20 de junho de 2011

TARDE, MUITO TARDE!

Não vou viver lembrando teus encantos.
Tenho mais coisas a fazer na vida,
Como fazer a vida mais comprida,
Para que chegue até aos meus cem anos.

Se eu for atrás destes teus tais enganos
E enganar-me por toda a eternidade,
Possível veja, sem muito alarde,
Que esses foram tempos bem insanos.

Não quero, pois, a vida com tais danos,
Para que, velho, morra de saudade
Das coisas lindas que nós dois deixamos

De realizar, quando na jovem idade.
Nada vale chorar sobre tais planos.
Agora é tarde. Já é muito tarde!

Imagem em lemondedelily.over-blog.net.

19 de junho de 2011

PONTO FINAL

Um dia
Aparecerá um ponto final
No teu caminho
Dali para frente o ônibus não seguirá
O bonde e o trem não terão trilhos
A carroça estará com as rodas partidas
E o teu bilhete estará vencido
Vão faltar-te as pernas
O teu carrinho de rolimã da perdida infância
Estará sem as rodas
Até teu cavalinho de pau estará quebrado
Jogado num canto escuro da vida
E tu não terás passagem
O caminho estará bloqueado
Por uma barreira intransponível
Neste ponto tu me encontrarás
E nos juntaremos a todos os nossos semelhantes
Na grande certeza final:
Um dia seremos apenas memória
Uma reles e simples memória
(Isso se não houver uma amnésia geral!)
Imagem correntes.blogs.sapo.pt.

18 de junho de 2011

DUPLAS SERTANEJAS: MINHA CONTRIBUIÇÃO

Há pouco tive brilhante ideia para ganhar dinheiro, como disse aqui no blog: escrever um livro em cujo título estivesse a expressão a menina que. Volto a ter outra e gostaria de compartilhá-la também com vocês (É provável que eu fique rico antes do fim do mundo!). Quero, porém, de antemão, pedir que não a usem antes de mim, senão o autor não desfrutará de sua própria esperteza.
O troço consiste basicamente no seguinte. Como há, na atual conjunção astral, uma proliferação descontrolada de duplas sertanejas no Brasil - e não só no progressista estado de Goiás, grande produtor de galinhada com gueroba* e licor de pequi - e, pelo que se percebe, isto não terá fim tão cedo, vou registrar em cartório e no INPI, na Biblioteca Nacional e no ECAD, nomes aplicáveis a esses denodados artistas canoros do cenário nacional, de modo que, ao surgir uma nova parelha de cantantes em qualquer rincão deste país, é só arrendar um da  minha relação, que estará disponível por valor a ser combinado, para licença de uso, o qual estará atrelado à arrecadação da dupla.
Vejam como a realidade supera a
ficção (imagem em mais.uol.com.br).
Alguns deles contemplam duplas femininas e gays, duplas mistas quanto à orientação sexual, intelectual, alcoólica e outras vertentes, porque aqui não há qualquer tipo de preconceito. Trabalhamos de acordo com os interessados.
O uso do & ou do e é indiferente, ficando a critério do cliente, sem que com isso haja aumento na licença.
Esclareço que os nomes já estão adaptados à grafia e à forma, de acordo com o gosto dos fregueses.
Os nomes seguem algumas tradições inerentes ao caso e atendem às mais diversas vertentes:
1)      Sertanejo de raiz, com preocupação ecológica e cultural: Mata-burro e Pinguela; Caga-sebo e Vira-bosta; Rabeca Velha e Viola Nova; Erosão & Voçoroca; Precipício e Pirambeira; Barranco e Barranqueiro; Fueiro & Canzil; Mourão e Baldrame; Cumeeira & Platibanda; Cacimbinha & Poço Fundo; Forquilha e Encruzilhada; Vassoura e Tiririca ; Porteira & Cancela; Boi de Coice & Boi de Guia; Pé de Pau e Mato Fino; Toró e Garoa; Grota Funda & Cova Rasa; Saracura e Gaturamo; Bacuri & Bacurau; Taturana e Tanajura; Alazão & Pangaré; Lambari e Piabanha; Brabuleta e Mariposa; Carqueja & Berdoega; Corgo Seco & Cachoeira; Pinico e Pinote, Pirilampo & Cu-de-lume.
2)      Sertanejo antenado, com preocupação universalista: Caipira & Marciano; Jeteme & Lovisol; ET & Abduzido.
3)      Sertanejo reverente, com homenagem a celebridades: Istochurchiu e Aizenrau; Suasnega & Istuude; Maicojeca e Elvispresli, Bilionário & Zé Pobre.
4)      Sertanejo gaiato, com laivos de humorista: Pedro Só e Mal-acompanhado; Já Cheguei & Tou Saindo; Desafina e Desentoa; Tou Ganhando & Vou Gastar; Cadiquê e Sacumé; Oncotô & Oncovô; Podicrê e Num Me Diga; Cequissabe & Xacumigo; Podissê e Tá Difícil; Bem Pequeno e Bem Dotado; Crendospadre & Orapronobis; Cisprandi e Black Jack; Pancadão e Aluado; Tchê e Bah!; Baitolo e Gilete; Atirado & Reservado; Zé Ruela & Arrochado; Cuidadoso e Arriscado; Vacilão e Decidido.
5)      Sertanejo traumatizado com as dificuldades passadas, com foco na comida e na bebida: Galinhada & Revirado; Constipado e Sastifeito; Pinga Nova e Figo Veio; Tonel & Barrica; Meia Dose e Copo Cheio; Gole Certo & Pé Inchado; Batata e Baroa; Zé com Fome & Gororoba; Porpeta e Minestrone; Pipoco & Pipoca; Nestor & Neston.
6)      Sertanejo nascido nos grandes centros urbanos, mas com o pé no meio do mato: Transeunte e Circunstante; Usuário & Traficante; Enrustido e Assumido; Indultado e Albergado, Pinheiros & Tietê, Alemão e Borel.
7)      Sertanejo universitário, metido a intelectual:  Pesquisado & Ilustrado; Operário e Operado; Invasão & Latifúndio; Seu Foucault e Seu Deleuze, Wolfgang & Amadeus.
8)      Sertanejo romântico e poético, que gosta do jogo de palavras, das aliterações: Labareda & Lamparina; Tropeiro Apaixonado & Carreiro Jeitoso; Jeitoso e Arrumado; Antonti e Trasantonti; Dejaoje & Dejavi; Revertério & Ribeirinho; Ministro e Ministério; Mensalão e Mensalinho; Lasquento & Lascado; Lesinha e Lesado; Periguete e Perigosa; Ternurinha & Tremendona; Fidamãe & Fidazunha; Lascado & Lasqueira; Coqueiro e Cocada; Henriquim e Enricado; Chifrudo & Chifrado; Joiado & Belezura.

(*Jeito goiano de dizer guariroba.)

17 de junho de 2011

OLHO PELA JANELA...

olho pela janela e o horizonte se oblitera
se corrompe na parede mal caiada
lá longe é possível haver barcos sobre as águas
aviões nos ares gente nas calçadas
daqui de dentro no entanto não sai nada
nenhum mosquito nenhum choro nenhum lamento
tudo é estéril asséptico desinfeto
e a vida – passageira sob todos os aspectos –
está deitada triste sobre um berço esplêndido

e lá fora continua o desespero de todas as coisas
de todos os animais humanos
correndo atrás de suas insoluções eternas
mas aqui abstraídos os sons que inundam a sala
a paz ou qualquer outro sentimento parecido
vacila entre a cruz e a espada
oscila entre o achado e o perdido
e a vida – condição de certos organismos –
irrompe em nossos corpos como vampiro


Antônio Poteiro, Procissão, 1925.


16 de junho de 2011

"PAN AMÉRICA" NA VISÃO DE UM LEITOR MEDIANO

Imagem em livrariaresposta.com.br.
Terminei de ler, há cerca de um mês, o livro Pan América, de José Agripino de Paula (Editora Papagaio), em reedição atual, que adquiri na Livraria Cultura, em minha última visita a São Paulo. E, como prometi em outra oportunidade, está aqui a minha impressão de leitor.
Tal livro já havia sido citado, de forma um tanto difusa, na música Sampa (1978), de Caetano Veloso, conforme ficamos sabendo depois, acho que por informação do próprio compositor. Por isto, sempre esteve em minhas metas de leitura.
Consta, ainda, que foi objeto de teses acadêmicas e de culto de artistas e intelectuais, logo após seu lançamento em 1967.
Quero dizer-lhes que não foi sem uma grande dose de sacrifício que levei sua leitura a cabo, já que leituras de textos literários, em princípio, devem ser prazerosas, a não ser que sejamos críticos literários ou revisores de textos.
No entanto impus-me este encargo, a fim de justificar a expectativa que tinha, motivada pelo conhecimento da existência do livro, há muito fora de catálogo, e também pela devoção de Caetano Veloso, um dos meus compositores prediletos, por ele.
Para reforçar, ainda mais, este encasquestamento em levar a leitura até o fim, estava o fato de que, durante todo o tempo em que fui professor, Caetano e Sampa se misturavam a outros autores e obras, daqui, de Portugal e de outros países lusófonos, d'antanho e de hoje, na exemplificação do uso competente e criativo de nossa bela língua.
Assim não podia fazer cara de pastel diante de obra incensada por um dos meus ídolos.
No prefácio que fez para esta nova edição da obra de José Agripino de Paula, Caetano reitera sua admiração pelo caráter inovador e revolucionário do texto, afirmando que a literatura brasileira seria outra com ele e que nada tinha sido produzido até então que se lhe pudesse comparar. Para ele, seria antes e depois de Pan América. E não teria havido o Tropicalismo (1968) sem a leitura prévia desta obra.
Vejam que importância ele atribui ao livro!
Ora (e quando se diz ora é porque haverá discordância), infelizmente vou ter de discordar de Caetano.
Em primeiro lugar, a massa impressa apresentada pelo texto - sem parágrafos - foi introduzida pelo chamado roman nouveau francês (1952), que antecedeu um pouco o livro de de Paula e já era tema de estudos do meu curso de Letras, em Literatura Francesa, no final dos 60. Não era, assim, recurso tão revolucionário.
Em segundo lugar, a despeito de conter em sua narrativa, personagens comunistas, agentes de repressão e espionagem, exércitos, guerrilheiros, CIA, nazistas e fascistas, o personagem-narrador (o texto é todo em primeira pessoa) é desprovido de ideologia, assim como o texto em sua totalidade. Diria mesmo que também não há Ética nas ações e nos comportamentos dos personagens na história narrada, apesar de atos por eles praticados que, aos nossos olhos, possam ter um quê de reprovação, como casos de pedofilia. Não há constrangimentos do personagem narrador em descrever suas ações neste sentido.
A seu turno, a fabulação fantasiosa e inverossímil, mais caótica que as histórias em quadrinhos de Robert Crumb - que veem à mente tão logo se começa a leitura -, não apresenta lógica, coerência ou sintaxe narrativa, parecendo produto de uma viagem psicodélica, movida por não sei que tipo de droga. E termina porque acaba, sem um desfecho que justifique o tempo que se gastou a ler. Como se todo o texto fosse produto de anotações inconsúteis juntadas, algum tempo depois, na composição do livro.
A narrativa rompe, também, com a lógica espacial, uma vez que, de uma frase para outra, a ação se desloca abruptamente de Brasília para a selva sul-americana, e daí para Hollywood, levando alguns personagens, abandonando outros, aparentemente sem um critério que se justifique na narrativa, a não ser a estilística do caos. Em boa parte, não se sabe mesmo onde ocorre a ação.
Já os personagens - figuras, sobretudo, do cinema americano das décadas de 50 e 60, com destaque para Marilyn Monroe, fixação do narrador - não guardam verossimilhança com pessoas, uma vez que morrem e revivem de forma aleatória no curso da história. Bem como se agigantam, se encolhem, inflam como balões e explodem, na narrativa alucinada do personagem-narrador.
Na linguagem literária propriamente dita, aquela de que o personagem-narrador se utiliza para contar a história e que estrutura a narrativa, é talvez onde estejam os maiores problemas, segundo meu ponto de vista.
O texto se faz arrastado pelo uso mais que exagerado - diria, mesmo, abusivo - do pronome sujeito, numa imitação tosca, e não vernácula, da sintaxe da língua inglesa. Há assim uma profusão de eu. Também repetem-se enfadonhamente palavras e expressões, em frases contíguas, produzindo uma dicção infantilizada e pesada estilisticamente, o que torna a leitura arrastada e maçante.
O exagero no uso da coordenação, em detrimento da subordinação, trabalha para que o texto, como estrutura frasal, se mostre pobre e incipiente, tal qual ocorre com alunos aprendendo a fazer redações.
Querer que tal tipo de frase seja inovadora é um equívoco. Sua estrutura está muito mais próxima à linguagem infantil do que da fala de um adulto razoavelmente desenvolto.
É como pretender, relativamente ao texto da música popular brasileira, descobrir avanços no texto do rap, do funk e do hip-hop, ou mesmo do chamado pagode romântico, diante da excelência poética que atingimos da década de 60 do século XX para cá. Ao contrário, penso mesmo que a poesia, ou letra, que acompanha estas novas manifestações se constitui numa regressão, numa involução, se comparada a qualquer texto produzido pela MPB.
Por todos e apenas esses motivos, o livro de José Agripino de Paula não faz falta a nenhum leitor ou a nenhuma biblioteca. Não vi, não senti e não vislumbrei em sua leitura nada do que Caetano disse, ou que justificasse a pretensa idolatria que despertou, quando do seu lançamento.
Desgraçadamente isto só vem demonstrar a distância que há entre as cabeças de ídolo e de fã.

15 de junho de 2011

HIPÓTESES


V. Kandkinsky (1866-1944). Improvisação.


se beijar a tua boca serei cuitelo
se morder o teu pescoço serei vampiro
se sugar os teus seios serei bezerro
se cheirar a tua pele serei perdigueiro
se lamber a tua redoma serei felino
se comer todo o teu corpo serei abutre

se não parar de delirar serei maluco

14 de junho de 2011

CORPOEMA


Escultura por Paulo Massena, em pousadadoescultor.com.

algum poema se constrói ao longo do corpo
com o mesmo suor
                                o mesmo cansaço
assim como a mesma emoção repetida
e se um se contorce
o outro retrocede e eriça
e se um se expande
 o outro se aglutina e ferve
: ambos matéria do mesmo existir

e o suor que mina dos poros
a língua que o sorve pele afora
os pelos lambidos
as mãos crispadas
os músculos retraídos
no desconforto macio de dois corpos ágeis
                                             a se acoplarem
: a solidão dos que dizem com os gestos
o poema-momento que o tempo elide