19 de abril de 2011

MINHA ESCOLA PRIMÁRIA

(Para Délbio, Zé Fábio e Zé Biquinho, primos e colegas de turma do curso primário.)

Avante, camaradas!
Ao tremular do nosso pendão...”
Cantamos o hino antes da aula

Sobre o morro entre extintas árvores
- hoje descampado –
Ergue-se a escola

No sol a pino do meio-dia
O troca-troca de alunos
No azul e branco do uniforme

Nada passa sem ser notado
Nada é mais importante

Nunca compreendi bem por que estudava pela manhã
Assim como não me lembro das manhãs de frio
Ou de chuva
- que as houve nos seis anos do primário –

Lembro-me até das dificuldades por que passei
Como aluno
Como colega
Como pessoa
Lembro-me também dos dias ensolarados
Das brincadeiras de bandeirinha
De bola botão pião
Da fila para ganhar laranja pelo aniversário do Carleitor
Da peteca jogada com mestria por nós moleques
Dos pitos da professora
Dos castigos coletivos
Do auxílio do Zito para a confecção do trabalho manual

Mas não me lembro de um único dia frio
De um único dia de chuva

Na minha memória
Só havia sol e festa na minha escola primária

Imagem em eb1-figueiredo-alva.rcts.pt.

18 de abril de 2011

SEPARAÇÃO


Separated couple, por Gabe Palmer/CORBIS
é só um pouco de café na xícara
o que sobra dos tais anos.
não há o que separar:
nem joio nem trigo.
os dois, filhos pródigos
a retornar à paterna casa do abrigo.
os dois sozinhos
comendo as bolotas do engano.

17 de abril de 2011

JUREMA

Jurema foi passar uma temporada em casa de Marlúcia, que fazia fronteira seca com um terreiro de macumba mal gerenciado, e voltou para casa, duas semanas depois, com uma pombagira de frente instalada em sua pessoa.

O desembestamento que se apossou de Jurema, no quesito saliência, foi de tal envergadura, que nem o borracheiro da esquina, seu noivo apalavrado há mais de cinco anos e com sérias intenções de casamento, teve competência para segurar as necessidades da moça, motivo pelo qual desistiu da oficina de remendos e vulcanizações, para nunca mais ser referido por fofocas e diz que diz.

A mãe de Jurema, ao tomar pé da situação da filha, ligou para Marlúcia, para saber o que houvera, a fim de providenciar a melhor conduta no intuito de pôr cobro naquilo. Contou, com todas as minudências, como a filha se comportava, após voltar do interstício em sua casa. Muito preocupada, a amiga disse à mãe de Jurema que iria ter conversa séria com o dono do terreiro, para levantar as prováveis causas do comportamento da amiga, ele pai de santo de certo conceito nas redondezas. A mãe, dona Carmosina, que tentasse segurar Jurema por dois ou três dias, pois, tão logo tivesse aconselhamento, passaria tudo para ela. Foi o que disse Marlúcia, ao final da conversa.

Marlúcia foi até o terreiro, apenas na condição de vizinha, sem marcar consulta de búzios e guias. Tudo o que dona Carmosina lhe disse repassou ao pai de terreiro. Ciente da situação em todos os seus detalhes, ele foi conclusivo:

Colhido em bolsademulher.com.
- Então foi isso que aconteceu! Jurema pegou a pombagira. Dei por falta dela aqui em minha casa, sem saber seu paradeiro. Nunca poderia imaginar que ela tivesse incorporado em sua amiga, que nem aqui veio. Acho que estou meio descalibrado nos artifícios. Mas traz a moça aqui, o mais rápido possível, que preciso fazer um trabalho de peso, pior que ordem de despejo lavrada por juiz togado.

Num prazo de menos de vinte e quatro horas, Jurema estava diante do homem. Manifestado pelos sete lados, mais cercado que aposta de jogo do bicho, invocou as potestades mais poderosas para desencastoar a pombagira da moça. E, só após virar duas garrafas de pinga e fumar outro tanto de charutos, a poder de defumadores e amarrados de comigo-ninguém-pode e cipó-mil-homens, é que conseguiu esconjurar a possessão inconveniente, instalada nos frontispícios dela. No momento exato em que a incorporação se desfez, a moça caiu desfalecida sobre um desenho do cinco Salomão inserido num círculo no chão do terreiro.

Depois de um canecão de água fria no rosto, Jurema recobrou o tino das coisas e indagou que lugar é esse, o que faço aqui. Marlúcia a levou para casa, onde a cientificou de tudo, do princípio ao fim das artimanhas que aprontara a partir do momento em que fora possuída. Jurema caiu em pranto convulso, até que tudo sossegou entre soluços e sonos. Dormiu durante bom tempo e, ao acordar, era outra pessoa, capaz até de tirar novo cepeefe, novo erregê.

Voltou para casa e comunicou à mãe que, doravante, era evangélica dos quatro costados, decidida a pagar dízimo a pastor espertalhão, para ter direito a quinhão no céu para toda eternidade e se ver protegida de tais incômodos.

No ex-cinema, convertido em local de cultos e descarregos, conseguiu noivo devoto, após dar seu depoimento diante de toda a assembleia reunida. O rapaz encantou-se com sua história, porque vivera experiência semelhante. Só que sua possessão foi um tal de Zé Pelintra, do qual jamais tinha ouvido falar, e também nas imediações do mesmo terreiro, no momento em que tomava uma cervejinha inocente no botequim do lado oposto ao da casa de Marlúcia.

Jurema contou para a amiga o que acontecera com seu recém-noivo, Odir, e achou perigoso para ela a vizinhança com o terreiro. Marlúcia deveria tomar cuidado, porque os orixás estavam desgovernados naquele local.

Sem querer correr maiores perigos, Marlúcia voltou ao pai de santo e comunicou essa outra novidade, exigindo dele que calafetasse sua casa de santo contra qualquer tipo de extravasamento. Usasse o que fosse necessário, mas não queria acordar um dia possuída por espírito mal-vindo. Senão iria até a delegacia pedir reforço policial, a fim de sustar qualquer possibilidade de uma invasão indesejada em sua pessoa ou em sua casa.

Como nada foi feito no prazo estipulado por Marlúcia, Jurema e Odir levaram toda a irmandade, para fazer uma limpeza em regra do ambiente, a poder de exorcismo e abraço evangélico no território dos exus, tudo sob a coordenação do pastor Jeremias Muzenza, também recentemente convertido na fé de Cristo. Saravá!

16 de abril de 2011

TEU CORAÇÃO

Teu coração apanha mais que tamborim,
E bate surdo aos repiniques da dor
Que o chacoalha, faz cambalhotas,
Arma ciladas, soa marota, brinca de dia,
Como se a noite que se anuncia
Trouxesse alento.
Tudo ilusão de momento
Tudo matéria irreal:
Alegria irrisória de um fugaz carnaval.


Imagem em proxtytutuz.blogspot.com.


15 de abril de 2011

LADAINHA DO DESESPERADO

Vigiai-me, São Romualdo,
O céu está enfarruscado.
São Prudêncio, Santo Urbano,
As chuvas já vêm chegando.
Consolai-me, Santo Expedito,
Ando um tanto quanto aflito.
Valei-me, meu São Francisco,
Pois moro em área de risco.
Salvai-me, Santa Hermengarda,
Já lá vem a enxurrada.
Protegei-me, Santo Higino,
Minha casa está caindo.
Atendei-me, São Patrício,
Porque não mereço isso.
Querida Santa Martinha,
Esta culpa não é só minha.
Olhai-me, Santa Luzia,
E também minha família.
Socorrei-me, Santo Hermógenes,
Tal incúria não é de hoje.
Mostrai-lhes, Joana D’Arc,
Que isto aqui não é parque.
Santa Júlia Billiar,
Ensinai-me a votar.
Imagem em budhachannel.tv.
E na próxima eleição,
Meu querido São João,
Que eu não eleja ladrão.
E, por fim, São Serafim,
Cuidai muito bem de mim.
Por toda esta vida, amém,
Santo Alberto de Jerusalém.

14 de abril de 2011

GARÓFALO PELACANI

Rembrandt, pintor holandês,
séc. XVII.
Garófalo Pelacani mandou publicar nos classificados do jornal O Fluminense, de Niterói, aviso de que estava disposto, a partir daquela data, a encerrar as funções de mancebo recalcitrante que vinha exercendo há quarenta e três anos, com uma pretensa folha corrida de dar inveja a muito Dom Juan afamado.
Chegara à conclusão de que lhe faltaria, na velhice, quem cuidasse dos achaques da idade a que todos se sujeitam, desde que não se abotoe o paletó com antecedência. Mas não queria ninguém de suas relações, porque essas, na verdade, se não recomendaria para os amigos, muito menos para si mesmo.
Na publicação, que mandou destacar em negrito, exigia, dentre outras qualidades, que a candidata ao cargo de cara-metade fosse mais nova do que ele, no mínimo, dez anos, bem apessoada, razoavelmente culta e inteligente, falasse a língua de Dante com fluência e gostasse do cinema italiano, sobretudo de Rossellini, De Sica, Visconti, Fellini e Antonioni. Cartas para a redação. E ficou esperando.
É claro que não achou, porque mulher assim não anda dando sopa na praça. As poucas com tais requisitos que, hipoteticamente, ainda estivessem por aí de bobeira, por certo, teriam um bando de marmanjos a seus pés e não teriam tempo de buscar este tipo de coisa em jornal.
Ele queria que uma pepita de ouro reluzente pulasse das profundezas de uma mina e fosse parar sobre sua cama? Era um pretensioso!
Garófalo passou toda a sua vida em fuzarcas e folias, esqueceu-se de procurar parceira conveniente e agora julgava que fosse encontrar tal joia com um mísero classificado barato, numa página escondida, de um jornal de circulação limitada? Era um grande pretensioso!
Mas não é que, após um mês da publicação, já moribunda a esperança, foi-lhe enviada pelo jornal carta manuscrita de pretendente ao posto!
Em letra caprichada, a candidata se mostrou: "Querido Garófalo - permita-me tratá-lo assim -, vi seu anúncio sentimental no jornal O Fluminense que veio embrulhando um quilo de aipim que papai comprou na feira, no último fim de semana (Mamãe ia preparar vaca atolada.). Fiquei surpresa como um homem requintado como você ainda não tenha encontrado a pessoa ideal. Não sei se estarei à altura de suas exigências, mas creio que me aproximo bastante. Sou solteira e disponível. Gostaria, se não for inconveniente, marcar encontro, para que possamos nos conhecer melhor. Arrivederci." E se assinou Francesca,  acrescentando um PS: "Meu filme preferido é Ladri di biciclette, do grande De Sica", mais endereço eletrônico e número de celular.
Garófalo foi aos céus e voltou!
Já ouviram falar de sopa no mel? Pois foi exatamente isto que ele pensou.
- Não serei o famoso Garófalo das mulheres, se não conseguir o que quero. Eu sou mais eu!
Combinou tudo com ela, pelo endereço eletrônico: gatasonhadora@hotmail.com, depois de trocarem algumas mensagens. O local seria a praça de alimentação do Plaza Shopping, o pior possível, pela muvuca que sempre se forma ali.
No dia aprazado, na hora marcada, lá estava Garófalo a aguardar a chegada de sua pretendente. Para fingir tranquilidade, tomava água mineral sem gás.
Conforme o combinado, identificou a criatura de amarelo canário, livro à mão, espaço físico duplamente ocupado por uma só pessoa, que andava em passos gangorrados, a vir em sua direção. Não era velha, nem nova: naquela idade incerta, em que se pode ser qualquer coisa. Não era feia, nem bonita; mas aquilo que não agrada, nem desagrada. Só era um tanto gorda, nitidamente.
Ela, por sua vez, o olhou com um misto de frustração e condescendência. Num átimo, imaginou sua vida cuidando daquele coroa metido à besta, cavanhaque grisalho, unhas com verniz, pose de gay enrustido. E passou direto pela sua mesa, como se não o tivesse visto.
Porque ela, Francesca Minardi Souza, preferia, mil vezes, ver seus filmes do neorrealismo italiano sozinha a passar o resto da vida cuidando de gente cheia de manias.
E Garófalo ficou na praça de alimentação, a alimentar as caraminholas de sua cabeça, no afã de entender por que, raios, aquela gordinha jeitosa passou batida, fingindo não o ver.
Teria de repetir o anúncio, ou recolher-se ao asilo, quando chegasse a hora.

13 de abril de 2011

SEMPRE


(Colhido em gartic.com.br.)
sempre que ouvir teu nome
prometo tremer o rosto
mexer no íntimo sentimento
que tenta permanecer impassível
inutilmente dentro de mim

sempre que sentir teu perfume
prometo rebuscar os sonhos
recuperar súbitas lembranças
que teimosamente insistem
em sobreviver assim

sempre que tocar teu corpo
prometo reinventar poemas
recriar inúmeros sambas-enredo
no pulsar descompassado
do meu cardíaco tamborim