24 de maio de 2011

LABORATÓRIO POÉTICO

toma-se a palavra
massa sonora combinada com a palavra massa sonora
num ritmo inusitado.
puxa-se a ideia que subjaz
ao som ao balanço da frase.
de posse do ritmo
as palavra surgem como carneirinhos enfileirados
ou como manada de bois em louca correria
ou voam como gaivotas
ao som do vento que corta o ar
ou caem pesadas como elefantes
amedrontados pelo rato
ou penetram percucientes
tal raio laser filete de sol
Imagem em olharmais.blogspot.com.
ou chapam como cara batida no poste.
por fim doma-se o acasalamento
do som ao significado
no embalo do verso que se faz.
só então toma-se o papel para escrever.
depois ler reler mexer reler remexer
até aparecer sua face verdadeira
aquela que não esconde a ideia
antes a revela por meios translúcidos:
iluminação que toda palavra deve ser.

23 de maio de 2011

MEUS VERSOS

meus versos são reversos de mim
se neles padeço – na vida enlouqueço de alegria
se neles rio – corre em meu peito um caudal de dor
se neles devaneio – não há nuvens no meu ser
se neles concretizo – em mim mesmo só poesia
e assim vou sendo sempre o contrário o oposto
sempre do fim pro começo quando não quero
ou quando posso de lá para cá cheio de avessos
por isso é que a eles recorro quando não preciso
porque se deles necessito nem se prestam a isso


Van Gogh, Paisagem sob um céu tormentoso, 1888.
Fundação Gianadda em Martigny, Suíça.


22 de maio de 2011

APELIDOS (DES)INTERESSANTES

Os apelidos que se aplicam às pessoas normalmente têm caráter depreciativo. Senão iríamos chamá-las por seus nomes próprios, ou onde ficaria nosso desejo irrefreável para menosprezar o próximo? Outros, no entanto, provêm da profissão, que também foi uma fonte para a criação de sobrenomes em diversas línguas, durante a Idade Média. Neste caso, por exemplo, Ferreira ilustra bem em português. Todos eles, no entanto, detêm sua carga de curiosidade e humor, ainda que de gosto duvidoso. Por esse motivo, resolvi relacionar alguns que conheci durante a vida, os quais, acho, podem divertir um pouco, apesar de muitos terem machucado seus donos. Mas o que se há de fazer contra essa força incontrolável que é a opinião pública, ou antes, a maledicência humana?

(Imagem em obrasileirinho.com.br)
Fincagulha – Aplicador de injeções de uma farmácia de Miracema. Mão leve e precisa, era procurado pelas pessoas por sua habilidade.
Galo Cego – Portador de um problema de derramamento no olho direito, de Carabuçu. Quando garoto, sentia que o apelido era muito dolorido, muito cruel para ele.

Zequinha Escabufado – Tinha as pernas mal ajambradas, como que tivessem levado uma forte pancada de um dos lados, na altura dos joelhos. Não obstante isso, era o melhor ponta direita do time do Soca-Terreiro, da fazenda do Jacó. Na vila, escabufado tinha o sentido de coisa mal arrumada, mal ajambrada.
Antônio Canela de Ferro – Num jogo de futebol, no terreirão de café da fazenda do Jacó, com uma furada, quebrou com a canela uma das traves do gol, feitas de bambu. O apelido foi aplicado logo após o lance.
Toniquinho Lava Bunda – Quando ainda menino, descobriram que Toniquinho, depois de fazer suas necessidades atrás de um moita no sítio em que morava, ia lavar a bunda com a água da cacimba que a família usava para beber. Levou um corretivo, mas o apelido o acompanhou até a morte, já em idade provecta.
Ciloca Pé de Rodo – Meio de campo do glorioso Liberdade Esporte Clube que jogava sem chuteiras, porque nenhuma delas entrava em seus pés meio arredondados. Ciloca já era o apelido de seu nome, Hercílio.  
(Em olharcomcalma.bogspot.com.)
Anoredino Pé de Chumbo – Este, com um chute forte, mandou a bola tão longe e sem direção, num jogo de várzea, que foi preciso atravessar o ribeirão a nado, para que a partida continuasse. Atribuíram o peso do chumbo ao seu pé poderoso.
Aqui Tá Alto, Aqui Tá Fundo – Colega de escola secundária em Bom Jesus do Norte (ES), que, num acidente, ficou com a perna esquerda atrofiada. Andava manquitolando. Um colega gozador lhe deu o apelido.

Mau Hálito Pimentel – Era baixinho. Por isso o colega espirituoso deu-lhe esse apelido, alegando que a bunda ficava muito próxima da boca, o que confundia as pessoas, achando que ele tivesse mau hálito. Embora baixinho, mas muito forte, o apelido não passou de duas semanas.
Antônio Cu de Burro – O apelido foi proveniente da frase, dita em tom lancinante, após um equívoco: ao tentar manter relações sexuais em noite escura, nos pastos de Carabuçu, com uma mulinha viciada, deflorou um burro, que fechou as pregas lá dele na estrovenga do Antônio. Então, gritou para o colega de folganças: "-É cu de burro, Quió!" Daí em diante, passou a ser assim chamado. O colega de aventuras, Quió (apelido de Belchior), que ficou segurando o pobre equídeo, incumbiu-se de espalhar o fato na vila. O apelido encurtava para De Burro, quando ele estava próximo a senhoras e senhoritas, em sinal de respeito.
Zé Pirinconto – Colega de escola primária que sempre dizia pirinconto. “Zé, já fez o dever?” E ele: “Pirinconto, não!” “Seu pai já colheu o milho?” “Pirinconto, não”. Então virou o Zé Pirinconto, mas ele odiava que assim o chamassem.
Mané Pindoba – Apelido extraído da função exercida: tirava pindoba para cobertura de casebres e barracas de festas de São João na vila. Depois apareceu o gerente do posto do antigo BANERJ da vila que tinha o mesmo apelido.
(Imagem em gartic.com.br.)
Jacy Vorta Égua – Jacy foi resolver suas necessidades sexuais com égua bem apessoada. Levou-a para o barranco, como de praxe, e se preparou todo. Quando já estava em ponto de bala, a tímida equina se retirou calmamente da beira do barranco. Ele, desesperado, começou a gritar, no sotaque do povo do interior: "Vorta, égua! Vorta, égua!" Na época, prometeu dar tiro em quem assim o chamasse. Depois sumiu da vila, para nunca mais.
Filhinho Carijó – Membro de uma grande família de descendência alemã, de sobrenome Schuab, adaptado de Schwab, recebeu o apelido em virtude das sardas que tinha, que lembravam a galinha carijó, toda cheia de pintas. Foi um dos beques mais ignorantes que já vi jogar. Com ele, ou passava a bola, ou o jogador. Os dois juntos, jamais! Ele mesmo dizia isso, às gargalhadas.
Valter Matinada – Fazendeiro em Carabuçu, tricolor doente, tinha a voz alguns decibéis acima da dos demais mortais. Falava e ria vários tons acima dos outros. E o mais interessante: não tinha problemas de audição. Por isso o apelido de Matinada, como o galo que acorda as pessoas de manhãzinha. Extremamente bem humorado, era comum ouvi-lo à distância dando suas gargalhadas contagiantes.
Zé Biquinho – Outro colega de escola primária de uma série mais atrasada que a minha. Era sempre mal humorado, embora ainda bem pequeno, e vivia de bico. Meu primo José Luís foi quem assim o chamou, mas deu um baita azar: ele é que ficou conhecido até hoje como Zé Biquinho.
Pinta Roxa – Apelido que fazia alusão a uma pinta escura na bochecha, logo abaixo do olho esquerdo do dono. Ele não se importava em ser chamado assim.
Malhado – Este apelido foi-lhe dado quando um vitiligo galopante tomou conta de sua pele acobreada. Rapidamente o Zé ficou todo manchado. Era motorista de caminhão e, anteriormente, atendia pelo apelido de Zé Galo, por causa do topete que tinha, quando mais novo.
Zé da Lata – Apelido derivado da profissão: era lanterneiro (funileiro, latoeiro, conforme a região), cuidava dos amassados dos carros em Bom Jesus do Itabapoana/RJ. Tanto ele, quanto seu irmão, o Luís Geladeira, quando falavam ao telefone, assim se identificavam: É o Zé da Lata! É o Luís Geladeira!
Luís Geladeira – Apelido derivado, também, da profissão: técnico em refrigeração de prestígio em Bom Jesus e irmão do Zé da Lata.
Zé do Rádio – Outro apelido derivado da profissão: eletrotécnico, consertador de rádio e televisão. Este, infelizmente, teve uma história trágica: sequestrou e matou um garoto, em Bom Jesus, foi condenado e, posteriormente, assassinado, em Rio Bonito, quando estava em regime semiaberto.
Paulo Couve – Colega de segundo grau em Bom Jesus que, certa noite, apareceu na escola com um fiapo de couve agarrado aos dentes. O mesmo que chamou o Pimentel de Mau Hálito criou o apelido para o Paulo.
Mariquinha Põe Tudo – Mulher pobre dos pastos de Areias que, para aumentar um pouco os caraminguás, facilitava a vida de uns e outros. Como também gostasse da função, no momento exato, sempre dizia para o cliente: "Põe tudo!"
Espera Que Eu Tou Chegando – Proprietário de um nariz avantajado, que riscava um triângulo acutângulo a partir da linha da cara. Alguns segundos antes de a sua pessoa adentrar os recintos, o nariz chegava.
Antõi nas Coxas – Este, coitado, era tão feio, que diziam ter sido feito nas coxas, às pressas, sem cuidados.

21 de maio de 2011

MANIPULADORA

Chamava-se Deusa, mas levava os homens à perdição.
Conheci-a quando tinha meus vinte e poucos anos, ela já quarentona, farmacêutica de uma farmácia de manipulação, localizada num canto de rua no centro da cidade.
Inocentemente entrei para comprar pastilhas de própolis, a fim de aliviar uma tosse renitente que me arranhava a garganta, e tive como brinde suas garras dilacerantes por todo o corpo.
Não sei como escapei de suas especiais manipulações de minha incipiente alma masculina. Mas é que chegou um dia de manhã, fazia uma claridade avassaladora, e achei que era o momento de experimentar outras dependências.
Imagem em analiticaweb.com.br.
Estive durante uma fieira de meses sujeito às suas receitas, que usava sem parcimônia, na medida da desmedida, se é que me entendem.
Depois de um tempo, ela sabia mais de mim do que dos sais e das tinturas que usava nos remédios e fazia de mim o que bem quisesse.
De início, encantei-me com suas artimanhas, suas seduções, suas negaças. As mulheres sabem muito bem fazer isso. Principalmente quando têm o dobro da sua idade, o dobro da sua experiência e uma total falta de escrúpulos para com o sentimento alheio.
Deusa era assim: uma diaba pronta a perder sua alma.
Naquele dia de sol resplandecente, quando as coisas parecem caminhar para a solução de todos os problemas, consegui tomar pé no poço fundo em que mergulhara e cuja corda de salvação estava em poder de Deusa.
Eu era o decaído. Ela, a superiora.
Podem não estar avaliando bem o poder que ela tinha sobre mim, talvez porque não estivessem em meu lugar. Mas, ao entrar na farmácia para comprar as tais pastilhas, ela me fulminou com seus olhos de um negro profundo e despejou sua baba incandescente sobre minha pequenez. Era irresistível!
Um dia ainda vou ter a tranquilidade para analisar toda a situação que vivi. Por enquanto este relato inicial é para que saibam que, desaparecido da face da terra, enfurnado em sua alcova, dependente dela como de uma droga poderosa, estou de volta à vida normal, respirando por mim mesmo, sem auxílio de seus aparelhos lúbricos.
Pensam que ela ficou minimamente abatida quando fui embora? Nem uma mísera lágrima rolou por aquela cara linda. Conformou-se, com a autoridade das que sabem o que fazem e o que querem.
Ela tinha certeza de que outro desavisado entraria na farmácia, numa tarde esquisita de outono, para comprar pastilhas de própolis. E aí estaria enredado em suas muitas alquimias. Em seu cadinho de magias.
Seus olhos negros e sua baba incandescente não falham nunca.

20 de maio de 2011

COMO SE PARECEM OS POETAS

Como se parecem os poetas
Mesmo diferentemente uns dos outros!
Cantam os mesmos amores fracassados
Gritam contra a solidão das galáxias no fundo de um quarto
Comemoram suas derrotas pessoais
E os anseios da multidão que
Reunida na praça clama por direitos
E aspira à derrubada de governos
Assim como lamentam a derradeira gota de sangue
Perdida sobre a brancura imaculada do lençol de linho.

Mesmo eu que não sou poeta
Vivo às turras com certos versos
Que pululam na minha cabeça sem cerimônia
Na fila do banco
Dentro dos veículos
Na balada das ruas
Durante o banho
E se deles me lembro depois
Anoto - como estes agora - para que não se percam
Por entre os mais desatentos neurônios
Do meu cérebro vertiginoso.
Pode ser que um dia se tornem poemas.
Nunca se sabe!

C. Portinari, Flora e fauna brasileiras,  1934 (portinari.org.br).

19 de maio de 2011

TROCA


J. Borges, Feira do troca-troca.

troco um par de rins perfeitos
um pulmão preservado
um estômago seminovo
um sistema nervoso calmo
por um coração avariado
por uma cabeça estouvada
por uma lágrima sentida.
troco toda uma vida
por um momento de nada.

18 de maio de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS IV

Imagem em galizebandido.blogspot.com.
Nestes novos pensamentos bem pensados, resolvi não mais classificá-los, pois isto me está dando muito trabalho. E o objetivo meu não é ter trabalho. Trabalho já o tive desde os meus quinze anos e agora faço a linha Dorival Caymmi: sombra e água fresca. Se houver, para acompanhar, uma taça de um bom vinho tinto encorpado, aí o ócio fica melhor ainda.
Espero que esses novos pensamentos lhe possam ser muito úteis, senão na vida prática, nesta vida que é mais prazer que obrigação.
Aproveite!
1.      Homem que promete muito à mulher, antes do casamento, e depois não cumpre nada tem o perfil adequado a político.
2.      A desgraça do barbeiro é que, mesmo sendo excelente motorista, nunca deixará de ser barbeiro.
3.      Quando você pensa que está no controle da situação, aí mesmo é que ela se degringola.
4.      A maior certeza que se pode ter na vida é que tudo na vida é sempre de uma incerteza só.
5.      A linha do Equador não serviu para costurar um acordo entre o Peru e o Equador, como se pode supor. A relação entre eles está-se esgarçando. Mas um país denominado Peru querer logo meter-se com um bem menor e com tal nome é até covardia.
6.      Em Bela Vista, pequena cidade de Minas Gerais às margens do Córrego da Onça, há um bairro denominado Puta Que Pariu, para onde irão todos os políticos que se locupletarem com o dinheiro público. Os outros ficarão vagando no éter, até reencarnarem em cachorros, como reza a tradição budista.
7.      Porco que tem espírito se exime de ser sacrificado no Natal, para servir de repasto a pessoas desalmadas. Os outros, no entanto, são devorados por espíritos de porco, que comem qualquer coisa que ande, nade, voe ou rasteje.
8.      Cartola só compôs As rosas não falam, depois de muito tentar com diversos fonoaudiólogos que uma roseira de dona Zica respondesse a seus lamentos, ao compor suas belas músicas.
9.      Nelson Cavaquinho tocava violão, assim como Paulinho da Viola toca cavaquinho. Essa MPB às vezes é um tanto confusa!
10.  Azarado é aquele que, se ganha na mega-sena, perde o volante; se guarda o volante cuidadosamente, não ganha; e, quando ganha e guarda o volante, se esquece de conferir e perde o prazo de validade do sorteio. Ou não joga, justamente quando seu palpite dá por inteiro no primeiro prêmio. E aí continua pobre.
11.  Goleiro de time de várzea deveria ganhar estátua no botequim onde os jogadores bebem após as partidas. Não há nada mais inglório a se fazer do que ser goleiro de time de várzea.
12.  Quando uma galinha vai botar um ovo, a comunidade das pregas entra em pânico. No entanto, o direito constitucional dos ovos prevalece.
13.  Quando um homem vê uma mulher de blusa com decote em vê, ele pretende ver mais do que o decote deixa entrever.
14.  A solene concessão do título de imortais pela Academia não concede a seus membros sequer uma boa saúde.
15.  Quando morre um imortal da ABL, alguns mortais mais vivos se candidatam a novos imortais.
16.  Há certos imortais na Academia que eu nem sabia que haviam nascido, quanto mais que já haviam escrito livros.
17.  Pobre é tão perseguido pela tal seleção natural, que, se mora no morro, o morro desce com a enxurrada; se mora na vargem, ela vira rio. E, na época da seca mais terrível, fura o pneu do caminhão pipa no meio do caminho até a sua comunidade.
18.  Quando a padaria aumenta o preço dos sonhos, a realidade fica mais palpável.
19.  Sou de extremos. Quando sinto pena de alguém, sou emplumado como o pavão. Mas também, quando não sinto, sou mais depenado que filhote de papagaio.
20.  No Brasil, nenhuma lei da Física tem mais poder que uma simples portaria legislativa, que faz caber no exíguo espaço de um gabinete mais de três centenas de assessores.
21.  Maradona talvez seja um dos poucos casos de jogador que para de jogar, mas que não abandona a carreira.
22.  Depois do tsunami de cocô ocorrido no centro de Niterói, em fins de abril deste ano, com vítimas, prejuízos e fedentina, a empresa Águas de Niterói vai trocar sua razão social para Bostas de Niterói.
23.  No final do jogo Avaí x Botafogo, aconteceram coisas estranhas: Loco Abreu perdeu o juízo, Herrera sentou o pau e Arévolo deitou o cabelo. Só o Caio não caiu.
24.  Os passageiros dos horários de pico do metrô vão requerer na justiça o direito de serem tratados, pelo menos, como sardinhas enlatadas.
25.  Verbo ser, no futuro do presente (após o jogo da Copa do Brasil, na última quarta-feira, dia 11/5): eu serei, tu serás, ele Ceará; nós searemos, vós seareis, eles eram.