4 de abril de 2011

WHEN EVENING COMES*

Quando a noite chega,
Pesada como um paquiderme,
Com seus incontáveis mistérios,
O céu de estrelas inominadas
Desce sobre os homens,
Anunciando que o dia que se aproxima
Trará o risco, trará o tédio,
A que toda criatura se submete
E dos quais, por mais que tente,
Escapar não há-de
Cedo ou tarde,
Até que se cumpra
O fado que toda criatura porte
Para todo o sempre
Do nascimento à morte.

(*Título de uma canção de Ken Hensley, do cd Proud words on a dusty shelf, Repertoire, 1993.)

3 de abril de 2011

TONHÃO E TIÃO

Na venda do Argemiro, no centro da vila, Tião comia pé de moleque e discorria sobre o que sabia e não sabia da vida, com a empáfia de sempre.
Tonhão, seu cunhado, tropeiro dobrado dos pés à cabeça, chegou com cara de acompanhar enterro. Disse-lhe na lata, diante da venda cheia:
- Tião, vim te avisar que, se você tocar mais um dedo na Dozinha, vai-se ver comigo.
Tião também era tido como quebrador de pau, esquentador de fuça alheia, cheio de prosopopeias, e não se fez de rogado:
- Não se meta, Tonhão! A mulher é minha e, se não andar nos conformes, eu exemplo. Tou no meu direito de chefe de família, de marido. A lei tá do meu lado.
- Ó, gente! – E dirigiu-se Tonhão a toda a plateia presente. – Todos aqui são testemunhas de que eu avisei a esse estropício.
E saiu porta fora, deixando no ambiente um mal-estar indigesto, a que nem bicarbonato de sódio ou salicilato de bismuto composto dariam jeito.
Mal-agradecido como só, Tião nem se lembrou da dívida para com o cunhado: uma quarta de milho, fueiros para o carro de boi, uma arroba de carne no último ano para ajudar a cuidar dos bacuris, que era como o povo da terra chamava as crianças ainda miúdas.
- Esse é um desinfeliz que fica se metendo aonde não é chamado. Da minha vida, cuido eu, que não devo satisfações a ninguém. Ninguém paga minhas contas, nem põe comida na minha casa. Lá eu governo, ao meu sabor, ao meu capricho!
E, virando-se para o vendeiro:
- Seu Argemiro, quanto é a despesa?
Pagou a conta miúda, menor que seus bacuris – quatro ao todo, numa escadinha dos seis aos dois anos – , e também caçou o rumo de casa, porque, com a afronta sofrida, seu humor já tinha ido para o beleléu naquela noite.
Na venda, ficou um ar pesado, esquisito. Porém logo a conversa voltou ao normal e ninguém comentou o acontecido. Isso era encrenca de família e todos, tacitamente, concordaram em não opinar.
Não se passaram cinco dias e chega à casa de seu Berilo, pai de Tonhão e Dozinha, notícia de que o genro, mais uma vez, tinha sovado sua filha, por conta de bobagens sem a menor importância. Tudo motivado por excesso de pinga na cabeça.
Do alto de sua idade, ele não tinha mais condições de ir lá resolver a questão, se não fosse com um tiro de garrucha nos cornos daquele filho de uma égua. Por isso é que pediu a Tonhão que fosse lá assuntar o sucedido e tomasse as providências para retornar com a filha e os netos para sua casa, que lá ela era tratada como princesa, como sempre dizia.
Tonhão, ao ouvir o relato e o pedido do velho pai, começou a ter um afrontamento no peito, a cabeça girando mais que maxambomba de parque de diversão, a respiração acelerada. Passou a mão num pedaço de caibro velho, jogado no canto da tulha, umas correias que usava no arreamento da tropa, e foi-se em direção à casa da irmã.
Elias Vitalino, Homem a cavalo, coleção
do autor (em artepopularbrasil.blogspot.com)
- Dozinha, cadê aquele traste do seu marido?! Onde está aquela besta?!

A irmã, rosto inchado, olho roxo, previu tragédia das grossas e começou a chorar, pedindo ao irmão que não fizesse nenhuma besteira. Os dois bacuris maiores começaram a chorar, acompanhando a mãe, e daí a instante toda a casa era um choro só, como um coral.
- Fala, Dozinha, onde está a praga do seu marido, que eu quero acertar umas contas com ele agora?! Neste momento! E arrume suas tralhas que você vai pra casa do pai.
E falou tão alto e com tal autoridade, que Dozinha, apequenada diante da situação, miou baixinho:
- Foi tomar banho no valão.
Tonhão deixou a casa simples como um sargentão da volante do tenente Coaraci, dos duros tempos do Dr. Getúlio: peito aprumado, pernas firmes, olhos faiscando corisco para todos os lados, o pedaço de caibro e as correias na mão segura.
Num instante tinha chegado ao poço do valão, onde também tomara muitos banhos. Encontrou o cunhado todo ensaboado, esfregando o corpo com uma bucha. E, antes que este esboçasse qualquer reação, aplicou-lhe uma pancada com o caibro na prancha da cara que o fez rodopiar. Quando pensou em recobrar o tino da situação e pegar um pedaço de pau que ali estava, Tião levou mais uma na região produtora de bacuris. O urro que se ouviu transpôs as margens do valão e chegou até a casa onde morava, assustando sua mulher.
Daí em diante, ele não foi mais homem de reagir, e a sucessão de pancadas que recebeu em todas as partes do corpo deixou-o derreado no chão.
Então, Tonhão o arrastou pelas pernas, como a um fardo de carne-seca, lanhando suas costas nos gravetos e espinhos do chão, até a entrada de sua casa, onde amarrou o que restava do cunhado na paineira do quintal. Trançou-o todo ao tronco da árvore espinhenta com as correias e lhe disse nas ventas, aos berros:
- Isso é para você aprender a não tocar na minha irmã, seu canalha! Seu filho de uma égua!
Se Tião ouviu ou não, naquele momento, jamais se irá saber, porque, quando as pessoas tiveram notícia do fato e vieram socorrê-lo, sua alma já estava acertando as contas com o Tinhoso.
Montado num cavalo marchador, Tonhão caiu no oco do mundo, rompendo a Serra da Boa Esperança, varando pastos e matas, macegas e descampados, brejos e areais, de não ser reportado durante mais de quinze anos.
Até que, num dia de Natal, no décimo sexto ano no além do fato, aparece aquele senhor de cabelos grisalhos na casa de Dozinha. Anuncia-se como seu irmão Antônio, que viera pedir perdão pelo que ocorrera tantos anos antes.
Emocionada, a irmã abraça-se a ele e impede que seus filhos, sobre o tio, despejassem um intragável ressentimento curtido em salmoura por tanto tempo.

1 de abril de 2011

NA PRIMEIRA MANHÃ

Ontem, como sempre, vi teu vulto entre sonhos.

Na primeira manhã de outono,
O dia branco nasceu sem sono
E pude ver pela janela aberta sobre o campo
De edifícios e praias da cidade grande,
Com cachorros circulando com seus donos,
Os enganos, os quebrantos,
De que não pude fugir durante anos
Em que tentei ser independente.
Hoje vivo somente
Num aparente plano de contingências
Entre trapos de lembranças e insolvências,
Como se fosse a vida impermanência
Ou esta coisa comezinha só existência.


Imagem em artransta.ca.


31 de março de 2011

FADO

No Bairro Alto, na Alfama,
As almas rolam ladeira abaixo,
Sob o fardo das dores que carregam,
Pelos desacertos do coração que ama,
Como se a música que fala de desenganos,
De perdas, de tristezas, de saudades, 
José Malhoa, O fado, 1910,
em pt.wikipedia.org.
Amenizasse um pouco
Do Portugal profundo
Que se perdeu pelos mares do mundo
E agora chora dolente nos versos do fado.



30 de março de 2011

TIDINHO DAS CANDONGAS

Cantídio abriu consultório de búzios fajuto com o único propósito de pegar donas incautas que, por acaso, lá aparecessem com seus problemas sentimentais. Porque o que mais há nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro são donas incautas de corações estropiados.

Porém não se associou a nenhuma entidade, a nenhum orixá, a nenhum santo na armação que aprontaria. É que temia que esse desfrute de baixa extração a estabelecer na praça de Madureira, bem próximo do Mercadão, pudesse despertar a ira de qualquer deles e sua vida se transformasse em uma sucessão de infortúnios, tipo atual território japonês.

Na verdade, Cantídio não acreditava em nada; era devoto incurável, sim, da sem-vergonhice, do canalhismo e do mau-caratismo de todas as tendências.

No entanto, a fim de que desse certo ar de seriedade ao indefensável, comprou livreto com instruções superficiais sobre a atividade que se propunha desenvolver. Haveria de ter um verniz de sabedoria naquela empulhação. Ou não se aprumaria.

Alguns dias depois, já havia mandado imprimir pequenos folhetos, que incumbiu menino de seus quinze anos de distribuir na entrada do Mercadão. Neles, prometia resolver problemas sentimentais de damas e senhoritas românticas que, até então, não tinham encontrado seu príncipe encantado. Não mencionava atendimento a cavalheiros, que não queria ver nem pintados de rosa choque.

O menino, contratado a dois sanduíches de mortadela com guaraná natural, mais passagem e dez reais ao fim do trabalho, começou na sexta-feira pelas oito horas e só deu cabo da tarefa um pouco antes do escurecer.

No primeiro dia, o movimento, pode-se dizer, foi parado. Porém, a partir do segundo, começou a pipocar consulente a cada duas horas, chegando ao fim da semana seguinte com necessidade de agendar atendimento. Era um tal de entra e sai de mulher no seu acanhado consultório, que o porteiro do prédio teve de estabelecer regras, a fim de que a escada não ficasse intransitável.

Sem-vergonha do jeito que era, pensou lá com seus testículos:

- Vou calibrar mais a jogatina de búzios, criar prestígio e depois sair faturando a mulherada. Com o nome feito na praça, vou pegar até a Rainha da Inglaterra, se baixar aqui. Ou não me chamo Cantídio Sampaio dos Reis, o Tidinho das Candongas.

Para não alongar demais nas prosopopeias de que se achava detentor laureado, pode-se dizer que a primeira cliente a ouvir suas inconveniências, uma loura entintada que atendia pelo nome de Naira e era portadora de peregrinas gostosuras, praticava noivado compromissado, há quase dez anos, com o investigador Pacheco, o Pachecão da Invernada de Olaria. Sua consulta versava tão somente sobre a questão do prazo em que iria tomar estado com o agente da lei, pois que já principiava a se achar encalhada.

Cantídio vislumbrou na dita loura, cozinhada em banho-maria por um noivo descansado demais, campo aberto à razia e se deu pessimamente mal, no grau mais alto de pessimamente e no mais grave de mal.

Informado pela noiva das saliências que o jogador de búzios tinha lançado em seus recatados ouvidos, Pachecão entrou naquele antro de descaminhos, sem hora marcada, e só saiu depois de aplicar um corretivo que aprendera fora da Academia de Polícia, nas lides com a vagabundagem, mas que produzia mais efeito que óleo de rícino ou picada de escorpião.

Sobre o que sobrou de Tidinho das Candongas, desmontado que ficou no chão daquela espelunca, Pachecão vociferou, lançando perdigotos para todos os lados, para que a fila de mulheres a descer as escadas ouvisse, num espaço de mais de cinquenta metros e olhe lá:

- Tem prazo de quinze minutos para fechar esta latrina, que a partir daí vou entrar com a volante da Invernada completa, que está doida para um servicinho extra! É só eu chamar pelo rádio que eles chegam num segundo, fazendo valer as dores da lei!

Cantídio apenas teve tempo de recolher os cavacos da cara quebrada e cair no oco do mundo. Iria abrir comércio em outra praça, longe do Rio de Janeiro, onde não encontrasse gente tão estressada e sem o mínimo senso de humor.

Dias após, estava procurando sala para alugar num shopping recém-inaugurado na Rua Dr. Abreu Lima, na progressista Bom Jesus do Itabapoana, distante quatrocentos quilômetros de Madureira, de Pachecão e da Invernada.

As mulheres da cidade o aguardassem com seus sábios conselhos, até um fazendeirão ignorante descobrir suas manjadas armações e descer o braço pesado em seus cornos.

Em reikiyon.blogspot.com.

29 de março de 2011

PODE SER QUE A MORTE SEJA A COMPANHEIRA...

pode ser que a morte seja a companheira...
mas pretendo a vida
essa coisa um tanto compungida
escorregadia
limo em laje de rio
faca de fino fio
que me fende em múltiplos cortes
a cada esquina

certamente a morte será a derradeira...
mas não amiga
prefiro a vida
esta incerta energia em meus tecidos 
Barend Cornelis Koekkoek, Uma carroça numa estrada
do interior. Óleo sobre tela (1843).
e nada mais que isso

e a nada mais aspiro

28 de março de 2011

POESIA ASSIM

Sem mais assim
Uma poesia pousa sobre a folha
E distraída por alguma coisa
Imprecisa
Um tanto permissiva
Um tanto intranquila
Como acontece sempre
Em que ela se avisa
Chegando pela porta não prevista
A poesia que se quis ativa
E não apenas uma emoção furtiva
Impõe-se por si mesma
E exige do escriba que a transcreva
Do princípio ao fim
Como se fosse uma coisa viva.

Imagem em 2mots.fr.