20 de março de 2011

VELÓRIO DE CARNAVAL

Com a sem-cerimônia com que sempre viveu, Quincas foi morrer justo no domingo de carnaval deste ano, atrapalhando a fuzarca que, na vila, já se armava. Porém ele, coitado, não tinha culpa nenhuma em seu desenlace. Foi contemplado por um maldito câncer no pâncreas, que o fulminou em apenas um mês. Deste modo, mal comemorou o réveillon, e já entrou nos preparativos para fazer a passagem.
Quem se constrangeu demais, quando soube da notícia, foi o vizinho, João Bagacinho. Não que morresse de amores por ele. Sabem como é vizinho: a convivência, com porcos, cachorros e galinhas circulando por todos os lados, fica sempre sobre o fio da navalha. Mas também não o odiava. Enfim, suportavam-se mutuamente e fingiam ser bons amigos aos olhos dos demais.
No entanto, a notícia da morte trouxe desconforto. É que João Bagacinho já se preparara para o carnaval dentro dos preceitos tradicionais: carvão, carne, cerveja e o grupo musical Só No Sacolejo, liderado por Dirceuzinho do Cavaco, contratado há mais de mês, a peso de comida e bebida a fartar.
Depois, também, estava esperando a chegada de seu filho, Bagacinho como ele, que iria trazer amigos de Niterói, dentre os quais, Guilherme e Márcia, afilhados de casamento do filho. Todos dispostos a curtir o carnaval na vila.
Por volta do meio-dia do domingo, todos em torno da churrasqueira, que começava a fumegar, tem início o velório do Quincas, na casa ao lado.
Antes, cedo, João dera uma passada para falar com a viúva e os filhos, lamentar muito a perda do amigo prestimoso, vizinho exemplar, essas coisas que se dizem num momento como este. Lamentou muito que o falecimento se desse justamente num momento em que todos estavam felizes e cantando pelas ruas, mas o que se há de fazer, a vida é mesmo assim, como se cansaram de dizer compositores populares de todas as gerações. A música brasileira está aí para não deixar ninguém mentir. A viúva, no que precisasse, podia contar com ele. E pensou lá com seus botões, ao falar assim: que, pelo menos, não seja agora, logo na hora da churrascada.
Quando o afinado e barulhento grupo Só No Sacolejo, capitaneado por Dirceuzinho, adentrou o recinto, já trouxe seu bandleader quase aportando em Marraquexe, em virtude do trajeto etílico que percorrera até chegar à casa de João Bagacinho. Entre bares, tendas e biroscas, o caminho comportava quase meia dúzia. E, em cada um deles, o cantor cavaquinista metia goela adentro talagada da cachaça Matinhos, no sistema caubói, vapt-vupt, não sem antes declamar:
                                   Bem no fundo deste copo
                                   Vejo o vulto da minha amada
                                   Vou tomar tudo de uma vez
                                   Antes que ela morra afogada.

Guilherme, testemunha ocular da história, para resumir, disse que foi problema quase insanável controlar os arroubos do grupo musical, que, contrariamente à orientação de João Bagacinho, cantava em altos brados marchinhas, sambas, maxixes, frevos, maracatus e axés, numa mistura de norte a sul de tudo o que a cultura carnavalesca tinha produzido, para o bem e para o mal.

Roda de samba, em
secultjaraguao.blogspot.com.
E era um tal de “se eu morrer amanhã, seu doutor, estou pertinho do céu”, “até amanhã, se Deus quiser; se não chover, eu volto pra te ver, oh, mulher!”, “você pensa que cachaça é água?”, “este ano não vai ser igual àquele que passou”, “não se perca de mim, não desapareça”. Dirceuzinho parecia possuído. E, a toda hora, João Bagacinho a pedir moderação no tom da música:
- Baixe a voz, Dirceuzinho, diminua o som, que a viúva acaba invadindo nossa festa!
Assim durou a função. Na casa ao lado, separada apenas por uma aleia de cerca-pinto, aqui e ali arrombada, os enlutados entoavam hinos, recitavam preces, encomendando a alma também cheia de buracos de Quincas, com contas seriíssimas a acertar lá em cima. Na casa de João, o pau quebrava rente à raiz, voava música para todos os lados, o cheiro de churrasco enchendo o ar.
Morrer no carnaval é um problema: não só atrapalha a festa alheia, bem como põe à prova a boa vontade de São Pedro, que, a todo minuto, tem de interromper seus embalos celestes, para atender aos mal-vindos de sempre.

19 de março de 2011

NÃO ME IMPORTA


Não me importa se a esquerda torta suporte meu verso
Se a direita estreita condene sua rima
Se o socialismo progressista critique meu ego
Ou o fascismo canhestro impeça que se imprima
Se o castrismo obsoleto lhe meta no prego
E o nazismo abjeto odeie seu tema
Assim como o niilismo efusivo
V. Vasnetsov, A princesa que nunca
sorria, séc. XIX.
Lhe mova campanha infamante
Ou que os epicuristas altruístas
Se revoltem num súbito instante
E condenem ou joguem por terra
O que não contiver só prazer
Tanto quanto o marxismo renovado
Ou o velho movimento dadá
Recrudesçam em suas verdades
E o pilhem na próxima estrofe
E lhe quebrem o metro impreciso

Não me importa nenhum referendo
Que não seja apenas aquele
Norteado por quem num momento
Busque apenas sem ânsia sem medo
Preencher seus segundos de tédio
E não tenha a menor compaixão
Se meu verso sirva a isso ou não

18 de março de 2011

SEU ANACLETO


Lucas Cranach, A cortesã e o velho, 1530.
  
 Seu Anacleto soprou com dificuldade a vela sobre o bolo com que comemorava cento e cinco anos. Segurou com a mão a dentadura, para que não acabasse provocando constrangimentos aos convidados.

Entre eles não se encontrava nenhum dos seus sete filhos – quatro mulheres e três homens –, todos já com as almas vagando pelo éter há alguns anos, aporrinhando mesas espíritas, querendo psicografar mensagens que jamais seriam lidas pelos parentes, que tinham mais o que fazer. Nenhum deles sobreviveu àquele homem curtido pelas intempéries da vida.
De sua família, só de neto para baixo. Três mulheres ele já havia enterrado com as devidas pompas. A atual, objeto de seu bem-querer, de vestido encarnando, sessenta anos mais nova do que ele – mais nova até mesmo que alguns netos –, parecia uma pombagira escapada de terreiro, tal o assanhamento com que se comportava.
De presente, pediu que lhe dessem cartelas daquele comprimido azul, de muito boa fama atualmente, ou as garrafadas de treze ervas preparadas pelo João Gregório, herborista de também muito boa reputação. Nenhum dos dois haveria de falhar. Juntasse os dois, ia até derrubar muro de arrimo, que dirá os guardados da mulher.
Foi um escândalo!
Até na rádio, num programa de debates populares, saiu a notícia da comemoração dos seus incríveis verões e de sua saliência extemporânea.
Uns elogiavam sua gana de viver, sua disposição física, sua libido ajudada pela indústria farmacêutica e pela farmacopéia cabocla.
Mas houve uma voz destoante. Um dos debatedores, com visível má vontade, talvez inveja, dizia que já era o momento de seu Anacleto pôr um terço nas mãos, treinar algumas orações, fazer um exame de consciência da maior abrangência possível, pois sua hora estava chegando, seu livro de débito e crédito na iminência do balanço final. E, daquele jeito, ele teria péssimas referências do lado de lá, assim que cantasse para subir.
Como fosse do tempo do cagar de cócoras – na sua fala, “do cagá de coque” -, seu Anacleto usou expressão gasta de muitos anos, para refutar os argumentos do debatedor, rádio ligado no meio da festa:
- Eu quero é rosetar!
Seu Anacleto parecia briguela de teatro de fantoches: roupa larga colorida, a destacar a magreza, os movimentos corporais regidos por hipotético maestro possuído por desvario. Disse para os convivas – os netos e bisnetos constrangidos – que, à noite, haveria reinação. E, dirigindo-se à mulher, com sua voz de taquara rachada:
- Mulher, cuida das partes, que hoje tem!
Ao fim da festa, todos retirados, seu Anacleto foi cumprir o prometido, após ingerir alguns goles do preparado, que reforçou com duas pílulas milagrosas: rezou sobre o corpo da mulher, altar emoldurado por crispados pelos castanhos, a derradeira oração que aprendera em vida, sem medo do amanhã.

17 de março de 2011

EU CONFIO NA PINGA DA ESQUINA

Eu confio na pinga da esquina,
Colhida em ronaldorossi.com.br
Na higiene do sanduba de carne assada
E no ovo colorido do botequim,
No churrasquinho de gato da calçada,
Na firmeza da coroa do meu dente postiço.
Eu confio naquilo e nisso,
Nas coisas mais improváveis de se crer,
Mas é difícil que se creia com firmeza
Nas autoridades que costumam, a cada dia,
Nos jornais, nas revistas, na tevê,
Discursarem como imaculadas virgens,
Garantindo que trabalham com afinco
Para a minha segurança e a de você.
Não confio na polícia que investiga
A polícia que investiga a polícia
Que é investigada e presa
Dentro da própria delegacia
Que fingia que investigava
Aquilo em que investia
O trabalho que pagamos
Para lucrar por baixo dos panos
Com propinas com achaques e extorsões.
Não confio e tenho cá minhas razões
Pelo pouco que as notícias evidenciam.
Eu confio mais na permanência do fio do pavio
Que se queima no rastilho do balão.
Em quem mais devo confiar:
Na polícia ou no ladrão?
Afinal qual dos dois de que lado estará
Ou os dois de que lado estão?
Eu confio mais na pinga da esquina
Ou no pastel frito em óleo saturado
Com recheio duvidoso, mareado,
Que em nossas lamentáveis autoridades
E seu discurso recheado de falácias e ausências.
Tenham a santa paciência,
Pois a nossa se esgotou!

Colhida em livroerrante.blogspot.com

16 de março de 2011

CANÇÃO CONTEMPLATIVA

da janela vejo a chuva que despenca com o outono
não são lágrimas que choro apesar da solidão
a ninguém se destina um gesto de afago
e o olhar penetra fundo no emaranhado das gotas
e das lembranças que se vão perdidas

há apenas um tempo hoje e nada mais

15 de março de 2011

O CORPO EM DELITO

Seu erro foi ter voltado para casa antes do combinado! Pegou o corpo da mulher em delito de fornicação, na cama de seu filho pequeno, com o piloto de chapa quente da lanchonete Blue Horizon, que fica em frente ao local do vitupério.
O maldito foi esquentar a patroa, num momento de ausência de sua pessoa, requisitada que fora para resolver problemas de um tio entrevado lá pelos lados de Italva, Cardoso Moreira, sabe-se lá onde. Antes de chegar ao destino, deu de cara com os maus bofes do rio Muriaé, mais uma vez transbordando de não dar passagem seca para veículo de passeio. Deu meia volta na viatura e chegou mais cedo a casa. Foi o que bastou!

Imagem em piadarts.blogspot.com

Na hora do desatino, deu tiro de garrucha no teto, jogou o colchão no quintal, abriu as janelas e gritou para a rua que estava sendo traído, “que eu vou matar um e outro, que isso, que aquilo”. Enquanto fazia seu teatrinho Trol, o esquentador de sanduíche providenciava repor as roupas e escafeder-se do local do crime, pela porta da frente, os vizinhos já de butucas atentas para se inteirarem do mau passo da mulher.
No dia seguinte, encomendou faixa a um pintor especializado, a qual estendeu diante da casa desmoralizada: “Minha mulher Zoraide me traiu com o f-d-p do Jucilei da lanchonete, na cama de nosso filho menor”. Coisa de sair nas folhas diárias e nas revistas semanais.
Jucilei tirou quinze dias de licença médica no INSS, alegando problemas psicológicos, e Zoraide botou exagerados óculos escuros e chapéu de aba larga, para ir à manicure dar um retoque de francesinha em suas unhas maltratadas.
O marido, Raulino de nome de batismo, o Lino da roda de habitués do botequim da esquina, estava soberbo com seu gesto, como se a faixa estendida diante da casa o aliviasse do opróbrio e da vergonha, ou fizesse estender sobre sua vida indulgência plenária. Entrava no boteco e pedia uma cerveja, como se fosse beber um Pera Manca tinto, tal era a empáfia. Os frequentadores estranharam a mudança de comportamento, mas foram incapazes de comentar com ele. Temiam que fossem contaminados por aquela autossuficiência advinda de fato tão lamentável.
A faixa ficou estendida por quase dez dias, Zoraide entrando e saindo de casa, atrás dos óculos e debaixo do chapéu, e ele com o peito estufado. Porém não se falavam mais. Trocaram de cama e de quarto, porquanto as relações estivessem suspensas a perder de vista.
No entretanto, num sábado escuro de tempestade forte, com vento encanado zunindo na ponta dos postes de energia, a faixa foi para as cucuias. Trovões e raios caindo amiúde, o barulhão roncando na cumeeira, ele correu para a cama da mulher, com o disfarce de um medo que tinha desde o baú da infância, e aproveitou a ocasião para se esquecer completamente da afronta sofrida.
Ela, que não mais vira o tal esquentador de pão com manteiga, porque não voltou a frequentar a lanchonete Blue Horizon, deu o assunto por encerrado e tratou de se embolar com ele, num fuzuê carnal de fazer vergonha.
O pipocar de raios e coriscos, no ribombo dos trovões, mandou todos os pudores na enxurrada que veio a seguir, o filho dos dois dormindo inocentemente no quarto ao lado.
Durante o café da manhã do dia seguinte, no rádio sintonizado na MPB FM, Zeca Pagodinho cantava Casal sem-vergonha, como a sacramentar os acertos ocorridos, entre os lençóis, na véspera.

14 de março de 2011

AS PRENDAS DO LAR

a dor extrapola o corpo
e atinge os móveis os lustres
e demais apetrechos domésticos
na casa semivazia.
a gota de azeite contém a lágrima da cebola cortada
e o paladar azedo do vinagre.
na sala suja os móveis revirados
as peças de porcelana na janela angustiada
as roupas encardidas.

(Em nomedopoema.blogspot.com)
os mesmos trastes espalhados pelo quarto.
diante dos espelhos as velhas faces enrugadas
lamentam os dias findos e os amores inconclusos
– farelos de casca de pão pela mesa das lembranças.
por detrás da persiana do quarto
alguns soluços e insônia
quando muito pesadelos.
nem mesmo a noite vem pressurosa
com seus presságios ou segredos.
a se concretizar
apenas o catarro amarelado
no fundo do urinol de ágate.