29 de janeiro de 2011

A FELICIDADE BATE À SUA PORTA


(Van Gogh, Homem com a cabeça entre as mãos.)
a felicidade bate à sua porta
mas você não abre
teima em ficar enfurnado no seu pequeno mundo
prefere remoer todas as dores do passado
a descortinar outros rumos
mantém suas frustrações sobre a mesa
em que se alimenta dia a dia

a felicidade bate à sua porta
empunhando revólver e escopeta
e você recalcitrante e teimoso feito um burro empacado
se atira sobre o sofá em abandono
o penúltimo copo de uísque na mão

a felicidade bate à sua porta
escancara-a com um aríete de luz
e encontra sua carcaça corrompida em decúbito dorsal
– matéria para a gula dos jornais
investigações policiais
piedade e compaixão dos semelhantes

a felicidade bate à sua porta
estupidamente desconhecendo
o seu direito inalienável ao sofrimento

28 de janeiro de 2011

CHIFRES INOXIDÁVEIS


(Imagem colhida em emule.com.br.)
Instalou um par de chifres inoxidáveis na testa do marido, de não ser arrancado em prazo menor do que cinquenta e tantos anos, isto é, enquanto o desinfeliz ainda pudesse viver. Bem feito! Ele fez por merecer! Tratava-a como a uma vassoura de piaçava gasta, quase sem serventia, deixada no canto do banheirinho de empregada virada para cima. Aí foi só o moço da quitanda repetir a entrega na mesma semana, que ela resolveu liberar os escondidos e mal amados. A fornicação varou a hora do almoço, quando o traste deveria estar na folga do expediente, e valeu por duas entregas de pepinos e abobrinhas. O arroz chegou a sapecar na trempe do fogão. Ela nem ligou. Podia queimar até a panela toda, porque não arredaria corpo de debaixo daquele mulato suado, que sabia mexer os quadris, nem por todas as berinjelas do mundo. De nabos e rabanetes, passou a fazer compras na mesma quitanda, exigindo entrega quase imediata do mesmo moço, que sabia, por uma discreta piscadela de olhos, estar o caminho aberto, as concessões liberadas.

O marido vendia confiança às carradas, imaginando que a mulher jamais teria a coragem de traí-lo. Ela tinha um nome a zelar e também certo receio de seus modos um tanto abrutalhados. Era só ver como arrotava e palitava os dentes depois de comer. Imaginava-se um viquingue, se bem que nunca vira um viquingue após o almoço. Talvez por influência dos quadrinhos de Hagar, o Horrível! Até o porte físico sugeria a personagem. E assim dormia e acordava, sem se dar conta de que, em sua ausência, o pau comia em casa de Noca. E comia feio, dentro dos estatutos do corneamento geral.
Quando chegava a casa, depois do trabalho, não percebia o ar de candura estampado no rosto da mulher. É que dificilmente olhava no rosto dela. Aliás, há alguns anos não notava nada nela, nem para o bem, nem para o mal. E isso é a pior coisa que pode suceder em uma relação, sobretudo quando o outro lado é feminino. É o que mais magoa a mulher! Até uma traição passageira é mais tolerada pelo espírito feminino que a indiferença. Mas há um agravante, no caso: a indiferença gera frutos azedos, difíceis de suportar.
E foi o que aconteceu. Foi só o olho do entregador brilhar um pouco mais naquele dia, que ela viu ali a chance de dar o troco, com juros e correção monetária. No que ele depositava as frutas, verduras e legumes na mesa da copa, notou um olhar um tanto sequioso sobre si. Voltou-se para ela, que respondeu com um sorriso franco e acolhedor. O que se deu dali em diante é bom não contar, para não aumentar o opróbrio do marido, que no justo momento destrinchava rabada com polenta e agrião, num restaurante perto do trabalho no centro da cidade. E vejam que a comida desceu gostosa, sem obstruções, sem causar embuchamento.
Agora observem como é o mundo. O marido juraria de pés juntos que nada demais acontecia em sua casa durante o dia, a não ser o choro da mulher, diante da tevê, na repetição da novela vespertina, em que a escrava apanhava do feitor. E agora passeava um par de chifres descomunais, brilhante à menor lasquinha de luz, porém invisível a seus olhos.
Quando, certa tarde, tiveram de ir ao enterro do diretor da empresa em que ele trabalhava, chegaram de braços dados ao velório, numa descompostura apenas percebida pelos demais. Ele figurava uma segurança inexistente, num bigode mal aparado, de tintura duvidosa, enquanto a mulher distribuía compungidos boas-tardes, arredondados num vestido colado ao corpo, um pouco impróprio para a ocasião. Do contínuo ao presidente, todos os colegas de trabalho sabiam das estripulias da sua patroa, como se habituara a referir-se a ela em conversas no trabalho. E, não se sabe por que motivo, a notícia da traição chegara à sala do cafezinho. Pronto: daí em diante a difamação correu solta! Varou corredores e diretorias, seções e recepção. Sua fama de chifrudo tinha chegado à mais baixa cotação no mercado dos casados.
E continuou vivendo assim, sem se aperceber de nada, polindo os chifres a cada entrega da quitanda, até que o fogo da mulher se apagasse qual chama de cotoco de vela, num dia qualquer de São Nunca, em hora incerta e não sabida.

27 de janeiro de 2011

DEBAIXO DAS PONTES


debaixo das pontes
vivem serzedelos
correm veias de mangue
obscuros esgotos
ratazanas humanas
paquidermes de cana.

debaixo dos viadutos
vivem os putos e
deserdados da vida
zés manés marias
raimundas imundas
infestando a avenida.

ao lado do mam
Pieter Brueghel, Mendigos, séc. XVI.
quase toda manhã
há corpos deitados
compondo um quadro
além portinari
ou mesmo dali.

em cada esquina
a paisagem repete
um velho refrão
que nos dá desespero:
“criança, não verás
nenhum país como este”.

26 de janeiro de 2011

SORTE

sorte não ter nascido roto maltrapilho
como todos os que dormem nas ruas nas calçadas
e chafurdam no lixo
e comem migalhas
e sonham não se sabe com quê

sorte não ter como horizonte
apenas a barra da baía de guanabara
o mar aberto de copacabana com as cagarras
e a ilha rasa
o céu pesado que apavora os morros

sorte não ter como amor devotamento
o ódio e a indiferença que passeiam nos ônibus
no metrô
nos apertados trens urbanos
ou o terror das ruas da cidade

(Cândido Portinari, Dudas mulheres, duas crianças.)
sorte não ter como corpo
esse desconforto de carne e músculos
que os famintos carregam como fardo
leve e maldito
a que devem acrescentar doença e desejo
delírio e paixão
como qualquer um

sorte não ter como consciência o nada
e calar diante de todas as injustiças




25 de janeiro de 2011

A MIRACULOSA LOÇÃO CURATIVA DO ROBÉRIO

A infestação de pulgas na pensão provocou uma série de problemas nos rapazes que moravam no segundo andar do estabelecimento. Ninguém ficou livre de levar ferroadas por todas as partes do corpo, sobretudo nas chamadas partes pudendas, também conhecidas vulgarmente como países baixos. Por isso, quando foi a Bom Jesus passar a Semana Santa daquele ano, ele se dirigiu à farmácia, na Rua Tenente José Teixeira, e relatou ao amigo boticário a novidade. Seu sacro escrotal estava em petição de miséria. Não aguentava mais o incômodo. Segundo ele, a coceira já estava até abrindo brechas na pele da região do entorno do dito cujo.
O amigo riu muito e prometeu-lhe um remédio poderoso, desses de não deixar pedra sobre pedra, ou melhor, pulga sobre pulga. Foi lá dentro, no laboratório, e, após cerca de meia hora, voltou com um vidro escuro com uma loção de uso tópico, a ser aplicada na zona infestada, logo após o banho. Recomendou ainda que enxugasse bem o local, a ser lavado com sabão de coco, e aplicasse o líquido em seguida com um algodão bastante empapado. Seria tiro e queda!
- É garantido mesmo?
- Tou falando: é tiro e queda, cara!
Pegou o remédio, pagou e foi-se embora.
Imagem em emule.com.br.
Chegou à casa dos pais, mas não comentou nada sobre o problema. Tinha lá seus pudores a preservar.
A mãe, no momento, preparava o jantar, quando foi para o banheiro, ao lado da cozinha da casa simples.
No banho, até cantou Martinho da Vila: “Felicidade! / Passei no vestibular/ Mas a faculdade / É particular...”, que fazia um baita sucesso Brasil afora. Ao fim do banho, passou enrolado na toalha pela cozinha e foi para o quarto, onde deixara a loção milagrosa, a esperança para todos os males que o assolavam. “Particular! / Ela é particular/ Particular! / Ela é particular...” Secou bem as partes como recomendado. Preparou um chumaço de algodão e empapou com uma porção generosa daquele líquido cor de âmbar, de cheiro agradável de remédio manipulado. Com vontade e disposição, esfregou o chumaço na zona conflagrada. Em seguimento, o urro que saiu de sua garganta foi coisa de se ouvir do outro lado da rua, até por cidadão auditivamente prejudicado, talvez mesmo do outro lado do rio Itabapoana, lá para os lados da charqueada. De imediato o saco murchou, embutindo as duas bolotas que ficam penduradas nas adjacências. Mais rápido que uma Ferrari Testarossa, saiu em disparada pelado casa afora, até chegar, de novo, ao banheiro, onde abriu o chuveiro com vontade e se lavou com sabão de coco, o tempo necessário para minorar um pouco a sensação de queimação que se abateu sobre aquela pobre região corpórea, quase tudo reduzido a proporções microscópicas, talvez só acessíveis naquele instante por pinças de tirar sobrancelhas de mulher.
Eneko, El grito, colhido em diaadia.pr.gov.br.
A mãe assustou-se com o estardalhaço e perguntou ao filho o que estava acontecendo, que desatino súbito era aquele, que possessão diabólica seria isso, Deus do céu!
Deixando a água fria aplacar a sensação horrível, explicou à mãe o sucedido: tinha sido o maldito remédio que o Robério lhe receitara o causador daquele furdunço todo.
Ao final de mais uns vinte minutos embaixo d’água, pediu à mãe que lhe levasse a toalha, esquecida no quarto no atabalhoamento de voltar ao banheiro.
No dia seguinte, foi até a farmácia reclamar com o amigo sobre o resultado da aplicação de tão malsinado remédio e a falta de aviso sobre isso, coisa de poder ser reclamada em repartição judiciária, com petição assinada por advogado de banca estabelecida.
Robério riu solto e esclareceu:
- Se eu lhe dissesse o que aconteceria, você não teria coragem de usar o remédio. Mas garanto que não terá mais coceira. Garanto só, não! Até aposto um dinheiro!
Dito e feito. Nunca mais a coceira voltou, escorraçada que foi por um remédio que era parente próximo da bomba de Hiroshima, mas o efeito colateral do encolhimento das partes foi um trauma para lá de recalcitrante. De durar dias!
Esse povo de botica inventa cada remédio, que Deus me livre!

24 de janeiro de 2011

SONETO PRETENSIOSO

Queria ter, inteira ao meu dispor,
Aquela dor contida em tua pele
E o dissabor que cada poro expele,
Como se fosse diário desjejum.

Alimentar-me, então, com tal sabor,
Do frio intenso que teu corpo exale,
Calar-te a voz, ainda que não fale.
Ou, se falasse, fosse qualquer um.

E, à noite, a ceia, que assim sorvesse,
Pudesse ter, em cada sorvo estranho,
As amarguras que por tuas veias

Correram tanto, por tempo tamanho.
E assim o sangue que eu, enfim, bebesse
Me libertasse dessas tuas peias.
Almeida Júnior, O descanso do modelo, 1882.
Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

23 de janeiro de 2011

MARIA, MARIA


Namoradeira, por Rosilene Miranda,
em telejm.blogspot.com
 Maria nasceu com a estranha mania de ter fé na vida. Desde muito pequena acreditava em tudo que lhe diziam, por mais estapafúrdia que fosse a versão apresentada. Por isso não é estranho que tenha passado a, diuturnamente, consultar horóscopo, ler bula de homeopatia, fazer todas as simpatias que ouvia nos programas de rádio matutinos, sem o que não punha os pés fora de casa.

Acreditava tanto que acreditava em político, videopastor, em previsão de tempo, em resultado de consulta a cartomante, quiromante, e, o mais grave, no papo-furado do Marivaldo, aplicador de injeções da Farmácia Santa Isabel, estacionada na Rua Direita, pertinho da Praça das Mães.

Isso aconteceu num dia em que precisou de injeção que lhe curasse forte gripe pega de surpresa, numa noite friorenta de São João.

Marivaldo, quando recebeu a visita de Maria na farmácia onde espalhava sua competência de furador de braços, veias e popas, logo se entusiasmou em atender a moça que chegava com o incômodo da gripe. Ele mesmo receitou a injeção, mas ponderou que, a par de ser muito eficaz contra a doença, doía que só ela, pelo que recomendou que a zona em que deveria ser aplicada fosse mais abastecida de carnes do que o magrelo braço de Maria.

Ela ficou muito acanhada com a situação, mas acabou cedendo suas partes para que Marivaldo ali depositasse o remédio milagroso.

Quando a ingênua e crédula moça suspendeu o vestido e baixou a calcinha, mostrando sua popa morena, coberta por uma penugenzinha suave como a brisa de maio, Marivaldo olhou para cima e agradeceu aos céus a oportunidade que se apresentava em sua vida. Visse ela a cara do aplicador de injeções e teria saído desembestada da botica, sem tempo de se recompor. A sanha dos olhos de Marivaldo, sem querer desmerecer outros monstros, era a de Nosferatu em seus piores dias.

O algodão embebido em álcool que passou sobre o murundu de Maria provocou na moça uma friagem gostosa e estranha. Era como se Di Cavalcanti estivesse retocando pintura de mulatas, tal foi a habilidade no serviço. Em seguida, com a mão nua, sem ajuda de luva, segurou de mansinho parte do tesouro que se lhe oferecia e teve pena de chuchar agulha em região de delicadezas tão vastas. Mas teve de levar adiante sua profissão, o que fez com tanto jeito, com tanto carinho, que a pobre Maria quase não sentiu. Ainda lhe disse:

- , Marivaldo, doeu só nadica de nada.

- É que minha mão tem zelo, tem cuidado no serviço.

E aproveitou a oportunidade para desfilar na mimosa concha do ouvido da morena, em feitio de louvação da sua beleza, dezenas de frases de efeito, recheadas de palavras doces e açucaradas, que ficariam perigosas em ouvidos diabéticos.

Maria encantou-se com tanta exaltação e predispôs seu coração desavisado à língua visguenta do auxiliar de farmácia. Sem medir esforços e consequências, Marivaldo lançou sobre a moça, nos dias que se seguiram à agulhada, petardos românticos de derrubar muralhas de fortaleza medieval, que dirá de ingenuidades caboclas. E, aí, quem há de resistir?

Maria soçobrou, por assim dizer, aos maremotos produzidos pela lábia de Marivaldo nos dois meses que se seguiram, e não houve conselho de avó, reprovação de mãe que a demovessem da determinação de ir viver seu caso de amor com o ensaboado.

Marivaldo montou casa simplória, provida de coisa pouca, mas com uma cama bonita, larga, capaz de segurar os arroubos que pretendia empreender pelo corpo intacto de Maria. Ela não fazia ideia do que seria sua vida. De ingênua e tímida jovem, crédula em tudo que se possa imaginar, a mulher do furador da farmácia.

Marivaldo desfrutava na cidade de reputação de mulherengo. Nenhum marido, em pleno gozo de suas faculdades mentais, permitia a entrada dele em casa, nem para entrega de envelope de Cibalena, quanto mais para aplicar injeção. Essa atividade era exercida sob rigorosa vigilância dos maridos, convencidos de que qualquer descuido era sinal de perigo iminente. Algum marido até requeria força policial para ficar de plantão.

Assim estranharam o fato de o ajudante de farmácia se dispor a viver com uma só mulher, quando tinha um pasto aberto a sua frente, todos os dias da semana. Porém começaram a dormir descansados a partir de então.

Os dias se sucederam entre gemidos e sussurros, entre suores e exaustões, a cama resistindo aos repuxos noturnos. Até que Marivaldo resolveu almoçar em casa todos os dias. Aproveitava, então, aquela hora e meia de folga para liberar seus lúbricos instintos pelo corpo jovem de Maria, que mal tinha tempo de desligar o fogo com que preparava o almoço. Enlaçada pela cintura, era arrebatada para a cama, onde aconteciam coisas que o pundonor aconselha omitir. Nada queimava no fogão, mas na cama os lençóis calcinavam e, do quarto acanhado, subia um cheiro forte de fumeiro.

Maria começou, assim, a gostar das brincadeiras e passou a exigir a presença do companheiro também na hora do café da tarde. Os embates se sucediam com tal frequência e entusiasmo, que Marivaldo principiou a definhar com o passar dos dias. Sua mão, antes firme na furação do corpo alheio, iniciava caminho sem volta na tremelicação involuntária, por falta de sustança nos músculos. Sua força estava esvaindo-se, exaurindo-se, desvanecendo-se.

não conseguia mais acordar cedo para o trabalho, sempre arranjando desculpa para os atrasos. Os olhos afundavam-se nas covas debruadas por um roxo macilento, as pálpebras quase insustentáveis. A marcha até a farmácia parecia feita com passos de paquidermes cansados. Um dia, teve de descansar sob a árvore da pracinha, para recobrar o fôlego faltante e atingir seu objetivo.

Por seu lado, Maria lavava a roupa, varria a casa e o terreiro, cozinhava ainda com mais disposição. Parecia com mais energia do que antes. O que faltava em Marivaldo sobrava nela.

E assim foi até que o auxiliar de botica, desfeito de toda a seiva corporal, exaurido até a última gota, extinguiu-se do mundo dos remédios e passou a ser apenas uma evaporação, um eflúvio, uma emanação etérea.

A partir de então, Maria perdeu fé na vida e viu seu mundo desmoronar com os calhaus de terra lançados sobre ataúde triste de Marivaldo, num dia melancólico qualquer de uma primavera sutil, que é melhor esquecer.