5 de junho de 2011

TEUS OLHOS

Teus olhos estão postos à janela de minhas tardes
De minhas noites sem solução
E das madrugadas de insônia.
Somente pela manhã de cada dia
O sol ilumina minhas retinas iludidas
Pela miragem que vem dos teus olhos.

Fecho meus olhos e a consistência dos sólidos
Se faz mais impalpável que todas as ilusões.

3 de junho de 2011

IRREMEDIAVELMENTE



(Em memória do amigo José Fernando.)

(Tânato, colhido em wikipedia.com.br.)
a morte morde a tarraxa do ataúde
e lá se vai meu amigo
na inexorável necessidade que temos
de deixar parentes e amigos
perdidos

a morte desce lentamente
por um moderno sistema de roldanas
prorrogando indefinidamente
i  r  r  e  m  e  d  i  a  v  e  l  m  e  n  t  e
o desamparo dos que ficam

e todos silenciam
impotentes
sem possibilidade de pôr uma pá de cal sobre a vida

há a imperiosa necessidade de sobreviver
há a desumana imposição de prosseguir

2 de junho de 2011

TUA ESTRELA SOLITÁRIA NOS CONDUZ

Uma época, meu filho Pedro tinha lá seus seis/sete anos – hoje é um jovem senhor de trinta e quatro – e sofria uma pressão terrível de meu sogro Beethoven e seus dois tios, Teteca e Dodote, flamenguistas enjoados como é comum, para que bandeasse de camisa e calção para o lado do time da Gávea.
Estávamos em Miracema, eu lia jornal na sala, enquanto ele sofria lavagem cerebral e pressão para trocar de time, na copa.
Lá vem ele em minha direção, pedindo se poderia ser flamenguista. Perguntei-lhe, então, se ele iria deixar o pai sozinho torcendo pelo Botafogo, no meio daquele bando de flamenguistas, e fingi que ia chorar. Ele, condoído, resolveu ficar do meu lado.
Meu sogro, o que mais pressionava, acusou-me de estar fazendo chantagem emocional. Reconheci que estava mesmo – não sou um cretino! –, mas lhe disse que eu merecia essa deferência do meu filho, já que lha pagava todas as contas, cuidava de sua vida e, pelo que eu sabia, ser botafoguense estava no sangue da família, pelo menos desde meu avô paterno, que tinha nascido lá pelo século XIX, talvez antes mesmo de existir o Botafogo.
Voltamos para Niterói. Lá numa bela tarde de sexta-feira, ao descer do ônibus no centro da cidade, meu filho veio com a mesma cantilena ensaiada em Miracema:
- Pai, posso ser flamenguista? Só um pouquinho?
Cara, isso parece vírus de gripe ou coisa mais grave! Tentei argumentar, mas ele me disse que era porque o avô tinha pedido. Sabem como é neto com avô, mesmo sendo este flamenguista!
Relutei um pouco, mas cedi à pressão, para que ele não ficasse ainda mais atormentado. Porém estabeleci uma condição: assim que seu novo time perdesse, ele voltaria a ser botafoguense e nunca mais tocaria no assunto.
- Está combinado assim?
- Está, pai. Se o Flamengo perder, eu volto a ser Botafogo.
Como há coisas que só acontecem ao Botafogo e, por consequência, aos botafoguenses, no domingo seguinte, o depois de amanhã daquela sexta-feira miserenta, o time da Gávea levou uma surra exemplar, não me lembro de para que time, mas isso é o que menos importa para esta história.
Acabado o jogo, exigi dele que imediatamente voltasse ao ninho de onde nunca deveria ter saído.
Pedro nunca mais tocou no assunto e se tornou um dos botafoguenses mais desesperados que já vi torcer.
Hoje leva seus filhos, Gabriela, de seis anos, e Bruno, de dois, a jogos no Engenhão – como eu fazia com ele –, para ensinar também aos pequenos que há certos sofrimentos que dão um prazer danado, como o de torcer por um time que teve Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Jairzinho, Gérson, Quarentinha, Manga, Marinho Chagas, Paulo Valentim, Afonsinho, Josimar, Zagalo, Paulo César Caju, Roberto, Waltencir, Paulinho Criciúma, Túlio Maravilha, Nilson Dias, Mauro Galvão, Zequinha, Maurício, Donizete, dentre outros, e foi diretamente responsável pelos dois primeiros campeonatos mundiais de futebol da seleção brasileira, os de l958 e l962, pelos craques que forneceu.
Se agora nossa equipe é fraca, é justamente o momento de se fazer com os novos torcedores o que fiz com ele: mostrar-lhes que há certas paixões em nossa vida que nos pedem quase tudo e pouco retribuem. Porém, quando retribuem, o fazem de uma forma avassaladora. E são, certamente, as mais duradouras. Como se fossem nossos filhos, nossos netos!
(Após pedir autorização ao Pedro para postar este texto, ele me respondeu por e-mail: "Apesar de jurar até a morte q  a história é mentira, eu autorizo, paizão. Bjs")

1 de junho de 2011

NOITES DE JUNHO

O que faz junho no calendário?
Traz o falso inverno tropical
Que não esfria
Ou se acende nas fogueiras de São João?
Acaba o semestre mal começado
Com a velocidade destes tempos modernos
Ou nos precipita ao fim do ano?
O que faz junho no calendário
Que não esteja previsto
Na imprevisão meteorológica atual?
Esfria um pouco ou esquenta os corações?
O vinho desce generoso nas gargantas secas,
Molham-se os olhos com o sereno
Das noites enluaradas do mês de junho.
Somos todos caipiramente felizes
No mês de junho,
Que parece reafirmar nossa condição intrínseca
De carregar uma alma brasileira
Decorada com bandeirinhas coloridas de Volpi
E balões iluminados de Guignard
Nos céus estrelados de uma cidade do interior.

Alfredo Volpi, Bandeiras e mastro (déc. 50, séc. XX).

31 de maio de 2011

EXORTAÇÃO


Vamos construir sobre o desespero cotidiano
Uma ponte de metal e sonho que vá dar no nada
Ou no nirvana mundano que esperamos encontrar
Na próxima esquina no próximo ano
E deixar o atoleiro fétido em que mergulhamos
Entre emanações de gases tóxicos e iguanas
E assumir a praça com a claridade da alegria.
Vamos destruir até transformar em escombros
Esse arremedo de projetos e de planos
E levar no roldão dos nossos tombos
O medo a incerteza e a insegurança
E preencher o espaço da baía
Com o suor dos nossos corpos exuberantes.
Vamos cantar dançar alucinar como nunca dantes
E conseguir que nossos filhos nossos netos
Vivam num país um pouco mais decente.
Imagem em moodle.ag-sg.net.

29 de maio de 2011

VELHA ESCOLA

(Para João Carlos Duarte de Souza, amigo de infância, in memoriam, e Dona Thalita, professora.)

A velha escola está plantada ali no morro
No alto do morro
A sugerir que seus alunos devam subir
Devam galgar
A vida e o morro
O conhecimento e o morro

Lá vão os alunos de azul e branco
De pés no chão
(Sapato era coisa de festa)
Subindo o morro
Galgando a vida

A escola está plantada entre árvores
Sob o azul e branco do céu
Fervilhando de criança

Nas salas o burburinho
Pela festa de aniversário da professora
(O meu presente se espatifou
Com meu coração na entrada)

Lá está a escola no alto do morro
Toda enfeitada de bandeirinhas
A fogueira acesa
A quadrilha girando no pátio
A voz do seu Alcino
A sanfona do tio Tatão
E o toque gostoso do corpo das meninas
Colhida em eb1.figueiredo-alva.rcts.pt
(O máximo permitido por minha timidez
Era este gosto suave da infância)

A escola está lá plantada no alto do morro
Convidando-nos a subir sempre
Essa escola que plantou em cada um
O desejo de subir sempre
Até chegar ao azul e branco do céu



28 de maio de 2011

ALGUMAS FRASES QUE PODERIAM SER CÉLEBRES

Retrato falado do vendedor
que bateu à minha porta
(gartic.com.br)
Comprei, há pouco, uma parafernália eletrônica oferecida na minha porta por vendedor bem apessoado, bem vestido, bem escanhoado, que me garantia que ela era capaz de recuperar os sons primários do Universo.
Como sempre fui muito interessado por essas coisas, paguei o que me foi pedido e tratei de ligar a tralha. Porém, em vez de captar os barulhos produzidos pelo Big Bang primordial, como esperado, ela começou a captar frases ditas em diversas épocas e oportunidades, por personagens famosos e nem tanto, as quais, parece-me, podem explicar muitos fatos e acontecimentos da história da humanidade.
É preciso informar que, cada vez que ligo a traquitana, ela capta em modo aleatório os sons que tiveram sua frequência atenuada, mas que não se perderam e continuam a vagar no espaço. Por isso é que as frases não estão na ordem cronológica de sua produção.
Eis algumas.
- Amaury, glamour aqui em casa não! Por que você não lavou a panela em que fez o mexido ontem à noite?! (Mulher do Amaury Júnior, em casa, no domingo de manhã, depois de uma carraspana no high-society paulistano em que a comida só fez figuração, fazendo com que a fome noturna fosse aplacada com o mexido das sobras da geladeira e guaraná natural.)
- Sexta-feira, no mais tardar, eu pago minha dívida com você, Gamaliel. Hoje mesmo, vou fazer um servicinho extra que me vai render as trinta moedas que lhe devo. (Judas Iscariotes, para Gamaliel, proprietário de empório em Jerusalém da Galileia, em que o primeiro comprava com caderneta de fiado.)
- Quincas, veja bem esse grupo com quem você anda se encontrando às escondidas. Veja bem, Quincas, pois até Cristo, que era filho de Deus, encontrou um traidor. (Amigo carioca de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em casa de quem este estava escondido nos primeiros dias de maio de 1789, um pouco antes de se encontrar com Joaquim Silvério e ser preso.)
- Luisinho, se com os dez dedos você só chegou a metalúrgico, com menos um e sem estudo você não conseguirá mais nenhum emprego na vida, visse! Você vai ter de ser sindicalista, visse! (Dona Eurídice, ao seu filho Luís Inácio da Silva, logo após o acidente em que ele perdeu o dedo mínimo da mão esquerda.)
- Isaac, não me venha com essa desculpa de que teve uma grande ideia, quando a maçã caiu na sua cabeça. Peguei você novamente dormindo no pomar, seu preguiçoso! (Hannah Ayscough Newton, mãe de Isaac Newton, ao procurá-lo por toda a casa, em Woolsthorpe, e ouvir dele a teoria da lei da gravitação universal.)
- Mamãe, aposto com a senhora que aquele miserável do Pedro não foi nada para as Índias. Aposto que se desviou e foi para alguma praia de nudistas e depois vai chegar aqui com histórias mirabolantes, cheio de novidades. (Dona Isabel de Castro, noiva e futura esposa de Pedro Álvares Cabral, já preocupada com as viagens constantes do gajo.)
- Karl, você sempre com essa mania de redigir manifestos. Pare com isto!  Vai fazer alguma coisa para ganhar dinheiro! Aposto que este também não vai ter a mínima repercussão! (Jenny von Westphalen, esposa de Karl Marx, preocupada com as péssimas condições materiais para a criação dos cinco filhos do casal.)
- Giordano, sem querer fazer piada de mau gosto, você ainda vai-se queimar com estas ideias revolucionárias que anda proclamando aos quatro ventos. Cuidado com essas ideias estapafúrdias! (Giovanni Mocenigo, comerciante veneziano que, não atendido por Giordano Bruno em suas pretensões, alertou vagamente o filósofo, para a traição que ele próprio lhe armaria.)

Desenho por Tinoni
(casadotinoni.blogspot.com)

- Nero, menino peralta, pare de brincar com fogo! Você ainda vai acabar incendiando a casa! (Agripina, mãe do futuro imperador romano, já dado à pirotecnia desde menino.)
- César, não sei por que você foi trazer da Gália esse punhal de presente para o Brutus. Esse menino anda metido com uma turma barra pesada e pode acabar fazendo mau uso dele. (Calpurnia Pisonis, esposa de Caio Júlio César, imperador romano.)
- Pai, tendes certeza de que esta missão que me dais naquele minúsculo planeta azul sem importância, perdido na Via Láctea, vai dar certo? Aquele povo é muito atrasado e hostil, Pai. Mas, se é assim que quereis, seja feita a vossa vontade. (Vocês sabem quem são os interlocutores.)
- Não venha com essa desculpa de que vai sair com os amigos só para lascar umas pedras, Neandertal. Sei muito bem que você vai se meter a caçar mamutes e tigres-de-dente-de-sabre. Olhe que você tem filhos pra criar. Pense no futuro, homem! (Mulher das cavernas, já cansada de ouvir desculpas do homem das cavernas, que não tinha nenhuma perspectiva de futuro para a raça e só gostava de ir à caça. [Ainda não havia futebol na época e os botequins não tinham sido inventados.])
- Estou vendo aqui na sua ficha cadastral, Sr. Santos Dumont, que o senhor solicita empréstimo para custear projeto que tem como objetivo fazer uma máquina mais pesada que o ar voar, não é mesmo? Infelizmente, Sr. Dumont, o nosso banco não vai investir num projeto inviável desses. Isto está fadado ao fracasso! (Gerente de agência de um banco de Minas Gerais, sem acreditar nos projetos visionários de Alberto Santos Dumont.)
- Zifio, num aconseio ocê chamá o povo pra botá as cô da bandera nesse domingo. Esse domingo num tá bão, zifio! Pode dá tudo errado. Os caboco tão me dizeno que isso pode dá confusão, zifio. Pensa notra coisa. Essa ideia tem tudo pra dá xabu, zifio. Oia o que ô todo dizeno, zifio. (Pai de santo, com terreiro perto da Casa da Dinda, durante sessão, para um ex-presidente teimoso que tivera a grande ideia de chamar o povo para apoiá-lo, vestindo as cores da bandeira do Brasil, num domingo feliz em 1992.)
- Majestade, o Sindicato dos Padeiros pediu para informar que não há mais farinha para os pães e os brioches. Sem pão, o povo fica revoltado, e isso é um perigo, Majestade! (Visconde de Calonne, ministro, ao rei Luís XVI, no dia 13 de julho de l789, em Versalhes, nos arredores de Paris, França, antes de o caldo entornar, a jiripoca piar e a chapa esquentar em bleu, blanc, rouge.)