo?
Com dificuldade, falou:
- Sujeito Composto Posposto ao Verbo.
O enfermeiro, cuja formação não era lá essas coisas, para abreviar, anotou apenas: Sujeito Simples, o que, talvez, tenha gerado as orações consecutivas posteriores, com todas as implicações fraseológicas.
- Onde você mora?
- Num conjunto de orações coordenadas e subordinadas de um texto antigo.
- Barroco ou romântico?
- Realista.
E continuou fazendo questões de retórica, sendo respondido por frases curtas, ora verbais, ora nominais, com alguns anacolutos e hipérbatos. O Sujeito Composto não estava concordando muito com aquele questionário prévio, pois também tinha suas interjeições a resolver.
Ao fim de um longo período composto, cheio de orações intercaladas, quando o médico voltou, já encontrou o sujeito quase oculto. Resolveu, na tentativa de remover o acento e para reanimá-lo, aplicar-lhe uma dose de hiperbibasmo, seguida de hipérbole equilátera, que não surtiram efeito imediato na sintaxe posicional. O colega que veio ajudá-lo, sem concordâncias e subordinações, disse que este último recurso, da área de matemática, não se aplicava ao caso sujeito e viu aí uma mesóclise na altura do núcleo do predicado, que deveria ser extraída com raiz etimológica e tudo.
Passaram, então, os dois profissionais a pospor e antepor pronomes oblíquos ao predicado nominal, sem obter grandes regências. Nesse momento, o enfermeiro sugeriu que tentassem uma prosopopeia camoniana. Ambos olharam para ele e sorriram debochadamente, como se não acreditassem em tropos tão antigos. Nem mesmo acreditavam em metáforas machadianas ou metonímias modernistas, quanto mais em tal prosopopeia. A solução deveria ser uma prótese radical: aplicação de doses maciças de antonomásias e onomatopeias do receituário concretista.
O pobre Sujeito Composto estava reduzido apenas a uma locução vocabular, perigando chegar a sujeito inexistente, quando começaram a conjugar verbos irregulares, transitivos diretos e indiretos em sua estrutura morfológica. Sem sucesso, resolveram, então, removê-lo para uma análise sintática estruturalista, com achegas funcionalistas, na tentativa de reanimar sua carga semântica.
Nada dava certo! É que os médicos não tinham formação gramatical tradicional, nem mesmo transformacional, e eram incapazes que avaliar os sintagmas e as sequências que meteram o tal Sujeito Composto em problemas chomskyanos, que não seriam resolvidos jamais por semantemas e morfemas, todos já arcaicos para o caso.
Foi quando resolveram chamar um velho professor de gramática que, olhando a estrutura frasal apresentada, deu a solução:
- Retirem a crase! O sujeito pode até ser composto e posposto ao verbo, mas nunca se servirá de crase, bando de solilóquios retóricos, apedeutas linguísticos!
Os médicos, depois se apurou, eram neologistas, ainda aferéticos, sem registros nos vocabulários ortográficos e na gramática formalista. E estavam trabalhando naquele ambiente fonológico, sem as devidas exegeses ou propedêuticas. Vá lá se saber o quê! Processados, foram condenados a ser incluídos no rol do Appendix Probi.
 


Imagem em sebodomessias.com.br.

30 de agosto de 2011

NÃO SOU POETA

não sou poeta
apenas faço versos
às vezes com certo ritmo improvável e sonoridade estranha
todos porém despretensiosos
no varejo e no atacado
por isso mesmo eles não validam meu ser que diz
nem verbalizam meu ser que é
por diversas suas naturezas
eles também apenas são
e não ultrapassam os limites minguados
a que se confinaram nesses tempos hodiernos
em vício e em virtude de não comunicarem
(apenas tentam)

Henri Matisse, Natureza morta, 1913.

29 de agosto de 2011

PEQUENAS MISÉRIAS (II)

uma dose de cana
um torresmo de tira-gosto
um troco miúdo
uma eleição de quase em quase anos
um improvável horizonte na tela apagada do televisor
um chuveiro que pinga insistentemente durante a madrugada
as prestações em atraso
um pigarro seco e um carro de mentirinha
povoando o sonho dos coitados
um trago no cigarro
e nada mais na fumaça dos enganos
e o que de bom vier
... só para o ano
Imagem em cachacapoesia.com.br.

27 de agosto de 2011

GRAMÁTICA ERÓTICA

Pode-se imaginar que não haja nada mais desestimulante, relativamente ao sexo, do que gramática. Pense em todas as regras da gramática prescritiva e suas famosas exceções e o desejo sexual. Nada a ver, não é mesmo?
No entanto não é bem assim!
Por exemplo, na linguagem jurídica, uma transa transforma-se em conjunção carnal, como é comum encontrar-se em textos de processos. E onde você mais ouviu falar em conjunção? Isto mesmo: nas aulas de gramática!
Vê-se, por aí, então, que a gramática não é propriamente um broxante linguístico. Aliás, a língua que se estuda pode, numa associação safada de ideias, virar um efetivo órgão de prazer. Há até uma definição de humor fescenino para língua, que não sei se você conhece, mas que não me custa repetir, na qual se misturam os dois sentidos: língua, órgão sexual que os antigos usavam para falar. Perceba que, cada vez mais, a gramática dá liga, dá jogo.
Por isso é que fui levado a fazer uma correlação entre o termo gramatical e a expressão jurídica.
Comecei imaginando o que seria uma conjunção carnal aditiva. Com toda a certeza, seria o famoso e básico papai-e-mamãe (ou são-pedro-e-são-paulo, para outros), quando se junta isso com aquilo, e está feita a liga. Veja que, em gramática, o e aditivo também é referido como conjunção copulativa. Olhe a sacanagem instalada aí!
Uma conjunção carnal consecutiva, por exemplo, seria aquela em que há gravidez como consequência e que produz efeitos nove meses após.
Já a conjunção carnal explicativa seria a da tentativa de explicar o inexplicável: Isso nunca me aconteceu antes.
A conjunção carnal alternativa é a que ocorre entre um sujeito e uma escapadela extraconjugal, coisa um tanto perigosa, até mesmo com parceiro de mesmo sexo.
Por sua vez, a conjunção carnal concessiva ocorre entre iguais, que se concedem práticas extragramaticais, ou entre diferentes, desde que tudo concedido, nada forçado: Vem cá, meu nego! Sou todo seu!
A conjunção carnal conformativa é a que está conforme o previsto: marido e mulher, depois de anos de casados, conformados com o sexo: Não tem tu, vai tu mesmo!
conjunção carnal causal é aquela em que uma ideia, uma ação, causa a outra: Comeu, tem de casar!
Diferentemente, a conjunção carnal conclusiva estabelece a conclusão de um entrevero carnal, porque um/uma não quer mais; o/a outro/outra já partiu para uma nova relação. É a conjunção fim de caso.
A conjunção carnal temporal é mais ampla em seu sentido. Pode ser uma rapidinha no motel, ou no banco do carro; é uma conjunção mais longa, que gera direitos e deveres e, às vezes, filhos e pensão alimentícia. Antigamente gerava a tal teúda e manteúda, conforme a duração da conjunção. E até mesmo aquela que termina de modo violento, sujeito a temporais. Esta última situação acaba, normalmente, na Lei Maria da Penha.
A conjunção carnal adversativa, por sua vez, envolve relações sintáticas problemáticas. O parceiro, normalmente, passa a ser um adversário, devido ao status da conjunção e não quer mais saber do outro nunca mais. Ainda que esporadicamente tenham furtivo encontro. Como ex-cônjuges que ainda se pegam às escondidas, embora adversários no processo de divórcio.
Oposta a esta última, há a conjunção carnal integrante, que propicia a relação plena e satisfatória entre partes do enunciado sexual, fazendo sua integração perfeita, quase chegando ao orgasmo múltiplo, em sua fase mais eficaz.
Já no caso da conjunção carnal comparativa podem ocorrer duas hipóteses semânticas iniciais. Na primeira, dois parceiros iguais ficam comparando qual é o maior, por exemplo. Na segunda, os parceiros ficam comparando o prazer: Gostou? Eu gostei muito! E você? O que achou de mim? Sou melhor que ela/ele?
Semelhantemente a conjunção carnal proporcional é a que visa estabelecer proporção entre parceiros: baixinho com baixinho; gordo com gordo; alto com alto; bem dotado com bem aparelhado. Entre iguais ou diferentes, mas sempre mantendo a proporção, para que não haja prejuízo.
E, finalmente, a conjunção carnal final que é aquela que põe um ponto final definitivo em qualquer tipo de relação, sem que haja retorno: Pode procurar outra, que pra você acabou, seu traste!
Como você deve ter reparado, não dividi as conjunções carnais em coordenativas e subordinativas, porque, na hora do vamo vê, cada um é cada um e a posição é definida no momento, podendo variar durante a conjunção. Que também não vou chegar a me meter, com perdão da palavra, nesses pormenores! Cada um cuide de si!
A primeira Gramática da Linguagem Portuguesa,
de Fernão de Oliveira, séc. XVI.
Imagem: nocturnocomgatos.weblog.com.pt

26 de agosto de 2011

LOST CARUARU (Na década de 70)

em pleno centro de caruaru (PE)
perdido na feira
não encontro caruaru (PE-BR)
onde estará caruaru?
talvez fora dela ou dentro de mim
talvez dentro da folclórica imagem de caruaru
perdida imagem
no entanto do alto-falante das casas pernambucanas
vem um som superior que não me deixa encontrar caruaru
b. j. thomas repete por todos os sertões
oh me oh my

oh meu país colonizado

(Camilo Eduardo Tavares, Feira de Caruaru, 1932. arteeeventos.com.br)

25 de agosto de 2011

PEQUENINA

come flores roxas
rói livros
corre desajeitada pela casa
minha filha pequenina
ilumina os corredores da vida
Imagem em espacodothales.blogspot.com.
como uma estrela cadente
e vê-la passar
deixa um frio na boca do estômago
nunca se sabe se tal corrida
terá final feliz
mas todos adoram o alvoroço
daquela coisiquinha irresponsável
a semear ilusões em torno da gente


(Poema feito no início dos anos 80 para minha filha,
então com dois anos, postado hoje, data do seu aniversário.)

DONA SELMINHA SAMBA AOS SÁBADOS

Dona Selminha é o terror do escritório da firma sediada no Centro do Rio de Janeiro, na Rua da Assembleia, logo no primeiro prédio à direita de quem vai da Praça Quinze, aquele pretão.
Responsável pelos bóis, impõe ordens, exige comportamentos, atribui tarefas, como um marechal de campo em guerra declarada, o inimigo já submetido. Não quer saber de vacilos, de atrasos e desídias, o que deixa bem claro à equipe de cinco rapazes que voam pela cidade com suas motocicletas, a fim de cumprir rigorosamente suas determinações, em tempo hábil.
Indefectivelmente, está de terninho bem cortado, de cor neutra, cabelos amarrados em coque no alto da cabeça, sombra escura nos olhos, a fim de exagerar um pouco na seriedade dos seus bem fornidos quarenta e cinco anos.
Embora não tenha filhos, foi casada com o traste de um marido muito do sem serventia, que, num dia aziago de um agosto chuvoso há cinco anos, deu linha na pipa e foi baixar em outros cantos.
Ela ficou no ora veja, mas se deu por satisfeita na semana seguinte, porque era menos um a comer na sua mesa, a dividir a sua cama, sem proporcionar o prazer que deveria ter em casa, já que, no trabalho, é trampo desde que chega até não se sabe que horas, tudo conforme as exigências e as necessidades.
Armazém do Senado, onde Dona Selminha samba, localizado
na esquina de Rua do Senado com Gomes Freire, em 6/ago/2011,
No entanto, como nem tudo na vida de dona Selminha sejam apenas compromissos e aporrinhações com os motobóis, certo sábado resolveu conhecer a feira de antiguidades da Rua do Lavradio, encravada na boêmia Lapa, e chegou pela Gomes Freire. Ali, na esquina com a Rua do Senado, descobriu o Armazém do Senado e sua roda de samba de tirar defunto do IML com atestado de óbito. O Armazém do Senado vende bebidas e tremoços desde 1907 e já mandou para a emergência do Souza Aguiar muito fígado estropiado nestes mais de cem anos.
Saber se, até hoje, dona Selminha conseguiu chegar à feira é coisa difícil, pois foi caso de paixão ao primeiro ronco da cuíca na roda de samba. Agora, todo sábado sem chuva – pois a coisa se dá na esquina das duas ruas –, ela está lá, embalada a vácuo no seu vestido tubinho no meio da coxa, a deixar transparecer a calcinha asa delta mais escura, cabelos soltos precisando de um corte, fita larga a segurá-los na testa, requebrando e sacolejando as cadeiras num frenesi impensável na empresa. Ali, dona Selminha parece possuída e em nada lembra a mandona do escritório!
Pois foi no primeiro sábado deste agosto que um de seus subordinados diretos, o motobói Arlindo, a viu na batida do samba e não pôde acreditar. No meio da pequena multidão que se aglomera, desconfiou que fosse ela a coroa sapeca que só não ia ao chão no requebro, porque a roupa justa não lhe dava essa liberdade, não lhe permitia esse desfrute. Para se certificar de que era a própria, emaranhou-se por entre as pessoas, quase todas de copos à mão e cantando “sei lá, não sei; sei lá, não sei não; a Mangueira é tão grande...”, até que a pegou dando de cabeça para um e outro lado, de modo a balançar a vasta cabeleira ressequida, chegada numa tintura preta, como se fosse uma pomba-gira alucinada. E, embora fresca a tarde de agosto, tinha a pele marejadinha de suor.
- Dona Selminha! – foi o que Arlindo conseguiu dizer, observando o contorcionismo dela no samba, sem poder deixar de reparar no corpo ainda bem feito, nas pernas bem torneadas, nos joelhos bonitos.
Ela, com o sorriso mais simpático do mundo, retribuiu com um “oi, Arlindinho!” e aplicou-lhe dois beijos na face, como fazem os cariocas ao se cumprimentarem, sem em nada lembrar a chefe exigente do horário de expediente.
Arlindo não perdeu tempo – motobói é uma raça atrevida! –  e começou a trocar passes com ela, como que transformados em mestre-sala e porta-bandeira, e qual não foi sua surpresa, ao se dar conta que dona Selminha correspondia a todas as suas negaças, a suas sensuais insinuações de sambista, até ter coragem de segurá-la pela cintura, que ele sentiu firme em modelo de coisa trabalhada em academia.
Dona Selminha, um leve arrepio no corpo, retribuiu o gesto, contornando a cintura do motobói com firmeza. Em pouco tempo, estavam os dois ligeiramente afastados da aglomeração, combinando coisas, trocando seduções, que, sem mais aquela, passaram a beijos e amassos ao lado da obra de recuperação do prédio histórico em frente ao Armazém do Senado, inclusive com o risco de desmontar os andaimes de sustentação da fachada, tal a saliência do casal.
Dali para um hotelzinho acanhado na própria Gomes Freire não demorou cem passos. E Arlindo retribuiu a ela todos os recalques suportados nos dias úteis, com o vigor de seus vinte e poucos anos, pelo que dona Selminha ficou deveras agradecida, com promessas de estar naquela mesma esquina na próxima roda de samba. No entanto, para que não perdesse o cacoete de chefe, ao final, ao abotoar o sutiã bojo reforçado com arame, disse-lhe firme:
- Não vá abusar no trabalho, senão não tem samba, hem!
E, na segunda-feira a seguir, foi o primeiro a levar um arrocho da chefe durona, que lhe piscou o olho esquerdo furtivamente, sem que ninguém percebesse.
E estava estabelecido o acordo! Dona Selminha não poderia mais perder o samba aos sábados na Rua do Senado, onde sambava até mais não poder. Saravá!