7 de fevereiro de 2011

OLHOS NOS OLHOS

olhando os olhos os olhos veem o mar aberto
as águas encapeladas pelos ventos barcos a vela

penetrando nos olhos os olhos como que se penetram
mirando-se ao contrário num espelho só reflexo

e ter os olhos para os olhos é mais que tê-los
é simplesmente ver a vida mais que bela

pela janela clara dos alheios olhos dela


Imagem em nuamood.com.


6 de fevereiro de 2011

SANTOS ESQUÁLIDOS

somos santos esquálidos despidos de virtudes:
comemos nada e sobrevivemos
ganhamos pouco e rimos em missa de defunto
o céu se abate sobre nossos barracos
e aproveitamos a enxurrada para lavar a calçada suja
só ficamos um pouco humanos
passíveis das mesmas dores de todos os outros nacionais
quando nosso time perde
e a luz elétrica falta na hora da novela das oito.

(C. Portinari, Os retirantes, 1944. MASP)


5 de fevereiro de 2011

A LOURINHA, DE CALÇA SAINT-TROPEZ, ME ATENDE NA LOJA DE ROUPAS INFANTIS

Britney Spears em mais uma das suas
(imagem em calmaqueficapior.wordpress.com)
A cintura era tão baixa
havia tão poucos panos
que perigava ocorrer
o que não estava nos planos
pularem a cerca miúda
os tais pelos pubianos.
Por isso é que me senti
mareado em oceano
tonto dos pés à cabeça
envolvido por enganos
temendo não emplacar
aquele próximo ano.
Assim que paguei a conta
acordei daquele sono
tomei o rumo da rua
perdido como um cigano
mas fiquei com a esperança
que não me dá abandono
de ver pulando da calça
os tais pelos pubianos.

4 de fevereiro de 2011

UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM

Não sei se vocês sabem, mas cabeça de aposentado é campo aberto a todo tipo de invasão. É terra de ninguém. E o que mais existe por aí são ideias sem cérebro, tal qual gente sem terra, doidinhas para invadir fazenda, ou melhor, cabeça improdutiva.
Estava eu distraído, pensando na morte da bezerra, tipo baiano deitado na rede, diante de um marzão tranquilo ¹ (Aqui chamo a atenção dos meus leitores para diversas notas explicativas de rodapé essenciais à compreensão do texto.), quando senti que estava sendo tomado por um espírito de porco, querendo psicografar mensagem muito importante para o sofrido povo brasileiro.
A princípio, relutei. Não muito, é verdade, porque os acometidos pelo pecado da preguiça não têm muita disposição de luta. Isto é muito comum a hipertensos e hiperativos. A mim, definitivamente, não! Por isso mesmo é que, daí a pouco, fui compulsoriamente sintonizado com o espírito do grande homem público Zé Sarney, que só não deu entrada ainda no mausoléu que mandou construir no Maranhão, porque há uma parcela significativa do eleitorado que crê piamente no simulacro de gente que, às vezes, vê em retrato na urna eletrônica e digita o número a ele correspondente. Melhor seria fazer uma fezinha no bicho com aquele número, cercando pelos sete lados, milhar e centena invertidos.
Eis aí a importante mensagem recebida do Além:


“Brasileiros e brasileiras, maranhenses e maranhensas, amapaenses e amapaensas ²’³! Do alto desta minha insigne modesta pessoa pública, que, sem falsa modéstia, é  exorbitantemente presunçosa, e reconhecendo todo o benefício que minha vida pública trouxe para o povo brasileiro , venho declarar que de nada adiantarão préstitos, cortejos e procissões, no intuito de me solicitarem outro mandato desinteressado e desassombrado, como todos os anteriores, para que eu continue a servir à Pátria , no mais alto interesse da coisa pública. O que afirmei no Congresso Nacional está afirmado. E só não chorei durante o discurso de posse na presidência do Senado da República para a próxima legislatura, embora tenha ficado visivelmente com a voz embargada , porque dona Kiola disse que filho dela não chora. E não pedirei, como um ex-presidente, para que se esqueçam de mim . Estarei atendendo a todos, indistintamente, no mausoléu que mandei construir em minha honra, no meu querido Estado natal . Até mais! À bientôt! See you soon! Arrivederci! Hasta la vista, baby!”
Imagem colhida em regutalo.com.br.

NOTAS
¹É, até mar de baiano é preguiçoso. Tanto que nunca ouvi falar em campeonato de surf por aquelas bandas. Não sei se o amigo, primo postiço e baiano dos quatro costados Paulo Mattos confirma ou desmente esta minha afirmação. Que não quero que pareça maledicência!
²Anda na moda fazer femininos inusuais e inusitados. Quero só ver, quando elegermos um gay, o que se fará com a espancada língua portuguesa! Que eu saiba, o gênero neutro morreu com o latim em priscas eras. E nomes comuns de dois gêneros já existem: o/a artista, o/a estudante, o/a presidente, o/a amante, o/a assaltante e assim por diante, conforme a rima. Camões deve estar-se revirando no túmulo, que fica no Mosteiro dos Jerônimos, no bairro de Belém, em Lisboa. (Forneço o endereço da última morada do grande vate lusitano, para que algum brasileiro que lá seja lhe leve palavras de consolo.)
³Nesse momento voou um pedaço de bigode tinto do preclaro homem público sobre a mesa. Por aí vi que o troço era sério.
Como comentava, dia desses, durante cafezinho com o amigo Zé Antonio Lahud, e parodiando Otto Lara Resende, Sarney foi provido pela natureza do sentimento do autoelogio desavergonhado. Nunca, na história deste País, um ex-presidente se elogiou tanto. Nem mesmo FHC, que é um intelectual brilhante e deve ter um vocabulário bastante extenso, chegou a tanto. Lula, por sua vez, andou cometendo tal pecado, mas acabou por se contentar com “é o cara!”, que o Barack Obama disse. Já o Itamar foi franco: não se elogia de corpo presente, porque, como mineiro, tem vergonha e gosta mais, mesmo, é de pão de queijo.
Aqui o cavalo quis trocar a regência do verbo para “servir-me da Pátria”, mas não conseguiu.  O caboclo era por demais poderoso e guiou sua mão com firmeza.
Aquele embargo na voz foi de uma sordidez jamais vista nos anais (epa!) do Congresso Nacional. Nem Da. Kiola, conhecendo-o como o conhecia, acreditaria nele!
Não me estou lembrando de quem foi esse tal ex-presidente. Alguém aí se lembra?
⁸Se queres alguma coisa, faze-a tu mesmo, pois pode ser que outros não a façam por ti. (Criei este provérbio somente para a ocasião e pode ser que ele não emplaque. O que fazer?!)
Sarney sempre com essa mania de mostrar que é intelectual, poliglota (Ele fala não sei quantas línguas, além do dialeto maranhense com grande fluência.). Não bastariam sua vasta obra literária, seu fardão da Academia e seus maribondos de fogo sobrevoando o brejal dos guajas?
PS: É melhor encerrar a psicografia, pois já são observações em demasia. E, também, posso até ser cavalo de espírito de porco, mas burro não sou!

3 de fevereiro de 2011

NOVA HISTÓRIA DO DILÚVIO

Naquele tempo, lá para trás de quando foi escrito o rascunho da Bíblia, vivia na região da baixa Mesopotâmia um tal cidadão de nome Noé, nascido no local denominado Churupaque, a meio caminho entre Uruk e Nippur (Hoje, aquilo tudo está tomado por campos de petróleo e discórdia.). Era por volta do ano 4000 a.C., se não me enganam as pesquisas empreendidas. É tempo à beça!
Noé já era casado, velho de muitos anos e pai de três filhos, quando foi avisado pela defesa civil da época de que haveria uma chuva muito forte, ou melhor, um dilúvio, capaz de inundar tudo. Pelos radares de então, o controle meteorológico identificou precipitação pluviométrica acima da média dos anos anteriores. O próprio chefe da defesa civil, cargo que acumulava com o de Deus, avisou diretamente a Noé, cidadão que estava em dia com suas obrigações, todos os impostos pagos, sem pendências com a justiça e a polícia.

Arca de Noé, em harissa.com.
O resto da população, um bando de inadimplentes que vivia em áreas de risco, apenas soube do aviso pelo próprio Noé, que resolveu alertar para o comunicado sobre o tempo. E todos riram daquele abestado, que garantia conversar diretamente com o Chefe.
No caderno de encargos cedido pela defesa civil, estavam as orientações precisas para a construção de um barco, cujo projeto já veio pronto, bastando a Noé a sua execução.
Como fosse o incontestável chefe da família, Noé determinou a seus filhos, Sem, Cam e Jafé, desmatarem um bosque próximo, já com a licença do instituto do meio ambiente daquele tempo concedida (além de Deus e comandante da defesa civil, também era o diretor do instituto) especificamente para aquele fim. O pessoal do ministério público foi orientado a não perturbar os trabalhos, com ações protelatórias e requisição de estudos de impacto ambiental inconclusivos. Dali a pouco não haveria mais meio ambiente mesmo!
A clareira aberta no bosque funcionou como estaleiro. Esse fato chamou ainda mais a atenção dos vizinhos, que concluíram que Noé, já beirando os novecentos anos, enfim estivesse caduco, seguramente com o Mal de Alzheimer, conforme o maledicente Baruc garantiu para Basileu, Galateu, Meroveu, Queromeu, Jamorreu e Zebedeu, desocupados e imprevidentes, na roda de vinho da taberna próxima, baseado no fato de que o mar, além de Morto, estava a uma boa distância daquele local e, pelo tamanho do barco, não havia, nas imediações, rio capaz de suportar seu calado. E começaram a zombar do dedicado Noé. Esta maledicência se alastrou como tiririca entre o pessoal da comunidade, que era como eles chamavam o aglomerado de casas encarapitadas nos morros adjacentes.
A zombaria aumentava, à medida que crescia a barca, que Noé resolveu chamar de arca, porque ela começava a parecer um grande baú, isso se não estivesse enganado na interpretação do projeto.
Por não depender de nenhuma subvenção oficial, de nenhum repasse de verba, de nenhuma agência controladora da atividade, para levar a cabo a construção da arca, o serviço ficou pronto no prazo previsto, com a qualidade esperada. E, tão logo levou para dentro um casal de cada espécie de bicho que havia nas cercanias, mais os filhos, noras e netos, também conforme recomendava o caderno de encargos, Noé mandou fechar a porta de acesso, que calafetou com betume de boa qualidade, já muito abundante ali, também aplicado em todas as juntas do madeirame.
Como se sabe, durante quarenta dias e quarenta noites, o céu literalmente desabou sobre a região e causou devastação nunca jamais vista em tempo algum. Tanto que até hoje a história circula por aí. Choveu tanto que esgotou o estoque de água da região: aquilo é um deserto até hoje.
Como era de se esperar pelo andar da arca, isto é, pelo navegar da história, ou melhor, pelo andar da história e o navegar da barca, só a família de Noé se salvou. Não houve, portanto, flagelados, desabrigados, desalojados, bem como voluntários abnegados, doadores solidários, repórteres investigativos e prefeitos espertalhões tentando faturar algum. Como se diz modernamente: fodeu tudo!
Para comemorar o sucesso da empreitada, Noé tomou um pifão de vinho, de suas próprias vinhas (O que deve ter ocorrido muito tempo depois, já que tudo tinha sido destruído, e vinho não é como cerveja: não se consegue assim num passe de mágica.), e dormiu pelado. Seu filho Cam, em vez de cobri-lo, saiu espalhando notícia do papel miserável do velho. Seus outros irmãos acorreram à tenda de Noé, cobriram-no, sem dirigir o olhar sobre o pai.
Por causa desse mau passo de Cam (que devia ser o miserável descente direto de Caiml!), Noé o amaldiçoou e o expulsou de casa com a família, os cachorros e os servos. É dele, segundo consta, que descendem os povos árabes, com quem os descendentes de Sem, os hebreus, mantêm uma quizília que nem o próprio Criador (o mesmo que deu o alerta lá atrás – Ele acumulava muitas funções!) conseguiu resolver até o momento em que esta edição era fechada.

2 de fevereiro de 2011

O TEMPO CORRE INÚTIL EM MINHAS VEIAS

O tempo corre inútil em minhas veias
Bem velhinho vou morrer como garoto
Sonhando todos os sonhos
Ansiando por todas as ilusões
Que o meu coração de matuto sem pressa construiu
Desde que vi vez primeira
O sol desenhando luz na parede branca
Da capela de Santo Antônio
Na vila de Liberdade


Jacek Yerka (séc XX), Sem título.


1 de fevereiro de 2011

VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA


um dia a nave parte deste porto
(Claude Monet, Os barcos vermelhos, 1875.)
e é uma sorte não estar morto
o corpo derreado a carne podre
os sonhos abortados

outro dia o sol deposto sobre os montes
e a água límpida das mesmas fontes
depois da tempestade e da enxurrada
se toldar de barro

hoje é só desejo e um bocejo mal passado
das bocas mais que amargas
do perdido tempo de nós todos
mais que moços

amanhã será não sei quiçá acaso talvez
uma agonia instalada em pleno peito
e a certeza de que os planos que traçamos
estarão desfeitos