17 de maio de 2011

A VALIDADE AINDA ESTÁ NO PRAZO

Se estou na rua tenho medo
A pedra no sapato não revela meus segredos
Se descontínuo, descarrego
E o mais que passa em mim
Desassossego
Um dia é uma volta
Um intermezzo
E se não estou aí
Estou ao acaso
Talvez um pouco tonto esteja a esmo
Mas não me divirto com ocasos
Pois prefiro que meus contratempos
Ocorram em horizontes alvorados
E não sejam bulha para teus mormaços
Assim como alegria para teus tormentos
Eu que não vivo nos extremos
Entre perdidos e achados
Já que estou mais para perdedor certeiro
Do que para acertador de casos
A vida? Ora, a vida começou bem cedo
E a validade ainda está no prazo.

Foto de Natham Myhrvold (edge.com).

16 de maio de 2011

NO TEMPO DAS BORBOLETAS

(Para minha netinha Gabriela, em seus seis anos.)

Foto Nicodemos Rosa, picasaweb.


No tempo das borboletas,
Imagem em omatungao.blogspot.com.
Quando as minhocas dormiam
E os papagaios comiam
Todo tipo de comida,
Vivia numa casa antiga
Uma pequena formiga
Que tinha como mania
Dizer que o céu formigava
De estrelas azuladas
Em tão grande quantidade
Que quase mais da metade
Cairia lá do céu
Sobre a cabeça dos bichos
Que não tivessem cuidado,
Que tratassem sem capricho
As águas, as flores, as árvores,
O chão que todos pisavam,
O ar em que todos voavam,
Os rios, as cachoeiras.
Mas um dia tal formiga
Se esqueceu de quase tudo
Que ela mesma ensinara
Imagem em gartic.com.br.
Prevendo negro futuro,
E cortou tanto capim
E destruiu tantas plantas
Durante um dia inteiro,
Que veio um tamanduá
Com sua língua comprida
Que com uma só lambida
Comeu todo o formigueiro.

E deu-se a história por finda!







14 de maio de 2011

ESTUDOS SÉRIOS DE TOPONÍMIA ESQUISITA

No interesse de contribuir para a cultura de meus poucos mas fiéis leitores, andei queimando a mufa para encontrar explicações para alguns nomes de lugares que podem oferecer dificuldades, sobretudo pelo seu caráter estranho.
Assim, estou trazendo a público estes primeiros estudos, que exponho agora para sua apreciação. Espero que tirem proveito deles.
1.      Se não me falham as pesquisas empreendidas, Calcutá, na Índia, deve seu topônimo à atividade que, em tempos remotos, ali exercia curandeiro afamado, de nome muito simples e pronunciado com alguns soluços e engasgos, Prahvangrandah Dahgravamush Kuhsara, que tratava dos doentes exclusivamente com supositórios. Por essa época, os indianos já se multiplicavam como tiririca no pasto. E eram tantos os enfermos que, quase sempre, ele se esquecia em qual, numa fila de vários deitados em decúbito ventral, já havia introduzido o milagroso sanativo. Então perguntava para a sua ajudante: “Em qual cu tá?”. O sucesso dele foi tão grande, que se fez uma cidade ao seu redor: Calcutá.

Dia normal em Calcutá (noticias.bol.uol.com.br).


2.      A história de Bangladesh é outra. Em tempos primevos, a tribo de pigmeus Bandar que ajudava o Fantasma, O Espírito-que-Anda, tinha por hábito educar os filhos na base da porrada. Diz a CIA, segundo documentos vazados no Wikileaks, que foi o dito Fantasma – Mr. Walker, para os íntimos – que os demoveu desta prática reprochável e politicamente incorreta (Sempre os seus agentes ensinando aos terceiro-mundistas como se comportarem!). Os mais velhos desciam a bengala no lombo dos mais novos. Aí a região banhada pelo Golfo de Bengala (estão vendo a relação?) ficou conhecida como a Terra-em-que-a-Bengala-Desce. Por corruptela, passou a Bangladesh, porque gente inculta não pronuncia as palavras adequadamente, nem na base da bengala!

Curralinho/PA (ferias.tur.br)
3.      Já para o topônimo Curralinho, no Pará, vou-me eximir de dar detalhes da origem do nome. Acho a coisa meio escatológica. Basta dizer que a cidade fica em plena selva amazônica, lugar onde nem boi havia, quanto mais curral, donde o diminutivo pretensamente teria saído. Ao contrário, era cheio de índios que viviam nus e que, ao se sentarem na fina areia das praias do rio Pará, deixavam uma pegada – ou será cugada – muito rasinha, muito rala.  Dizem que, agora, as autoridades municipais levaram uma boiada para lá, a fim de tentar distorcer a história da origem do nome. Mas não vão conseguir. Tirem aí suas conclusões.

4.      A origem do nome Cazaquistão é um tanto controversa. Marco Polo referia-se ao país, à época um simples pouso de caravanas que se dirigiam à China, a Miami de então, como “lugar onde paro sempre para comer pasta”, já que estava a meio caminho de casa, via Rota da Seda. Kublai Khan, Chu En-lai, Chiang Kai-shek e Pro She-neta referem o lugar como “terra em que estão os outros”. Os próprios habitantes locais, no entanto, sem saber como chamar aqueles páramos desolados, habitados muito mais por iaques do que por gente humana e desumana, que era como se portavam os guerreiros autóctones, diziam lá na língua enrolada deles algo que os outros entendiam como “a casa em que estão se metendo”. Como todos queriam tirar o corpo fora e não parecer invasores, passaram a falar apenas “a casa em questão”, já que também não entendiam bulhufas do idioma ali falado. Daí a forma atual: Cazaquistão.

5.      Já o nome Uzbesquitão tem origem no famoso esporte bretão, o futebol. A terra era pródiga em fornecer beques para os diversos times desde a Idade Média, com a média de idade um pouco alterada, conforme até hoje é comum (os chamados gatos). Aí, quando algum treinador pedia ao presidente do clube reforços para sua zaga, o dito presidente dizia que ia a esse tal lugar, que não tinha ainda um nome definido. Por isso ele era conhecido como o país onde os beques estão. Daí para Uzbequistão foi um pulo. Hoje o Uzbequistão não fornece mais esse tipo de jogador caneleiro e violento, porque se tornou um país muito desenvolvido culturalmente, sem, no entanto, conseguir trocar este nome esquisito de sua pátria amada, idolatrada, salve-salve.

13 de maio de 2011

LE QUATTRO STAGIONI

Quando chega maio
Vou para a varanda espreitar suas tardes.
São sempre belas as tardes de maio
Assim como as manhãs de setembro.
Tenho muito apreço pelo outono e pela primavera.
Sinto-me confortável por todo o corpo
Com os auspícios dessas estações.
Como são belas as tardes de maio
E as manhãs de setembro!

E já em junho, mal entrado,
Fico aguardando o pouco frio que por aqui faz.
Aí subo montanhas para experimentar ainda mais frio
Tomo vinho
Tomo conhaque
Me aconchego
E fico como que hibernando gostoso
Em meio a névoas e brumas
Com uma saudade danada do sol do verão
Que, ao chegar com sua brasa incandescente,
Tira a roupa das moças bonitas
Que passeiam seus encantos por todos os lados.
Como gosto dos dias de frio e dos verões suarentos!

Como veem
Sou um bicho natural muito bem adaptado.
Só não pode chover demais:
Me arrisco a morrer afogado!

Le quatro satagioni (blog.ibero.it)

11 de maio de 2011

PARECE QUE ME MOVO

Parece que me movo
Mas estou inerte, parado nesta esquina
O bonde não vem mais
E eu diria – para consolar –
Que as solidões geraram obras
Construíram castelos
Abdicaram de coroas

Mas meu corpo é rijo
Imóvel meu pensamento
Há alguns caracóis que me pedem passagem
A rua é pública
Passem sobre meu cadáver
Daqui não me movo

Vou ficar aqui parado, hirto,
Regendo com os olhos
Os movimentos que – imagino –
Fazem as estrelas do céu da tua boca.

Van Gogh, Noite estrelada sobre o Ródano, 1888. Museu d'Orsay.

10 de maio de 2011

O GATO DO SÍNDICO

(Em gatariadavila.blogspot.com)
Militar de patente é coisa séria, principalmente se for síndico de prédio de apartamentos. E foi o que aconteceu à vida de Herculano Penalva, o Penalva do Corpo de Fuzileiros.

Tendo vestido o pijama, como se diz na caserna, candidatou-se a síndico para pôr fim a umas tantas coisas que andavam acontecendo e com as quais definitivamente não concordava, estivesse embarcado ou não, na ativa ou na passiva. E ganhou a eleição, que isso também foi modo nos anos de que todos se lembram.

Começou por moralizar a portaria, passou à garagem, invadiu as áreas comuns e se aventurou por alguns apartamentos de rapazes solteiros e moças descasadas. Futucou, mexeu e revirou tanto, que acabou angariando uma carrada de antipatias solenes, respeitoso desdém e fingida consideração. Enfim, é isso aí, mais ou menos, o que acontece aos síndicos.

Além de toda a sua arrogância e eficiência, Herculano cultivava um bigode bem aparado e pintado, uma indefectível pasta de documentos e um gato angorá, seu amigo de solidão.

Certo dia, por obra de não se sabe qual vizinho, o gato do Herculano varou a madrugada, aos berros, tocha galopante em que se transformou, ateada a querosene. E foi a única coisa que o fez pedir demissão, em caráter irrevogável, daquele espinhoso cargo administrativo, nem nunca encontrado em toda a vida de marinheiro.

9 de maio de 2011

PROCESSO HUMANO

não são os deuses que conduzem meu destino
nem o vento
sou apenas um átimo de segundo
neste universo infinito do não-tempo.
nem mesmo são minhas tantas quedas
nem meus sonhos ou desesperos
talvez eu rode a esmo
voltando sempre ao mesmo ponto.
nem são os homens que me espremem contra a parede
nem as leis
talvez os medos.
desta altura não me contemplam séculos
pois sou uma pálida visão de mim mesmo.
não são os improváveis desígnios e presságios
que podem me empurrar ou me reter
mas eu
assim sem fibra ou vibrante
que converto cada instante em desatino
ou me chafurdo na lama
reinventando todo o meu processo humano.
(Tarsila do Amaral, Antropofagia, 1929.)