31 de maio de 2011

EXORTAÇÃO


Vamos construir sobre o desespero cotidiano
Uma ponte de metal e sonho que vá dar no nada
Ou no nirvana mundano que esperamos encontrar
Na próxima esquina no próximo ano
E deixar o atoleiro fétido em que mergulhamos
Entre emanações de gases tóxicos e iguanas
E assumir a praça com a claridade da alegria.
Vamos destruir até transformar em escombros
Esse arremedo de projetos e de planos
E levar no roldão dos nossos tombos
O medo a incerteza e a insegurança
E preencher o espaço da baía
Com o suor dos nossos corpos exuberantes.
Vamos cantar dançar alucinar como nunca dantes
E conseguir que nossos filhos nossos netos
Vivam num país um pouco mais decente.
Imagem em moodle.ag-sg.net.

29 de maio de 2011

VELHA ESCOLA

(Para João Carlos Duarte de Souza, amigo de infância, in memoriam, e Dona Thalita, professora.)

A velha escola está plantada ali no morro
No alto do morro
A sugerir que seus alunos devam subir
Devam galgar
A vida e o morro
O conhecimento e o morro

Lá vão os alunos de azul e branco
De pés no chão
(Sapato era coisa de festa)
Subindo o morro
Galgando a vida

A escola está plantada entre árvores
Sob o azul e branco do céu
Fervilhando de criança

Nas salas o burburinho
Pela festa de aniversário da professora
(O meu presente se espatifou
Com meu coração na entrada)

Lá está a escola no alto do morro
Toda enfeitada de bandeirinhas
A fogueira acesa
A quadrilha girando no pátio
A voz do seu Alcino
A sanfona do tio Tatão
E o toque gostoso do corpo das meninas
Colhida em eb1.figueiredo-alva.rcts.pt
(O máximo permitido por minha timidez
Era este gosto suave da infância)

A escola está lá plantada no alto do morro
Convidando-nos a subir sempre
Essa escola que plantou em cada um
O desejo de subir sempre
Até chegar ao azul e branco do céu



28 de maio de 2011

ALGUMAS FRASES QUE PODERIAM SER CÉLEBRES

Retrato falado do vendedor
que bateu à minha porta
(gartic.com.br)
Comprei, há pouco, uma parafernália eletrônica oferecida na minha porta por vendedor bem apessoado, bem vestido, bem escanhoado, que me garantia que ela era capaz de recuperar os sons primários do Universo.
Como sempre fui muito interessado por essas coisas, paguei o que me foi pedido e tratei de ligar a tralha. Porém, em vez de captar os barulhos produzidos pelo Big Bang primordial, como esperado, ela começou a captar frases ditas em diversas épocas e oportunidades, por personagens famosos e nem tanto, as quais, parece-me, podem explicar muitos fatos e acontecimentos da história da humanidade.
É preciso informar que, cada vez que ligo a traquitana, ela capta em modo aleatório os sons que tiveram sua frequência atenuada, mas que não se perderam e continuam a vagar no espaço. Por isso é que as frases não estão na ordem cronológica de sua produção.
Eis algumas.
- Amaury, glamour aqui em casa não! Por que você não lavou a panela em que fez o mexido ontem à noite?! (Mulher do Amaury Júnior, em casa, no domingo de manhã, depois de uma carraspana no high-society paulistano em que a comida só fez figuração, fazendo com que a fome noturna fosse aplacada com o mexido das sobras da geladeira e guaraná natural.)
- Sexta-feira, no mais tardar, eu pago minha dívida com você, Gamaliel. Hoje mesmo, vou fazer um servicinho extra que me vai render as trinta moedas que lhe devo. (Judas Iscariotes, para Gamaliel, proprietário de empório em Jerusalém da Galileia, em que o primeiro comprava com caderneta de fiado.)
- Quincas, veja bem esse grupo com quem você anda se encontrando às escondidas. Veja bem, Quincas, pois até Cristo, que era filho de Deus, encontrou um traidor. (Amigo carioca de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em casa de quem este estava escondido nos primeiros dias de maio de 1789, um pouco antes de se encontrar com Joaquim Silvério e ser preso.)
- Luisinho, se com os dez dedos você só chegou a metalúrgico, com menos um e sem estudo você não conseguirá mais nenhum emprego na vida, visse! Você vai ter de ser sindicalista, visse! (Dona Eurídice, ao seu filho Luís Inácio da Silva, logo após o acidente em que ele perdeu o dedo mínimo da mão esquerda.)
- Isaac, não me venha com essa desculpa de que teve uma grande ideia, quando a maçã caiu na sua cabeça. Peguei você novamente dormindo no pomar, seu preguiçoso! (Hannah Ayscough Newton, mãe de Isaac Newton, ao procurá-lo por toda a casa, em Woolsthorpe, e ouvir dele a teoria da lei da gravitação universal.)
- Mamãe, aposto com a senhora que aquele miserável do Pedro não foi nada para as Índias. Aposto que se desviou e foi para alguma praia de nudistas e depois vai chegar aqui com histórias mirabolantes, cheio de novidades. (Dona Isabel de Castro, noiva e futura esposa de Pedro Álvares Cabral, já preocupada com as viagens constantes do gajo.)
- Karl, você sempre com essa mania de redigir manifestos. Pare com isto!  Vai fazer alguma coisa para ganhar dinheiro! Aposto que este também não vai ter a mínima repercussão! (Jenny von Westphalen, esposa de Karl Marx, preocupada com as péssimas condições materiais para a criação dos cinco filhos do casal.)
- Giordano, sem querer fazer piada de mau gosto, você ainda vai-se queimar com estas ideias revolucionárias que anda proclamando aos quatro ventos. Cuidado com essas ideias estapafúrdias! (Giovanni Mocenigo, comerciante veneziano que, não atendido por Giordano Bruno em suas pretensões, alertou vagamente o filósofo, para a traição que ele próprio lhe armaria.)

Desenho por Tinoni
(casadotinoni.blogspot.com)

- Nero, menino peralta, pare de brincar com fogo! Você ainda vai acabar incendiando a casa! (Agripina, mãe do futuro imperador romano, já dado à pirotecnia desde menino.)
- César, não sei por que você foi trazer da Gália esse punhal de presente para o Brutus. Esse menino anda metido com uma turma barra pesada e pode acabar fazendo mau uso dele. (Calpurnia Pisonis, esposa de Caio Júlio César, imperador romano.)
- Pai, tendes certeza de que esta missão que me dais naquele minúsculo planeta azul sem importância, perdido na Via Láctea, vai dar certo? Aquele povo é muito atrasado e hostil, Pai. Mas, se é assim que quereis, seja feita a vossa vontade. (Vocês sabem quem são os interlocutores.)
- Não venha com essa desculpa de que vai sair com os amigos só para lascar umas pedras, Neandertal. Sei muito bem que você vai se meter a caçar mamutes e tigres-de-dente-de-sabre. Olhe que você tem filhos pra criar. Pense no futuro, homem! (Mulher das cavernas, já cansada de ouvir desculpas do homem das cavernas, que não tinha nenhuma perspectiva de futuro para a raça e só gostava de ir à caça. [Ainda não havia futebol na época e os botequins não tinham sido inventados.])
- Estou vendo aqui na sua ficha cadastral, Sr. Santos Dumont, que o senhor solicita empréstimo para custear projeto que tem como objetivo fazer uma máquina mais pesada que o ar voar, não é mesmo? Infelizmente, Sr. Dumont, o nosso banco não vai investir num projeto inviável desses. Isto está fadado ao fracasso! (Gerente de agência de um banco de Minas Gerais, sem acreditar nos projetos visionários de Alberto Santos Dumont.)
- Zifio, num aconseio ocê chamá o povo pra botá as cô da bandera nesse domingo. Esse domingo num tá bão, zifio! Pode dá tudo errado. Os caboco tão me dizeno que isso pode dá confusão, zifio. Pensa notra coisa. Essa ideia tem tudo pra dá xabu, zifio. Oia o que ô todo dizeno, zifio. (Pai de santo, com terreiro perto da Casa da Dinda, durante sessão, para um ex-presidente teimoso que tivera a grande ideia de chamar o povo para apoiá-lo, vestindo as cores da bandeira do Brasil, num domingo feliz em 1992.)
- Majestade, o Sindicato dos Padeiros pediu para informar que não há mais farinha para os pães e os brioches. Sem pão, o povo fica revoltado, e isso é um perigo, Majestade! (Visconde de Calonne, ministro, ao rei Luís XVI, no dia 13 de julho de l789, em Versalhes, nos arredores de Paris, França, antes de o caldo entornar, a jiripoca piar e a chapa esquentar em bleu, blanc, rouge.)

27 de maio de 2011

DILETO AMIGO DO PEITO

Dileto amigo do peito,
Defeito que eu carrego
Que pode nem ser defeito
É esta falta de jeito,
Meio chegado a matuto,
Desconfiado de tudo,
Cheio de manha, que um dia,
Sem que me dê por achado,
Veja não haver outro meio
De enfrentar com coragem
Os fantasmas, as visagens,
Que a vida nos prepara
E acabe metendo a cara
Para afrontar os perigos,
Porque sei que, com amigos,
Tudo fica bem mais fácil.
E assim, nesta batida,
Levarei a vida inteira,
Pois, quando chegar o fim,
Na viagem derradeira,
Aquela que não tem jeito,
Terei a velar por mim
Os meus amigos do peito.

Foto de Nathan Myhrvold(edge.org).

26 de maio de 2011

VEJAM SÓ QUE SONHO ESTRANHO

Vejam se é possível haver um sonho assim.
Um dia um trabalhador, de ócio,
Encontra-se na praça em que passeia
Com o ínclito senhor Palocci
E lhe propõe certo negócio:
- Serei seu sócio, Senhor Ministro!
Palocci do alto de sua sapiência
E sabedor da pretensa esperteza de seu “sócio”,
Que na verdade não passa de um néscio,
Diz-lhe: - Só se for como palhaço.
- Palhaço não posso, Excelência,
Porque o que há de palhaço nessa joça
É troço que as minhas contas ultrapassa!
E Palocci, que de palhaço entende à beça,
Pois faz de todos nós o que lhe apeteça,
Julga que o pobre homem é um beócio
Com a fuça de quem sofre de bócio,
E se exime de dizer o mais que possa,
Pois para ele o que mais importa
É o que possa acrescer às suas posses
E o quanto possa!
Imagem em africaempoesia.blogspot.com.
E o resto é troça!
É muito milho para pouca roça!
É muita novidade para tão exígua bossa!
E para fechar assim essa conversa
Disse o tal ministro assaz com pressa:
- Quem quiser que faça o que faço,
Eu sei cuidar dos meus negócios.
Por isso estamos aqui com cara de palhaço.

25 de maio de 2011

QUARENTA ANOS DE UMA COMEMORAÇÃO MUITO PESSOAL

Estão-se completando, neste escorregadio 2011, quarenta anos em que me formei no curso de Letras do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, em Niterói.
É interessante observar, ao fazer um ligeiro retrospecto deste tempo, o quanto a formação acadêmica teve de decisivo na minha visão de mundo.
Vinha de uma cidade do interior, mais precisamente de um distrito de um município interiorano, com todas as características dos nativos: o jeito de falar (um pouco chegado ao mineiro), o modo de me vestir, os hábitos e costumes e a visão de mundo.
Mesmo lá morando, sempre fui interessado em coisas mais amplas. Vivia na vila, mas queria o mundo. Era um menino e um jovem simples, porém ansiava por conhecimento.
Como disse num poema que fiz sobre a minha escola primária, a letra impressa me seduziu, e, desde cedo, fui encantado pela linguagem, pelos mistérios da palavra. Lembro-me, por exemplo, de quando ouvi a palavra cafajeste pela primeira vez da boca de meu avô Chico Albino. Tenho ainda na memória o jeito calmo, a fala mansa e a dicção perfeita de meu tio-avô João Pinto. Espantei-me certa vez, ao ouvir de meu pai que um conhecido seu “tinha dado com os costados na cerca”, eufemismo para “morreu”, expressão que ele, com um sorriso, me explicou.
Assim não titubeei em vir para Niterói, abrindo mão de uma nomeação para o Banco do Brasil em 1966, com o objetivo de fazer Letras.
Como estava dizendo acima, algumas matérias acadêmicas me fizeram mudar radicalmente minha concepção de mundo e da sociedade humana. Uma delas foi a Linguística, que tinha à frente o professor Carlos Eduardo Falcão Uchôa, de quem os alunos se tornaram admiradores pela capacidade e competência. Como seu assistente, na época principiante, o dedicado Luís Martins. Outra, ou antes, outras foram as diversas Literaturas, com suas abordagens do fenômeno literário sempre visto como manifestação de um momento histórico e de uma cultura em particular. Sobretudo a Literatura Francesa, com as professoras Lilian Pestre de Almeida e Therezinha Areas, em que tal abordagem era a pedra de toque para o entendimento de obras dos mais diversos períodos. Não se estudava nenhum autor, nenhuma obra ou corrente literária, sem antes conhecer o momento histórico que lhes tinha servido de pano de fundo.
Àquela altura, o Estruturalismo estava no início de sua aceitação nos estudos acadêmicos e, na Literatura, começava, de certa forma, a se desprezar este tipo de abordagem, ao dar prioridade ao texto literário em si, como objeto acabado, abstraído de seu contexto histórico.
Em Linguística, seu papel foi determinante para o entendimento do fenômeno da linguagem, com uma visão científica mais consistente. Porém na área da Literatura talvez tenha abdicado em demasia da importância das influências culturais geradoras do texto literário, embora tenha fornecido instrumentos seguros para o entendimento do fazer literário. Há pouco, Tzvetan Todorov, um dos mais importantes teóricos de então, pediu desculpas pela influência que certos textos seus tenham provocado quanto a este aspecto, justificando-os como produtos da produção acadêmica devida pelos pesquisadores patrocinados pelo dinheiro público francês.
Não sei se todos os que se formaram seguindo sua visão viram a retratação tardia de Todorov.
À época, como me dediquei especificamente à Língua e não à Literatura, julguei sua abordagem um metatexto de sofisticação estéril: a Teoria Literária começava a ver seu próprio umbigo. Depois não sei como ficou, porque me destinei apenas ao ensino de nossa língua materna, a partir dos ensinamentos e das orientações seguras de professores como Maximiano de Carvalho e Silva, Walter de Castro, Rosalvo do Valle, Aloísio Manna, Marlene Mendes, que seguiam a linhagem acadêmica de Souza da Silveira, Serafim da Silva Neto, Mattoso Câmara Júnior e Sílvio Elia, dentre os mais eminentes.
Ao lado de todos eles, incluídos os professores de Língua Latina, Língua Francesa, os da área pedagógica, usufruía da convivência inovadora e profícua com os colegas de turma e de curso. Fiz Português-Francês, cuja turma era pequena. Este curso tinha a fama de ser muito exigente, e a maioria dos alunos, a partir do segundo ano, optava por Português-Inglês e Português-Literatura.
Logomarca criada por
Miguel Coelho.
Por este motivo, lembro-me dos nomes de todos os meus colegas de bateau ivre*: Aldany, Elisalva, Imara Reis, Luiza, Zezé, Lúcia Magarinos, Claudia Chicralla e Alcina (à época já uma senhora de cabelos grisalhos, cheia de disposição). E outros de turmas diversas: Maria Eunice, Ângela e Dayse Bueno, Ângela Caldas, Corina Carap, Marília, Conchita, Glória, Celso, Tânia, Isabel, Mary e Osvaldo, Suely e Fernando Gualda, Gondim, Deila, Paulo Popp, Sussuca, Jorru, Cláudio, José Fernando, Eliana Bueno, Percy, Marisa, Naide, Manitinha, Vera Lúcia, Riva, Cyana, Jayro, Rogério, Eduardo, Maria Luiza, Carlos, Edson, Padre Osvaldo e os funcionários José Torres e Miguel Coelho, este último multiartista consagrado na cidade, e muitos outros dos quais guardo a imagem, mas cujos nomes estão escondidos em algum bit descansado de minha memória. De alguns deles ainda mantenho a amizade até hoje.
A todos eles, que tiveram sua parcela de contribuição na minha vivência, dedico este texto em que, particularmente e de forma bastante íntima, comemoro os quarenta anos de um tempo que foi decisivo na minha vida.
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(*Le bateau ivre, célebre poema de Arthur Rimbaud, poeta francês do século XIX, responsável por uma revolução na poesia ocidental.)

24 de maio de 2011

LABORATÓRIO POÉTICO

toma-se a palavra
massa sonora combinada com a palavra massa sonora
num ritmo inusitado.
puxa-se a ideia que subjaz
ao som ao balanço da frase.
de posse do ritmo
as palavra surgem como carneirinhos enfileirados
ou como manada de bois em louca correria
ou voam como gaivotas
ao som do vento que corta o ar
ou caem pesadas como elefantes
amedrontados pelo rato
ou penetram percucientes
tal raio laser filete de sol
Imagem em olharmais.blogspot.com.
ou chapam como cara batida no poste.
por fim doma-se o acasalamento
do som ao significado
no embalo do verso que se faz.
só então toma-se o papel para escrever.
depois ler reler mexer reler remexer
até aparecer sua face verdadeira
aquela que não esconde a ideia
antes a revela por meios translúcidos:
iluminação que toda palavra deve ser.