24 de março de 2011

VOU SAIR DESSE TROÇO

Tomava o café da tarde numa caneca de ágate aqui e ali descascada, encostado ao caixonete da porta da cozinha, joelho esquerdo ligeiramente projetado à frente, cigarro enrolado na outra mão, quando falou com a mulher, sem rodeios:
- Zefa, vou largar mão desse negócio de fazer mesa e banco, que isso já deu o que tinha de dar.
Havia pensado muito em como abordar assunto tão delicado com a mulher e entrou, assim, de sola, como nos tempos de beque central do Liberdade Esporte Clube. E continuou:
- Agora já vem tudo pronto, muito mais barato do que eu consigo fazer e ainda comprado à prestação. Madeira anda cara e difícil. Tava pensando, aqui com meus botões, que melhor seria a gente caçar rumo pruma cidade grande, que eu não tou vendo mais jeito de sobreviver na vila.
-Que é isso, homem?! Perdeu o juízo? Que é que nós vamos fazer numa cidade grande, com a idade que nós temos? Já passamos dos quarenta! - E pôs certa ênfase na palavra quarenta. E continuou. - Morar aonde? Viver sobressaltado, com medo de tudo? - Espantou-se a mulher, que naquele instante entretia-se em marcar uma toalha de mesa.
- Sou carpinteiro dos bons, mulher! Se esqueceu? Posso muito bem trabalhar em qualquer obra. Cidade grande tá cheia de obra. É um prédio atrás do outro. Lá não falta trabalho pra quem quer. E disposição eu tenho, e você sabe muito bem disso!
- Eu sei, Tonico, mas tenho tanto medo de sair daqui, da nossa vidinha sossegada, tranquila, e ir aventurar em lugar estranho, cheio de gente ruim.
Tonico tinha oficina que trabalhava com madeira: carpinteiro, carapina, marceneiro, não havia função que não exercesse com certa competência. Ultimamente, no entanto, viu o volume de trabalho diminuir drasticamente. A tal da modernidade cobra, por vezes, valor muito alto de certas profissões. Por exemplo, a vila não tinha mais os antigos sapateiros, os tradicionais cocheiros, nem mesmo os necessários barbeiros, com seus salões modestamente montados, o cheiro das loções se espargindo porta fora, a entrar no nariz dos passantes.
Tudo tem seu tempo marcado, e agora chegara sua vez. A vila não mais oferecia meios de sobrevivência para Tonico e Zefa. O carpinteiro de mão cheia, como tinha orgulho de dizer, fora derrotado pelas pinceladas da modernidade que, com seus borrões sedutores, acaba por atingir a mais remota vila perdida no interior do país.
Por essa época, o rádio já despejava sobre aquelas lonjuras os poderosos acordes do roquenrol. E Tonico percebeu que as coisas estavam mudando inexoravelmente. É difícil escapar ileso ao progresso, que facilita a vida de uns e sacrifica a de outros.
Por isso ali estava. Sem perspectivas, ficava matutando possibilidades em terras estranhas, talvez com as mesmas dúvidas da mulher. Apenas não as externava, para não deixá-la ainda mais insegura. No entanto, qual era a saída que se apresentava? O que não podia era ficar esperando as coisas melhorarem. Era como doença ruim: dali, só para pior. E, antes que seus poucos recursos se evaporassem no ar, tinha de procurar novo rumo para suas vidas. Ele era, afinal, o cabeça do casal. Sempre fora e não podia fraquejar exatamente agora.
Já tinha até conversado com o amigo Joanico, durante uma partida de bilhar no bar do Mateus, que ficava pelos lados da Coreia, depois do cemitério, antes um pouquinho de sair da vila, na rua que se bifurcava em demanda ao Jacó e à Vala, direção diametralmente oposta à que tomaria para sair dali. Naquela direção, as coisas só piorariam. O bar do Mateus era o limite máximo que se permitia para o que considerava atraso e retrocesso.
Apesar da opinião contrária de Joanico, que tinha as mesmas ponderações de Zefa, ele já se decidira. Aquilo se havia transformado quase numa obsessão. Conversara com Joanico apenas para trocar ideias, e não ficar dando tacadas, mudo como uma porta. Afinal talvez estivesse jogando com o amigo dileto a última partida de suas vidas. Nunca se sabe. O mundo tem a péssima mania de alterar os itinerários constantemente: atalhos, trilhas e veredas cada vez mais tortuosos e sombrios.  As estradas largas e pavimentadas são para alguns poucos. Para a maioria, restavam os caminhos intransitáveis. Talvez, um dia, até voltasse à vila, mas apenas para visitar parentes e amigos como ele. E ninguém seria capaz de demovê-lo deste propósito.
Joanico ainda tentou uma última cartada, como que a reforçar as ponderações já alinhavadas:
- Pense bem, Tonico! Pense bem, para não fazer besteira!
E foram as frases que ficaram em seu ouvido.
Tonico foi para casa, olhando o desenho impreciso dos paralelepípedos da rua. Falou com a mulher para ajeitar as coisas, dar um jeito na mudança, que o caminhão do Mansur Turco, que era como na vila se chamava o descendente de libanês, não sem protesto veemente dele, já estava contratado para o frete.

Em blogdomenezes.
wordpress.com.
Chorando, Zefa fez o que Tonico pediu. Amarrou a trouxa de roupas, amarrou a cara, fechou as caixas com os teréns, fechou a alma, vestiu-se de roxo semana-santa e ficou aguardando a chegada do caminhão.

Manhãzinha do dia seguinte, tudo em cima do bruto, Mansur no comando da tropa de cavalos aboletada no motor do Ford Gigante, o casal na boleia, o ronco potente a sair pelo escapamento, uma golfada de fumaça escura, e lá vão eles saindo da vila pela estrada que leva ao desconhecido.
Zefa ainda olhou a última casa do seu lado direito, a casa do Dorival, antes de subir o Morro do Marta, enxugou uma lágrima que escorregava dos olhos, quando ouviu a ordem do marido para o motorista:
- Mansur, toca pra não sei onde, que aqui na vila eu não fico mais. Vou morrer à míngua onde ninguém me conheça. Essa vergonha eu não passo na minha terra.
E o motorista, assustado, acelerou ainda mais o Ford Gigante na curva do morro, a exigir do velho motor forças descomunais.
Para trás ficava uma vida sem perspectivas. À frente, apenas uma incógnita, uma vida ao Deus dará.

23 de março de 2011

PROJETOS

sair sozinho e sentar ao vento
ver as gaivotas
e o vazio da tarde

(tudo é tão disperso)

recolher as amostras
dos seres que passam sobre mim
e juntá-las aos meus sonhos
na imprevisível paixão
que me acompanha

Pedro de Payalvo, A hora das gaivotas, em br.olhares.com.

22 de março de 2011

PEQUENAS MISÉRIAS


P. Picasso, La vie, 1903.


A lua à noite deita sua luz de leite sobre o nada.
De minha rede à varanda aconchegado
Conto as estrelas que se salvam no céu.
Da casa mal dormida vem um barulho de criança
E todas as ideologias estão simplesmente soterradas.
Porém na escuridão atônita dos espaços siderais
O homem busca mais sempre mais
Como se não lhe bastassem suas pequenas misérias.



20 de março de 2011

VELÓRIO DE CARNAVAL

Com a sem-cerimônia com que sempre viveu, Quincas foi morrer justo no domingo de carnaval deste ano, atrapalhando a fuzarca que, na vila, já se armava. Porém ele, coitado, não tinha culpa nenhuma em seu desenlace. Foi contemplado por um maldito câncer no pâncreas, que o fulminou em apenas um mês. Deste modo, mal comemorou o réveillon, e já entrou nos preparativos para fazer a passagem.
Quem se constrangeu demais, quando soube da notícia, foi o vizinho, João Bagacinho. Não que morresse de amores por ele. Sabem como é vizinho: a convivência, com porcos, cachorros e galinhas circulando por todos os lados, fica sempre sobre o fio da navalha. Mas também não o odiava. Enfim, suportavam-se mutuamente e fingiam ser bons amigos aos olhos dos demais.
No entanto, a notícia da morte trouxe desconforto. É que João Bagacinho já se preparara para o carnaval dentro dos preceitos tradicionais: carvão, carne, cerveja e o grupo musical Só No Sacolejo, liderado por Dirceuzinho do Cavaco, contratado há mais de mês, a peso de comida e bebida a fartar.
Depois, também, estava esperando a chegada de seu filho, Bagacinho como ele, que iria trazer amigos de Niterói, dentre os quais, Guilherme e Márcia, afilhados de casamento do filho. Todos dispostos a curtir o carnaval na vila.
Por volta do meio-dia do domingo, todos em torno da churrasqueira, que começava a fumegar, tem início o velório do Quincas, na casa ao lado.
Antes, cedo, João dera uma passada para falar com a viúva e os filhos, lamentar muito a perda do amigo prestimoso, vizinho exemplar, essas coisas que se dizem num momento como este. Lamentou muito que o falecimento se desse justamente num momento em que todos estavam felizes e cantando pelas ruas, mas o que se há de fazer, a vida é mesmo assim, como se cansaram de dizer compositores populares de todas as gerações. A música brasileira está aí para não deixar ninguém mentir. A viúva, no que precisasse, podia contar com ele. E pensou lá com seus botões, ao falar assim: que, pelo menos, não seja agora, logo na hora da churrascada.
Quando o afinado e barulhento grupo Só No Sacolejo, capitaneado por Dirceuzinho, adentrou o recinto, já trouxe seu bandleader quase aportando em Marraquexe, em virtude do trajeto etílico que percorrera até chegar à casa de João Bagacinho. Entre bares, tendas e biroscas, o caminho comportava quase meia dúzia. E, em cada um deles, o cantor cavaquinista metia goela adentro talagada da cachaça Matinhos, no sistema caubói, vapt-vupt, não sem antes declamar:
                                   Bem no fundo deste copo
                                   Vejo o vulto da minha amada
                                   Vou tomar tudo de uma vez
                                   Antes que ela morra afogada.

Guilherme, testemunha ocular da história, para resumir, disse que foi problema quase insanável controlar os arroubos do grupo musical, que, contrariamente à orientação de João Bagacinho, cantava em altos brados marchinhas, sambas, maxixes, frevos, maracatus e axés, numa mistura de norte a sul de tudo o que a cultura carnavalesca tinha produzido, para o bem e para o mal.

Roda de samba, em
secultjaraguao.blogspot.com.
E era um tal de “se eu morrer amanhã, seu doutor, estou pertinho do céu”, “até amanhã, se Deus quiser; se não chover, eu volto pra te ver, oh, mulher!”, “você pensa que cachaça é água?”, “este ano não vai ser igual àquele que passou”, “não se perca de mim, não desapareça”. Dirceuzinho parecia possuído. E, a toda hora, João Bagacinho a pedir moderação no tom da música:
- Baixe a voz, Dirceuzinho, diminua o som, que a viúva acaba invadindo nossa festa!
Assim durou a função. Na casa ao lado, separada apenas por uma aleia de cerca-pinto, aqui e ali arrombada, os enlutados entoavam hinos, recitavam preces, encomendando a alma também cheia de buracos de Quincas, com contas seriíssimas a acertar lá em cima. Na casa de João, o pau quebrava rente à raiz, voava música para todos os lados, o cheiro de churrasco enchendo o ar.
Morrer no carnaval é um problema: não só atrapalha a festa alheia, bem como põe à prova a boa vontade de São Pedro, que, a todo minuto, tem de interromper seus embalos celestes, para atender aos mal-vindos de sempre.

19 de março de 2011

NÃO ME IMPORTA


Não me importa se a esquerda torta suporte meu verso
Se a direita estreita condene sua rima
Se o socialismo progressista critique meu ego
Ou o fascismo canhestro impeça que se imprima
Se o castrismo obsoleto lhe meta no prego
E o nazismo abjeto odeie seu tema
Assim como o niilismo efusivo
V. Vasnetsov, A princesa que nunca
sorria, séc. XIX.
Lhe mova campanha infamante
Ou que os epicuristas altruístas
Se revoltem num súbito instante
E condenem ou joguem por terra
O que não contiver só prazer
Tanto quanto o marxismo renovado
Ou o velho movimento dadá
Recrudesçam em suas verdades
E o pilhem na próxima estrofe
E lhe quebrem o metro impreciso

Não me importa nenhum referendo
Que não seja apenas aquele
Norteado por quem num momento
Busque apenas sem ânsia sem medo
Preencher seus segundos de tédio
E não tenha a menor compaixão
Se meu verso sirva a isso ou não

18 de março de 2011

SEU ANACLETO


Lucas Cranach, A cortesã e o velho, 1530.
  
 Seu Anacleto soprou com dificuldade a vela sobre o bolo com que comemorava cento e cinco anos. Segurou com a mão a dentadura, para que não acabasse provocando constrangimentos aos convidados.

Entre eles não se encontrava nenhum dos seus sete filhos – quatro mulheres e três homens –, todos já com as almas vagando pelo éter há alguns anos, aporrinhando mesas espíritas, querendo psicografar mensagens que jamais seriam lidas pelos parentes, que tinham mais o que fazer. Nenhum deles sobreviveu àquele homem curtido pelas intempéries da vida.
De sua família, só de neto para baixo. Três mulheres ele já havia enterrado com as devidas pompas. A atual, objeto de seu bem-querer, de vestido encarnando, sessenta anos mais nova do que ele – mais nova até mesmo que alguns netos –, parecia uma pombagira escapada de terreiro, tal o assanhamento com que se comportava.
De presente, pediu que lhe dessem cartelas daquele comprimido azul, de muito boa fama atualmente, ou as garrafadas de treze ervas preparadas pelo João Gregório, herborista de também muito boa reputação. Nenhum dos dois haveria de falhar. Juntasse os dois, ia até derrubar muro de arrimo, que dirá os guardados da mulher.
Foi um escândalo!
Até na rádio, num programa de debates populares, saiu a notícia da comemoração dos seus incríveis verões e de sua saliência extemporânea.
Uns elogiavam sua gana de viver, sua disposição física, sua libido ajudada pela indústria farmacêutica e pela farmacopéia cabocla.
Mas houve uma voz destoante. Um dos debatedores, com visível má vontade, talvez inveja, dizia que já era o momento de seu Anacleto pôr um terço nas mãos, treinar algumas orações, fazer um exame de consciência da maior abrangência possível, pois sua hora estava chegando, seu livro de débito e crédito na iminência do balanço final. E, daquele jeito, ele teria péssimas referências do lado de lá, assim que cantasse para subir.
Como fosse do tempo do cagar de cócoras – na sua fala, “do cagá de coque” -, seu Anacleto usou expressão gasta de muitos anos, para refutar os argumentos do debatedor, rádio ligado no meio da festa:
- Eu quero é rosetar!
Seu Anacleto parecia briguela de teatro de fantoches: roupa larga colorida, a destacar a magreza, os movimentos corporais regidos por hipotético maestro possuído por desvario. Disse para os convivas – os netos e bisnetos constrangidos – que, à noite, haveria reinação. E, dirigindo-se à mulher, com sua voz de taquara rachada:
- Mulher, cuida das partes, que hoje tem!
Ao fim da festa, todos retirados, seu Anacleto foi cumprir o prometido, após ingerir alguns goles do preparado, que reforçou com duas pílulas milagrosas: rezou sobre o corpo da mulher, altar emoldurado por crispados pelos castanhos, a derradeira oração que aprendera em vida, sem medo do amanhã.

17 de março de 2011

EU CONFIO NA PINGA DA ESQUINA

Eu confio na pinga da esquina,
Colhida em ronaldorossi.com.br
Na higiene do sanduba de carne assada
E no ovo colorido do botequim,
No churrasquinho de gato da calçada,
Na firmeza da coroa do meu dente postiço.
Eu confio naquilo e nisso,
Nas coisas mais improváveis de se crer,
Mas é difícil que se creia com firmeza
Nas autoridades que costumam, a cada dia,
Nos jornais, nas revistas, na tevê,
Discursarem como imaculadas virgens,
Garantindo que trabalham com afinco
Para a minha segurança e a de você.
Não confio na polícia que investiga
A polícia que investiga a polícia
Que é investigada e presa
Dentro da própria delegacia
Que fingia que investigava
Aquilo em que investia
O trabalho que pagamos
Para lucrar por baixo dos panos
Com propinas com achaques e extorsões.
Não confio e tenho cá minhas razões
Pelo pouco que as notícias evidenciam.
Eu confio mais na permanência do fio do pavio
Que se queima no rastilho do balão.
Em quem mais devo confiar:
Na polícia ou no ladrão?
Afinal qual dos dois de que lado estará
Ou os dois de que lado estão?
Eu confio mais na pinga da esquina
Ou no pastel frito em óleo saturado
Com recheio duvidoso, mareado,
Que em nossas lamentáveis autoridades
E seu discurso recheado de falácias e ausências.
Tenham a santa paciência,
Pois a nossa se esgotou!

Colhida em livroerrante.blogspot.com