15 de julho de 2011

SOLIDÃO III

A solidão tece esteiras lisas
Amplos tapetes limpos tatames onde se deita
E esperançosa aguarda à espreita
De que enfim a enrede nova teia
De auspiciosas promessas
E assim fica no deleite
De que um dia qualquer
Do calendário em frente
Surja o fim do seu mal-estar presente.
Imagem em martha2.blogspot.com.

14 de julho de 2011

INSUBMISSO

Caronte, por Gustave Doré, séc. XIX.



Não irei a lugar nenhum.
Não me esperem com cortejo
do outro lado do rio.
Caronte não verá a cor da minha grana
isto eu garanto.
Ficarei por aqui
que daqui sou cria.
A eternidade se quiser
que me espere um dia!

13 de julho de 2011

JEREMIAS

Tinha nome de profeta, Jeremias, mas vocação para mártir.
Durante a lua de mel em Iguaba Grande, descobriu, depois de uma conversa atravessada com a esposa, que tinha nascido com a missão de apanhar de mulher.
- Dozinha, meu anjo, sempre fui um homem feliz. Nunca tive um dissabor nesta vida. Sempre vivi contente, cheio de saúde. Jamais senti dor. Muito menos, gastura nos dentes. Nem unha encravada tive. Nem calo. Nunca dei uma topada com o dedão. Dor de barriga, nunca soube o que é. Fico até pensando que é meio sem graça viver assim. Agora que me casei com você, que ainda estou mais feliz, me sinto constrangido com meus semelhantes. Acho demais. Queria sofrer um pouco, para não pensar que a vida é um mar de rosas.
Dozinha, aliás, Maria das Dores da Crucificação de Cristo da Silva, com todo o peso que o nome carreia para seu dono, viveu vida de sofrença da mais tenra idade até aquele quarto de hotel simples da Região dos Lagos. Sonhou que o casamento pudesse ser sua tábua de salvação. E viu naquele minúsculo discurso destrambelhado do seu novel marido a oportunidade para descarregar anos e anos de dores e padecimentos até um gólgota imerecido.
- Meu amor, vi agora que nascemos um para o outro, e posso abrandar essa culpa que você carrega.
Dirigiu-se até o banheiro, molhou a toalha de banho com água quente, torceu-a e, antes que Jeremias se pudesse armar com as testosteronas de costume para um auxiliar de cartório aprovado em concurso público e em vias de promoção, deu-lhe uma surra de toalha molhada, de fazer inveja a certas primeiras-damas nordestinas.
Instrumento usado por Dozinha para
abrandar as culpas de Jeremias (letrav.com.br).

A cada golpe pelo corpo, Jeremias se contorcia num misto de dor e prazer. E, não fosse o cansaço do braço desacostumado de Dozinha para a função, é bem possível que atingisse o orgasmo, antes que a coitada tivesse o lacre rompido na conformidade dos estatutos, regulamentos e decretos relativos ao caso.
A partir de então, Jeremias vivia com marcas vermelhas por várias partes do corpo, que cobria com um fervor quase religioso, e uma felicidade que beirava a ostentação.
Passou a ser mais produtivo no cartório, era mais simpático e solidário com os colegas e partes e atendia as estapafúrdias solicitações do tabelião, como se fossem as coisas mais normais do mundo. Até no metrô cedia lugar para menino com uniforme de escola pública.
A mulher nem precisava frequentar a academia chamativa que ficava diante de casa – letreiro de neon berrante –, para fazer musculação. Duas, três vezes por semana, enrolava uma toalha comprada especialmente para o serviço e largava o braço no lombo do Jeremias. E tinha cumprido as recomendações daquele programa chato da tevê, a recomendar exercícios constantes, a fim de prolongar a vida saudável, tão ao gosto da medicina preventiva.
Ali estava o casal prefeito: Sacher-Masoch e o Marquês de Sade de braços dados, sob os auspícios da lei, da moral e dos bons costumes, a purgar todas as mágoas e recalques de Dozinha e a prolongar a felicidade imerecida de Jeremias, auxiliar de cartório promovido por méritos, dois meses após o início das toalhadas.

12 de julho de 2011

AMOR QUE SE PRETENDE ETERNO

Amor que se pretende eterno
E morre na primeira esquina
Em que se depara com qualquer problema
De eterno nada tinha
Bouguereau, Jovem defendendo-se de
Eros, 1880, pt.wikipedia.org.
De infinito nada tem
E pode muito bem
Passar sem
E morrer sozinho sem ninguém
Como se fosse má sina.
Per omnia saecula saeculorum, amem!

11 de julho de 2011

AMOR QUE SE PRETENDE EFÊMERO

Pã, estátua encontrada em
Pompéia (pt.wikipedia.com).


Amor que se pretende efêmero
De duração bem ligeira
Como um piscar anódino de pálpebras
E acaba por ser sincero
De um jeito verdadeiro
Termina durando muito
Como se todo o infinito
Que não cabe nas galáxias
Coubesse em alguns minutos.
E fica encruado na memória para sempre.

10 de julho de 2011

SEXO É BOM

Desde novinha, já precoce. Só gostava de fazer saliências com os meninos. Enquanto as coleguinhas brincavam de cozinhado, ela brincava de marido e mulher, médico e enfermeira. Nada de chicotinho-queimado, apareceu a margarida, pobre de marré de si. Queria é ficar esfregando-se nas coisas dos moleques, verificando as diferenças.
Mocinha, deu de namorar um desquitado que morava no mesmo andar. Nem a perseguição implacável da mãe a desviava do apartamento do homem.
Um dia, a mãe resolveu dar-lhe um flagrante que a deixasse por baixo da situação. E tocou a campainha do vizinho. Quando viu pelo olho-mágico que era a mãe, escondeu-se debaixo da cama.
Onde está ela? Dona fulana ela não está aqui, e a senhora não pode invadir minha casa desse jeito. Posso porque sou mãe dela, e ela é menor de idade. O senhor me dá licença que vou procurar por ela em todos os lugares.
E procurou no banheiro, na cozinha, na área de serviço, no quarto de empregada, nos armários, atrás de portas e cortinas. Não encontrou.
Agora que a senhora viu que ela não está aqui, se conformou? Eu sei que ela está aqui! Só não sei onde ela se meteu. Ora, a senhora é muito teimosa. Se a senhora não está acreditando, por que então não olha embaixo da cama, atrás do penico? Só falta isso!
Ironia que não funcionou.
a mãe olhou e viu a filha lá embaixo. Oi, mãe! E fez um sinal com os dedos da mão aberta, a cara de menina sapeca.
Saiu dali na base da porrada, ficou de castigo durante meses, levou lavagem cerebral, ameaças de todos os tipos. Pensam que se endireitou? Nada! Continua a mesma. Também com o fogo que tem entre as pernas, nem uma guarnição do Corpo de Bombeiros!

(Imagem colhida em diaadia.pr.gov.br.)

9 de julho de 2011

MARINHAS (III)

XI

à beira mar encontram-se os amores prometidos
em suas areias se deitam
em suas águas se abraçam

daqui do décimo terceiro andar
apenas escuto o barulho das ondas incessantes
e desconheço por completo
as promessas que se fazem
e os carinhos que se trocam


XII

fez-se portugal ao mar
num arroubo de aventura.
meu coração
que de lusitano tem somente as dores e a saudade
apenas geme
por não poder navegar
as ondas salgadas que vertem dos olhos verdes
da menina vestida de solidão.


XIII

toda maravilha e grandiosidade do oceano
morrem apequenadas
entre as palafitas da favela miserável
que mal de sustenta de pé
à beirinha da maré


XIV

fraga e bruma debruçam-se sobre as ondas
e a barra da baía é somente uma certeza
de chegar e sair
sua visão está tomada pelas nuvens baixas
apenas as gaivotas percebem que a chuva vem
e umedecerá as ressecadas águas da guanabara
Foto por Suely Capovilla em flicker.com/photos/suelycapovilla.