31 de março de 2011

FADO

No Bairro Alto, na Alfama,
As almas rolam ladeira abaixo,
Sob o fardo das dores que carregam,
Pelos desacertos do coração que ama,
Como se a música que fala de desenganos,
De perdas, de tristezas, de saudades, 
José Malhoa, O fado, 1910,
em pt.wikipedia.org.
Amenizasse um pouco
Do Portugal profundo
Que se perdeu pelos mares do mundo
E agora chora dolente nos versos do fado.



30 de março de 2011

TIDINHO DAS CANDONGAS

Cantídio abriu consultório de búzios fajuto com o único propósito de pegar donas incautas que, por acaso, lá aparecessem com seus problemas sentimentais. Porque o que mais há nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro são donas incautas de corações estropiados.

Porém não se associou a nenhuma entidade, a nenhum orixá, a nenhum santo na armação que aprontaria. É que temia que esse desfrute de baixa extração a estabelecer na praça de Madureira, bem próximo do Mercadão, pudesse despertar a ira de qualquer deles e sua vida se transformasse em uma sucessão de infortúnios, tipo atual território japonês.

Na verdade, Cantídio não acreditava em nada; era devoto incurável, sim, da sem-vergonhice, do canalhismo e do mau-caratismo de todas as tendências.

No entanto, a fim de que desse certo ar de seriedade ao indefensável, comprou livreto com instruções superficiais sobre a atividade que se propunha desenvolver. Haveria de ter um verniz de sabedoria naquela empulhação. Ou não se aprumaria.

Alguns dias depois, já havia mandado imprimir pequenos folhetos, que incumbiu menino de seus quinze anos de distribuir na entrada do Mercadão. Neles, prometia resolver problemas sentimentais de damas e senhoritas românticas que, até então, não tinham encontrado seu príncipe encantado. Não mencionava atendimento a cavalheiros, que não queria ver nem pintados de rosa choque.

O menino, contratado a dois sanduíches de mortadela com guaraná natural, mais passagem e dez reais ao fim do trabalho, começou na sexta-feira pelas oito horas e só deu cabo da tarefa um pouco antes do escurecer.

No primeiro dia, o movimento, pode-se dizer, foi parado. Porém, a partir do segundo, começou a pipocar consulente a cada duas horas, chegando ao fim da semana seguinte com necessidade de agendar atendimento. Era um tal de entra e sai de mulher no seu acanhado consultório, que o porteiro do prédio teve de estabelecer regras, a fim de que a escada não ficasse intransitável.

Sem-vergonha do jeito que era, pensou lá com seus testículos:

- Vou calibrar mais a jogatina de búzios, criar prestígio e depois sair faturando a mulherada. Com o nome feito na praça, vou pegar até a Rainha da Inglaterra, se baixar aqui. Ou não me chamo Cantídio Sampaio dos Reis, o Tidinho das Candongas.

Para não alongar demais nas prosopopeias de que se achava detentor laureado, pode-se dizer que a primeira cliente a ouvir suas inconveniências, uma loura entintada que atendia pelo nome de Naira e era portadora de peregrinas gostosuras, praticava noivado compromissado, há quase dez anos, com o investigador Pacheco, o Pachecão da Invernada de Olaria. Sua consulta versava tão somente sobre a questão do prazo em que iria tomar estado com o agente da lei, pois que já principiava a se achar encalhada.

Cantídio vislumbrou na dita loura, cozinhada em banho-maria por um noivo descansado demais, campo aberto à razia e se deu pessimamente mal, no grau mais alto de pessimamente e no mais grave de mal.

Informado pela noiva das saliências que o jogador de búzios tinha lançado em seus recatados ouvidos, Pachecão entrou naquele antro de descaminhos, sem hora marcada, e só saiu depois de aplicar um corretivo que aprendera fora da Academia de Polícia, nas lides com a vagabundagem, mas que produzia mais efeito que óleo de rícino ou picada de escorpião.

Sobre o que sobrou de Tidinho das Candongas, desmontado que ficou no chão daquela espelunca, Pachecão vociferou, lançando perdigotos para todos os lados, para que a fila de mulheres a descer as escadas ouvisse, num espaço de mais de cinquenta metros e olhe lá:

- Tem prazo de quinze minutos para fechar esta latrina, que a partir daí vou entrar com a volante da Invernada completa, que está doida para um servicinho extra! É só eu chamar pelo rádio que eles chegam num segundo, fazendo valer as dores da lei!

Cantídio apenas teve tempo de recolher os cavacos da cara quebrada e cair no oco do mundo. Iria abrir comércio em outra praça, longe do Rio de Janeiro, onde não encontrasse gente tão estressada e sem o mínimo senso de humor.

Dias após, estava procurando sala para alugar num shopping recém-inaugurado na Rua Dr. Abreu Lima, na progressista Bom Jesus do Itabapoana, distante quatrocentos quilômetros de Madureira, de Pachecão e da Invernada.

As mulheres da cidade o aguardassem com seus sábios conselhos, até um fazendeirão ignorante descobrir suas manjadas armações e descer o braço pesado em seus cornos.

Em reikiyon.blogspot.com.

29 de março de 2011

PODE SER QUE A MORTE SEJA A COMPANHEIRA...

pode ser que a morte seja a companheira...
mas pretendo a vida
essa coisa um tanto compungida
escorregadia
limo em laje de rio
faca de fino fio
que me fende em múltiplos cortes
a cada esquina

certamente a morte será a derradeira...
mas não amiga
prefiro a vida
esta incerta energia em meus tecidos 
Barend Cornelis Koekkoek, Uma carroça numa estrada
do interior. Óleo sobre tela (1843).
e nada mais que isso

e a nada mais aspiro

28 de março de 2011

POESIA ASSIM

Sem mais assim
Uma poesia pousa sobre a folha
E distraída por alguma coisa
Imprecisa
Um tanto permissiva
Um tanto intranquila
Como acontece sempre
Em que ela se avisa
Chegando pela porta não prevista
A poesia que se quis ativa
E não apenas uma emoção furtiva
Impõe-se por si mesma
E exige do escriba que a transcreva
Do princípio ao fim
Como se fosse uma coisa viva.

Imagem em 2mots.fr.

27 de março de 2011

HISTÓRIA DE NOMES


Não falo dos nomes estranhos que, na minha terra, os pais davam para os filhos, porque começaria por mim mesmo. Mas nome é como dentadura nova: acabamos por nos acostumar com ele.
Mas esse é um assunto que sempre pererecou dentro de minha cabeça.
Assim, sem resistir, começo por mim mesmo.
Quando nasci, em 1946 (Lá se vão anos, hem? Ainda bem!), meu pai resolveu chamar-me Saint-Clair, assim com a grafia francesa bem feitinha. Pelo menos, teve o cuidado de saber como se escreve. Na época, fazia sucesso na Rádio Nacional, emissora de radiodifusão que tinha prestígio semelhante ao que hoje tem a Rede Globo de Televisão, um locutor chamado Saint-Clair Lopes. Também havia um redator e ator, cujo nome era Saint-Clair Sena. Meu pai achava o nome sonoro e bonito, por isso resolveu assim me chamar. Tempos depois, já cursando a faculdade de Letras, descobri que na França medieval era comum as famílias adotarem o nome do santo de sua devoção como um dos sobrenomes. Essa atitude tinha a intenção não só de trazer proteção à família, mas também de constituir uma identificação para ela. Se quiserem, é só conferir alguns nomes franceses famosos: Antoine de Saint-Exupéry, autor d’O pequeno príncipe; Auguste de Saint-Hilaire, botânico e naturalista; Camille Saint-Saëns, compositor, pianista e organista.
Em função do nome com essa grafia, fiquei sem almoço por dois dias seguidos, quando tinha lá os meus dezoito anos. Conto-lhes como foi. Fui morar em Bom Jesus com uns tios, para estudar e trabalhar. Arranjei emprego nas oficinas do extinto jornal O Norte Fluminense. O acordo entre meu tio e minha mãe era de que ela mandaria, pelo ônibus que saía às dez horas de Carabuçu, a marmita do almoço, como acontecia com várias outras pessoas. O ônibus, antes de chegar a Bom Jesus, passava pela Usina Santa Isabel, onde desembarcavam passageiros e marmitas. Nos dois primeiros dias do acordo, fiquei sem a marmita e fui-me socorrer com outra tia, a Colola, que me alimentou. Só no terceiro dia é que a marmita chegou sã, salva e fumegante a Bom Jesus, depois que minha esperta mãe resolveu escrever o meu nome à moda da casa: Sancler. Como Saint-Clair, as duas marmitas anteriores tinham ficado na Usina Santa Isabel e só foram recuperadas pelo meu tio Paulo que, lá trabalhando, foi avisado por minha mãe. Ninguém, diabos, sabia de quem era aquela marmita com o nome esquisito.
Meu sogro, do alto dos seus noventa e quatro anos, flamenguista enjoado, tem o nome de Beethoven Neiva (outro dia lhes conto a história de sua família, por causa dos nomes). Mora até hoje em Miracema, onde quase ninguém o identifica se pronunciamos /Betôven/. A maioria das pessoas diz /Betóvi/, alguns /Bertóvi/, outros /Bertold/ e uma em especial o chamava de Betosa Oneida. Quando ele recebe convites de casamento, fica dando risadas de como conseguem lhe escrever o nome de tantos modos diferentes. Coincidentemente com o grande compositor alemão de quem herdou o nome, meu sogro também está bem surdo ou, antes, só ouve o que lhe interessa.
Outro que tinha um nome muito estranho era o seu Dico Hilário, antigo capataz da fazenda do Dr. César Ferolla, no quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana, a vila de Carabuçu, antiga Liberdade. Era ele freguês de caderneta da venda de meu pai, aonde comparecia sempre aos sábados para fazer compras e acertar as contas. Homem corretíssimo nos negócios, cheio de histórias engraçadas para contar, seu Dico Hilário chamava-se, de batismo e certidão, Anaphatalim Hilário da Silva, assim com ph, como se escrevia antigamente, antes da reforma ortográfica de 1943. Depois que saí de lá, nunca mais soube dele. E não me venham dizer que já deve ter morrido, porque meu pai está vivo até hoje, felizmente, com seus noventa e três anos. Gente que morre cedo é que não está muito habituada a viver.
Outro de nome nem tão estranho, no entanto fazia com que ele soasse esquisito. Dirigiu-se à Caixa Econômica para abrir uma conta. O funcionário, Aladir, sentou-se à máquina de escrever (ainda não havia computadores), para preencher a ficha cadastral.
- Sua graça, por favor! – Era assim que, no interior, normalmente se solicitava o nome da pessoa.
- Josafá “pelantiga” Teixeira de Siqueira.
Aladir não entendeu, assim dito com rapidez, solicitou-lhe repetir e o homem disse:
- Josafá “pelantiga” Teixeira de Siqueira.
Mais uma vez, Aladir disse que não havia entendido. O futuro cliente, então, escandiu o nome, acrescentando explicação:
- Josaphat, pela antiga ortografia, com ph e t mudo no fim, Teixeira de Siqueira.
Ah! bom! Assim estava entendido o nome.
Pessoas há, entretanto, que, mesmo parecendo ter um nome mais usual, têm verdadeiro pavor do que carregam como um fardo. Encontrei algumas dessas em meus alunos. Uma era bonita morena ainda adolescente, que não gostava de seu nome Felisbela, e pedia para ser chamada de Bela durante as aulas. O apelido combinava muito bem com sua aparência. Já outra, diferentemente, exigia ser chamada de Linda, ainda que estivesse distante disso, por não gostar de seu nome: Maria Hermelinda. Severino, que depois foi até meu colega na escola onde trabalhava, quando meu aluno pediu a mim e a todos os colegas que lhe chamássemos de Bill. Tive de escrever a lápis, no diário de classe, o apelido, para não me esquecer. Tempos depois, descobri que quase todo nordestino que se chama Severino é conhecido pelo nome americanizado de Bill. Por fim, uma que era ainda mais grave: odiava seu nome, Rosângela. No primeiro dia de aulas na faculdade, disse em alto e bom som para todos:
- Não me chamem por esse nome horroroso. Eu sou a Nina.
E Nina ficou até se formar. Na colação de grau, o mestre de cerimônias, avisado, teve o cuidado de anunciá-la pelo apelido, no momento de receber seu canudo de papel.
Vá lá se entender o bicho gente!

26 de março de 2011

NOITES DE SÁBADO

nas noites de sábado
os bares da cidade ficam repletos de corações vadios
e o ronco dos motores de explosão
são abafados pelos gritos desesperados dos solitários.
os que se fazem acompanhar
apenas iludem a solidão avassaladora
que enche os copos e os corpos.

Toulouse-Lautrec, No Moulin Rouge, 1892,
Instituto de Arte de Chicago.

25 de março de 2011

OS POETAS

Os poetas municipais rimam agora com nunca mais
Rimam meu amor não me arrebente o coração
Com o conteúdo de um pastel de vento
E metrificam versos e sonetos
E produzem espetáculos reluzentes entre quatro paredes

Os poetas estaduais rimam sempre com jamais
Rimam o tempo que flui em minhas veias
Com alguma coisa mais sólida que o ar
E rompem a sintaxe e violentam a lógica
E encenam suntuosas peças de monólogos monótonos

Os poetas federais rimam eternamente com vozes atemporais
Rimam o pesado estar no mundo é minha tragédia
Com a profundidade abissal de um poça d’água no asfalto
E criam neologismos exóticos e produzem sons inesperados
E orquestram concertos de mil vozes harmônicas com gran finale

Imagem em agal-gz.org.
Os poetas universais rimam açúcares com sais
Abacaxi com ananás
Vem cá que eu quero mais
E vão levando a poesia aos píncaros da glória
E faturam polpudos direitos autorais

Esses poetas são do cacete!