Não falo dos nomes estranhos que, na minha terra, os pais davam para os filhos, porque começaria por mim mesmo. Mas nome é como dentadura nova: acabamos por nos acostumar com ele.
Mas esse é um assunto que sempre pererecou dentro de minha cabeça.
Assim, sem resistir, começo por mim mesmo.
Quando nasci, em 1946 (Lá se vão anos, hem? Ainda bem!), meu pai resolveu chamar-me Saint-Clair, assim com a grafia francesa bem feitinha. Pelo menos, teve o cuidado de saber como se escreve. Na época, fazia sucesso na Rádio Nacional, emissora de radiodifusão que tinha prestígio semelhante ao que hoje tem a Rede Globo de Televisão, um locutor chamado Saint-Clair Lopes. Também havia um redator e ator, cujo nome era Saint-Clair Sena. Meu pai achava o nome sonoro e bonito, por isso resolveu assim me chamar. Tempos depois, já cursando a faculdade de Letras, descobri que na França medieval era comum as famílias adotarem o nome do santo de sua devoção como um dos sobrenomes. Essa atitude tinha a intenção não só de trazer proteção à família, mas também de constituir uma identificação para ela. Se quiserem, é só conferir alguns nomes franceses famosos: Antoine de Saint-Exupéry, autor d’O pequeno príncipe; Auguste de Saint-Hilaire, botânico e naturalista; Camille Saint-Saëns, compositor, pianista e organista.
Em função do nome com essa grafia, fiquei sem almoço por dois dias seguidos, quando tinha lá os meus dezoito anos. Conto-lhes como foi. Fui morar em Bom Jesus com uns tios, para estudar e trabalhar. Arranjei emprego nas oficinas do extinto jornal O Norte Fluminense. O acordo entre meu tio e minha mãe era de que ela mandaria, pelo ônibus que saía às dez horas de Carabuçu, a marmita do almoço, como acontecia com várias outras pessoas. O ônibus, antes de chegar a Bom Jesus, passava pela Usina Santa Isabel, onde desembarcavam passageiros e marmitas. Nos dois primeiros dias do acordo, fiquei sem a marmita e fui-me socorrer com outra tia, a Colola, que me alimentou. Só no terceiro dia é que a marmita chegou sã, salva e fumegante a Bom Jesus, depois que minha esperta mãe resolveu escrever o meu nome à moda da casa: Sancler. Como Saint-Clair, as duas marmitas anteriores tinham ficado na Usina Santa Isabel e só foram recuperadas pelo meu tio Paulo que, lá trabalhando, foi avisado por minha mãe. Ninguém, diabos, sabia de quem era aquela marmita com o nome esquisito.
Meu sogro, do alto dos seus noventa e quatro anos, flamenguista enjoado, tem o nome de Beethoven Neiva (outro dia lhes conto a história de sua família, por causa dos nomes). Mora até hoje em Miracema, onde quase ninguém o identifica se pronunciamos /Betôven/. A maioria das pessoas diz /Betóvi/, alguns /Bertóvi/, outros /Bertold/ e uma em especial o chamava de Betosa Oneida. Quando ele recebe convites de casamento, fica dando risadas de como conseguem lhe escrever o nome de tantos modos diferentes. Coincidentemente com o grande compositor alemão de quem herdou o nome, meu sogro também está bem surdo ou, antes, só ouve o que lhe interessa.
Outro que tinha um nome muito estranho era o seu Dico Hilário, antigo capataz da fazenda do Dr. César Ferolla, no quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana, a vila de Carabuçu, antiga Liberdade. Era ele freguês de caderneta da venda de meu pai, aonde comparecia sempre aos sábados para fazer compras e acertar as contas. Homem corretíssimo nos negócios, cheio de histórias engraçadas para contar, seu Dico Hilário chamava-se, de batismo e certidão, Anaphatalim Hilário da Silva, assim com ph, como se escrevia antigamente, antes da reforma ortográfica de 1943. Depois que saí de lá, nunca mais soube dele. E não me venham dizer que já deve ter morrido, porque meu pai está vivo até hoje, felizmente, com seus noventa e três anos. Gente que morre cedo é que não está muito habituada a viver.
Outro de nome nem tão estranho, no entanto fazia com que ele soasse esquisito. Dirigiu-se à Caixa Econômica para abrir uma conta. O funcionário, Aladir, sentou-se à máquina de escrever (ainda não havia computadores), para preencher a ficha cadastral.
- Sua graça, por favor! – Era assim que, no interior, normalmente se solicitava o nome da pessoa.
- Josafá “pelantiga” Teixeira de Siqueira.
Aladir não entendeu, assim dito com rapidez, solicitou-lhe repetir e o homem disse:
- Josafá “pelantiga” Teixeira de Siqueira.
Mais uma vez, Aladir disse que não havia entendido. O futuro cliente, então, escandiu o nome, acrescentando explicação:
- Josaphat, pela antiga ortografia, com ph e t mudo no fim, Teixeira de Siqueira.
Ah! bom! Assim estava entendido o nome.
Pessoas há, entretanto, que, mesmo parecendo ter um nome mais usual, têm verdadeiro pavor do que carregam como um fardo. Encontrei algumas dessas em meus alunos. Uma era bonita morena ainda adolescente, que não gostava de seu nome Felisbela, e pedia para ser chamada de Bela durante as aulas. O apelido combinava muito bem com sua aparência. Já outra, diferentemente, exigia ser chamada de Linda, ainda que estivesse distante disso, por não gostar de seu nome: Maria Hermelinda. Severino, que depois foi até meu colega na escola onde trabalhava, quando meu aluno pediu a mim e a todos os colegas que lhe chamássemos de Bill. Tive de escrever a lápis, no diário de classe, o apelido, para não me esquecer. Tempos depois, descobri que quase todo nordestino que se chama Severino é conhecido pelo nome americanizado de Bill. Por fim, uma que era ainda mais grave: odiava seu nome, Rosângela. No primeiro dia de aulas na faculdade, disse em alto e bom som para todos:
- Não me chamem por esse nome horroroso. Eu sou a Nina.
E Nina ficou até se formar. Na colação de grau, o mestre de cerimônias, avisado, teve o cuidado de anunciá-la pelo apelido, no momento de receber seu canudo de papel.
Vá lá se entender o bicho gente!





