31 de julho de 2011

PRESO AO TEMPO PRESENTE

do ponto onde estou
olho para trás e vejo um vácuo enevoado.
atrás de mim não ficaram passos nem marcas de trilhas percorridas.
em vão retornarei com minhas memórias por esses caminhos inexistentes
onde não se acharão pedaços restos caídos à passagem.
olho para trás e não vejo o ontem o anterior.
barra-me a visão esta parede negra do presente
este muro de concreto e compromissos irreversíveis inadiáveis.
olho para trás e não pressinto sinais que me possam iludir
que houve um tempo – in illo tempore – ou façanhas – res gestae
que houve um movimento brusco de um coração iludido.
o tempo consumiu-se nos calendários eternos
e a luz das imagens dissipou-se nos álbuns de fotografias indeléveis.


do ponto onde estou
olho para diante e vejo um vazio obscuro.
definitivamente estou preso ao tempo presente.

Jules Breton (séc. XIX), Fogueira de São João, Museu d'Orsay.

30 de julho de 2011

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra e a formiga é um dos contos infantis que encheram minha meninice de exemplos.
Lembro-me de que ficava com muita pena da cigarra, porém tinha a atenção sempre chamada para o exemplo de trabalho e previdência da formiga.
Aprendi, talvez por isso e pelas necessidades normais de menino pobre do interior, a trabalhar desde cedo. Mas não aprendi a ser previdente. Está, por acaso aí, a parte cigarra da minha superficial psicologia, que felizmente tem sobrevivido todos esses anos sem ajuda externa de especialistas e drogas milagrosas. É que a profundidade das minhas águas não atinge marcas irrespiráveis.
Penso mesmo que este componente se tenha fixado em mim um pouco depois, ao conhecer o poema de Mário Pederneiras, poeta brasileiro dos séculos XIX/XX, no meu livro de leituras do antigo curso ginasial. Embora tenha o mesmo título da fábula famosa e conte, em versos, a mesmíssima história, porém com boa dose de ironia e visão crítica, ao final, para coroar o desfecho, o poeta diz em seu belo poema: "Por isso, é que eu não gosto da Formiga".
 Tão logo terminei a leitura, bateu-me a certeza de que tinha acabado de encontrar alguém que, em sendo poeta de certo nome, pensava exatamente como eu, jovem simplório do interior: à formiga faltou o mais comezinho e importante dos sentimentos, que é a solidariedade.
A cigarra é inconsequente, imprevidente, porra-louca, como se dizia na minha juventude? Sem dúvida que era!
Contudo, à formiga, trabalhadeira, previdente, ciosa de suas obrigações, faltou o mínimo, faltou o básico: a solidariedade. E isto é grave. Aliás, é gravíssimo!
A solidariedade é a qualidade básica que nos faz humanos. O que, mesmo não sendo exclusividade nossa, visto poder ser observada em outros animais, é, por isto mesmo, o parâmetro da espécie humana. Os animais a exercem por instinto; nós, por uma escolha consciente. Aí está a diferença!
O conto e o poema, ao humanizar cigarra e formiga, nelas incorporam esses comportamentos, fazendo com que os bichos nos sirvam, então, de modelos, ou, antes, nos representem de forma alegórica.
Aliás, esta é, basicamente, a função das fábulas e histórias infantis: por meio de metáforas alegóricas, com a utilização de animais humanizados como personagens, tentar repassar exemplos de comportamentos éticos para o convívio entre os nós.
Não sei bem se isso tem funcionado ao longo do tempo, mas elas estão aí até hoje. E talvez até seja melhor acreditar nisso.
Aí abaixo vocês têm a integra do poema de Mário Pederneiras.
Imagem em oficinadaalegria.org.
A CIGARRA E A FORMIGA
Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e do alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.

Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida ideias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.

De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e massudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.

Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.

Dona Cigarra - esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias.

É da boêmia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!

Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre;
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria.

Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar
Um pedaço de pão do seu celeiro…

Como a Formiga, então lhe perguntasse
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…

Por isso, é que eu não gosto da Formiga.

(Mário Pederneiras, in
Ao léu do sonho e à mercê da vida, 1912)

29 de julho de 2011

ESTOU SOZINHO NO MUNDO

Estou sozinho no mundo e ninguém desconfia
Todos passam ao meu lado e ninguém desconfia que sou o único
Sou o só
O cenobita
Que habita a vastidão do mundo

Estou irremediavelmente sozinho diante de mim mesmo
E sinto medo
E tenho pavor da solidão

Não posso deixar que minha carne apodreça
Sem que os urubus a devorem

Estou sozinho no mundo
E não me basto
Preferia a multidão das ruas à certeza de que a vida
A despeito de todas as filosofias
É um aperto de mão é um encontro de corpos é um desassossego na alma

Imagem em thelongdistancepastor.blogspot.com.

28 de julho de 2011

FEIRA DO TROCA-TROCA

Na feira do troca-troca
Troca tudo que se pode
Troca a vaca pelo bode
Troca o bode pela cabra
Troca o rim pela bexiga
Troca a mandioca da roça
Pelo aipim da cidade
Troca a aventura da vida
Por mera necessidade
Um dia de chuva braba
Por um céu sem novidade
E assim se troca de tudo
O que se pode trocar
Pois cada coisa trocada
Encontra o seu lugar
E a vida segue nos eixos
Até o mundo acabar.

1. Troco uma fenilcetonúria sem uso por duas gonorreias brandas de menino novo, pegas na guaxa da Rua da Arara no último carnaval (só serve do carnaval).
2. Dou uma muleta de madeira, com ponteira gasta e roída de cupim, por um par de dentaduras de comer rapadura mineira.
3. Zoio de vrido: Berganho um zoio de vrido troncho por uma cartia da infança de Felisberto de Carvalho, pra mode aprendê a divurgá as letrinha empareiada.
4. Dou um biquíni cavadão indecente, estampado com um coqueiro verde bem no meio, a troco de maiô comportado de uma só cor, que não aguento mais ouvir assobio quando saio do mar. Nem ver meu marido brigar!
5. Preciso de fígado em bom estado de conservação, que ainda aguente alguns repuxos de pinga e tira-gosto do bar do Zé Manuel. Em troca, ofereço cavalo piquira, dolente na marcha, com arreio e tudo.
6. Vagas diversas no Ministério dos Transportes: Trocam-se por servidores mais discretos, que não saiam por aí gastando mais do que devem e deixem seus superiores na maior saia justa.
Isqueiro Vospic (abatata.com.br).
7. Musa paraguaia troca seu celular montado em casa e carregado nos seios, por duas blusas decotadas da Celeste Olímpica. Os carregadores não vão juntos.
8.  Troco três quartas de arroz pacholinha recém-colhido, por meio alqueire de capim colonião; uma franga mestiça, por curió na muda; e uma penca de banana ouro, por um isqueiro Vospic, mesmo sem pedra e pavio (dou meu jeito).
9. Aceito oferta de troca de uma perna mecânica enferrujada que pertenceu a meu falecido bisavô (Que Deus o tenha!), por jogo de baralho de nylon ou de plástico, mesmo usado, bom pra jogar pife-pafe e cunca.
10. Cinta-liga sem uso, na cor púrpura, de muita provocação no parceiro, e trazida de Paris na viagem do ano passado, por revista do Vampeta pelado. Obs.: As folhas não podem estar amarrotadas.
11. Garota de programa, com perfil no Orkut e página no Facebook, troca programa de fim de semana com senhor respeitável, por depósito polpudo em sua (dela) conta bancária. É poupança por poupança. Todos lucram e ninguém sai perdendo.
12. Marido estressado troca dona encrenca possuída por dois ingressos para a final do campeonato carioca. Depois do negócio fechado, não aceita devolução. Vai com a vassoura e os bóbis no cabelo de lambuja.
13. Troco um estorvo de pijama que vive deitado no sofá da sala vendo jogo de futebol o dia inteiro por uma Revista do Rádio antiga, que tenha a Emilinha Borba na capa ou o Cauby Peixoto de paletó de strass.

27 de julho de 2011

DESCULPE, CARLOS!

o tempo presente e os homens presentes
não serão minha matéria
gosto muito é de sentir o corpo maneiro
no aconchego gostoso de um outro corpo
de femininos toques e trejeitos
por isso minha matéria é o erótico
sabor do corpo alheio
esse corpo das mulheres perfumadas
incitações dos meus desejos
que perambulam sensuais sobre as calçadas

a mulher e o seu jeito de mulher
com o seu corpo os seus sonhos e anseios
serão minha matéria
matéria que é matéria – tátil e presa
não essa coisa meio avessa ao sensível
a que chamam vagamente de espírito
mas o corpo
esse espaço multicor do ser humano
a essência vital da existência
esse saboroso e confortável corpo
capaz de elidir a própria poesia
capaz de suplantar a própria ausência

E. Manet, Olympia (1823), Museu D'Orsay.

26 de julho de 2011

O POETA COME UMA EMPADA DE CAMARÃO NO BOTEQUIM DA ESQUINA

(Sonic Renger, em gartic.com.br)
e pela glote do poeta
não sai mote não sai glosa
pois vindo do fundo do estômago
através do esôfago
um arroto bem posto
assoma à boca entreaberta
e antes que alguém proteste
o poeta bem sabido
explica que está com crise de fígado
e espalha alguns farelos de empada
sobre a turma da calçada

25 de julho de 2011

R Ã S

Choveu, alagou, é rã no brejo.

Os dois meninos entram, água pela canela, dispostos a pegar rãs com as mãos. Seguem procurando colares de espuma. Metem a mão com pressa e agarram-nas firmemente. Depois que se enchem de gordas rãs, seguem caminho de casa na Fazenda do Jacó. Mas não as comem. Dão-nas para Neguinha, pobre sitiante de beira de estrada, que exulta pela carne gostosa para a janta.

Na panela, já destrinchadas, as rãs continuam pulando, a carne branca eletrizada, como se a vida permanecesse depois de tudo.

De fato permanece, pelo menos nos olhos agradecidos de Neguinha.

Imagem em recantodasletras.com.br.