Há as cachorras, há as preparadas,
Mães de todos os jeitos.
Há santas, há estoicas,
Gatinhas, coroas, idosas,
Mães meninas, mães avós.
Há as que não se conformam
Com o fato de ser mãe.
Há as que abandonam os filhos em lixeiras,
As que os maltratam e os matam.
Há mães sensíveis, extremadas,
Olhos fechados a tudo o que os filhos fazem.
Há as que lutam, as que oram, as que não creem,
As que se entregam pelos filhos
E que os entregam,
As que os encaminham e que os desviam,
As que se privam e as que os privam,
As que são escuridão e que são luz,
As que os elevam e que os perdem,
As que os nutrem e as que secam o leite.
O mundo está pleno delas
E se não fosse por elas
Não seríamos todos esses filhos
Ingratos, neuróticos, celerados,
Hipócritas, descuidados, zelosos,
Reconhecidos, amorosos,
Devotados,
Filhos imperfeitamente humanos
Destas simplíssimas mães humanas.
8 de maio de 2011
7 de maio de 2011
O CASAMENTO
Queriam um casamento completamente diferente de todos os que já haviam ocorrido em todos os tempos. Em primeiro lugar, não seria nem na igreja, nem no cartório, mas no botequim do seu Manuel. Em segundo lugar, sem padre e sem juiz de paz. O próprio seu Manuel celebraria a cerimônia entre copos e garrafas, com aquele avental encardido e aquele pano imundo no ombro. Em terceiro lugar, sem testemunhas. Ou melhor, só testemunhas de acusação, que diriam um texto que escreveram, acusando o casal das maiores vergonhas acontecidas no universo. Em quarto lugar, nada de bebida alcoólica. Só café com leite e mate gelado. De comida, rosca baroa e broa de fubá. Em quinto lugar, no horário das seis horas da manhã de uma segunda-feira. Ela, a noiva, vestida de gari da Comlurb; ele, o noivo, vestido de periguete da Lapa. Na hora da cerimônia, a Marcha fúnebre de Chopin e Vida bandida de Lobão. Como beijo, uma cusparada na cara. Os presentes dizendo apenas “bem feito”, como parabéns, e atirando pedaços de notas antigas de cem e duzentos cruzeiros.
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| Imagem em sopadearua.com. |
Filhos não teriam, por incapazes. E viveram às porradas, enquanto durou o resto do mês.
Como era mais ou menos de se esperar. Ou não!
6 de maio de 2011
QUESTÕES TRANSCENDENTAIS QUE TAIS!
1. Com que prego se prega mentira? Bom, se for uma mentirinha, bastará uma tachinha; mas, sendo uma mentira grossa, só com prego galeota.
2. Todo partido político, quando racha, está fazendo justiça ao nome partido.
3. Na vida da galinha, é tudo planejado: quando o ovo é galado, virá um pinto pelado. Caso contrário, ele virará um ovo estrelado. Mas pode ocorrer, em tese, que ele se transforme em pudim ou maionese, tudo conforme os planos do feliz dono da esforçada penosa.
4. Espírito de porco desencarnado não se reincorpora nem em chouriço, quanto mais em leitãozinho à pururuca.
5. LEI GERAL DOS SAMBAS-ENREDO: Todo samba-enredo é igual a qualquer outro samba-enredo, independentemente de seus autores, da GRES que representa, bem como de sua letra e do andamento em que é executado, não havendo também distinção do ano em que tenha sido composto, assim como do espaço geográfico de sua feitura. Resumindo: é tudo igual!
6. PRINCÍPIO BÁSICO DE DESFILES DE ESCOLAS DE SAMBA: Diferentemente do que pretendem os especialistas convocados a cada ano pelos meios de comunicação, qualquer desfile de carnaval, de qualquer agremiação, em qualquer tempo e lugar, é exatamente igual a qualquer outro que se lhe compare, incluídos aí alegorias e adereços, carnavalescos, puxadores de samba, bem como mestres de bateria, mestres-salas e porta-bandeiras e os geniais coreógrafos das espetaculares comissões de frente. As únicas distinções idiossincráticas dignas de nota, durante o tríduo momesco, são as rainhas de bateria: cada uma mais linda que a outra! O resto, resumindo, é tudo igual!
7. As autoridades sanitárias de Goiás, preocupadas com a proliferação de duplas sertanejas no Estado, mormente em plantações de tomate, estão decididas a declarar estado de pandemia incontrolável. Os turistas são aconselhados, antes de viajarem para lá, a doses maciças de rock, samba, chorinho e MPB na veia.
8. Nem sempre os moradores da periferia dos grandes centros urbanos estão por fora, assim como os que moram no centro da cidade estão por dentro. Estar por fora ou por dentro é condição intrínseca ao cidadão e não, extrínseca. Entendeu ou ficou por fora?
| Imagem em desenhoparacolorir.net. |
8. Comecei a escrever tanta bobagem, que tive ganas de dizer que psicografei tudo do espírito do Groucho Marx e aí criar uma nova religião, corrente filosófica ou ideologia política: o Grouchomarxismo, com foco nos humoristas, comediantes, piadistas, chargistas e engraçadinhos de toda espécie. Mas tive medo de retaliações do Além. Karl Marx poderia não entender bem o espírito da coisa.
9. Reza a crença budista que é possível a um espírito desencarnado reencarnar-se até mesmo num cachorro. Será que é por isso que ando desconfiado de que o cachorro do meu vizinho é tão mau caráter quanto alguns políticos que já fizeram a passagem? Ele, sistematicamente, me rouba alguma coisa.
10. PROFECIA SILAS DE OLIVEIRA-MANO DÉCIO DA VIOLA: À medida que, através dos anos, os sambas-enredo vêm perdendo qualidade em seus aspectos rítmicos, melódicos, harmônicos e poéticos, paradoxalmente aumenta o número dos autores envolvidos na criação de uma única obra, de tal forma que, no Carnaval de 2020, serão necessários tantos quantos os que compõem um time de futebol - onze. Aí, então, será preciso agregar a tal equipe um técnico que entenda de música, que chamará um auxiliar para ajudá-lo na tarefa. Nesse momento, então, teremos a volta à boa, velha e eficiente dupla de compositores, que, para salvação da música carnavalesca por excelência, dispensará aquele bando de incompetentes, que serão constrangidos a batucar samba nas mesas de botequim, de onde nunca deveriam de ter saído.
11. Tenho receio de que quando, num futuro distante, a corrupção brasileira se tenha reduzido aos aceitáveis dez por cento de nossos políticos, como é praxe nesse tipo de atividade, e não aos atuais noventa por cento, possa estar aí um grave sinal de que estaremos chegando ao fim dos tempos, conforme preveem todas as grandes e pequenas religiões e o profeta Zé do Apocalipse, criação imortal de Glauco Villas-Boas, infelizmente já falecido.
5 de maio de 2011
GOSTO MAIS
gosto mais dos manuscritos que faço à máquina
nessa caligrafia perfeita e digital
gosto mais dos sentimentos dos fliperamas
dos videogames dos computadores
que desse desacerto descompassado do coração
gosto mais desses abraços robóticos
desse toque sutil dos balaústres
dos trens de subúrbios dos ônibus lotados
gosto mais desse prazer graxo das juntas
das bielas dos virabrequins das engrenagens
gosto mais desse ronco de motores
das buzinas roucas dos apitos das fábricas
do que dessa maneira humana de trair
de odiar
de liquidar a vida sobre a terra
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| Imagem em juliana-fonseca.blogspot.com. |
4 de maio de 2011
A BARCA
Navega em mar nervoso
Qual barco de Caronte
A minha barca velha
No rumo do poente
Deixando suas fontes
Em lívido horizonte
E indo mergulhar
Lá longe não sei onde
Em bem profundas águas
De nítido negrume
E ainda que eu não queira
Ou que proteste muito
Que a minha barca afunde
E o nome de Raimundo
Com que alguém me chame
- E que uma rima esconde -
De nada servirá
No derradeiro instante.
3 de maio de 2011
TRILHA SONORA PARA UM OCASO
A última frase que ela disse ao telefone, e de que me lembro bem, foi:
- Aí, Mané, vou te dar um perdido!
Depois, foi só procurá-la por todos os lugares, como no samba do Adoniran Barbosa: "Procurei no hospital, procurei na Central e no xadrez".
É claro que não achei. Ela queria sumir - não queria ser achada - e não simplesmente morrer na sarjeta, o corpo rebocado por um rabecão de numeração apagada, a não sugerir nem um palpite para o jogo do bicho, e identificada como ninguém no morgue, à espera do meu reconhecimento.
Se fosse só isso, podia ficar lá, até ser enterrada como indigente, em cova rasa no cemitério de Vila Rosali. Não estou nem aí!
Acontece que não foi bem esse o espírito da coisa. Ao dizer que ia dar o perdido, era porque estava disposta a entrar numas, o que eu não aceito de modo nenhum. Ninguém entra numas sem que eu entre junto. Entrar numas, como ela sempre diz, é fazer coisas em que eu não esteja. E, aí, malandro comigo não se cria. Nem mesmo quando é mulher. E gostosa como ela, a miserável!
Quer morrer, tudo bem! Morra! Agora, querer curtir com a minha cara e sair por aí me botando chifre, como quem planta avencas em canteiro de jardim, já é um pouco demais. Não nasci para isso. Isso não é a minha missão na vida. Qual? Não sei! Só sei que não é essa.
Homem costuma engolir alguns sapos, suportar compras de bolsas e sapatos, esperar fazer cabelo e unha no salão, achar graça naquele seu (dela) amigo gay metido a Priscila, a rainha do deserto. Mas as coisas também não são assim! Chega uma hora em que o bagulho desanda!
Para fingir que não estava nem aí, não liguei para suas amigas, não fui até o seu trabalho e continuei a frequentar o mesmo salão de sinuca de sempre na Lapa, a tomar meus tragos como sempre, fingindo que estava tudo nos conformes. Eu não podia era ficar pela bola sete. A caçapa não era pra mim. Tou fora!
Niterói, antigo garçom do bar, nem desconfiou que alguma coisa estivesse fora da ordem comigo, quando trouxe meu primeiro trago. Fora da ordem mundial, como canta Caetano. Sobretudo naquela noite! Mas me segurava. Fingia naturalidade. A mão tremia um pouco na hora da tacada, mas nada que umas doses a mais não justificassem.
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| Imagem em sorocaba.olx.com.br |
Foi aí que ela apareceu na porta do bar com o cara, toda sorridente. Ele com aquela mãozona no ombro dela. Foi uma visão insuportável!
Já movido por alguns tragos do vermelho doce-amargo, passei a mão no fancho que estava encostado à parede e dei-lhe uma de prancha, no braço esquerdo. Certeiro e com força!
O alvoroço se fez logo, e Niterói, ajudado por outros garçons, me segurou e me levou para o fundo do salão, indagando se eu perdera o juízo. Não estava me reconhecendo e coisas assim.
Ela começou a gritar, tão logo seu acompanhante gemeu com o impacto do fancho. Disse palavrões que eu desconhecia. Ficou uma fera e partiu para cima de mim, chamando-me de canalha, de animal e de outras palavras de que não me lembro agora. E disse em alto e bom som, para que todo o bar ouvisse, que eu, seu antigo namorado, que nunca demonstrei maior interesse por sua vida, tinha acabado de quebrar o braço de seu irmão, que chegara naquele mesmo dia de São João Nepomuceno, para passar o aniversário com ela. Que eu era um cretino, filho de uma puta, e não a procurasse mais. Que eu podia ficar com a minha sinuca, a minha vidinha de merda, sem perspectivas.
Mulher é foda! Mete a gente no buraco e ainda joga terra por cima, no meio da multidão, como se fosse a coisa mais normal do mundo!
Pedi a Niterói para sair pela porta dos fundos, para que ninguém me visse. A conta ficaria no pendura para quando voltasse. Se é que eu voltaria!
A música de fundo, que rolava no som do bar, gemia Noel Rosa: “Nosso amor que eu não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João morre hoje sem foguete...”.
Puta que pariu!
2 de maio de 2011
A CONSELHO DO MESTRE
a conselho do mestre
não luto com palavras
mas as tenho como companhia
e delas faço o que as ações
não realizam
mesmo não sendo mágicas.
não pretendo dizer mais do que dizem
meus semelhantes
porque como eles
também sofro as mesmas dores
não luto com palavras
mas as tenho como companhia
e delas faço o que as ações
não realizam
mesmo não sendo mágicas.
não pretendo dizer mais do que dizem
meus semelhantes
porque como eles
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| Autocaricatura de Carlos Drummond de Andrade (clavedosul.blogspot.com). |
e provo os mesmos prazeres.
tenho a palavra como aliada
e mais nada.
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