12 de fevereiro de 2011

HORIZONTE

tenho os pés no chão e os olhos no horizonte
na linha mesma das necessidades humanas.
se um pouco acima
por certo não ultrapassam os limites do sonho
bem abaixo da primeira nuvem.
acima da cabeça apenas
alguns aviões de carreira
alguns escassos pássaros e aves
inusitados fragmentos espaciais.
além disso nada que resolva nossas insolúveis
questões de local e data de cama e mesa de vida e morte.

Foto de Leandro Malheiro, em leandrocad.blogspot.com.

11 de fevereiro de 2011

TOU A PERIGO! II (O RECOMEÇO)

Depois da notícia de que iria instalar nova mulher em casa, em substituição à sua, recém-baixada à terra dos mortos nos altos da Aristides Figueiredo, seu João – cujo nome não foi declinado na primeira parte da história*, a fim de não prejudicar as investigações, ou melhor, a narrativa –, foi até a Carminha, para os acertos finais do acordo verbal que pretendia, conforme já tinha comunicado aos filhos, noras e genros.
Carminha, que de si tinha a mais completa noção, sabedora dos poderes que exercia sobre aquele homem beirando os oitenta, foi taxativa: só com papel passado em cartório, assinado pelos dois e mais quatro testemunhas idôneas e sacramentado por juiz de paz devidamente nomeado pelo Corregedor Geral da Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Sem isso, nem pensar! E, também, a partir daquele momento, estavam suspensas todas e quaisquer facilitações, saliências e bolinações que até então havia consentido. Tudo o que ocorrera nos desvãos da madrugada, nos senões do quarto ao lado do de onde a defunta estertorava, foi apenas no intuito de colaborar com ele, no alívio do estresse do sofrimento, para que ele também não batesse a caçoleta, afrontado. Já que agora estava livre e desimpedido, com corredores e varandas liberados, a conversa é outra. E aguardava, nos recônditos do cérebro, a capitulação do velho.
A conversa desagradou. O caldo desandou. Ele não esperava essa reação de Carminha. O travo amargo na boca foi pior do que o dos lombrigueiros, obrigado a tomar em criança. Tinha por certo que ela não poria nenhum obstáculo em se mudar para sua casa e assumir o controle do lar, arrumando a casa, batendo panelas e, à noite, fungando nos embates de lençóis e travesseiros. Assim, era coisa de se pensar, de se avaliar, porque ele mal acabara de enviuvar e não ficaria bem, perante a maledicente opinião pública da cidade – um bando de gente futriqueira, que vive tomando conta da vida alheia –, cerimônia de casamento antes da missa de mês. Onde já se viu um despropósito desses?!
Mas também tinha lá seu fogo a apagar. E fazia questão de garantir a todos que a fogueira lúbrica estava em pleno funcionamento, perigando explodir a caldeira, caso não abrisse a válvula de segurança. Sentia-se um jovem no vigor da idade. Se é que vocês me entendem, perguntava ele ao final de seu argumento. Os amigos que o ouviam fingiam espanto, simulavam crença em suas bravatas.
Passou uma semana em propalada secura extrema e resolveu sair à caça, como fazia na juventude. Então, misturou-se aos rapazes e moças que frequentavam a boate da cidade, La Moustache, constrangendo uns e outros com sua conversa imatura, pretensamente jovem, tomando energético com vodka bem devagarzinho, para não assustar por demais o fígado, que passara os últimos anos a alambicar apenas leite quentinho e chazinho preto, nas noites frias de inverno.
Agora estava ali, engatinhando novamente no território da conquista, sujeito às espertezas de menina nova, mal saída da adolescência, que se fazia acompanhar por uma coroa que se passava por sua tia. Sem que ele soubesse, estava sendo enredado pelo plano das espertalhonas. A suposta tia dizendo que a donzela tinha um pai que é uma fera, e ela, a donzela, cobrando quatrocentos paus para saliências completas. Onde já se viu mocinha filha de pai brabo que cobra por esse tipo de coisa?
Imagem em flickr.com.
Ele, com o bolso infestado de escorpiões e lacraias, ofereceu chorados cem mangos, pelo que recebeu em troca “um sarro legal” (como se vangloriou para a roda de amigos do Bar Pracinha) no banco de trás do carro, tal qual fazem os durangos que não podem pagar motel. Por esse serviço incompleto, acabou apaixonando-se pela periguete, que agora, no finalzinho da tarde, passeia diante de sua casa, banho tomado, cabelo molhado recendendo a creme rinse, lançando olhares sedutores, apertados num shortinho falsamente puído e blusa de alcinha de rolotê.
Os filhos pretendem lançar edital na praça da cidade, interditando seu pai, a fim de que ele não se perca – vá lá! – por excesso de testosterona. E vão tentar amaciar os pressupostos de Carminha, para que aceite as propostas dele. Tudo no intuito de não verem seu velho pai correndo atrás de caça nova.

Eh, mundão velho de Deus!

*TOU A PERIGO!, postada em 8/2/2011, a três degraus aí abaixo.

10 de fevereiro de 2011

PRETENSÕES CABOCLAS

há um sol que surge à beira mar
aos poucos
aos raios sempiternamente coloridos
invejados.

há um céu de cocos em cada palmeira
lá no alto
acima de todas as nossas pretensões
caboclas.
Imagem colhida em imotion.com.br

9 de fevereiro de 2011

I D E I A S

minha filosofia esbarra em sua descompostura
e se dissipa feito fumaça ao vento
as ideias não resistem ao corpo
não o ultrapassam
arvoram-se às vezes num arremedo frustro de discurso
mas se quedam mudas
instituindo o logro

todas as ideologias
não resistem a uma só gota de sangue
nem aos descompassos do prazer
ou aos desatinos do coração

as teologias chafurdam na opulência e na miséria
assim como os ateísmos não evitam a dor e a morte
L. G. Segall, Le Penseur du Rodin
du Roi, em lgsegall.com.

no amor apenas as palavras não bastam
a carne há de ferver
a cada toque preciso de pele e músculo
num orgasmo fluido

temos a péssima mania de pensar tudo



8 de fevereiro de 2011

TOU A PERIGO!

Ao morrer-lhe a mulher, depois de muito sofrimento com uma doença degenerativa, chorou feito criança. Quem estava próximo se sensibilizou com a cena. Tido como homem duro, afeito às lidas da roça, capaz de pegar um porco cachaço pelas orelhas, os que viram não acreditaram no que viam. E pensaram: Atrás dessa rudeza, se esconde um coração sentimental.

Viviam há mais de cinquenta anos e, nos últimos cinco, ele passou em desvelos, cuidando dela, como se fosse sua última manifestação de amor por aquela mulher frágil, mãe dedicada e companheira de toda uma vida.

Mas só foi acabar a missa de sétimo dia e o espírito diáfano dela embicar rumo ao paraíso, para reunir filhos, genros e noras e dizer que não podia viver só, que estava a perigo, nos seus quase oitenta anos. Precisava de mulher, precisava de extravasar sua sexualidade. Ainda tinha muita lenha para queimar.

Os que ali se encontravam ficaram constrangidos, sem saber o que dizer. Ninguém poderia imaginar que aquele homem pudesse ter passado um apagador sobre a memória da mãe e sogra, ainda com corpo quase intacto no cemitério. Nem mesmo que tivesse tal disposição. Os filhos se horrorizaram. E o choro compungido do dia da morte? E as lágrimas sentidas no velório? E o amparo de que necessitara durante o cortejo até a inumação da pobre coitada? Seria tudo encenação?

Agora, com outra cara, outro jeito, outra postura, desfiou o seu argumento, todos sentados em torno da mesa do lanche, as bocas cheias de broa de fubá e incredulidade. Os filhos indagaram como se daria isso. Quem se interessaria por um homem na sua idade? Com certeza, alguma espertalhona, de olho na sua aposentadoria, na sua casa bem montada! Seria alguém da sua idade? Nem pensar! Já tinha imaginado tudo isso e resolvera escolher a dedo. Quem, pai? Quem, meu sogro? A Carminha. A Carminha?! Espantaram-se todos. Logo a Carminha?!

Carminha tinha sido a cuidadora da esposa, durante os últimos três anos, quando a doença se agravou e ele precisava de alguém com habilidade e disposição física para os cuidados com a mulher. Aí, aproveitou que não estava fazendo nada mesmo e estabeleceu com Carminha, quarentona sacudida e desembaraçada, coxas grossas e murundus salientes, sociedade carnal voluntária, durante as madrugadas, de só ser interrompida, vez ou outra, pelos gemidos da agora finada. Tudo movido a poder do remédio azul, que comprava na conta da farmácia do Astolfinho, dentro do maior sigilo. E ainda teve o desplante de argumentar que a finada, mesmo antes de dar o último suspiro – que Deus a tenha –, tinha aposentado as partes, de não querer ser bulida nem na hora do banho. E como é que ele ficava? Iria atrás das meninas da guacha (que é como na terra se nomeia a zona do meretrício), na Rua da Arara, com o risco de pegar uma doença brava e botar sua reputação a perder? Carminha é muito compreensiva e aceitou sua proposta. Tão boa ela é, essa menina! Depois, também, vocês todos moram longe. Ninguém vai ficar aqui cuidando de mim, não é? Cada qual tem seu interesse, sua obrigação.

(Imagem em elblogalternativo.com.)
Por isso, resolveu comunicar a eles sua intenção de fixar a Carminha dentro de casa, com os direitos e as regalias de esposa legítima. E azar dos que não gostassem, porque, para ele, estava tudo muito bom, muito a contento! E olha: quem morreu foi sua mãe. Eu continuo vivo! Quem me dá razão é Paulinho da Viola: “E a vida continua...” E cantarolou trecho da canção, tamborilando na mesa antiga de jacarandá um ritmo nervoso de samba descompassado.

7 de fevereiro de 2011

OLHOS NOS OLHOS

olhando os olhos os olhos veem o mar aberto
as águas encapeladas pelos ventos barcos a vela

penetrando nos olhos os olhos como que se penetram
mirando-se ao contrário num espelho só reflexo

e ter os olhos para os olhos é mais que tê-los
é simplesmente ver a vida mais que bela

pela janela clara dos alheios olhos dela


Imagem em nuamood.com.


6 de fevereiro de 2011

SANTOS ESQUÁLIDOS

somos santos esquálidos despidos de virtudes:
comemos nada e sobrevivemos
ganhamos pouco e rimos em missa de defunto
o céu se abate sobre nossos barracos
e aproveitamos a enxurrada para lavar a calçada suja
só ficamos um pouco humanos
passíveis das mesmas dores de todos os outros nacionais
quando nosso time perde
e a luz elétrica falta na hora da novela das oito.

(C. Portinari, Os retirantes, 1944. MASP)