4 de março de 2011

A ALEGRIA

Um dia
No parque
A alegria
Passou por mim
De um jeito assim
Sem graça
Então pedi-lhe
Que ficasse
Que não fosse embora
Se demorasse um pouco mais
Não fosse exígua
Como tem sido.
E a alegria
Lago Negro, Gramado/RS, nov/09.
De coisa comigo
Amiga enfim
Das horas imprecisas
Ficou de ver
De pensar
Talvez ficasse
Um pouco mais
Quiçá
Acaso talvez quem sabe
Se me julgasse
Capaz de entender
Que ela está em toda parte
Mas que é preciso
Um pouco mais de arte
Para perceber.
Não me restou assim alternativa
Que procurá-la em todos os lugares.
E a alegria então
Manifestou-se
Como se fosse o sol que esbraseia
E agora ocupa
Todo o espaço que me cabe
E se revela nos mínimos detalhes.

3 de março de 2011

PENSAMENTOS BEM PENSADOS


Em 22/1/2011, postei o texto “Bobagens impublicáveis”. Como não houve nenhuma impugnação à sua publicação, mesmo sendo impublicável, quero crer que ele não tenha causado tantos malefícios aos meus pacientes e amigos leitores. Em virtude deste vício, ou em vício desta virtude – nunca sei ao certo –, minha condição de aposentado continua a proporcionar momentos de ócio em que não produzo nada que possa mudar o curso da história, ou mesmo auxiliar a qualquer de vocês a levar a cabo um dia estafante de trabalho. Mas, enfim, cada um na sua: não sou Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, mas, felizmente também, não sou Paulo Coelho, nem nenhum desses bispos que operam milagres a cada minuto nos canais de televisão. Infelizmente, também, não ganho a grana que eles ganham dizendo as bobagens que dizem.
Pelo menos, aqui, ninguém precisa pagar dízimo, nem será condenado por isso.
Vejam, então, aí abaixo, as pérolas daquilo a que Millôr Fernandes chama “livre pensar é só pensar”, ou coisa que o valha. Que Aristóteles, Santo Agostinho, Marquês de Maricá e Barão de Itararé tenham um pouco de condescendência e não me condenem! Também tenho cá os meus direitos.
Zatonio Lahud, em seu blog Interrogações, tem repetido que não somos racionais. Acho que com esses pensamentos ele, fatalmente, mudará de ideia a respeito da raça humana, a única raça ruim que não presta e só piora a cada dia.
Em forums.newsinside.org.
1.      Nunca ponha letreiro na testa. A prefeitura pode querer enquadrá-lo(a) no código de posturas municipais.
2.      A vaca perdeu as estribeiras depois de avacalharem com a sua vida.
3.      Não se come queijo prato com as mãos. Evidentemente que é com a boca.
4.      Em Brasília, o forno da pizzaria jamais fica sem lenha queimando. Na calada da noite, podem sair pizzas fresquinhas.
5.      Jogador que não sabe bater pênalti em decisão de campeonato deveria ser emasculado e, depois, treinar cobranças com seus próprios testículos.
6.      Por que tenho de embarcar em trem, ônibus, avião, bonde e automóvel se nenhum deles é barca?
7.      A pior forma de humilhação é quando o milho fica chocho?
8.      Como já diziam os antigos, tudo que parece novo vai envelhecer também. É só esperar um pouco. Vejam só o caso do Cinema Novo: não há nada mais velho.
9.  Uma boa reforma agrária também poderia prever a distribuição de mulheres frutas, como a Mulher Melancia e a Mulher Moranguinho. Neste caso, guardem um minifúndio para mim.
10.  O trem mais feio que tem é quando um trem bate de frente com outro trem, numa ferrovia mineira. Eh, trem feio, sô!
11.  É comum solidariedade entre duas mulheres, no velório de uma delas.
12.  Time mal escalado é pior que calo encravado, bolo solado e promessa de deputado.
13.  "Em Brasília, dezenove horas": vamos ouvir a voz dos donos.
14.  Millôr disse que livro não enguiça. Às vezes, porém, alguns dão uma preguiiiiça...
15.  Se algo dá pano para as mangas, devia dar também para a camisa inteira, bem como o feitio e os aviamentos.
16.  Marcha nupcial é marcha fúnebre com início feliz.
17.  Samba sincopado é o que o sambista faz, ao lado da cozinha, com autorização da patroa, enquanto espera a gororoba ficar pronta.
18.  Matusalém só viveu tanto tempo, porque ficou esperando pela troca de seu esquisito nome num cartório da Caldeia, o que nunca ocorreu. Lá como aqui!
19.  Quando um não quer, o outro tem de brigar consigo mesmo, isto é, tem de tornar-se um self fighter man.
20.  Em casa de pé de cana, cachaça é tira-gosto de linguiça.
21.  No Brasil, professor professa uma crença sem paraíso: a educação pública.
22.  A pior defesa que existe é o contra-ataque inoperante.
23.  A alegria do palhaço é a desgraça do dono do circo.
24.  Quando, no Brasil, polícia prende polícia, periga serem as duas suspeitas.
25.  Se as praias, as mulheres, as garrafas e até as estradas têm curvas, fica muito difícil ter retidão de caráter.
26.  Tudo é relativo, até o ativo e o passivo.
27.  As Escolas de Samba do Rio de Janeiro esquentam tanto o Carnaval, que acabam pegando fogo, literalmente.
28.  Na vida real, a ficção parece coisa de cinema; enquanto, na ficção, a vida real é, realmente, coisa de cinema.
29.  Um dia é da caça, o outro é dos fiscais do IBAMA.
30.  Homem mariquinha não pode chamar-se Ricardão.
31.  Louva-a-deus não tem religião, vaga-lume não paga conta de luz, fogo-apagou não trabalha no Corpo de Bombeiros. E eu que sempre tive a maior fé na natureza!
32.  Quem sai aos seus, às vezes, degenera. E como! É só ver certas famílias de políticos brasileiros.
33.  Assim na vida como na arte, ou vice-versa. Só que quem leva a maior parte é sempre o empresário.
34.  A primeira missa no Brasil não teve nada de santa: havia mais índio pelado que português trajado. Pelo menos, na pintura famosa.

2 de março de 2011

POEMA ESQUISITO

À beira do rio
Com fome e com frio
O pescador aflito
Lança sua rede.
Uma caldeirada é o que pretende
Mas só pega peixe frito.

E o cardume de lambari
Não está nem aí!
O caximbau cascudo
Some no oco do mundo
Enquanto o piau suspeito
Diz para o pescador:
- Bem feito!

E o bacurau, só agito,
Repete o grito:
- Bem feito!
Quem mandou pescar em rio esquisito!

Da margem oposta
Vem uma capivara louca
Querendo dar-lhe um beijo na boca.

Colhida em toniaires.blog.uol.com.br
E ele fica de rede na mão
Sem entender sua situação!

Mas isso tudo se explica
Com certa dose de graça
Pelo efeito da cachaça
Que ele tomava à socapa!

Cachaça boa não pega,
Mas essa pinga da braba
Acaba lhe dando bode.

1 de março de 2011

SE NÃO REGISTRAR, DESAPARECE! (I)

I. A FALTA QUE UMA LETRINHA FAZ

Em culturamix.com.
Eu tinha há pouco tomado posse de minha função pública no Tribunal de Justiça do antigo Estado do Rio de Janeiro (antes da fusão com o Estado da Guanabara) e estava lotado na Secretaria da Segunda Câmara Cível.

Era o princípio da década de 70, e, como escriturário-datilógrafo, cargo inicial da carreira, estava incumbindo pelo secretário, Dr. Luzitano Carneiro, de datilografar as publicações daquela Câmara. Na época, isso era feito em máquinas datilográficas, em duas vias – uma original, outra a carbono: uma ia para a Imprensa Oficial e a outra ficava na Secretaria.
Na Imprensa Oficial, novamente, todo o texto era composto em máquinas de linotipo, técnica que já está morta e enterrada, pelo menos é o que me parece. Isto significava dizer que, nem sempre, o que era enviado saía na publicação do Diário Oficial tal qual a cópia que para lá remetíamos, a qual era submetida a conferência prévia, feita com ajuda de um colega de trabalho, a fim de evitar possíveis erros.
Assim que o Diário Oficial entrava em circulação, e de posse do exemplar, fazíamos nova conferência entre o texto encaminhado e o efetivamente publicado. Qualquer erro, por mínimo que fosse, poderia pôr a perder o trabalho. Embora não seja advogado, mas pela prática acumulada durante esse tempo, aprendi uma coisa chamada formalidade, pedra de toque de toda vida judiciária. Faltasse uma vírgula, sobrasse uma letra, qualquer coisa publicada poderia sofrer reparo de um dos advogados representantes das partes.
Assim, um dia, ao conferir a publicação da pauta de julgamento de processos a ocorrer naquela semana – e o Diário Oficial, normalmente, circulava com atraso –, foi constatado erro no nome do desembargador relator, aquele magistrado designado para apresentar o processo durante a sessão de julgamento, fazer o relatório e dar seu voto, a ser submetido à turma, aos seus pares.
Obviamente não vou aqui dar o nome todo do desembargador, já falecido, por respeito à sua memória, embora tenha sido homem muito bem humorado e, quero crer, deve ter contado tal história muitas vezes. Não posso, no entanto, deixar de nomeá-lo pelo sobrenome, onde justamente ocorreu o problema: Carvalho.
Deste modo, quando conferimos a publicação da pauta no Diário Oficial, verificamos que faltou a letra –v– de seu sobrenome. Houve um misto de pânico e risadaria entre os funcionários ali lotados. Um até presumiu ser picardia da turma de gráficos da Imprensa, algumas vezes a aprontar das suas.
Nem todos devem saber, mas qualquer erro de publicação gera uma errata, a ser publicada na próxima edição do Diário. A errata tem uma forma fixa, para que produza valor legal: “onde se lê x (forma errada), leia-se y (forma correta)”.
Dr. Luzitano, quando soube do erro, tão logo chegou à Secretaria, entrou em pânico e, mais que depressa, ligou para a residência do desembargador, para informá-lo do ocorrido. A saia justa, evidentemente, estava posta. E o desembargador determinou que não se fizesse a correção, alegando que a emenda ficaria bem pior. Entendia que, com ela, o erro ficaria mais evidente. Jogava, então, com a sorte de que poucos o tivessem percebido e aqueles que o perceberam fossem discretos o bastante, para não arguir qualquer tipo de erro material na publicação.
Ou o Diário Oficial teria de estampar, em sua próxima edição, na coluna de erratas da Secretaria da Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça do saudoso Estado do Rio de Janeiro, a Velha Província, durante os famosos Anos de Chumbo, com o destaque merecido, mais ou menos isso: “Proc. nº N: onde se lê Caralho, leia-se Carvalho”.


II. A NOTA PROMISSÓRIA QUE QUASE FOI COMIDA

Em protesto.com.br
Por essa mesma época do fato acima narrado, militava nos corredores do mesmo Tribunal de Justiça advogado de nacionalidade tcheca, cujo nome omito (dou apenas as iniciais: AA), que para cá veio fugido do regime comunista que se instalou na antiga Tchecoslováquia.

Lá ele era juiz de direito. Aqui chegado, validou seu diploma de bacharel em Direito, tirou carteira da OAB e começou a trabalhar. Trabalhava muito em causa própria, pois era proprietário de alguns imóveis e estava sempre com pendengas com seus inquilinos. Mas, vez e outra, aparecia como réu e como procurador de clientes.
Um desses processos tratava da cobrança de nota promissória. AA era o advogado do réu, que não pagara a dívida representada pela nota promissória. A causa era perdida, pelo menos para seu cliente (para o advogado, não; sabemos que o advogado sempre ganha de uma das partes).
Tão logo se iniciou o expediente naquele dia, AA solicita ao funcionário o processo, já com pauta de julgamento marcada, a fim de passar uma vista d’olhos, como se dizia comumente, antes da sessão.
No corredor estreito, entre a porta da Secretaria e a janela que dava para o pátio interno do prédio, AA se recostou ao parapeito, como que a captar mais a luz do dia, a fim de facilitar a vista d’olhos do processo.
Num átimo, o então secretário, Dr. Edilton Couto, meu saudoso amigo e padrinho de casamento, que já conhecia muito bem as artimanhas do causídico, como que voou por cima do balcão da sala e se atirou sobre o advogado, em cuja boca enfiou os dedos, segurando-o pelo queixo, para salvar a nota promissória já em processo de mastigação, para, em seguida, ser engolida e deixar de existir como prova material da dívida do réu.
Extraiu a prova da dívida, como que a fórceps, babada, amarrotada, mas salva em sua integridade. E, a partir daquela data, AA só poderia manusear processos dentro da sala da Secretaria, sentadinho a uma mesa, sob os olhos vigilantes de funcionário para isso designado.

28 de fevereiro de 2011

DO ALPENDRE

Velho no alpendre, colhido em
soniabeth.blogspot.com.
penumbra: é quase sombra.
sob a copada da velha árvore solitária
abriga-se o gado.
o pasto em torno amplia o quadro.
do alpendre debruçado o homem olha suas posses:
tantas braças de terra
tantas cabeças de gado
tantas arrobas de milho
tantos filhos
tantos colonos plantados
por toda a extensão que se avista
e no além da dobra do morro
quase depois do horizonte.
não há questões que não se possam tocar
quando o mundo vem bater à sua porta
pedindo licença, sinhô
              abença, sinhá.
mais que isso é ter a paga acertada
sem prejuízo de nada
no final da colheita.

27 de fevereiro de 2011

POR QUE ME APAIXONEI POR UM CAFAJESTE


Vasily Tropinin, Guitarrista, séc. XIX.
Esta história começa como letra de bolero, trilha sonora de casas suspeitas e alcovas pecaminosas. Mas isso é só a maneira de dizer. Longe estava da personagem principal qualquer ato que lhe pudesse manchar a reputação. Talvez apenas certa ingenuidade, que não se coadunava com as proporções físicas de que era portadora nossa afetivamente frágil heroína.

Pois muito bem! Rosilene não governou seu coração distraído com os devidos cuidados e foi parar nos braços de um tal Roberto Carlos, sósia do cantor famoso, cujo nome de batismo, na verdade, era Silas, seguido de Gomes da Silva, o que não diz muito de sua origem, de seu passado ou de suas pretensões. Gomes da Silva há aí aos milhões por este Brasil afora. Só este narrador conhece uns tantos e é parente de mais outros, pelos quais não se aventura, nem se aventurou nunca, em tempo algum, a meter a mão no fogo. Vê-se, por aí, que a história ficará malparada.
O falso Roberto Carlos vivia de biscates de voz e violão em bares pelas cidades do interior, amealhando dinheirinho pequeno que servia para suas necessidades mais imediatas. Até que chegou a Apiacá, cidade onde Rosilene distribuía sorrisos ao vento e encantava uns e outros com seu porte bonito, seu corpo bem feito, sua longa cabeleira e seus olhos de mel. Numa noite de seresta, movida a caipirinha e aipim com torresmo, Rosilene foi fulminada pelo olhar quarenta e três do dito cantor de voz anasalada e trejeitos do ídolo. Não soube desviar aqueles olhos desprecavidos dos sortilégios do amor e, naquela mesma noite, foi fisgada como um lambari solitário pelo anzol bem encastoado do seresteiro.
Depois de ouvir uma fieira de coisas bonitas e melodiosas em seu mimoso ouvido, foi dormir com a certeza de que encontrara o tal príncipe encantado dos contos de fada. Voltou no dia seguinte, um sábado amargurado, cheio de nuvens esquisitas pelo céu, para a continuação da seresta que começara na véspera, quando também esperava a sequência do emaranhado de metáforas e firulas literárias que o cantorzinho de meia tigela sabia de cor e salteado e distribuía sem parcimônia por onde passasse. Era só haver ouvidos de ouvir.
O Roberto Carlos de araque viu que sua cantilena fora proveitosa, ao perceber Rosilene na primeira mesa do mal iluminado recinto daquela casa comercial. E não pôde deixar de notar o olhar de mel sobre ele, toda vez que ela sorvia, via canudinho, mais um pequeno gole de caipirinha. Os olhos dela, com insuspeito encanto, passeavam por todo ele, como a estudar seus maneirismos de cantor de botequim.
Estava definitivamente apaixonada, a partir do segundo encontro e da terceira música, que ele cantava com tremidos na voz, a fim de não parecer muito com a gravação do seu ídolo (Que ele se permitia essas veleidades de ser original também!): As flores do jardim da nossa casa.
Rosilene viu na interpretação marota do espertalhão, sem disso se dar conta, uma declaração de amor, com pedido de casamento e o projeto do jardim que sempre sonhara ter em sua casa ideal. Resolveu, a partir daquele instante, que franquearia para ele todos os seus segredos mais recônditos, como se dizia antigamente na poesia romântica, todas as suas reentrâncias e protuberâncias, que não eram poucas, nem desprezíveis, pois uma quentura lúbrica percorria-lhe as pernas e os seios, indo parar não se sabe onde e nem é bom que se imagine. Tal fogo finalmente encontrara o bombeiro para apagá-lo ou, quem sabe, o pirotécnico – com perdão da insinuação maliciosa – para ainda mais acendê-lo. A partir de então, fosse o que Deus quisesse, pensou gozosa.
Esta narrativa – como a de Émile Zola em A taberna (L’assommoir) – pula o que é o interstício de felicidade, para encontrá-los, poucos meses depois, na sala da casa dos pais dela, numa feroz discussão sobre os rumos do casamento, ainda nos alicerces. As coisas começaram a esboroar-se, tão logo a lua de mel se findou.
Rosilene descobriu no príncipe encantado um sapo preguiçoso e coaxante, que passava o dia inteiro dedilhando o violão, à procura do acorde perfeito, para cantar pelos bares das cidades próximas, a troco de um cachezinho mixuruca, que não dava para as compras do mês, e ainda tinha de ouvir, por ligações telefônicas anônimas, referências desabonadoras à conduta do mau marido que arranjara, só porque não prestou atenção aos sinais que a todos eram evidentes, menos a ela.
O seresteiro tinha orgulho de jamais ter tido carteira de trabalho assinada, coisa que para ele depunha contra sua condição de artista da MPB, ainda não reconhecido, é verdade, mas em vias de estourar na mídia de todo o país. Era só um olheiro mais talentoso vê-lo cantar. Repetindo pela enésima vez esse argumento para Rosilene é que recusara emprego de balconista no mercadinho do bairro e, assim, permanecia de calção de pijamas quase o dia inteiro, enquanto a mulher saía para trabalhar no salão de beleza da Vanilda, onde fazia unhas, ralava calcanhares e tirava calos das freguesas.
Ali também aproveitava a oportunidade para enfileirar suas mágoas para cada uma delas. Umas ouviam, outras davam pitaco em sua vida. Algumas diziam “marido é isso mesmo, uma praga que não vale nada, bem que abandonei o meu”. Outras lhe davam notícias das reinações que ele armava por onde passasse, sempre segundo “alguém que disse, eu só ouvi, mas não posso revelar quem, você sabe como é, mas que é verdade, lá isso é, porque quem me disse não tem vício de fazer fofoca da vida alheia”. E, por esse disse-me-disse infernal, foi Rosilene pondo-se a par de todas as armações do tal Silas Gomes da Silva, como na certidão de casamento, cuja fama de mulherengo, prevaricador, mandrião, conquistador barato se alargava a cada conversa que ouvia, a cada pergunta que formulava, a cada sítio que frequentava.
Acabou por descobrir que o tipinho reles ficara noivo de duas moças ingênuas como ela, em duas cidades diferentes, Guaçuí e Alegre, por onde soltava seus trinados de galo-da-campina. Para lá rumou com a cópia de seu atestado de mulher traída, nos conformes da legislação civil em vigor, para mostrar a cada uma delas a cacimba seca onde elas estavam atirando seus baldes, na intenção de colher água fresca. Dali não sairia nada, asseverava ela a uma e outra, embasbacadas com a revelação.
- Mas se quiser ficar com ele – aquele imprestável –, pode ficar. Aliás, é um favor que você me faz. Só vim avisar, para você saber com que tipo se meteu.
Este narrador deve confessar que já viu situação parecida - inclusive com gente de sua própria família -, mas se exime de dar nomes aos bois, porque as barras da justiça estão aí para exigir-lhe comprovação com fotos, flagrantes, testemunhas e outras coisas mais. Mas que acontece, isso lá acontece!
Voltando à Rosilene e às noivas desavisadas, pode-se garantir que não houve maior constrangimento entre elas do que a constatação de que todas eram umas bobas crédulas, de uma ingenuidade quase angelical, incapazes de distinguir entre um cavalheiro e um cafajeste, desde que este último esteja apetrechado de todas as maquinações que um homem mesquinho é capaz de engendrar.
Se ele ficou sozinho? Só por uns tempos. Até acertar seus acordes e trinados em outros lugares e encontrar moças desavisadas, à procura do seu príncipe encantado. E tudo que caísse na rede seria peixe!

26 de fevereiro de 2011

URDIDURA

A mim não cabe urdir o que não foi urdido
Pela providência divina, pelo caos, pelo acaso.
E, se acaso tente tecer aquilo que não me cabe,
Acabo sempre por parecer simples fracasso.

Imagem em cidadeseuropeias.info.
A teia que não se cose por impossível sorte,
Em improvável tear de intrincada engenharia,
Sem os dedos de Ariadne, sem sua habilidade,
Mais me enredará de forma inapelável.

Mas, ao chegar o dia em que tal teia, rota,
Se rompa, com escarcéu, ou doce calmaria,
Eu possa, como os grandes, ainda que não creia,
Dizer que tal enredo valeu cada momento.

E, como disse o poeta, se acaso desta vida
Memória se consente, possam também de mim dizer
Depois de algum tempo do convívio ausente,
Apenas que fui amigo, filho, irmão, pai, avô, amante.