8 de abril de 2011

CARTA AO MATADOR DE JOVENS DO RIO DE JANEIRO

Imagem em blogs.abril.com.br.


Li tua carta, maldito matador de inocentes. Nada há em ti de puro, senão tua infame loucura. Teu sangue degenerado não te salvará. Teu pretenso deus, também louco, não te receberá. Se é que haja um deus, ele não autorizaria tal ato. Não serás julgado pela desgraça que causaste, pelo sangue jovem que derramaste, pela infelicidade que geraste a tantas famílias, a esta cidade e a seu povo, porque foste covarde até o derradeiro ato. Tua memória não se apagará, porque nos devemos lembrar sempre que, além de toda a maldade que o homem trás em si, há aquela que nos faz pior que todas as bestas, todas as feras. Para ti, não haverá compaixão, como a que não tiveste com nossas crianças. E, caso haja a danação final em que acreditavas, que o inferno te seja o mais pesado possível. Pois não temos a clemência para te oferecer. Somos apenas seres humanos comuns, impuros, que, chocados com tua insanidade, não se conformam com a barbárie. Maldito o dia em que nasceste! Maldito sejas até onde nossa memória alcance!

7 de abril de 2011

AMIGOS

Não chego a ser um caso de polícia
Não sou bem aquilo bem isso
Sou apenas um mero bicho esquisito
Cheio de nós pelas costas
Cheio de vícios
Assolado por compromissos
De todos os tipos
E o máximo que consigo
Quando estou a perigo
É chamar pelos amigos
Assim nem sempre vacilo
Quase nunca grito
Ou esperneio
Pois quem tem amigos
Tem mais que meio mundo
Com certeza o mundo inteiro
Amigos são esteios
São estacas
Ainda que eu não seja meramente um bicho
Mas seja apenas uma folha seca
Max Ernest, O encontro dos amigos,  1922 (em ujuo.com).
Soprada pelo vento
Com meus amigos
Eu me sustento

6 de abril de 2011

GALO COM MACARRÃO

Ray é um péssimo vizinho, como há milhares, talvez milhões, por este Brasil afora, em cidades grandes ou pequenas, em vilas ou cafundós. Basta você ter um vizinho para começar a ter problemas. É o que há de mais certo para dar errado: ter vizinho!
Quem mora em prédio de apartamentos, seja o de baixo, ou o de cima, seja o da frente, ou o de trás, qualquer um deles, num dia qualquer, vai causar-lhe transtornos e aborrecimentos.
Não é diferente, quando se mora em casas de meia água, em condomínios horizontais, em chácaras, sítios ou fazendas.
Lá haverá um vizinho pronto a incomodar.
Quando, nas Tábuas da Lei entregues a Moisés, o Senhor determinou que se amasse o próximo como a si mesmo, é porque já sabia como seria difícil suportar aquela pessoa nojenta que está ao alcance da sua borduna, do seu tacape, com a cabeça apta a receber a cacetada.
Ray, porém, fazia questão de ser um especialista na condição de mau vizinho. Não media esforços, para fazer o que estivesse ao seu alcance e subir no desapreço alheio.
Quantas vezes tinha pedido algo emprestado e não devolvido? Quantas vezes tinha permitido que suas criações atravessassem a cerca, para fuçar os canteiros de hortaliças? Quantas vezes se metera nas obras de melhoria da calçada, na correção das goteiras do telhado, na pintura do muro? Quantas vezes viera dar opinião, sem ser chamado, nos problemas da família; entrar, sem ser convidado, na hora do café da tarde? Eram vezes sem fim! Inúmeras, incontáveis! Se se fizesse livro de anotações, daria quase uma biblioteca.
Por último, para acrescentar mais um item no quesito incomodação, arranjou um galo miserento, com o relógio biológico desregulado, que começa a cantar por volta das quatro da madrugada e só vai dar fim à cantoria lá pelo final do dia. A função do penoso ocorre a intervalos regulares de dez minutos, com a goela do chanteclair a emitir um som estridente de taquara rachada, capaz de acordar defunto surdo dos dois ouvidos.
E, o pior: o vizinho não criava galinhas, para dar vazão aos instintos sexuais daquela ave excomungada. Isso talvez explicasse sua cantoria desregulada.
Mas pode deixar, seu Ray, que os dias de tenor do galo estavam contados!
Quando o filho, que mora em Macaé, foi passar o carnaval deste ano em Miracema, defrontou-se com o problema, para o qual deu solução gastronômica definitiva.
Depois de chegar às duas da madrugada do desfile do bloco carnavalesco Rola Cansada, foi acordado com a sinfonia desentoada do da crista vermelha. Por esse motivo, acometeu-se de tremendo mau humor vingancista, irmão menor do instinto assassino.
Destilando bílis o dia inteiro, arquitetou plano de sequestro do galo, naquela mesma noite.
Foi à quitanda do Zé Maria, onde comprou meio quilo de milho, um pacote de macarrão goela de pato, batata, cenoura, pimentão, alho-poró e massa de tomate e avisou à empregada que, naquele dia, haveria serão.
Em munizfreire.es.gov.br.
Capturou o penoso a poder de milho, passou a faca no gogó do bicho, colheu o sangue num prato de ágate, deu-lhe um banho de água fervente, despiu-o da cobertura plumária, esquartejou-o, lavou-o, cobriu-lhe as partes de uma mistura de sal, alho, vinagre, cebola triturada, pimenta-do-reino, gengibre em pó, alho-poró e vinho tinto, deixando-o descansar por algum tempo, após o que o meteu em panela de pressão, coberto pelo molho, em fogo alto, durante cerca de duas horas (O penoso era velho!), ao fim das quais, acrescentou o pacote de macarrão goela de pato,  as batatas e as cenouras picadas, acertou o sal e os temperos e cozinhou a mistura até amaciar a massa e engrossar o caldo, experimentou tudo, achou bom e partiu atrás do mineiro-pau Peru Encalorado, que passava diante de casa.
Voltou zonzo às primeiras claridades do dia seguinte; dormiu como um bisão americano; acordou lépido e fagueiro como um coelho, à uma da tarde; lambeu uma dose generosa de Menina do Rio e devorou o cantor descalibrado com arroz de alho e angu molinho, reforçados no azeite extravirgem e na pimenta malagueta, "como se fosse um príncipe".
Ray não riu mais e de nada mais achou graça nesse carnaval, mas prometeu, a partir da quaresma, criar gansos sinaleiros no espaço exíguo de seu quintal contestado.
A guerra do galo com macarrão apenas começara!

5 de abril de 2011

CORAÇÃO DE BLUES

sete rios caudalosos descem do meu coração tardio
rios de verão rios de enxurrada
rios bravios
águas barrentas reses arrastadas
pontes em ruína

sete dias tenebrosos infestam meu ser agoniado
dias de inverno dias ressequidos
dias de conflito
lúgubres silêncios nítidas negruras
sonhos destruídos

sete males exasperados pululam meu peito devastado
males do amor males da paixão
(Imagem tocadoblues.com.br)
males incuráveis
inúteis soledades míseras ternuras
estúpidas saudades

4 de abril de 2011

WHEN EVENING COMES*

Quando a noite chega,
Pesada como um paquiderme,
Com seus incontáveis mistérios,
O céu de estrelas inominadas
Desce sobre os homens,
Anunciando que o dia que se aproxima
Trará o risco, trará o tédio,
A que toda criatura se submete
E dos quais, por mais que tente,
Escapar não há-de
Cedo ou tarde,
Até que se cumpra
O fado que toda criatura porte
Para todo o sempre
Do nascimento à morte.

(*Título de uma canção de Ken Hensley, do cd Proud words on a dusty shelf, Repertoire, 1993.)

3 de abril de 2011

TONHÃO E TIÃO

Na venda do Argemiro, no centro da vila, Tião comia pé de moleque e discorria sobre o que sabia e não sabia da vida, com a empáfia de sempre.
Tonhão, seu cunhado, tropeiro dobrado dos pés à cabeça, chegou com cara de acompanhar enterro. Disse-lhe na lata, diante da venda cheia:
- Tião, vim te avisar que, se você tocar mais um dedo na Dozinha, vai-se ver comigo.
Tião também era tido como quebrador de pau, esquentador de fuça alheia, cheio de prosopopeias, e não se fez de rogado:
- Não se meta, Tonhão! A mulher é minha e, se não andar nos conformes, eu exemplo. Tou no meu direito de chefe de família, de marido. A lei tá do meu lado.
- Ó, gente! – E dirigiu-se Tonhão a toda a plateia presente. – Todos aqui são testemunhas de que eu avisei a esse estropício.
E saiu porta fora, deixando no ambiente um mal-estar indigesto, a que nem bicarbonato de sódio ou salicilato de bismuto composto dariam jeito.
Mal-agradecido como só, Tião nem se lembrou da dívida para com o cunhado: uma quarta de milho, fueiros para o carro de boi, uma arroba de carne no último ano para ajudar a cuidar dos bacuris, que era como o povo da terra chamava as crianças ainda miúdas.
- Esse é um desinfeliz que fica se metendo aonde não é chamado. Da minha vida, cuido eu, que não devo satisfações a ninguém. Ninguém paga minhas contas, nem põe comida na minha casa. Lá eu governo, ao meu sabor, ao meu capricho!
E, virando-se para o vendeiro:
- Seu Argemiro, quanto é a despesa?
Pagou a conta miúda, menor que seus bacuris – quatro ao todo, numa escadinha dos seis aos dois anos – , e também caçou o rumo de casa, porque, com a afronta sofrida, seu humor já tinha ido para o beleléu naquela noite.
Na venda, ficou um ar pesado, esquisito. Porém logo a conversa voltou ao normal e ninguém comentou o acontecido. Isso era encrenca de família e todos, tacitamente, concordaram em não opinar.
Não se passaram cinco dias e chega à casa de seu Berilo, pai de Tonhão e Dozinha, notícia de que o genro, mais uma vez, tinha sovado sua filha, por conta de bobagens sem a menor importância. Tudo motivado por excesso de pinga na cabeça.
Do alto de sua idade, ele não tinha mais condições de ir lá resolver a questão, se não fosse com um tiro de garrucha nos cornos daquele filho de uma égua. Por isso é que pediu a Tonhão que fosse lá assuntar o sucedido e tomasse as providências para retornar com a filha e os netos para sua casa, que lá ela era tratada como princesa, como sempre dizia.
Tonhão, ao ouvir o relato e o pedido do velho pai, começou a ter um afrontamento no peito, a cabeça girando mais que maxambomba de parque de diversão, a respiração acelerada. Passou a mão num pedaço de caibro velho, jogado no canto da tulha, umas correias que usava no arreamento da tropa, e foi-se em direção à casa da irmã.
Elias Vitalino, Homem a cavalo, coleção
do autor (em artepopularbrasil.blogspot.com)
- Dozinha, cadê aquele traste do seu marido?! Onde está aquela besta?!

A irmã, rosto inchado, olho roxo, previu tragédia das grossas e começou a chorar, pedindo ao irmão que não fizesse nenhuma besteira. Os dois bacuris maiores começaram a chorar, acompanhando a mãe, e daí a instante toda a casa era um choro só, como um coral.
- Fala, Dozinha, onde está a praga do seu marido, que eu quero acertar umas contas com ele agora?! Neste momento! E arrume suas tralhas que você vai pra casa do pai.
E falou tão alto e com tal autoridade, que Dozinha, apequenada diante da situação, miou baixinho:
- Foi tomar banho no valão.
Tonhão deixou a casa simples como um sargentão da volante do tenente Coaraci, dos duros tempos do Dr. Getúlio: peito aprumado, pernas firmes, olhos faiscando corisco para todos os lados, o pedaço de caibro e as correias na mão segura.
Num instante tinha chegado ao poço do valão, onde também tomara muitos banhos. Encontrou o cunhado todo ensaboado, esfregando o corpo com uma bucha. E, antes que este esboçasse qualquer reação, aplicou-lhe uma pancada com o caibro na prancha da cara que o fez rodopiar. Quando pensou em recobrar o tino da situação e pegar um pedaço de pau que ali estava, Tião levou mais uma na região produtora de bacuris. O urro que se ouviu transpôs as margens do valão e chegou até a casa onde morava, assustando sua mulher.
Daí em diante, ele não foi mais homem de reagir, e a sucessão de pancadas que recebeu em todas as partes do corpo deixou-o derreado no chão.
Então, Tonhão o arrastou pelas pernas, como a um fardo de carne-seca, lanhando suas costas nos gravetos e espinhos do chão, até a entrada de sua casa, onde amarrou o que restava do cunhado na paineira do quintal. Trançou-o todo ao tronco da árvore espinhenta com as correias e lhe disse nas ventas, aos berros:
- Isso é para você aprender a não tocar na minha irmã, seu canalha! Seu filho de uma égua!
Se Tião ouviu ou não, naquele momento, jamais se irá saber, porque, quando as pessoas tiveram notícia do fato e vieram socorrê-lo, sua alma já estava acertando as contas com o Tinhoso.
Montado num cavalo marchador, Tonhão caiu no oco do mundo, rompendo a Serra da Boa Esperança, varando pastos e matas, macegas e descampados, brejos e areais, de não ser reportado durante mais de quinze anos.
Até que, num dia de Natal, no décimo sexto ano no além do fato, aparece aquele senhor de cabelos grisalhos na casa de Dozinha. Anuncia-se como seu irmão Antônio, que viera pedir perdão pelo que ocorrera tantos anos antes.
Emocionada, a irmã abraça-se a ele e impede que seus filhos, sobre o tio, despejassem um intragável ressentimento curtido em salmoura por tanto tempo.

1 de abril de 2011

NA PRIMEIRA MANHÃ

Ontem, como sempre, vi teu vulto entre sonhos.

Na primeira manhã de outono,
O dia branco nasceu sem sono
E pude ver pela janela aberta sobre o campo
De edifícios e praias da cidade grande,
Com cachorros circulando com seus donos,
Os enganos, os quebrantos,
De que não pude fugir durante anos
Em que tentei ser independente.
Hoje vivo somente
Num aparente plano de contingências
Entre trapos de lembranças e insolvências,
Como se fosse a vida impermanência
Ou esta coisa comezinha só existência.


Imagem em artransta.ca.