16 de agosto de 2011

PARA PEGAR MULHER

Nos bons tempos, comprou um carro para pegar mulher. Como se fosse caça. Primeira carona para colega de faculdade. Levou até a casa dela, conheceu-lhe os pais, os irmãos. Garota ótima, recatada, uma mimosura de pessoa. Acabou casando. Não comeu ninguém.
Os dois, advogados com escritório. Ela, também professora, apaixonou-se por um aluno, metade de sua idade, a quem mimoseava com presentinhos daqui e dali e com o corpo. Um dia, comprou uma Caloi Dez no cartão de crédito dos dois, para o garoto. Ele descobriu tudo. Levou-a até a casa dos pais, já grávida de tantos meses do menino, me enganei, uma devassa. Ainda bem que não lhe dera filhos, só chifres.
Desgostoso por um bom tempo. Logo ela, tão recatada, menina de família, virgem até a lua de mel.
Trocou de carro para pegar mulher. Até hoje seu desespero, sua fixação. Só consegue garotinha nova, virgem, recatada. Mulher mesmo, que vai para cama e faz carinho, e diz coisas, e se deixa apaixonar, só piranha vagabunda. Maldição! A última namorada, então, um desespero: dezesseis anos, quase meio metro maior que ele já quarentão, só quer saber de discoteca, pipoca doce, sorvete de morango, maçã do amor e parque de diversões. Ele continua lá dando seus arrochos inocentes, sabendo que tudo não passa de um sem jeito danado para com mulheres.
Enfim, essa a sua sina. Oh, dor! Ainda bem que tem um carro novo para pegar mulher.

Ilustração de Alex Koti, em alexkoti.com.

15 de agosto de 2011

O TEMPO URGE

Estou estacionado neste ponto
Perdido do universo
De coordenadas indefinidas por satélite geoestacionário
Na interseção da linha do horizonte
Com a das necessidades e dos desejos

Como árvore penetro a terra
Finco raízes
Lanço sombras sobre o solo
Para proteger meus frutos
Em minhas ramagens bandos de pássaros
Fazem algazarra ao entardecer
E me sinto eterno

Mas como bicho tenho de seguir estradas
Procurar atalhos
Penetrar florestas por trilhas inominadas
E levar a prole ao rio das águas claras
Ao seguro dos abrigos após as caminhadas
Como o elefante que depõe o corpo
Depois de tudo
Sobre a memória dos seus antepassados
E sinto que o tempo urge!

Imagem em carmendeeugenio.blogspot.com.

14 de agosto de 2011

POEMA EM -ÃO, COM FECHO PREVISÍVEL


ela estoca os meus tormentos todos
na caixa preta do seu coração
revira os sonhos postos na sarjeta
com os dedos ágeis de sua fria mão
e espalha aos quatro cantos da cidade
minhas mazelas e os meus senões
e escarafuncha meus miolos moles
tal qual faria neurocirurgião
e põe reparos em tudo o que faço
retificando minhas decisões
martela sempre em meus ouvidos moucos
Monica Belluci, em cinemaemcena.com.br.
minhas perfídias suas privações
pedindo a quem passar pela calçada
seu julgamento sua opinião
como seu eu fosse o único bandido 
que assaltou seu rico coração.
essa mulher, percebam, meus senhores,
está por cima da situação
e ainda almeja se houver divórcio
mais da metade como seu quinhão
de tudo aquilo que eu não fiz na vida
e do que eu fiz ela não abre mão.
estou perdido não tenho saída
bem feito, besta, todos me dirão
foi-se meter sem ter a competência
pra governar aquele mulherão!

12 de agosto de 2011

SEIS NARRATIVAS CURTAS TÃO CORRETAS, QUE NÃO DESPERTAM A MÍNIMA SUSPEITA!

Imagem em cobatest.org.
1.      O GORDO - O gordo passeia pelo parque, espreitando todos os que por ele passam. Há um bom número de pessoas mais magras do que ele. Várias moças bonitas e de corpos trabalhados. Outro tanto de rapazes sadios, com a expressão de quem faz esforço ao correr. Umas senhoras em traje esportivo e uns senhores de bigode aparado e barba bem escanhoada com seus tênis limpinhos. Um bando de meninos que, ao chutar a bola com que brincava, acerta as costas do gordo, que teve ganas de cortá-la com um canivete. Porém ele não o tinha. Chutou a bola de volta e saudou as crianças com a mão aberta. Daí a pouco, após atravessar a alameda de palmeiras e a rua marginal ao parque, entrou na churrascaria e refestelou-se com um churrasco rodízio e torneiras de chope à vontade. Pensou que um dia morreria como todos aqueles atletas de fim de semana, igualzinho a qualquer um, e mordeu um naco de picanha com todos os dentes da boca.

2.      O CEGO - O cego chegou tateando a parede da direita da lanchonete, bengala na mão esquerda. A mocinha que servia à mesa ajudou-o a encontrar um assento. Ele se acomodou e pediu certo tipo de sanduíche da promoção, acompanhado de batatas fritas e refrigerante. Aguardou pouco tempo. Ao receber a encomenda, solicitou à mocinha simpática e prestativa que colocasse sua bandeja em determinada posição, para facilitar. Comeu tudo, tomou seu refrigerante, pagou a conta e saiu tateando a parede da esquerda, bengala na mão direita. Caminhou mais um pouco e tomou a condução que o levou de volta a casa. Fez como qualquer pessoa que enxerga, mas teve um distúrbio gástrico, porque não deveria ter-se empanturrado com tanta fritura, como lhe recomentara o médico.

3.      O GAGO E O SURDO - O gago, ao chegar à farmácia, um tanto esbaforido, não conseguiu pedir o remédio que lhe fora solicitado comprar por sua mãe, senhora já de certa idade e chegada a uns medicamentos mais antigos: elixir paregórico. Gaguejou tanto que acabou levando alka-seltzer, porque foi, mais ou menos, isso o que o surdo atendente compreendeu. Contudo demorou tanto na tarefa que, ao chegar de volta a casa, o distúrbio de sua mãe já se curara. Então ele aproveitou que tinha o efervescente à mão, deitou-o em um copo d’água com açúcar e algumas gotas de limão e tomou como se fosse refrigerante.
Imagem em gartic.uol.com.br.

4.      OS DOIS NEGROS - O jovem negro solicitou a parada do ônibus, acionando o botão colocado no corrimão superior. O motorista, também negro, olhou pelo retrovisor e o viu levantando-se do lugar onde estivera sentado durante toda a viagem. O passageiro pediu licença para passar entre dois outros passageiros de pé e de costas um para o outro, até chegar à porta de saída. Agradeceu ao motorista que, no momento, enxugava o suor do rosto com uma toalha do seu time de futebol, que era também o dele, jovem. Deu um sorriso maroto para o motorista e comentou sobre a derrota da noite anterior. O motorista arrancou com o ônibus, um tanto chateado, mas sabia que ali ia um camarada seu.

5.      A BRANQUELA E O MULATO - A branquela ajeitou o cabelo cortado modernamente, antes de entrar no elevador que a levaria para a entrevista de emprego. Já dentro do elevador retocou o batom suave sobre os lábios generosos, sob os olhos atentos do cabineiro, com idade para ser seu pai. Ela havia solicitado o andar da loja de produtos eróticos, o que levou o ascensorista a pensamentos libidinosos com a branquela. Ao chegar ao andar e notar que havia errado, a mocinha branquela disse para o ascensorista mulato que seria no andar de baixo, onde ficava o laboratório de análises clínicas e anatomia patológica. O cabineiro deu um sorriso amarelo e comandou a descida do elevador até o andar solicitado. E, lá no fundo, deve ter-se arrependido de ter pensado besteira.

6.      O CADEIRANTE - O cadeirante, alguns pensaram, iria fazer discurso na calçada, ao lado do acesso para portadores de necessidades especiais. Cinco transeuntes pararam para ouvi-lo, na certeza de que ele iria perorar contra o descaso dos governos municipal, estadual e federal com a causa de seus semelhantes. No entanto, sem que nenhum deles intuísse, o cadeirante abriu a mochila que trazia e começou a distribuir panfletos sobre a inauguração de mais um restaurante a quilo na próxima esquina. O que fazia, aliás, com um alarde impensável para um mero restaurante a quilo. Com isto, o cadeirante garantia almoço grátis durante o período da propaganda. Os transeuntes politicamente corretos pensaram em reclamar com o cadeirante, porém julgaram isto politicamente incorreto. E ficou tudo por isso mesmo!

11 de agosto de 2011

MEU AMIGO PITANGA ALERTA SOBRE DOAÇÕES AO CEDCA

Meu amigo Pitanga, colega de trabalho dos mais corretos, pede-me que coloque aqui no blog sua reclamação acerca de problemas na devolução do seu imposto de renda, por falta de comunicação de dados da beneficiária para a qual doou certa quantia.
Espero que este blog despretensioso possa ajudar de alguma forma. Eis o seu texto.

“Boa tarde, caro Amigo Saint-Clair

É possível colocar no seu blog esta mensagem, já que até a presente data nada foi resolvido?
Gostaria que alertassem a todos doadores, que não fizessem mais DOAÇÕES ao CEDCA, pois os responsáveis pouco se importam com os doadores, já que não comunicam à RECEITA FEDERAL as doações, ficando a sua devolução com pendência junto à RECEITA.
Já há dois anos que acontece comigo, e até a presente data nada foi feito pelo CEDCA junto à RECEITA, para que possa receber a minha devolução do IMPOSTO DE RENDA.
Espero há bastante tempo uma resposta, quando virá?

Obrigado Amigo.
Alivaldino Cícero Santos Pitanga.”

Esta aí, então, a mensagem, a fim de que nossos leitores tomem conhecimento do que tem ocorrido.

CENA PROSAICA

a mulher frita angu do dia anterior
para aproveitar comida.

na venda aberta em três portas estreitas
as prateleiras vazias espreitam os fregueses.
não fosse o vidro de pés de moleque
a conversa não duraria um causo de pescaria
mas há todos os outros causos
todas as outras necessidades
e a indolência preguiçosa do interior:
a vida é tocada como tropa de burros dolentes
numa estrada poeirenta barrenta sem fim
(Imagem em temperartee.blogspot.com.)
sem entroncamento.

a mulher frita angu do dia anterior
porque a situação é grave
mas o vidro de pés de moleque se esvazia
cada noite
com a conversa fiada daqueles homens cansados.

9 de agosto de 2011

CENA DE BAR (década de 70)

um bêbado bebe batida no bar
tira-gosto de torresmo.
a viúva alvissareira revira os olhos
ao encontro da pilha de cigarros
na ânsia de alguns tragos:
um minister um astoria um liberty ovais.
na gaveta improvisada da suposta registradora
o balconista manuseia o troco de um traçado
pensando no café pingado que o doutor pediu.
 o bêbado baba um gosma pegajosa
rente ao balcão
(J. Cristino, Botequim, ca.1860, em purl.pt)
com um arroto.
emplastrados de banha
os óculos da cozinheira
percebem entre brumas
o sorriso lasso do paraíba
que devora média-pão-com-manteiga
àquela mesma hora da noite
das noites anteriores
e assim por todo o sempre.