30 de junho de 2011

SE O TAL AMOR BORBULHA NUMA FONTE

Se o tal amor borbulha numa fonte
Com o gás venenoso que contém
E inebriado o aspire alguém,
Na pretensa visão de um horizonte

Que lhe possa trazer incontinente
Os prazeres na vida prometida,
Pode ser que tal vida pretendida
Imagem voascomigo.blogspot.com.
Se lhe ocorra no tempo do presente,

Como um cometa em velocidade,
Ou na breve parcela de uma hora.
Mas, se num átimo o coração afaga,

Esse tempo, essa luz que não se apaga
Morarão em seu peito com a demora
Que ultrapassa toda a eternidade.

29 de junho de 2011

CARÊNCIA

A primeira chuva daquele verão arrancou do chão seco o cheiro forte e gostoso de terra molhada. Esse é um fato corriqueiro no interior. Só que naquele verão foi um pouco diferente para Chico Albino.
Vinha ele em cima de seu cavalo, selado a gosto, trote manso pela estrada de Santo Eduardo, rumo de Liberdade. Aquele cheiro penetrou-lhe com força nas narinas, de forma irresistível. Sem controle, apeou do baio, chegou até o barranco e, com a fome dos imortais, comeu um bom eito de terra. Satisfeito, porém um tanto desconfiado da sua incontinência, tornou a montar no cavalo e daí duas horas deu a viagem por terminada.
Chegando à vila, procurou o Edgard da farmácia e contou-se o ocorrido. Edgard ouvia e analisava. Receitou-lhe, por fim, um lombrigueiro.
- Sua barriga é lombriga pura, amigo Chico! Fique de jejum e tome isso, que é tiro e queda!
E quase foi mesmo.
Na verdade, Chico Albino estava era depauperado, subnutrido, carente de ferro e outros minerais, que a terra generosa ofereceu-lhe através do olfato.
O lombrigueiro quase o mata, agravado que ficou seu estado de debilidade geral. Aprendeu, porém, com sacrifícios, que o instinto ainda é uma boa forma de preservação da vida. Bem que ele já havia visto cachorro comendo capim.

Marino Marini, “Cavaleiro" (1947), em
ninhodogaviao.zip.net.

28 de junho de 2011

LE CHAT DE MADAME CORALIE

Vamos combinar: tudo na vida tem seu limite, sua adequação. Mas há algumas pessoas completamente sem noção.
Por exemplo, no condomínio em que mora Madame Coralie - o Tour Eiffel -, no bairro de Icaraí, um vizinho, dois andares abaixo, na mesma coluna, resolveu comprar um papagaio e começou a ensiná-lo a falar.
Até aí nada demais, não fosse esse vizinho, sobre ser antipático, nojento e esquisito, também gago e desbocado.
Pois então! De cada frase que, com dificuldades, sai da boca cheia de dentes daquela execrável criatura, metade se faz de palavrões e impropérios. Todos com alguma sílaba repetida, como é comum nesses casos.
Agora, não bastasse ficar ouvindo, através da parte interna do prédio, a besta do vizinho vociferando, os moradores de fundos têm de aguentar essa coitada ave, mal educada na vida, a repetir o comportamento condenável do seu dono. E é só a mínima contrariedade, para que ela despeje no ar o lixo vocabular que sai de sua garganta de taquara rachada - o poleiro colocado sobre o parapeito da área de serviço:
- Cacacete! Memerda!
Por isso é que, estribada na moral e nos bons costumes e no desejo de tranquilidade a presidir o convívio, Madame Coralie, francesa dos quatro brioches e outros tantos croissants, viu-se obrigada a chamar o Ibama, para dar um fim àquele despautério.
Além deste problema, quase sempre tinha de suportar ainda o alto volume do rock do apartamento 1006, imediatamente abaixo do seu, onde moravam cinco rapazes. Vida de condomínio é mesmo um incômodo!
Certo dia mesmo, não aguentando mais o hard rock de Machine head, do Deep Purple, tocado lá nas alturas, soou a campainha e, tão logo a porta lhe foi aberta, invadiu o recinto, dirigiu-se à parafernália eletrônica de onde saía aquela massa sonora ensurdecedora, girou o botão até que o volume estivesse baixo e disse para o boquiaberto jovem, com o sotaque de Brigitte Bardot já entrada em anos:
- É assim que se ouve musique civilizadamente!
Deu um tour sobre suas chinelas de crochê, os cabelos amarados num coque ralo, e voltou ao seu apartamento, no décimo primeiro andar.
Justifica-se, assim, que não tivesse o mínimo constrangimento em acionar o Ibama, depois da recusa da delegacia do bairro, sob a alegação de que ave dizer palavrões não era crime capitulado no Código Penal, pelo que eles, infelizmente, não poderiam fazer nada, "e passe bem".
Quando ainda tentou argumentar com o policial, teve como resposta sugestão mal-educada que refletia também cultura de fundo de botequim do homem da lei:
- Isso aqui é Brasil, minha senhora! Por que não volta para a Espanha?
Depois de algum tempo, tornou a entrar em contato com o Ibama e soube que, mais uma vez, os funcionários estavam em greve, sem perspectiva de retorno tão cedo.
Irritada e mais isolada que Maria Antonieta durante a Revolução, resolveu passar a solução do problema para Robespierre, seu gato de estimação, de comportamento deletério.
Vestiu um colete de frio no bichano, amarrou-lhe um cordel grosso ao redor e ficou aguardando a saída de casa do vizinho, sempre indicada pela despedida do papagaio:
- Teté lologo, lolouro viviado!
- Teté lologo, Sansandro viviado! Cucurrupaco!
Pelo televisor, através do circuito interno, assegurou-se da saída dele. Pegou o gato amarrado pelo meio e protegido pelo colete e o desceu, através do cordel, até que ele atingisse o andar do papagaio.
A carnificina empreendida no 906, com os gritos da desesperada ave atacada por Robespierre, não teve testemunhas àquela hora da tarde. Apenas alguns ouviram o barulho; ninguém viu!  
Retrato falado de Robespierre (zazzle.pt)
O gato, rebocado pelo cordel, voltou para casa com a boca cheia de penas verdes. Madame Coralie limpou a boca e os pelos do bichano e o trancou no quarto para que se acalmasse. Mais tarde mimoseou o felino carrasco com leite morno em prato de ágate, decorado com desenhos da fauna brasileira.
O regime do terror tinha sido implantado no Tour Eiffel. O próximo não se engraçasse. Robespierre estava com o alvará dos jacobinos para agir.

27 de junho de 2011

MARINHAS (II)

J. Pancetti, Mar grande, 1954.
VI

pancetti morreu no mar
não por afogamento
mas por uma indelével maneira
de respirá-lo colorido

VII

esta baía inunda meus olhos meus ouvidos
só não lava meu corpo
que sua beleza panorâmica se desfaz
nos detritos da lixeira a que a reduziu
a depredação dos homens

VIII

essas águas trouxeram os colonizadores
os mercadores os piratas os escravocratas
só não trouxeram a liberdade
a saúde e a riqueza
apenas levaram os corpos dos afogados
apenas lavaram os corpos dos bronzeados
(Imagem em varejototal.zip.net.)

IX

chegam ao abrigo as águas do oceano largo
passeiam pela baía para cumprir seu percurso milenar
e saem maculadas sob os cacos das embarcações
tão escuras
elas que cristalinas
tão envergonhadas
elas que soberbas

X

a cada ano o homem aterra o mar da baía
sob não importam que razões
a cada ano o mar recua sob a terra
como se nunca tivesse sobrepujado o homem

26 de junho de 2011

MAIS QUE...

Camille Claudel, La valse/Les
valseurs, 1899-1905.
Museu d'Orsay.
mais que um jeito de dizer mulher
te amo
é esse meu jeito estranho só movimento
do corpo da boca
dos olhos perdidos entre o sim e o não

mais que um desejo de possuir-te toda
mulher
é esse meu desejo tímido de parecer
que não estou aos teus pés
quando só estou

mais que uma vontade de encontrar-te sempre
nas ruas
é essa minha vontade de não existir
sem ti por um só instante ou me enganar
que o tempo é tudo que não tenho

mais que um modo de abraçar teus sonhos
de menina
é essa minha ânsia de tornar-me imenso
além das fronteiras minúsculas do meu ser

25 de junho de 2011

PEQUENOS ANÚNCIOS II

Este blog, vira e mexe, recebe solicitações para publicar anúncios de empresas e profissionais dos mais diversos ramos.
Confesso-lhes que jamais tive a intenção de ganhar dinheiro com ele, porque não contribuí para o INSS da Internet. No entanto, como sei que uns e outros aí estão faturando horrores com suas páginas virtuais, resolvi, mais uma vez, tentar melhorar minha conta bancária, que anda no vermelho (o gerente até me mandou um convite para visitá-lo).
Por isso, aqui estão novos pequenos anúncios, que, espero, possam trazer dicas de alguma coisa de que vocês estejam realmente precisando muito.
SAPATARIA: Fazemos sapatos por encomenda. Estamos adaptados à nova legislação: sapatos, sapatilhas e sapatões, nas sete cores do arco-íris. Atendo também a pés héteros de ambos os sexos, sem preconceitos.
MOINHO: Moemos grãos em geral e em particular, principalmente trigo, para a fabricação de pizzas especiais. Atendemos grandes clientes. Ligar gratuitamente: 171 (Brasília). Endereço anexo a certo edifício na Praça dos Três Poderes.
PROCTOLOGISTA: Dedo adequado, no calibre certo, direto ao reto, sem bolinações e sacanagens. Mantenho sigilo absoluto. Não sou ingrato: depois envio flores e caixa de bombons.
CANCEROLOGISTA: Após a confirmação da biópsia, indico advogado conveniado, de muito boas referências, para orientação na feitura do testamento, e padre, para encomendar a alma. Se desejar, indico também o cartório para registro da última vontade. Não cobro 10%, mas pagamento só antecipado.

ESPÍRITA VIDENTE CRIMINAL: Recentemente chegada do FBI, com roncó na ACADEPOL e na INTERPOL. Traz a pessoa armada em três dias, na porta da delegacia. Obstrui os caminhos do tráfico e do descaminho. Algema espíritos de porco e criminosos notórios. Desenrola inquéritos complicados e investigações obscuras. Leva o investigador ao covil do banditismo, com trabalho simples e direto e uso de GPS importado.
ANÃO DE CIRCO: Tenho a maior disposição para o trabalho, apesar de prejudicado verticalmente. Estatura e diâmetro de acordo com vários calibres de canhões. Velocípede próprio, para me reapresentar rapidinho ao local de trabalho, após o lançamento.
FUNERÁRIA: Viagem tranquila à sua última morada em veículos luxuosos e silenciosos. Sem sobressaltos. Carpideiras de classe, para economizar lágrimas da família. Não tema! Serviço de dar nas vistas. Devolvemos o dinheiro, em caso de não satisfação.
BANCO DE SANGUE: Contratamos coletores de sangue hemofóbicos (não confundir com homofóbicos, que dá processo) para os tipos A, B, AB, O e OB (durante os previstos três dias), positivos e negativos, ativos e passivos. Vampiros não terão seus currículos analisados.
DENTISTA: Distraio o dente, enquanto o extraio, sem trocadilho infame. O dente sai dançando, soltinho e leve. E o cliente, banguelo e com um rombo na conta bancária.
COPIDÉSQUI: Fasso revisões atualizada de testo de acordo com o livro novo de portuguez do MEQ. Tô pur dentro das novidade. Agaranto servisso rapido.
MAQUIADOR-CONTADOR: Profissional formado em duas profissões. Maquio balanços, balancetes e declarações de renda. Serviço imperceptível. Parece natural. Resistente a perícias, chuvas e trovoadas.
METEOROLOGISTA: Perdi o emprego por causa de dois moleques argentinos, El Niño e La Niña, que esculhambaram minhas previsões meteorológicas (Sempre os argentinos!). Estou-me oferecendo para previsões astrológicas. Entendo tudo de planetas, satélites, estrelas e constelações. Só não leio mãos, nem jogo búzios. O resto é comigo mesmo!
PASTOR-DESPACHANTE: Faço despacho de almas cândidas para o Paraíso, por contribuição de acordo com os pecados cometidos e as posses dos familiares. Trânsito livre com o Além. Experiência no ramo. Para os enfermos desenganados, aceito pagamento parcelado. Morte súbita, pagamento no ato da encomenda. Serviço garantido. A alma não volta para reencarnar nem em cachorro.
FÍSICO NUCLEAR NIPÔNICO: Recentemente chegado do Zapon, aceito emprego em baraca de pastel em feira zaponesa ou nordestina. Antigo rocal de trabário entrou em corapso e fiquei a ver partícuras. Já faro português sem sotaque, né?
BENZEDEIRA: Benzo, rezo, tiro encosto, alivio pescoço-duro, dor-de-olhos e dor-de-cotovelo, escandescência e espinhela caída. Ajudo a escolher nome de menino pequeno e de animal de pasto. Removo bicheira com três orações e esporão no pé com duas. Só não trago a pessoa amada, porque não me meto com coisa sem solução.
Imagem em fresh-fish.blogspot.com.

24 de junho de 2011

NOITE DE SÃO JOÃO


Guignard, Noite de São João, 1961.
Acervo do Museu de Arte da Pampulha
 


há balões no ar
e peso nos corações das gentes.
não serão os versos malditos
que me tirarão do caminho.
bem sei que a estrada inexiste
como a pedra é nada.
ando em círculos e não pergunto
cur quomodo qui prodest.
exijo pouco
e rumino a vida devagarzinho.