1 de fevereiro de 2011

VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA


um dia a nave parte deste porto
(Claude Monet, Os barcos vermelhos, 1875.)
e é uma sorte não estar morto
o corpo derreado a carne podre
os sonhos abortados

outro dia o sol deposto sobre os montes
e a água límpida das mesmas fontes
depois da tempestade e da enxurrada
se toldar de barro

hoje é só desejo e um bocejo mal passado
das bocas mais que amargas
do perdido tempo de nós todos
mais que moços

amanhã será não sei quiçá acaso talvez
uma agonia instalada em pleno peito
e a certeza de que os planos que traçamos
estarão desfeitos


31 de janeiro de 2011

NUNCA NOS CANSAMOS DE APRENDER

(Dedicada a meu pai, Argemiro de Assis Mello.)

alguns anos, já homem feito, pai de filhos, numa das visitas periódicas à terrinha, trocava dedos de prosa com meu querido pai, lembrando coisas, atualizando notícias, botando a conversa em dia.

Por um ou outro motivo, disse a ele, comentando sobre as frutas que consumia na cidade grande, que elas não tinham mais o sabor de outrora, pois a mim pareciam colhidas antes do tempo, amadurecidas de forma não natural, o que lhes tirava o paladar que provava quando menino.

Lembrei-me, então, das laranjas que ia chupar no pomar do tio Alcides Almeida, acompanhado de meu primo Carlinhos. Sentávamos à sombra das laranjeiras, canivetes à mão, e nos fartávamos a valer. Apreciava, sobretudo, a laranja-Bahia. Reclamei com meu pai a diferença de paladar entre aquela laranja e esta atual, que compro nas feiras e nos mercados.

Com a sabedoria que os pais parecem ter – e que não sei se repito com meus filhos –, me disse com as palavras mais singelas possíveis:

- Meu filho, o paladar da laranja não mudou. O que mudou foi o seu paladar. Aquele da infância não volta mais. A laranja continua a mesma, mas nós mudamos.

S. Dali, Persistência da memória, 1931, MoMA.
Aliás essa sua lição estava já contida em Soneto de Natal, do genial Machado de Assis, em forma de indagação, no verso que fecha o poema:

                “Mudaria o Natal ou mudei eu?”

E, então, pude me dar conta de quanta água já passou por sob a ponte através da qual venho atravessando a vida. Hoje, apesar de não ser um homem saudoso do passado, parece que sou outra pessoa, bem diferente daquele garoto que corria pelas ruas da vila, brincando com os amigos de infância.

No entanto, diante do espelho, que procuro nunca usar com excesso, pois nele jamais vislumbrei um Alain Delon ou um Tom Cruise, a pessoa que vejo é sempre a mesma, a não ser por uma devastação capilar que envergonha todo o lado Machado da família. Reconheço sempre quem eu vejo: sou eu mesmo, sem tirar nem pôr, a despeito de tudo, das marcas que o tempo imprime em nosso corpo. Entretanto sei que, ao ser reencontrado na rua por conhecidos que não vejo há anos, ex-alunos que tomaram caminhos diversos, a impressão que têm de mim é a mesma que deles tenho: como está envelhecido!

A distância entre o menino e o coroa de agora, para mim, só fica bem evidente ao rever velhas fotografias em preto e branco ou mesmo algumas coloridas um tanto esmaecidas em seus tons: eu já fui bem jovem, talvez até uma criança inocente a correr pelas ruas da minha infância, na minha querida vila de Carabuçu (ou Liberdade, como querem os mais velhos). Mas isso não me dói, como doeu em nosso maior poeta, Carlos Drummond de Andrade, em Confidência do itabirano, em seus dois últimos versos:

“Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!”

É que, de certa forma, aprendi a não chorar sobre o leite derramado. Se possível, passo a língua sobre o filete que escorra e aproveito até a última gota.

30 de janeiro de 2011

CRER DESCONFIANDO

não se confia em presidente governador prefeito
em ministro e secretário de estado
em administradores diretos e públicos
em árbitro de futebol
em juiz de pendência
em polícia guarda rodoviário e fiscal
em vendedor
em camelô
em médico advogado professor psicanalista economista sociólogo
                                               [filósofo padre pastor e dentista
em sujeito cheio de boas intenções.
todos erram propositadamente
todos iludem com a maior desfaçatez.

acredita-se ao contrário
 em reza forte
em banho de cachoeira
em amuletos figas e imagens
em descarrego e encomenda
em corpo fechado e cabeça feita
em despacho de esquina com cachaça vela galinha preta farofa
                                               [pipoca fitas patuás e dinheirinho 
Colhido em heartjoias.com.
em promessas e juras
em novenas dezenas e trezenas
em centenas e milhares
em palpites simples duplos e triplos
em sonhos visões e vozes
em milagres simpatias e jeitinhos
em quebrantos
em mau olhado
em praga e bênção
em adivinhações quiromancia cartomancia búzios bola de cristal
                                               [trabalhos e consultas
em horóscopo oriental e ocidental
em tarô e mapa astral.

pobre e desesperado povo!

29 de janeiro de 2011

A FELICIDADE BATE À SUA PORTA


(Van Gogh, Homem com a cabeça entre as mãos.)
a felicidade bate à sua porta
mas você não abre
teima em ficar enfurnado no seu pequeno mundo
prefere remoer todas as dores do passado
a descortinar outros rumos
mantém suas frustrações sobre a mesa
em que se alimenta dia a dia

a felicidade bate à sua porta
empunhando revólver e escopeta
e você recalcitrante e teimoso feito um burro empacado
se atira sobre o sofá em abandono
o penúltimo copo de uísque na mão

a felicidade bate à sua porta
escancara-a com um aríete de luz
e encontra sua carcaça corrompida em decúbito dorsal
– matéria para a gula dos jornais
investigações policiais
piedade e compaixão dos semelhantes

a felicidade bate à sua porta
estupidamente desconhecendo
o seu direito inalienável ao sofrimento

28 de janeiro de 2011

CHIFRES INOXIDÁVEIS


(Imagem colhida em emule.com.br.)
Instalou um par de chifres inoxidáveis na testa do marido, de não ser arrancado em prazo menor do que cinquenta e tantos anos, isto é, enquanto o desinfeliz ainda pudesse viver. Bem feito! Ele fez por merecer! Tratava-a como a uma vassoura de piaçava gasta, quase sem serventia, deixada no canto do banheirinho de empregada virada para cima. Aí foi só o moço da quitanda repetir a entrega na mesma semana, que ela resolveu liberar os escondidos e mal amados. A fornicação varou a hora do almoço, quando o traste deveria estar na folga do expediente, e valeu por duas entregas de pepinos e abobrinhas. O arroz chegou a sapecar na trempe do fogão. Ela nem ligou. Podia queimar até a panela toda, porque não arredaria corpo de debaixo daquele mulato suado, que sabia mexer os quadris, nem por todas as berinjelas do mundo. De nabos e rabanetes, passou a fazer compras na mesma quitanda, exigindo entrega quase imediata do mesmo moço, que sabia, por uma discreta piscadela de olhos, estar o caminho aberto, as concessões liberadas.

O marido vendia confiança às carradas, imaginando que a mulher jamais teria a coragem de traí-lo. Ela tinha um nome a zelar e também certo receio de seus modos um tanto abrutalhados. Era só ver como arrotava e palitava os dentes depois de comer. Imaginava-se um viquingue, se bem que nunca vira um viquingue após o almoço. Talvez por influência dos quadrinhos de Hagar, o Horrível! Até o porte físico sugeria a personagem. E assim dormia e acordava, sem se dar conta de que, em sua ausência, o pau comia em casa de Noca. E comia feio, dentro dos estatutos do corneamento geral.
Quando chegava a casa, depois do trabalho, não percebia o ar de candura estampado no rosto da mulher. É que dificilmente olhava no rosto dela. Aliás, há alguns anos não notava nada nela, nem para o bem, nem para o mal. E isso é a pior coisa que pode suceder em uma relação, sobretudo quando o outro lado é feminino. É o que mais magoa a mulher! Até uma traição passageira é mais tolerada pelo espírito feminino que a indiferença. Mas há um agravante, no caso: a indiferença gera frutos azedos, difíceis de suportar.
E foi o que aconteceu. Foi só o olho do entregador brilhar um pouco mais naquele dia, que ela viu ali a chance de dar o troco, com juros e correção monetária. No que ele depositava as frutas, verduras e legumes na mesa da copa, notou um olhar um tanto sequioso sobre si. Voltou-se para ela, que respondeu com um sorriso franco e acolhedor. O que se deu dali em diante é bom não contar, para não aumentar o opróbrio do marido, que no justo momento destrinchava rabada com polenta e agrião, num restaurante perto do trabalho no centro da cidade. E vejam que a comida desceu gostosa, sem obstruções, sem causar embuchamento.
Agora observem como é o mundo. O marido juraria de pés juntos que nada demais acontecia em sua casa durante o dia, a não ser o choro da mulher, diante da tevê, na repetição da novela vespertina, em que a escrava apanhava do feitor. E agora passeava um par de chifres descomunais, brilhante à menor lasquinha de luz, porém invisível a seus olhos.
Quando, certa tarde, tiveram de ir ao enterro do diretor da empresa em que ele trabalhava, chegaram de braços dados ao velório, numa descompostura apenas percebida pelos demais. Ele figurava uma segurança inexistente, num bigode mal aparado, de tintura duvidosa, enquanto a mulher distribuía compungidos boas-tardes, arredondados num vestido colado ao corpo, um pouco impróprio para a ocasião. Do contínuo ao presidente, todos os colegas de trabalho sabiam das estripulias da sua patroa, como se habituara a referir-se a ela em conversas no trabalho. E, não se sabe por que motivo, a notícia da traição chegara à sala do cafezinho. Pronto: daí em diante a difamação correu solta! Varou corredores e diretorias, seções e recepção. Sua fama de chifrudo tinha chegado à mais baixa cotação no mercado dos casados.
E continuou vivendo assim, sem se aperceber de nada, polindo os chifres a cada entrega da quitanda, até que o fogo da mulher se apagasse qual chama de cotoco de vela, num dia qualquer de São Nunca, em hora incerta e não sabida.

27 de janeiro de 2011

DEBAIXO DAS PONTES


debaixo das pontes
vivem serzedelos
correm veias de mangue
obscuros esgotos
ratazanas humanas
paquidermes de cana.

debaixo dos viadutos
vivem os putos e
deserdados da vida
zés manés marias
raimundas imundas
infestando a avenida.

ao lado do mam
Pieter Brueghel, Mendigos, séc. XVI.
quase toda manhã
há corpos deitados
compondo um quadro
além portinari
ou mesmo dali.

em cada esquina
a paisagem repete
um velho refrão
que nos dá desespero:
“criança, não verás
nenhum país como este”.

26 de janeiro de 2011

SORTE

sorte não ter nascido roto maltrapilho
como todos os que dormem nas ruas nas calçadas
e chafurdam no lixo
e comem migalhas
e sonham não se sabe com quê

sorte não ter como horizonte
apenas a barra da baía de guanabara
o mar aberto de copacabana com as cagarras
e a ilha rasa
o céu pesado que apavora os morros

sorte não ter como amor devotamento
o ódio e a indiferença que passeiam nos ônibus
no metrô
nos apertados trens urbanos
ou o terror das ruas da cidade

(Cândido Portinari, Dudas mulheres, duas crianças.)
sorte não ter como corpo
esse desconforto de carne e músculos
que os famintos carregam como fardo
leve e maldito
a que devem acrescentar doença e desejo
delírio e paixão
como qualquer um

sorte não ter como consciência o nada
e calar diante de todas as injustiças