6 de julho de 2011

PEQUENOS ANÚNCIOS III

Imagem bestblog.com.br.
Este blog, premido pelas circunstâncias, vem mais uma vez veicular pequenos anúncios de profissionais de várias especialidades e até mesmo de certas autoridades internacionais, em processo de defenestração de suas sinecuras. O amigo virtual Paulo Laurindo havia sugerido "classificados desclassificados", título ótimo. Como, no entanto, já havia dado este título, resolvi mantê-lo, para não me acusarem de Saint-Clair vai com Paulo.
Quero informar que as solicitações para gratuidade estão vetadas pela alta direção, e não adianta vir chorar miséria, pois o preço é de acordo com a intenção do anúncio e as posses do anunciante. Os estrangeiros devem fazer seus depósitos em euros (dólar, nem pensar!).
Aí vão os novos anúncios.
OTORRINOLARINGOLOGISTA: Feliciano Sodré Boaventura Domiciano Bocaiuva Pedreira, entojado com nomes tão compridos – seu e da sua especialidade – e já desgosto com a profissão comunica que está trocando de atividade. Agora vai ser tão somente CALISTA, com o singelo nome de Sodré Calista. E aproveita também para trocar de endereço da Avenida Jornalista Alberto Francisco Torres – que já não cabe mais em nenhum formulário de plano de saúde – para a Rua do Ipê. Saco!*
DITADOR ÁRABE: Ditador árabe em vias de extinção procura país ocidental e cristão decadente que lhe dê asilo político e lhe permita gastar a dinheirama roubada do seu povo. Aceita bashar em qualquer canto. Levará suas odaliscas, mas promete não beber álcool, porque é pecado punido com as chamas do mármore do inferno.
PROFESSOR PANCRÁCIO: Tradicionalista, conservador e retrógrado. Ainda usa mesóclise (ex.: amá-la-ei), palmatória e caroço de milho para os joelhos. Atende a famílias em vias de entregar os pontos com seus diabinhos. Conserta moleque torto na base do cacete. Entra moleque e sai cidadão. Serviço garantido. Escoriações podem ocorrer durante o processo educacional. Tudo incluído na mensalidade.
GOLEIRO: Não come frango e muito menos peru. Tem horror a galináceos. O último que comeu foi em criança, em casa de uma tia entrevada que vivia à base de canja de galinha lá em Cantagalo. Detestou, nem voltou mais ao local. Agora desempregado, procura colocação em time da primeira divisão. Não joga em time rebaixado. Consegue ir na bola por GPS anatômico natural, de nascença, seguindo o cheiro do barriguim.
FRENTISTA: Aceito colocação em posto de combustível. Na frente. Não trabalho na retaguarda. Experiência de mais de três meses. Consigo vender gasolina adulterada como aditivada. Nisso sou bom. Meto a vara para verificar o óleo como ninguém. Se precisar, também lavo os vidros dos automóveis na base do cuspe, para diminuir a conta da água.
LAVANDERIA AUTOMÁTICA: Lavamos a sua roupa suja, sem duplo sentido. Problemas conjugais não serão atendidos. Indicamos psicólogo no fundo da galeria para isso. Também passamos o ferro, ainda sem duplo sentido, e entregamos em domicílio. O ferro não, a roupa!
PSICÓLOGO JUNGIANO: Comunico a meus pacientes que estou fechando o consultório. Jung não está com nada. Freud já não estava! Agora vou jogar búzios e fazer mapa astral. Se não der resultado, pelo menos os fregueses acreditarão muito mais em mim e vão pagar direitinho, ou não lhes entrego o serviço.
CHURRASQUEIRO: Recentemente chegado do Sul, procuro emprego em churrascaria rodízio. Só serve rodízio, detesto pasmaceira. Tenho experiência em brochetes e picanhas. Fatio um lombinho com perfeição. Manipulo um espeto com destreza. Aproveito para mandar um alô para o Ricardo, lá de Bagé. E aí, guri?
REPÓRTER: Experiente. Dou furo, mas não deixo furo. Comigo, é, é; não, é não é. Não maquio notícias, porque não sou maquiador. Não aumento, porque não sou dono de supermercado. Não diminuo, porque sou assim mesmo, pô! Sei escrever pelo antigo método: tudo concorda no meu texto, sem falsa modéstia. Não tem essa de sujeito oculto, nem de objeto indireto!
ODALISCA: Recém-chegada do Egito (prefiro não comentar). Dancei lá e posso dançar aqui também. Não sei aonde foi parar aquele tiozão de cabelos negros brilhantinados que me patrocinava. Tão bonzinho, ele! Dança do ventre, dos sete véus e da cabeça de São João Batista. Salomé, perto de mim, é principiante.
PROCURADOR: Procuro responsáveis pelo caos da saúde e da educação públicas. Procuro responsáveis pelo desvio de dinheiro público e malversação de verbas. Procuro invasores de terra, fazendeiros escravagistas, funcionários corruptos. Procuro criminosos de colarinho branco. Procuro desmatadores e poluidores. Procuro sarna para me coçar.
TÉCNICO DE FUTEBOL: Não sou igual a uns e outros que recebem antecipadamente. Pagamento só no final do campeonato com o time classificado para a Libertadores, no mínimo. Para seu time não cair, levo o Sóbis. Ele jamais descerá. Não uso prancheta ultrapassada. Comigo é no iPod, mesmo que não possa. Eu posso. Ainda gosto de beque de espera e centroavante enfiado mais que biquíni fio dental. Sou das antigas e não permito noitada de jogador. Onde já se viu?!
ADVOGADO GERAL DA UNIÃO: Advogado com larga experiência em processos da área econômica e administrativa se oferece para o cargo de Advogado Geral da União. Sou bom em pedido de arquivamento de processos contra autoridades constituídas e não constituídas. Dou jeito pra tudo. Especialista também em tráfico de influência e coação irresistível. Sou chegado numa pressão no cangote do ex adverso.
MADAME NINON: Célebre cafetina francesa, tendo desfeito seu bordel, dedica-se atualmente à caridade. Procura pelos filhos de suas “meninas”, hoje já senhoras quase respeitáveis, que não sabem do paradeiro de seus rebentos. Últimas informações recebidas dão conta de que foram levados para Brasília a poder de voto de eleitores. Acho provável. Alguns até já conseguimos identificar, mas ainda faltam centenas. Quem souber de informações mais detalhadas, favor mandar correspondência para este blog.

*(Direitos autorais a Zatonio Lahud em http://www.interrogaes.blogspot.com/ )

5 de julho de 2011

NEM LIGO

Quando um amigo
Dá um pito
Eu nem ligo
Sobretudo
Se não for comigo

Porém se comigo for
Nem será pito
Nem fará dor
Porque palavra de amigo
Vale como ouro
Sustenta tal granito

Linus e Charlie Brown, criação de Charles Schulz.
E aí fica o dito
Pelo não dito
Pois o que não me permito
É perder um grande amigo

4 de julho de 2011

JULHO

Este meio ano inteiro
Em junho desde janeiro
Fiquei à espreita de julho
Que põe a quina na dobra do calendário

Estou sempre observando o tempo
Pois sinto que ele flui
Um pouco atropeladamente
Para nosso desespero

Por isto é que mesmo julho
Com seu jeito passageiro
Parece apressar o passo
Numa espiral incontrolável

Pelo menos antes que tudo se acabe
Na metade do caminho
Vou ficar quieto em meu canto
Tomando taças de vinho

Imagem em dicasdotimoneiro.com.br

2 de julho de 2011

EPAMINONDAS NEPOMUCENO

Quando Hugh Hefner começou a desnudar suas coelhinhas e Carlos Imperial, a abater suas lebres, Epaminondas Nepomuceno já andava perseguindo pacas. Por isso é que tinha um jeito assim meio démodé, para usar uma palavra fora de moda. Mantinha um bigode fino de pontas reviradas, uma bengala, com que fingia alguma claudicância, e uma gravata borboleta engastalhada no gogó saliente. Abriu mão do chapéu coco, porque, mesmo ele, achava um tanto passado no tempo. Mas não é que não gostasse. Apenas precavia-se de chacotas.
Imagem em salodumafigaro.blogspot.com.

Somava sete décadas e lá vai fumaça e ainda se achava um conquistador praticamente imbatível. Por opção ditada por certo pão-durismo recalcitrante, não se casou, ou, como gostava de dizer, “não convolou núpcias”, porque, no fundo, julgava todas as mulheres apenas interessadas em seu patrimônio, em sua pecúnia.
Não que possuísse coisa de maior monta ou estipêndios de causar estragos no comércio local. É que sempre fora um presunçoso de marca maior. E tudo o que tinha, para ele, valia mais que o dobro do valor real. Assim, passou a vida inteira com um pé atrás, desconfiado de todas.
Por outro lado, como gostava de ser incomodativo! Não deixava passar oportunidade em que não incomodasse alguém com suas idiossincrasias. Era com a faxineira que o atendia semanalmente, a fazer solicitações cada vez mais detalhadas sobre a limpeza e coisinhas mais. Era com os porteiros do prédio, antigo como ele, pedindo favores sem utilidade. Era com o barbeiro, que frequentava religiosamente no primeiro dia útil de cada mês, opondo observações ao corte do cabelo e ao aparo do bigode um tanto ridículo. Era com o gerente do banco, onde mantinha a conta medíocre que ele acreditava salvar a instituição nos apertos assestados pelo governo. Enfim, era uma pessoa que se fazia notar sempre pela impertinência com que vivia.
Destarte (outra palavra bem do tempo dele), foi que Epaminondas causou seu último incômodo aos que lhe estavam próximos.
Foi tomar o chá da tarde, numa quinta-feira cheia de maledicências e desabonos, na Confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias, desacompanhado como sempre, e lá, após três soquinhos de leve sobre o peito, com a mão esquerda fechada, parecendo Carlitos em Em busca do ouro, dobrou a cabeça sobre a mesinha redonda de tampo de mármore, esparramando torradas Petrópolis pelo chão.
Não deu um ui. Não vibrou um ai. Apenas a tossinha seca e miúda que o acompanhou por anos chamou a atenção dos clientes da confeitaria, antes que a ceifadora cortasse sua derradeira ligação com o mundo.
Epaminondas Nepomuceno azedou o chá daquela quinta-feira incomum para a casa e saiu rebocado pelo rabecão do Corpo de Bombeiros, sem sirene ligada, porque não havia mais emergência a atender.
Ao velório triste e pouco concorrido, compareceram uns sobrinhos gananciosos, que imaginavam estar no testamento do tio Epaminondas. O tio, no entanto, para eles não deixou nem recomendações de boa saúde e vida longa, pois os guardados no banco e o apartamento cheio de velharias passaram à posse da faxineira que, a cada semana, além de tirar o pó dos móveis, dava também um lustro na libido meia-bomba de Epaminondas.

1 de julho de 2011

TANGO

mata-me de desejo nesta cama
macia e quente
e depois me abandona.
deixa-me ao largo como animal de trote
a pastar o que sobrar na estrada.
ignora-me por dias e semanas
e engana-me com mais outros
outros mais e outros.
repugne-te minha frouxa pálida lembrança.
vomita diante do meu retrato
que lançarás no mangue.
Colhida em br.livra.com.
recusa-te a ouvir meu nome
ainda que francamente enunciado
por herdeiros da vida e da fortuna.
revolta-te se te lembrarem de nós dois
e queima no fogo do teu desprezo
os versos os poemetos idiotas
com os quais traduzi minha paixão.
esquece por fim que existi.
apaga da memória minha sorte.
mas restarão por fim
irremovíveis fortes
as fungadas que eu dei no teu cangote.

30 de junho de 2011

SE O TAL AMOR BORBULHA NUMA FONTE

Se o tal amor borbulha numa fonte
Com o gás venenoso que contém
E inebriado o aspire alguém,
Na pretensa visão de um horizonte

Que lhe possa trazer incontinente
Os prazeres na vida prometida,
Pode ser que tal vida pretendida
Imagem voascomigo.blogspot.com.
Se lhe ocorra no tempo do presente,

Como um cometa em velocidade,
Ou na breve parcela de uma hora.
Mas, se num átimo o coração afaga,

Esse tempo, essa luz que não se apaga
Morarão em seu peito com a demora
Que ultrapassa toda a eternidade.

29 de junho de 2011

CARÊNCIA

A primeira chuva daquele verão arrancou do chão seco o cheiro forte e gostoso de terra molhada. Esse é um fato corriqueiro no interior. Só que naquele verão foi um pouco diferente para Chico Albino.
Vinha ele em cima de seu cavalo, selado a gosto, trote manso pela estrada de Santo Eduardo, rumo de Liberdade. Aquele cheiro penetrou-lhe com força nas narinas, de forma irresistível. Sem controle, apeou do baio, chegou até o barranco e, com a fome dos imortais, comeu um bom eito de terra. Satisfeito, porém um tanto desconfiado da sua incontinência, tornou a montar no cavalo e daí duas horas deu a viagem por terminada.
Chegando à vila, procurou o Edgard da farmácia e contou-se o ocorrido. Edgard ouvia e analisava. Receitou-lhe, por fim, um lombrigueiro.
- Sua barriga é lombriga pura, amigo Chico! Fique de jejum e tome isso, que é tiro e queda!
E quase foi mesmo.
Na verdade, Chico Albino estava era depauperado, subnutrido, carente de ferro e outros minerais, que a terra generosa ofereceu-lhe através do olfato.
O lombrigueiro quase o mata, agravado que ficou seu estado de debilidade geral. Aprendeu, porém, com sacrifícios, que o instinto ainda é uma boa forma de preservação da vida. Bem que ele já havia visto cachorro comendo capim.

Marino Marini, “Cavaleiro" (1947), em
ninhodogaviao.zip.net.