16 de junho de 2011

"PAN AMÉRICA" NA VISÃO DE UM LEITOR MEDIANO

Imagem em livrariaresposta.com.br.
Terminei de ler, há cerca de um mês, o livro Pan América, de José Agripino de Paula (Editora Papagaio), em reedição atual, que adquiri na Livraria Cultura, em minha última visita a São Paulo. E, como prometi em outra oportunidade, está aqui a minha impressão de leitor.
Tal livro já havia sido citado, de forma um tanto difusa, na música Sampa (1978), de Caetano Veloso, conforme ficamos sabendo depois, acho que por informação do próprio compositor. Por isto, sempre esteve em minhas metas de leitura.
Consta, ainda, que foi objeto de teses acadêmicas e de culto de artistas e intelectuais, logo após seu lançamento em 1967.
Quero dizer-lhes que não foi sem uma grande dose de sacrifício que levei sua leitura a cabo, já que leituras de textos literários, em princípio, devem ser prazerosas, a não ser que sejamos críticos literários ou revisores de textos.
No entanto impus-me este encargo, a fim de justificar a expectativa que tinha, motivada pelo conhecimento da existência do livro, há muito fora de catálogo, e também pela devoção de Caetano Veloso, um dos meus compositores prediletos, por ele.
Para reforçar, ainda mais, este encasquestamento em levar a leitura até o fim, estava o fato de que, durante todo o tempo em que fui professor, Caetano e Sampa se misturavam a outros autores e obras, daqui, de Portugal e de outros países lusófonos, d'antanho e de hoje, na exemplificação do uso competente e criativo de nossa bela língua.
Assim não podia fazer cara de pastel diante de obra incensada por um dos meus ídolos.
No prefácio que fez para esta nova edição da obra de José Agripino de Paula, Caetano reitera sua admiração pelo caráter inovador e revolucionário do texto, afirmando que a literatura brasileira seria outra com ele e que nada tinha sido produzido até então que se lhe pudesse comparar. Para ele, seria antes e depois de Pan América. E não teria havido o Tropicalismo (1968) sem a leitura prévia desta obra.
Vejam que importância ele atribui ao livro!
Ora (e quando se diz ora é porque haverá discordância), infelizmente vou ter de discordar de Caetano.
Em primeiro lugar, a massa impressa apresentada pelo texto - sem parágrafos - foi introduzida pelo chamado roman nouveau francês (1952), que antecedeu um pouco o livro de de Paula e já era tema de estudos do meu curso de Letras, em Literatura Francesa, no final dos 60. Não era, assim, recurso tão revolucionário.
Em segundo lugar, a despeito de conter em sua narrativa, personagens comunistas, agentes de repressão e espionagem, exércitos, guerrilheiros, CIA, nazistas e fascistas, o personagem-narrador (o texto é todo em primeira pessoa) é desprovido de ideologia, assim como o texto em sua totalidade. Diria mesmo que também não há Ética nas ações e nos comportamentos dos personagens na história narrada, apesar de atos por eles praticados que, aos nossos olhos, possam ter um quê de reprovação, como casos de pedofilia. Não há constrangimentos do personagem narrador em descrever suas ações neste sentido.
A seu turno, a fabulação fantasiosa e inverossímil, mais caótica que as histórias em quadrinhos de Robert Crumb - que veem à mente tão logo se começa a leitura -, não apresenta lógica, coerência ou sintaxe narrativa, parecendo produto de uma viagem psicodélica, movida por não sei que tipo de droga. E termina porque acaba, sem um desfecho que justifique o tempo que se gastou a ler. Como se todo o texto fosse produto de anotações inconsúteis juntadas, algum tempo depois, na composição do livro.
A narrativa rompe, também, com a lógica espacial, uma vez que, de uma frase para outra, a ação se desloca abruptamente de Brasília para a selva sul-americana, e daí para Hollywood, levando alguns personagens, abandonando outros, aparentemente sem um critério que se justifique na narrativa, a não ser a estilística do caos. Em boa parte, não se sabe mesmo onde ocorre a ação.
Já os personagens - figuras, sobretudo, do cinema americano das décadas de 50 e 60, com destaque para Marilyn Monroe, fixação do narrador - não guardam verossimilhança com pessoas, uma vez que morrem e revivem de forma aleatória no curso da história. Bem como se agigantam, se encolhem, inflam como balões e explodem, na narrativa alucinada do personagem-narrador.
Na linguagem literária propriamente dita, aquela de que o personagem-narrador se utiliza para contar a história e que estrutura a narrativa, é talvez onde estejam os maiores problemas, segundo meu ponto de vista.
O texto se faz arrastado pelo uso mais que exagerado - diria, mesmo, abusivo - do pronome sujeito, numa imitação tosca, e não vernácula, da sintaxe da língua inglesa. Há assim uma profusão de eu. Também repetem-se enfadonhamente palavras e expressões, em frases contíguas, produzindo uma dicção infantilizada e pesada estilisticamente, o que torna a leitura arrastada e maçante.
O exagero no uso da coordenação, em detrimento da subordinação, trabalha para que o texto, como estrutura frasal, se mostre pobre e incipiente, tal qual ocorre com alunos aprendendo a fazer redações.
Querer que tal tipo de frase seja inovadora é um equívoco. Sua estrutura está muito mais próxima à linguagem infantil do que da fala de um adulto razoavelmente desenvolto.
É como pretender, relativamente ao texto da música popular brasileira, descobrir avanços no texto do rap, do funk e do hip-hop, ou mesmo do chamado pagode romântico, diante da excelência poética que atingimos da década de 60 do século XX para cá. Ao contrário, penso mesmo que a poesia, ou letra, que acompanha estas novas manifestações se constitui numa regressão, numa involução, se comparada a qualquer texto produzido pela MPB.
Por todos e apenas esses motivos, o livro de José Agripino de Paula não faz falta a nenhum leitor ou a nenhuma biblioteca. Não vi, não senti e não vislumbrei em sua leitura nada do que Caetano disse, ou que justificasse a pretensa idolatria que despertou, quando do seu lançamento.
Desgraçadamente isto só vem demonstrar a distância que há entre as cabeças de ídolo e de fã.

15 de junho de 2011

HIPÓTESES


V. Kandkinsky (1866-1944). Improvisação.


se beijar a tua boca serei cuitelo
se morder o teu pescoço serei vampiro
se sugar os teus seios serei bezerro
se cheirar a tua pele serei perdigueiro
se lamber a tua redoma serei felino
se comer todo o teu corpo serei abutre

se não parar de delirar serei maluco

14 de junho de 2011

CORPOEMA


Escultura por Paulo Massena, em pousadadoescultor.com.

algum poema se constrói ao longo do corpo
com o mesmo suor
                                o mesmo cansaço
assim como a mesma emoção repetida
e se um se contorce
o outro retrocede e eriça
e se um se expande
 o outro se aglutina e ferve
: ambos matéria do mesmo existir

e o suor que mina dos poros
a língua que o sorve pele afora
os pelos lambidos
as mãos crispadas
os músculos retraídos
no desconforto macio de dois corpos ágeis
                                             a se acoplarem
: a solidão dos que dizem com os gestos
o poema-momento que o tempo elide

13 de junho de 2011

MOLDANDO A MASSA


Imagem em thirdandfairfax.
blogspot.com.

Lucília tricotava sua solteirice em dedos hábeis, junto à janela da sala, arremedo de câmara indiscreta com que captava os possíveis e os impossíveis de seus conterrâneos. Seu tricô tinha tanta maestria quanto sua língua viperina, o que lhe dava algum prestígio entre os seus.
Ninguém sabia ao certo sua idade: o corpo estava firme e o rosto ainda conservado. Contavam dela casos de noivados malsucedidos e trágicos, que justificavam sua vida solitária. Apesar de tudo, dava-se bem com todos sem discriminação, sem superioridades.

Apenas duas vezes por semana, abria sua janela indiscreta, já tarde, para deixar entrar com a aragem da noite o Manuel Padeiro e sua prodigiosa capacidade de dar forma à massa mais escorregadia e fazer cheirar até mesmo a casca mais fina da rosquinha amanteigada. Isso tudo antes de enfornar os pães que iam alimentar todos os cafés da manhã da vila de Santo Antônio da Liberdade.
Padeiro de verdade é aquele que amassa o pão!

12 de junho de 2011

CORAÇÃO DE FEIRA

Maduro e doce
Teu coração de fruta
Apodrece na banca da feira
Dos amores impossíveis
Irrealizáveis
Sem comprador que o queira

Primeiros sinais da putrefação
São as moscas que o sobrevoam
Teus sonhos mais pesados que o ar
Os delírios fúteis que povoam tua vida
À toa

Previsões de ventos frescos
Suaves garoas
Que te trariam colheita farta
Saúde boa
E muitas outras coisas que se contam
Para encher a vida de conforto
Estão agora expostos na barraca
Da feira dos amores tortos
Aqueles que só provam fracassos
Ou sobrevivem mui precariamente
Do acaso.

Imagem em 94fm.com.br.

11 de junho de 2011

SONHOS

Livres de nós todos
Os sonhos vão aos trambolhões aos poucos
Abrir buracos na camada de ozônio
– Dilacerados os corações tristonhos
Restam vazios cheios de senões –

Os sonhos voam como as pombas brancas
Que de Correia até os nossos dias
Seguem por aerovias de intransitáveis milhas
E abandonam todos os que sonham
Como se sonhar fosse um exercício estéril
Uma coisa tola um estado estranho
E é por isso que os sonhos
Dos sonhais
Voam para nunca mais
E nos deixam sempre com cara de antanho

Henri Cartier-Bresson, À beira do Marne, 1938 (em moma.org.)

10 de junho de 2011

O AVARENTO (OU: MOLIÈRE NÃO MORREU EM VÃO)

Naquele fim de semana, chegou ao fim da linha no pão-durismo. Comprou um franguinho, praticamente um pinto, para que a empregada fizesse assado com farofa, para o almoço de domingo. Impossível comer aquele inocente, canelinhas sapecadas, asinhas pedindo socorro, por ter tido uma morte tão prematura e inglória.
Ultimamente a doença da avareza estava abusando dele: cada vez aumentava de proporções.
Imagem em morfablog.com
Mas isso vinha de outrora. Para se ter uma ideia, quando tinha venda de secos e molhados na rua do cemitério, tirava com a faca a lasquinha da batata que passasse minimamente do peso pedido pelo freguês. Todos estranhavam seu comportamento.
Os filhos só foram descobrir que manteiga não é rançosa por natureza, já muito tempo depois, porque toda a que eles consumiam era a sobra da venda, que ele mandava na lata de cinco quilos borrada com os restos do produto.
- Mamãe, comi na casa da Joana uma manteiga com gosto diferente, que não amarga, nem agarra na boca. – disse uma filha.
- Isso é que é manteiga, minha filha. Não é essa porcaria que a gente come aqui em casa!
Agora, com mais idade, o vírus da sovinice atacava com força total.
Certa feita, voltou ao supermercado com uma sacola plástica com a água degelada do frango lá comprado, para exigir o equivalente em carne. Semelhantemente fez com o açougueiro da esquina. Após aparar cada nervurinha, cada aba de gordura dos bifes, foi ao açougue reclamar o mesmo peso em carne limpa.
Resolveu, a fim de não gastar o gás de seu botijão, cujo preço, segundo ele, andava pela hora da morte, que o frango de domingo, depois de temperado, fosse levado para assar na padaria, naquelas televisões de cachorro.
Nessa mesma padaria, depois de uma brilhante ideia que tivera, solicitou que lhe fossem dados os pés e os pescoços dos frangos vendidos ali, para com eles fazer canja. Os filhos, quando souberam, ficaram transtornados com a atitude e se dirigiram ao gerente, a fim de lhe solicitar que não atendesse ao seu pai.
Passou também a não pagar a conta d’água, porque estava chovendo muito e água é dádiva que cai do céu, sem que Deus cobre por isso. Dirigiu-se ao escritório da companhia, para reclamar das cartas de cobrança e ameaçava processar todo mundo.
Só comprava frutas e legumes no sacolão – duas laranjas, quatro jilós, um inhame, uma batata, uma beterraba –, em dia de promoção, quando ainda reclamava por mais descontos. E contava os palitos de fósforos da caixa, para exigir que estivessem na quantidade anotada no rótulo.
Tudo que fosse grátis, doado, ele queria. Assim tinha um embornal de dentaduras em casa, que ganhava de cada candidato a vereador do município. Viajava com frequência à cidade próxima, para ganhar aparelhos de surdez, também oferecidos por políticos. Nem mesmo a doação de um cobertor da Defesa Civil deixou de receber, ainda que não necessitasse. Justificou-se em casa, ao chegar com o cobertor, todo contornado com os dizeres “Defesa Civil/RJ”, afirmando que o cobertor estava sendo dado, não seria ele a se fazer de soberbo e não aceitar.
Colecionava remédios que ganhava da secretaria de saúde da cidade, mas não os tomava. Eram dados, então ele pegava.

Dia desses, duas adolescentes bateram à sua janela, com o livro de ouro do Boi Pintadinho Nação Maravilha. Convenceu-as a aceitar apenas um real. Foi lá dentro, pegou na gaveta uma moeda de cinquenta centavos e deu nome falso, para que elas não o identificassem corretamente entre os colaboradores.

Um dia, a filha o encostou na parede, tentando fazê-lo ver o tipo de vida que estava levando, a mesquinhez a que estava reduzindo seus últimos dias. Depois de muito se explicar, acabou por admitir que “isso é da gente”, como se fosse um órgão interno, único e insubstituível, ou um fatalismo do qual não se pudesse escapar, como nas antigas tragédias gregas.
Túmulo de Molière, no cemitério Pére-Lachaise, Paris.
Imagem colhida em pt.wikipedia.org.
Por um tipo assim, é que Molière está mais vivo do que nunca, embora morto e enterrado desde 1673, no cemitério parisiense de Père-Lachaise.