25 de abril de 2011

N Ó S

somos todos defeituosos aleijados
e não o sabemos
somos todos impotentes covardes
e não o sentimos
somos todos aproveitadores egoístas
e não o publicamos
somos todos inescrupulosos corruptos
e não o assumimos
somos todos facínoras pervertidos
e não nos prendemos
somos todos miseráveis famintos
e nos recusamos
somos todos humanos sentimentais
mas nos odiamos.

Pieter Brueghel, O triunfo da Morte, 1562.

24 de abril de 2011

JUSTIFICATIVA


meu verso não tem a transcendência
dos versos dos poetas vastos
que abrigam em seu peito a infinita dor do tempo
vive e se nutre do vão momento
Vladimir Kush, Alaways togheter, em
vladimirkush.com.
– por isso rápido –
do pequeno caso
 – por isso pobre –
da furtiva imagem
 – por isso pálido.

22 de abril de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS III (ESSE TROÇO NÃO TEM FIM?)


Em anseiosdaalma-etc.
blogspot.com.

Aí vão mais alguns “pensamentos bem pensados”. Acho que daqui mais um pouco poderei enfeixá-los num livro como O livro vermelho, do glorioso Mao Tsé-Tung, ou O livro vermelho dos pensamentos do Millôr, de Millôr Fernandes, ou Máximas, pensamentos e reflexões, do renomado Marquês de Maricá, ou mesmo Palavras essenciais, do mago magro Paulo Coelho. Nunca se sabe! Desgraça pouca é bobagem.


A – FILOSOFIA POPULAR E CONSELHOS GRÁTIS
1.      Marítimo, quando bebe muito, fica mais na água que os demais bebuns?
2.      A situação anda tão esquisita, que deu cupim n'O Último Pau-de-arara.
3.      Trocar o certo pelo duvidoso pode, às vezes, até dar certo, mas será sempre duvidoso.
4.      O primeiro sinal de que algo arriscado que você esteja fazendo não vai dar certo é quando começa parecendo que vai dar certo.
B – POLÍTICA E SOCIEDADE
5.      O Brasil é um país de dimensões sentimentais. Nós nos achamos os maiores em tudo, até em falcatruas e rapinagens.
6.      O político que promete ao povo, antes da eleição, que fará algo por ele e, depois, só faz o povo de palhaço pode considerar que cumpriu sua promessa, pelo menos em parte?
7.      A política educacional brasileira anda tão deseducacional, que já está formando analfabetos a nível municipal, estadual e, por que não dizer, federal.
C - COMPORTAMENTO
8.      Folheava, na banca de jornal, revista em que a repórter jovem e loura elogiava o lado sedutor de Carlinhos Brown, que jogou charme o tempo todo para ela, durante a entrevista. Se ele não fosse a personalidade que é, certamente seria taxado apenas de afrodescendentezinho folgado: “Veja lá se eu te dou confiança?!”.
9.      Um dos mitos urbanos, suburbanos e rurais mais badalados é o tal do orgasmo múltiplo, espécie de trevo de quatro folhas, um troço que dizem que existe, mas que ninguém conseguiu atingir, salvo os mentirosos recalcitrantes.
D – HISTÓRIA, LITERATURA E ARTES EM GERAL
10.  Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba, escreve sempre sobre os mesmos temas, as mesmas personagens e a mesma cidade, mas com tal criatividade de linguagem, que um só miniconto seu vale mais do que toda a obra de certos arrecadadores de direitos autorais que andam por aí.
11.  Karl Marx, quando escreveu Das Kapital, andava muito descapitalizado e só se tornou comunista depois de escrever o Manifesto do Partido Comunista em parceria com Friederich Engels. Porque, se escrevesse sozinho, seria individualista. Antes disto, ele era tão somente karlista e não marxista.
12.  Quando um escritor diz, metaforicamente, que seu último livro foi um parto difícil, não sabe o que é ser mãe de uma ninhada de porco-espinho.
E – CARNAVAL
13.  No carnaval da Bahia, o trio elétrico percorre o longo circuito Barra-Ondina; no carnaval de Minas Gerais, o curto-circuito é que percorre o trio elétrico.
E1 – CARNAVAL E RELIGIÃO
14.  No retiro do centro espírita, durante o último carnaval, apareceu tanto espírito desacorçoado, que dava para fazer um bloco de sujo, ou melhor, um bloco de ectoplasmas diáfanos.
F – RELIGIÃO E CRENDICES EM GERAL
15.  Quando chegar o final dos tempos, quero só ver como ficará esse pessoal que ganha a vida alardeando o final dos tempos. Vai ficar sem seu ganha-pão.
16.  O primeiro ser humano Deus fez do barro. O segundo, de um osso da costela. Já Paulo Maluf foi feito de Eucatex. Por isso é que ele não consegue ser o maior cara de pau do país. Mas faz um esforço danado!
17.  Será que as pessoas vazias estão mais propensas às possessões demoníacas ou às incorporações espirituais de toda sorte do que as pessoas cheias de si?
G – ATUALIDADES, ESPORTES E PERSONALIDADES INFLUENTES
18.  Ninguém, em sã consciência, aceita, de livre e espontânea vontade, ser goleiro de time de várzea. Isto é sempre o que sobra para o perna-de-pau.
19.  A despeito do que as torcidas dos clubes de futebol dizem das mães dos juízes durante as partidas, algumas, senão a maioria, são senhoras de ilibada reputação. Às vezes, seus filhos é que não fazem por merecê-las.
20.  Se o Botafogo não fosse esta centenária instituição admirável do desporto nacional, porém regida por superstições, mandingas e despachos, certamente poderia ser uma promissora casa de orixás.
H – MOMENTO ÍNTIMO, IMPRESSÕES PESSOAIS OU FRESCURAS MESMO
21.  Há algum tempo, parei de dar boas referências de minha sogra: uns julgavam que eu estava troçando; outros, que eu era um mentiroso desavergonhado. Agora minto sobre ela, que continua a mesma pessoa adorável de antes, mas todos me levam a sério. Que sina a da sogra!
22.  Certa vez, meu pequeno sobrinho-neto, ao responder a uma pergunta minha, disse que “um dia, ficou mais de um mês” sem ver seus avós, o que comprova que o tempo é uma medida meramente psicológica, com muito pouca relação com o calendário.
23.  Nunca aceitei convites para associar-me a sociedades secretas. Se são secretas, não venham querer mostrar-me seus segredos.

20 de abril de 2011

TRÊS CAUSINHOS DE MINAS, SÔ!

Minha dileta amiga Cleia, mineira das quatro costeletas de porco, ou melhor, dos quatro costados, companheira das horas amargas e alcoólicas (jiló com pinga e cerveja), contou-me estas histórias que repasso a vocês.

Depois de morar algum tempo em Niterói, Cleia voltou a sua terra natal nas Minas Gerais, Visconde do Rio Branco, às margens do Rio Xopotó.
A folhinha debulhava os anos oitenta; mais bem mirado, o de 1988.
Como se habituara às coisas da beira mar, se desabituara das coisas das alterosas, até mesmo do jeito peculiar e bonito de o mineiro falar. Hoje retomou tudo o que tinha esquecido, durante o período em que frequentou as praias e as maravilhas do Rio de Janeiro e derredores, aí incluídos a buchada de bode e o baião de dois da barraca do Gostosão, em Duque de Caxias. Está com a vida novamente devotada à galinha com quiabo, ao tutu com torresmo e ao chouriço frito.
Funcionava à época em sua terra, a pleno vapor, o Cine Brasil, hoje desativado e, segundo minha amiga, ainda felizmente não transformado em igreja. Tinha a divulgar as películas que levava à sua tela de causar inveja a Guiricema, São Geraldo, Guidoval, Divinésia e até Ubá, terra de Ari Barroso, um jipe velho apetrechado de uma parafernália sonora, que anunciava as sessões regularmente, com as informações necessárias a que os cinéfilos se desvencilhassem de qualquer preguiça e acorressem à sala de projeções.
O locutor que gravava a propaganda fazia questão de caprichar na voz grave e na pronúncia clara, de forma a não deixar dúvidas a quem o ouvisse.
Certo dia, lá vai o jipe a percorrer as ruas da cidade, despejando no ar o chamariz para mais uma superprodução de Hollywood, naquele jeito familiar a todos:
- Fãs da Sétima Arte, não percam hoje, no Cine Brasil, às vinte horas, mais uma superprodução cinematográfica de ficção científica que mistura ação e suspense: O Exterminador do Futuro, magistralmente estrelado por Arnoldo Suasnega*.
Atualmente, com o advento da doutrina do politicamente correto, o locutor talvez tivesse dificuldades para pronunciar o diabo do nome do ator. Vai ser complicado assim no raio que o parta!
De outra feita, comandava ela o programa Tempero Brasileiro de música popular na rádio local, a Cultura. Sua programação primava pela excelência, já que levava ao ar, na potência dos cinquenta quilos da antena da emissora, a nata da MPB, área de seu grande conhecimento. Não obstante isso, uma ouvinte malcriada rabiscou-lhe bilhete dizendo que “ela (Cleia) pensava que a rádia era dela, mas ela não era dona da rádia”. Outra ouvinte, das roças próximas da cidade, enviou-lhe carta de protesto, escrita numa folhinha de caderno Avante já amarelada, na qual dizia: "Num vô gastá pia do meu rádio pra ovi essas porcaria que ‘ocê toca aí. Si ainda tocasse a Moda da mula preta ou Tião Carrero e Pardinho eu perdia meu tempo com ‘cê. Do jeito que tá, num dá!".
E condenou de Alceu Valença a Zé Ramalho, passando por Elis Regina e Djavan, por Chico Buarque e João Donato, tudo taxado de porcaria. Inclusive os mestres Pixinguinha e Tom Jobim.
Outra envolve seu pai, já falecido, Francisco, de batismo, popularmente conhecido com Chico Tristão. Era ele carpinteiro e carapina conceituado na região, fazedor de carro de boi, dentre outras obras de menor e maior vulto, muito requisitado por suas habilidades.

Lá uma vez, o prefeito da vizinha cidade de Guiricema encomendou-lhe um carro de boi novo para sua propriedade. No entanto não lhe pagou a entrada para o início do trabalho, como o combinado e a praxe.
Passado um mês, chega o ilibado homem público a sua oficina de madeiras e formões e o encontra na feitura da mesa de um carro. Julga que é a sua e já vai indagando se o prazo da entrega será cumprido. Como ouve, em resposta, que se trata de outra encomenda e que a dele estava aguardando pagamento do sinal, para seu início, toma aquilo como ofensa à autoridade pública e passa a destratar seu Chico.
E para não deixar dúvidas no ar, diz para o artesão, em alto e bom som, em feitio de arremate à sua diatribe:
- Eu sou o prefeito de Guiricema!
Seu Chico, homem sistemático do interior, que tinha a palavra como valor, soprou seu curto pavio e gritou nas fuças da autoridade:
- Prefeito de Guiricema e merda, pra mim, é a mesma coisa!
Carro de boi, com os
fueiros fincados na mesa
(imagem em overmundo.com.br).
E passou a mão num fueiro ao lado e investiu contra o alcaide, que fugiu assim que recebeu as primeiras bordoadas na cacunda. Sua Excelência aproveitou a oportunidade também para se esquecer da encomenda indigesta.
Vai mexer com quem está quieto!

(*Arnold Schwarzenegger.)

19 de abril de 2011

MINHA ESCOLA PRIMÁRIA

(Para Délbio, Zé Fábio e Zé Biquinho, primos e colegas de turma do curso primário.)

Avante, camaradas!
Ao tremular do nosso pendão...”
Cantamos o hino antes da aula

Sobre o morro entre extintas árvores
- hoje descampado –
Ergue-se a escola

No sol a pino do meio-dia
O troca-troca de alunos
No azul e branco do uniforme

Nada passa sem ser notado
Nada é mais importante

Nunca compreendi bem por que estudava pela manhã
Assim como não me lembro das manhãs de frio
Ou de chuva
- que as houve nos seis anos do primário –

Lembro-me até das dificuldades por que passei
Como aluno
Como colega
Como pessoa
Lembro-me também dos dias ensolarados
Das brincadeiras de bandeirinha
De bola botão pião
Da fila para ganhar laranja pelo aniversário do Carleitor
Da peteca jogada com mestria por nós moleques
Dos pitos da professora
Dos castigos coletivos
Do auxílio do Zito para a confecção do trabalho manual

Mas não me lembro de um único dia frio
De um único dia de chuva

Na minha memória
Só havia sol e festa na minha escola primária

Imagem em eb1-figueiredo-alva.rcts.pt.

18 de abril de 2011

SEPARAÇÃO


Separated couple, por Gabe Palmer/CORBIS
é só um pouco de café na xícara
o que sobra dos tais anos.
não há o que separar:
nem joio nem trigo.
os dois, filhos pródigos
a retornar à paterna casa do abrigo.
os dois sozinhos
comendo as bolotas do engano.

17 de abril de 2011

JUREMA

Jurema foi passar uma temporada em casa de Marlúcia, que fazia fronteira seca com um terreiro de macumba mal gerenciado, e voltou para casa, duas semanas depois, com uma pombagira de frente instalada em sua pessoa.

O desembestamento que se apossou de Jurema, no quesito saliência, foi de tal envergadura, que nem o borracheiro da esquina, seu noivo apalavrado há mais de cinco anos e com sérias intenções de casamento, teve competência para segurar as necessidades da moça, motivo pelo qual desistiu da oficina de remendos e vulcanizações, para nunca mais ser referido por fofocas e diz que diz.

A mãe de Jurema, ao tomar pé da situação da filha, ligou para Marlúcia, para saber o que houvera, a fim de providenciar a melhor conduta no intuito de pôr cobro naquilo. Contou, com todas as minudências, como a filha se comportava, após voltar do interstício em sua casa. Muito preocupada, a amiga disse à mãe de Jurema que iria ter conversa séria com o dono do terreiro, para levantar as prováveis causas do comportamento da amiga, ele pai de santo de certo conceito nas redondezas. A mãe, dona Carmosina, que tentasse segurar Jurema por dois ou três dias, pois, tão logo tivesse aconselhamento, passaria tudo para ela. Foi o que disse Marlúcia, ao final da conversa.

Marlúcia foi até o terreiro, apenas na condição de vizinha, sem marcar consulta de búzios e guias. Tudo o que dona Carmosina lhe disse repassou ao pai de terreiro. Ciente da situação em todos os seus detalhes, ele foi conclusivo:

Colhido em bolsademulher.com.
- Então foi isso que aconteceu! Jurema pegou a pombagira. Dei por falta dela aqui em minha casa, sem saber seu paradeiro. Nunca poderia imaginar que ela tivesse incorporado em sua amiga, que nem aqui veio. Acho que estou meio descalibrado nos artifícios. Mas traz a moça aqui, o mais rápido possível, que preciso fazer um trabalho de peso, pior que ordem de despejo lavrada por juiz togado.

Num prazo de menos de vinte e quatro horas, Jurema estava diante do homem. Manifestado pelos sete lados, mais cercado que aposta de jogo do bicho, invocou as potestades mais poderosas para desencastoar a pombagira da moça. E, só após virar duas garrafas de pinga e fumar outro tanto de charutos, a poder de defumadores e amarrados de comigo-ninguém-pode e cipó-mil-homens, é que conseguiu esconjurar a possessão inconveniente, instalada nos frontispícios dela. No momento exato em que a incorporação se desfez, a moça caiu desfalecida sobre um desenho do cinco Salomão inserido num círculo no chão do terreiro.

Depois de um canecão de água fria no rosto, Jurema recobrou o tino das coisas e indagou que lugar é esse, o que faço aqui. Marlúcia a levou para casa, onde a cientificou de tudo, do princípio ao fim das artimanhas que aprontara a partir do momento em que fora possuída. Jurema caiu em pranto convulso, até que tudo sossegou entre soluços e sonos. Dormiu durante bom tempo e, ao acordar, era outra pessoa, capaz até de tirar novo cepeefe, novo erregê.

Voltou para casa e comunicou à mãe que, doravante, era evangélica dos quatro costados, decidida a pagar dízimo a pastor espertalhão, para ter direito a quinhão no céu para toda eternidade e se ver protegida de tais incômodos.

No ex-cinema, convertido em local de cultos e descarregos, conseguiu noivo devoto, após dar seu depoimento diante de toda a assembleia reunida. O rapaz encantou-se com sua história, porque vivera experiência semelhante. Só que sua possessão foi um tal de Zé Pelintra, do qual jamais tinha ouvido falar, e também nas imediações do mesmo terreiro, no momento em que tomava uma cervejinha inocente no botequim do lado oposto ao da casa de Marlúcia.

Jurema contou para a amiga o que acontecera com seu recém-noivo, Odir, e achou perigoso para ela a vizinhança com o terreiro. Marlúcia deveria tomar cuidado, porque os orixás estavam desgovernados naquele local.

Sem querer correr maiores perigos, Marlúcia voltou ao pai de santo e comunicou essa outra novidade, exigindo dele que calafetasse sua casa de santo contra qualquer tipo de extravasamento. Usasse o que fosse necessário, mas não queria acordar um dia possuída por espírito mal-vindo. Senão iria até a delegacia pedir reforço policial, a fim de sustar qualquer possibilidade de uma invasão indesejada em sua pessoa ou em sua casa.

Como nada foi feito no prazo estipulado por Marlúcia, Jurema e Odir levaram toda a irmandade, para fazer uma limpeza em regra do ambiente, a poder de exorcismo e abraço evangélico no território dos exus, tudo sob a coordenação do pastor Jeremias Muzenza, também recentemente convertido na fé de Cristo. Saravá!