21 de julho de 2011

ENTERRO


Fotografia: Reuters.

vou enterrar-te sob meus escombros
sou dado a desmoronamentos
vou deixar-te soterrada sob a lama
em que se transformou minha vida
sem bombeiros que te possam remover
te salvar te encontrar
apenas daqui a séculos
obscuros arqueólogos

20 de julho de 2011

O MORTO

Imagem em http://www.palavras.blog.br/ (por Catarino).

Morreu e teve a alma despachada para seu destino final, com a conta de débitos e créditos entre as mãos crispadas, sob a camada de flores dolorosas daquele caixão simples.

De seu, levava também umas anotações com questionamentos que iria fazer assim que encontrasse alguém do outro lado.
Antes de fazer a passagem, espichar as canelas, entregar a alma – ou coisa que o valha –, não acreditava em nada que ultrapasse as nuvens negras dos verões catastróficos, e agora se via ali, morto definitivamente, com a obrigação de prestar contas não se sabe aonde, não se sabe a quem.
A viúva e as filhas solteironas – não se casaram por implicância dele – tinham feito as encomendações do corpo e da alma, que acreditavam existir dentro daquele invólucro carnal cheio de quizílias, cheio de presunções, no intuito de aliviarem os embates no outro mundo. Afinal, fosse o que fosse, era pai e esposo.
Pelo seu passado incréu, sabiam que ele teria muita dificuldade de iluminação e/ou salvação. E temeram por seu espírito desacorçoado rondando a casa que deixara como herança, ou seu antigo local de trabalho, onde era odiado por vários e apenas tolerado pelos demais.
Se alguém o amou nesta vida, tirante a mãe já morta e enterrada de muitos anos, talvez só mesmo a mulher, nos primeiros anos de casamento, e as filhas, por uma devoção normal que filhos sentem pelo pai, ainda que em vários momentos ele não fizesse por merecer.
Tinha sido, de fato, uma pessoa desamorável por todos os méritos. Tanto é que, durante o velório, não se ouviu palavra que lhe pudesse amenizar a memória a deixar entre os vivos. Os mais chegados apenas abraçaram a viúva e as filhas, com o aperto costumeiro nessas ocasiões, sem dizerem palavras que não as protocolares. Os demais apenas apertaram-lhes as mãos, calados.
Ali estava um defunto desmerecido, desamado, desconsiderado.
Deve ser péssimo morrer nessas circunstâncias.
Ao enterrá-lo, todos desejaram jogar uma pá de terra sobre o ataúde, a fim de se certificarem de que ele estaria, então, verdadeiramente morto e enterrado. Mais do que no arquivo morto da repartição, onde pontilhara esquisitices de quase aposentadoria.
Deste modo, ao dar de cara com a primeira visagem do Além, não sabia as credenciais a oferecer, visto que todos lá embaixo, onde a chusma de avantesmas tinha acesso, estavam com o semblante calmo dos que cumprem suas tarefas mais simples e queridas.
A seu favor, talvez, apenas algumas lágrimas sinceras das filhas, não tão copiosas como esperadas, e umas fingidas da mulher, cansada daquele fardo pesado dos últimos anos.
A ele restaria, assim, procurar o rumo das almas mal-amadas, para as quais a missa de sétimo dia não teria força suficiente de fazer entrar em nenhum tipo de paraíso porventura existente do lado de lá.
Com trinta dias do passamento, seu ectoplasma rodopiava no éter como partícula de ânion em acelerador atômico desregulado.
E nada mais foi feito em seu favor!

19 de julho de 2011

TENHO COMIGO

Tenho comigo
Que viver sem ti
É viver sem trigo
Viver sem migas de pão
Embebidas em vinho tinto
Numa noite de inverno inimiga

Tenho comigo
Que viver contigo
É viver com tripas
Viver conversando com pedras
Polidas por atrito de afiadas arestas
Em dias de aflição e festas

Sem ti contigo
Redenção ou castigo
Espaço calmo de um tempo antigo
Ou turbilhão real de ruas em perigo
E por isso fico assim perdido
Ir ou ficar
Sair ou entrar
Inferno ou paraíso
A casa vazia cheia triste e o resto
Das coisas que ainda há pouco
Supúnhamos como certas

Marc Chagall (1887-1985), Casal (Uma família sagrada),
imagem em http://www.marcchagall.narod.ru/.

18 de julho de 2011

SOLIDÃO IV

A solidão qual minucioso ourives
Engasta gemas desgostosas
De cor amarga
Em peças de ouro desgastadas
Que sofrem no mercado das promessas
Das ilusões de dias prazerosos
O valor de resolução incalculável.
E então abandonada a um canto
Vai parar onde a ninguém importa
Num penhor poeirento de um reles agiota.

Marc Chagall, Solidão (1933), imagem em
www.marcchagall.narod.ru.

16 de julho de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS V

Em alguempensante.blogspot.com.

Trago novos pensamentos bem pensados e, acrescentaria sem falsa modéstia, caprichados na manteiga, como se dizia no tempo em que eu era criança pequena lá em Carabuçu (Qualquer dia conto pequeno caso ocorrido quando do surgimento desta expressão.).
Há um ditado que diz, mais ou menos, que “cabeça vazia é oficina do diabo”. Aí fico parado, sem nada a fazer, e surgem essas coisas sem pé, nem cabeça, para ainda ficar na fraseologia popular.
Vamos a eles, sem mais delongas.
1.      Goleiro que se preza não come frango nem ensopado.
2.      Com certeza, toda dúvida é incerta.
3.      Uma bela mulher, quando cruza as pernas, pretendendo inocentemente apenas descansar seus músculos adutores, não imagina o caos que institui no universo masculino.
4.      O que um homem entrevê num decote feminino é muito mais do que aquilo que ele realmente vê.
5.      Um pobre diabo, quando ganha na mega-sena acumulada, transforma-se num diabo rico?
6.      Se a centésima parte das ideias para consertar o Brasil que ocorrem nas discussões de boteco pé-sujo fosse posta em prática pelas autoridades competentes, nem mesmo botecos pé-sujo haveria mais no país.
7.      Rico com complexo de culpa é engraçado: come caviar e arrota sardinha enlatada.
8.      Que maiores méritos do que eu tem na vida José Mayer para beijar tantas mulheres bonitas e ainda receber por isso salário mensal, 13° e férias remuneradas?
9.      A coisa mais inútil que existe é você se sentir útil e não ter utilidade para nada.
10.  Se Osama e Obama fossem tão diferentes como sugeriam ser, de saída seriam Zoroastro e Antõi.
11.  Embora tenham sido erradicadas quase todas as linhas férreas de seu território, Minas Gerais é o estado brasileiro onde há mais trem. Não é um trem esquisito demais da conta, sô?!
12.  Gattuso é um jogador muito obtuso, embora ainda não esteja em desuso.
13.  O cara era tão picareta, tão estelionatário, um sete um tão completo, que deu um golpe na própria Justiça: condenado a trinta anos de reclusão, morreu no segundo só para enganar mais uma vez.
14.  Para transformar a vida calma de um homem num turbilhão, a uma bela mulher basta uma simples piscadela de olhos.
15.  Na quiromante, maneta só paga meia consulta.
16.  Aquele ladrão gay não tirava nada das suas vítimas; só dava.
17.  Era o ilusionista do circo, mas se iludiu com a engolidora de espadas, que passou a cuspir fogo após o casamento.
18.  Nem sempre quem diz "adeus!" sumirá no oco do mundo. Mas aquele que diz "e aí?" vai te incomodar bastante.
19.  A uva passa, a banana passa. Só não passa a paçoca na carroça da praça.
20.  Não que o cara tenha sido criado incréu. Mas, toda vez que ele creu, a vida, créu!

15 de julho de 2011

SOLIDÃO III

A solidão tece esteiras lisas
Amplos tapetes limpos tatames onde se deita
E esperançosa aguarda à espreita
De que enfim a enrede nova teia
De auspiciosas promessas
E assim fica no deleite
De que um dia qualquer
Do calendário em frente
Surja o fim do seu mal-estar presente.
Imagem em martha2.blogspot.com.

14 de julho de 2011

INSUBMISSO

Caronte, por Gustave Doré, séc. XIX.



Não irei a lugar nenhum.
Não me esperem com cortejo
do outro lado do rio.
Caronte não verá a cor da minha grana
isto eu garanto.
Ficarei por aqui
que daqui sou cria.
A eternidade se quiser
que me espere um dia!