16 de abril de 2011

TEU CORAÇÃO

Teu coração apanha mais que tamborim,
E bate surdo aos repiniques da dor
Que o chacoalha, faz cambalhotas,
Arma ciladas, soa marota, brinca de dia,
Como se a noite que se anuncia
Trouxesse alento.
Tudo ilusão de momento
Tudo matéria irreal:
Alegria irrisória de um fugaz carnaval.


Imagem em proxtytutuz.blogspot.com.


15 de abril de 2011

LADAINHA DO DESESPERADO

Vigiai-me, São Romualdo,
O céu está enfarruscado.
São Prudêncio, Santo Urbano,
As chuvas já vêm chegando.
Consolai-me, Santo Expedito,
Ando um tanto quanto aflito.
Valei-me, meu São Francisco,
Pois moro em área de risco.
Salvai-me, Santa Hermengarda,
Já lá vem a enxurrada.
Protegei-me, Santo Higino,
Minha casa está caindo.
Atendei-me, São Patrício,
Porque não mereço isso.
Querida Santa Martinha,
Esta culpa não é só minha.
Olhai-me, Santa Luzia,
E também minha família.
Socorrei-me, Santo Hermógenes,
Tal incúria não é de hoje.
Mostrai-lhes, Joana D’Arc,
Que isto aqui não é parque.
Santa Júlia Billiar,
Ensinai-me a votar.
Imagem em budhachannel.tv.
E na próxima eleição,
Meu querido São João,
Que eu não eleja ladrão.
E, por fim, São Serafim,
Cuidai muito bem de mim.
Por toda esta vida, amém,
Santo Alberto de Jerusalém.

14 de abril de 2011

GARÓFALO PELACANI

Rembrandt, pintor holandês,
séc. XVII.
Garófalo Pelacani mandou publicar nos classificados do jornal O Fluminense, de Niterói, aviso de que estava disposto, a partir daquela data, a encerrar as funções de mancebo recalcitrante que vinha exercendo há quarenta e três anos, com uma pretensa folha corrida de dar inveja a muito Dom Juan afamado.
Chegara à conclusão de que lhe faltaria, na velhice, quem cuidasse dos achaques da idade a que todos se sujeitam, desde que não se abotoe o paletó com antecedência. Mas não queria ninguém de suas relações, porque essas, na verdade, se não recomendaria para os amigos, muito menos para si mesmo.
Na publicação, que mandou destacar em negrito, exigia, dentre outras qualidades, que a candidata ao cargo de cara-metade fosse mais nova do que ele, no mínimo, dez anos, bem apessoada, razoavelmente culta e inteligente, falasse a língua de Dante com fluência e gostasse do cinema italiano, sobretudo de Rossellini, De Sica, Visconti, Fellini e Antonioni. Cartas para a redação. E ficou esperando.
É claro que não achou, porque mulher assim não anda dando sopa na praça. As poucas com tais requisitos que, hipoteticamente, ainda estivessem por aí de bobeira, por certo, teriam um bando de marmanjos a seus pés e não teriam tempo de buscar este tipo de coisa em jornal.
Ele queria que uma pepita de ouro reluzente pulasse das profundezas de uma mina e fosse parar sobre sua cama? Era um pretensioso!
Garófalo passou toda a sua vida em fuzarcas e folias, esqueceu-se de procurar parceira conveniente e agora julgava que fosse encontrar tal joia com um mísero classificado barato, numa página escondida, de um jornal de circulação limitada? Era um grande pretensioso!
Mas não é que, após um mês da publicação, já moribunda a esperança, foi-lhe enviada pelo jornal carta manuscrita de pretendente ao posto!
Em letra caprichada, a candidata se mostrou: "Querido Garófalo - permita-me tratá-lo assim -, vi seu anúncio sentimental no jornal O Fluminense que veio embrulhando um quilo de aipim que papai comprou na feira, no último fim de semana (Mamãe ia preparar vaca atolada.). Fiquei surpresa como um homem requintado como você ainda não tenha encontrado a pessoa ideal. Não sei se estarei à altura de suas exigências, mas creio que me aproximo bastante. Sou solteira e disponível. Gostaria, se não for inconveniente, marcar encontro, para que possamos nos conhecer melhor. Arrivederci." E se assinou Francesca,  acrescentando um PS: "Meu filme preferido é Ladri di biciclette, do grande De Sica", mais endereço eletrônico e número de celular.
Garófalo foi aos céus e voltou!
Já ouviram falar de sopa no mel? Pois foi exatamente isto que ele pensou.
- Não serei o famoso Garófalo das mulheres, se não conseguir o que quero. Eu sou mais eu!
Combinou tudo com ela, pelo endereço eletrônico: gatasonhadora@hotmail.com, depois de trocarem algumas mensagens. O local seria a praça de alimentação do Plaza Shopping, o pior possível, pela muvuca que sempre se forma ali.
No dia aprazado, na hora marcada, lá estava Garófalo a aguardar a chegada de sua pretendente. Para fingir tranquilidade, tomava água mineral sem gás.
Conforme o combinado, identificou a criatura de amarelo canário, livro à mão, espaço físico duplamente ocupado por uma só pessoa, que andava em passos gangorrados, a vir em sua direção. Não era velha, nem nova: naquela idade incerta, em que se pode ser qualquer coisa. Não era feia, nem bonita; mas aquilo que não agrada, nem desagrada. Só era um tanto gorda, nitidamente.
Ela, por sua vez, o olhou com um misto de frustração e condescendência. Num átimo, imaginou sua vida cuidando daquele coroa metido à besta, cavanhaque grisalho, unhas com verniz, pose de gay enrustido. E passou direto pela sua mesa, como se não o tivesse visto.
Porque ela, Francesca Minardi Souza, preferia, mil vezes, ver seus filmes do neorrealismo italiano sozinha a passar o resto da vida cuidando de gente cheia de manias.
E Garófalo ficou na praça de alimentação, a alimentar as caraminholas de sua cabeça, no afã de entender por que, raios, aquela gordinha jeitosa passou batida, fingindo não o ver.
Teria de repetir o anúncio, ou recolher-se ao asilo, quando chegasse a hora.

13 de abril de 2011

SEMPRE


(Colhido em gartic.com.br.)
sempre que ouvir teu nome
prometo tremer o rosto
mexer no íntimo sentimento
que tenta permanecer impassível
inutilmente dentro de mim

sempre que sentir teu perfume
prometo rebuscar os sonhos
recuperar súbitas lembranças
que teimosamente insistem
em sobreviver assim

sempre que tocar teu corpo
prometo reinventar poemas
recriar inúmeros sambas-enredo
no pulsar descompassado
do meu cardíaco tamborim

12 de abril de 2011

SÓ A SOLIDÃO...


(Imagem em novamagazine.com.au.)
só a solidão soluciona
a dor da separ-
ação
mas se não solucionar
fica o sim pelo não
o talvez pelo então
o ontem pelo amanhã
e assim sucessivamente
até que a mente domine
a bomba do coração

11 de abril de 2011

MESTRE MAESTRO

Em fins do século XIX, princípios do século XX, o maestro e compositor José Pedro Neiva exercia a atividade de professor de música, para sustentar a família numerosa que formara com Pautila Evaristo, carinhosamente chamada por Tiloca.
Dos embates de colchão, nasceu-lhes uma fieira de filhos. Sete ao todo, cujos nomes, com a possível exceção do primeiro, demonstravam claramente sua paixão pela música: José, Verdi, Wagner, Beethoven, Lira, Cecília e Euterpe. Em todos eles, acrescentou, logo após o nome, três notas musicais de uma obra clássica de sua preferência. Deste modo, o primogênito recebeu o nome completo de José Si-ré-fá Evaristo Neiva, que, se não falham as crenças familiares, fora nomeado com as três primeiras notas de uma sinfonia de Beethoven.
Em lombo de burro, percorria ele as estradas e os caminhos de chão batido de Morro Alto, Minas Gerais, hoje Barão de Monte Alto, para ensinar nas fazendas, sobretudo, às filhas dos fazendeiros, numa época em que ser mulher prendada das classes abastadas exigia, dentre outras qualidades, conhecimento musical.
Nesta atividade, ficava fora de casa por duas, três semanas, ou até mesmo um mês. Deste modo, todo o cuidado dos filhos ficava sob o encargo de Tiloca.
Nem sempre, no entanto, o maestro deixava o suficiente para a alimentação da prole, pelo tempo em que estivesse ausente, motivo por que, com frequência, Tiloca ficava sem os meios necessários para manter a alimentação farta e saudável de todos.
Para agravar a situação, o maestro instituiu na família aquilo que se pode chamar de "ditadura musical". É que exigia que todos os filhos aprendessem teoria musical, bem como a tocar um instrumento.
Assim, antes de sair para o périplo pelas propriedades onde dava suas aulas, passava os deveres e as lições que cada um tinha de efetuar, para que, ao voltar, cobrasse individualmente a tarefa pronta e bem realizada, sob pena de castigos.
Pelo tempo em que se deu a história, nem é preciso dizer que a bordoada descia firme no lombo de quem não cumprisse o determinado.
Acrescia-se a esse caráter despótico-musical do maestro José Pedro, uma paixão também por aquela que matou o guarda, a dita água que passarinho não bebe, a camulaia, ou lá o sem-número de denominações que a cachaça receba nos dicionários de língua nacional ou nos recantos mais afastados desse país afora.
Assim, amiúde, voltava ele já com o teor alcoólico de entortar bafômetro, com disposição redobrada para tomar as lições que deixara para os filhos, sobre os quais despejava sua intolerância.
É óbvio que o ambiente não era dos melhores, e Pautila não tinha o pulso forte para frear as intempéries paternas que assolavam a casa.
Imagem em bloglistanegra.blogspot.com.
Deu-se, então, como ninguém vive para sempre, que o maestro e compositor José Pedro Neiva, certo dia, acertou as notas e as harmonias com Deus, indo viver em outra pauta e deixando muitas tarefas por cobrar de seus filhos.
Passado o velório, enterrado o ditador musical no cemitério da cidadezinha, juntaram os filhos os instrumentos de suplício que eram obrigados a aprender, inclusive um piano de cauda, meteram o machado em tudo e, acrescentando as partituras de suas composições, fizeram uma grande fogueira no quintal de casa.
O fogo limpou todos os maus tratos que receberam, aliviou-lhes a alma.
Infelizmente, com a distância que o tempo nos concede, hoje se lamenta tal perda, pois tenho quase a certeza de que desapareceram obras maravilhosas, pelo caráter apaixonado de quem as escreveu.
Dos filhos, a única que se manteve ligada à música durante toda sua vida, como professora e acordeonista, foi Euterpe, que ironicamente trocou seu nome para Dirce.
Hoje, o único sobrevivente desta história é Beethoven Evaristo Neiva, às portas dos noventa e cinco anos, meu sogro, surdo como seu epônimo, que, logo depois de entortar o pistom que lhe era imposto como instrumento de tortura, foi a cartório para retirar do nome as notas musicais e apagar da memória tudo de ruim por que passara.

9 de abril de 2011

LÁ VEM A NOITE ESFARRAPADA

Lá vem a noite esfarrapada
Catando nas latas de lixo de lanchonetes e padarias
Estrelas puídas recheadas de fome
Com o molho amargo do suco gástrico
Sem o descanso das horas perdidas
No martírio dos sonhos abortados
Peter Brughel, Mendigos, séc. XVI.
E os corpos transidos de cio
Como se a manhã anunciada
Augurasse aos deserdados
Uma felicidade que não existe.