24 de janeiro de 2011

SONETO PRETENSIOSO

Queria ter, inteira ao meu dispor,
Aquela dor contida em tua pele
E o dissabor que cada poro expele,
Como se fosse diário desjejum.

Alimentar-me, então, com tal sabor,
Do frio intenso que teu corpo exale,
Calar-te a voz, ainda que não fale.
Ou, se falasse, fosse qualquer um.

E, à noite, a ceia, que assim sorvesse,
Pudesse ter, em cada sorvo estranho,
As amarguras que por tuas veias

Correram tanto, por tempo tamanho.
E assim o sangue que eu, enfim, bebesse
Me libertasse dessas tuas peias.
Almeida Júnior, O descanso do modelo, 1882.
Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

23 de janeiro de 2011

MARIA, MARIA


Namoradeira, por Rosilene Miranda,
em telejm.blogspot.com
 Maria nasceu com a estranha mania de ter fé na vida. Desde muito pequena acreditava em tudo que lhe diziam, por mais estapafúrdia que fosse a versão apresentada. Por isso não é estranho que tenha passado a, diuturnamente, consultar horóscopo, ler bula de homeopatia, fazer todas as simpatias que ouvia nos programas de rádio matutinos, sem o que não punha os pés fora de casa.

Acreditava tanto que acreditava em político, videopastor, em previsão de tempo, em resultado de consulta a cartomante, quiromante, e, o mais grave, no papo-furado do Marivaldo, aplicador de injeções da Farmácia Santa Isabel, estacionada na Rua Direita, pertinho da Praça das Mães.

Isso aconteceu num dia em que precisou de injeção que lhe curasse forte gripe pega de surpresa, numa noite friorenta de São João.

Marivaldo, quando recebeu a visita de Maria na farmácia onde espalhava sua competência de furador de braços, veias e popas, logo se entusiasmou em atender a moça que chegava com o incômodo da gripe. Ele mesmo receitou a injeção, mas ponderou que, a par de ser muito eficaz contra a doença, doía que só ela, pelo que recomendou que a zona em que deveria ser aplicada fosse mais abastecida de carnes do que o magrelo braço de Maria.

Ela ficou muito acanhada com a situação, mas acabou cedendo suas partes para que Marivaldo ali depositasse o remédio milagroso.

Quando a ingênua e crédula moça suspendeu o vestido e baixou a calcinha, mostrando sua popa morena, coberta por uma penugenzinha suave como a brisa de maio, Marivaldo olhou para cima e agradeceu aos céus a oportunidade que se apresentava em sua vida. Visse ela a cara do aplicador de injeções e teria saído desembestada da botica, sem tempo de se recompor. A sanha dos olhos de Marivaldo, sem querer desmerecer outros monstros, era a de Nosferatu em seus piores dias.

O algodão embebido em álcool que passou sobre o murundu de Maria provocou na moça uma friagem gostosa e estranha. Era como se Di Cavalcanti estivesse retocando pintura de mulatas, tal foi a habilidade no serviço. Em seguida, com a mão nua, sem ajuda de luva, segurou de mansinho parte do tesouro que se lhe oferecia e teve pena de chuchar agulha em região de delicadezas tão vastas. Mas teve de levar adiante sua profissão, o que fez com tanto jeito, com tanto carinho, que a pobre Maria quase não sentiu. Ainda lhe disse:

- , Marivaldo, doeu só nadica de nada.

- É que minha mão tem zelo, tem cuidado no serviço.

E aproveitou a oportunidade para desfilar na mimosa concha do ouvido da morena, em feitio de louvação da sua beleza, dezenas de frases de efeito, recheadas de palavras doces e açucaradas, que ficariam perigosas em ouvidos diabéticos.

Maria encantou-se com tanta exaltação e predispôs seu coração desavisado à língua visguenta do auxiliar de farmácia. Sem medir esforços e consequências, Marivaldo lançou sobre a moça, nos dias que se seguiram à agulhada, petardos românticos de derrubar muralhas de fortaleza medieval, que dirá de ingenuidades caboclas. E, aí, quem há de resistir?

Maria soçobrou, por assim dizer, aos maremotos produzidos pela lábia de Marivaldo nos dois meses que se seguiram, e não houve conselho de avó, reprovação de mãe que a demovessem da determinação de ir viver seu caso de amor com o ensaboado.

Marivaldo montou casa simplória, provida de coisa pouca, mas com uma cama bonita, larga, capaz de segurar os arroubos que pretendia empreender pelo corpo intacto de Maria. Ela não fazia ideia do que seria sua vida. De ingênua e tímida jovem, crédula em tudo que se possa imaginar, a mulher do furador da farmácia.

Marivaldo desfrutava na cidade de reputação de mulherengo. Nenhum marido, em pleno gozo de suas faculdades mentais, permitia a entrada dele em casa, nem para entrega de envelope de Cibalena, quanto mais para aplicar injeção. Essa atividade era exercida sob rigorosa vigilância dos maridos, convencidos de que qualquer descuido era sinal de perigo iminente. Algum marido até requeria força policial para ficar de plantão.

Assim estranharam o fato de o ajudante de farmácia se dispor a viver com uma só mulher, quando tinha um pasto aberto a sua frente, todos os dias da semana. Porém começaram a dormir descansados a partir de então.

Os dias se sucederam entre gemidos e sussurros, entre suores e exaustões, a cama resistindo aos repuxos noturnos. Até que Marivaldo resolveu almoçar em casa todos os dias. Aproveitava, então, aquela hora e meia de folga para liberar seus lúbricos instintos pelo corpo jovem de Maria, que mal tinha tempo de desligar o fogo com que preparava o almoço. Enlaçada pela cintura, era arrebatada para a cama, onde aconteciam coisas que o pundonor aconselha omitir. Nada queimava no fogão, mas na cama os lençóis calcinavam e, do quarto acanhado, subia um cheiro forte de fumeiro.

Maria começou, assim, a gostar das brincadeiras e passou a exigir a presença do companheiro também na hora do café da tarde. Os embates se sucediam com tal frequência e entusiasmo, que Marivaldo principiou a definhar com o passar dos dias. Sua mão, antes firme na furação do corpo alheio, iniciava caminho sem volta na tremelicação involuntária, por falta de sustança nos músculos. Sua força estava esvaindo-se, exaurindo-se, desvanecendo-se.

não conseguia mais acordar cedo para o trabalho, sempre arranjando desculpa para os atrasos. Os olhos afundavam-se nas covas debruadas por um roxo macilento, as pálpebras quase insustentáveis. A marcha até a farmácia parecia feita com passos de paquidermes cansados. Um dia, teve de descansar sob a árvore da pracinha, para recobrar o fôlego faltante e atingir seu objetivo.

Por seu lado, Maria lavava a roupa, varria a casa e o terreiro, cozinhava ainda com mais disposição. Parecia com mais energia do que antes. O que faltava em Marivaldo sobrava nela.

E assim foi até que o auxiliar de botica, desfeito de toda a seiva corporal, exaurido até a última gota, extinguiu-se do mundo dos remédios e passou a ser apenas uma evaporação, um eflúvio, uma emanação etérea.

A partir de então, Maria perdeu fé na vida e viu seu mundo desmoronar com os calhaus de terra lançados sobre ataúde triste de Marivaldo, num dia melancólico qualquer de uma primavera sutil, que é melhor esquecer.

22 de janeiro de 2011

BOBAGENS IMPUBLICÁVEIS


José Sócrates, Pensador, in
Blog de Caricaturas.
Dia desses, entrei na Livraria da Travessa, na Travessa do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, e me deparei com uma banca imensa logo na entrada, abarrotada de livros de autoajuda. Esse filão editorial é uma das maiores empulhações pseudointelectuais dos últimos anos. O livro só é autoajuda para seu autor, que vende milhares de exemplares e fatura gordos direitos autorais. Ou o prefixo auto- de origem grega perdeu seu sentido. Quem lê esses livros e se sente ajudado tem ajuda externa. Para ser autoajuda, só a própria pessoa trabalha, senão não é autoajuda. Tenho muita birra desse tipo de literatura. Porém, imediatamente ao ver aquela montanha de livros, veio-me à mente, já completamente formada, a paródia de um velho dito popular brasileiro. Então pude ver que, só de olhar a capa, talvez aqueles livros tivessem esse poder de que muito duvido. Eis a frase, com o destaque que ela merece:

Muito autoajuda quem não se atrapalha.
Como cabeça de aposentado pode trabalhar com as bobagens que quiser que não estará perdendo tempo, já que tem todo o tempo disponível, assaltou-me a possibilidade de pensar outras versões e formas de ditos e expressões da rica fraseologia brasileira, com o viés (Essa palavra anda na moda e não posso perder a oportunidade de a utilizar aqui. Confesso que é a primeira vez que o faço. Só para ser moderno!) do humor.
Lembro-me, também, do grande professor José Albano Nolasco e sua verve ferina, que dizia, ao referir alguma situação aplicável:
                       Quem se mistura com farelo, porcos o comam.
a marcar a mais baixa condição a que tinha chegado o sujeito de suas observações: não era ele nem mesmo o porco, mas a comida do animal.
O Pasquim, em seus áureos tempos, vez ou outra, trazia brincadeiras com os provérbios populares. Lembro-me, por exemplo, de ter lido lá, como corolário de uma piada:
                                   De grão em grão, a galinha enche o Papa.
Outra versão também já conhecida de todos é
                                   Quem confere ferros com ferro será conferido.
Todo esse preâmbulo é para introduzir a relação das bobagens que me passaram pela cabeça. Pode ser que outras venham, pois diarreia mental é coisa praticamente incurável.

1.       De grau em grau, a galinha esquenta o papo.
2.       Cada mania com seu doido.
3.       Em casa de malandro, vagabundo só perde emprego.
4.       O arquiteto está cheio de projetos para o Ano Novo.
5.       A faxineira passou o rodo no filho adolescente do patrão.
6.       O escoteiro chutou o pau da barraca e foi expulso do acampamento.
7.       O granjeiro afogou o ganso antes de comê-lo.
8.       Tropeiro que amarra o burro normalmente vive contrariado.
9.       O podólogo tomou pé da situação precária em que vivia.
10.   Quem tem bunda fria não esquenta lugar.
11.   Noca comeu pau em sua casa, porque faltou carne.
12.   O engenheiro incompetente não calcula a falta que a mulher lhe faz, desde que ela partiu.
13.   O músico cantou pra subir na carreira, mas morreu antes do sucesso.
14.   O alfaiate abotoou o paletó do cliente defunto na capela mortuária.
15.   O treinador passou sebo nas canelas do maratonista vencedor.
16.   O menino descabelou o palhaço de pano que sua irmã ganhou de presente.
17.   O sitiante soltou a franga no despacho de macumba.
18.   O apostador marcou bobeira no palpite da mega-sena.
19.   O passageiro dormiu no ponto e perdeu a virgem.
20.   Depois de apanhar muito, o briguento foi-se catar, mas faltaram alguns pedaços.
21.   O defunto morreu de rir da cara do papa-defuntos, que levou o cano para o bombeiro consertar.
22.   A linha saiu de fininho do novelo de lã, para não virar um suéter.
23.   Em terra de rei, que tem um olho não gasta dinheiro com binóculo.
24.   Alfajores são alfabetos argentinos feitos de maisena, farinha de trigo, açúcar, manteiga, ovos, fermento em pó e essência de baunilha por confeiteiro iletrado.
25.   Quem ri por último é porque não entendeu a piada a tempo.
26.   Quem mata a cobra e mostra o pau é descarado exibicionista.
27.   Cão que chupa manga sente falta de osso.
28.   Quem lava a égua não pode se esquecer do balde, do sabão e do esfregão.
29.   Quem se mete a besta pode se deparar com um garanhão fogoso logo à frente.
30.   Lobo com pele de cordeiro teme retaliação da PETA.
31.   É mais difícil pegar um mentiroso que tenha imunidade parlamentar.
32.   Macaco velho não quebra o galho do outro.
33.   Ao curtumeiro epicurista é fácil curtir a vida.
34.   Cágado não vive de bunda suja apenas por causa de um acento.
35.   Quando galinha tiver dente, dentista não dará conta do trabalho.
36.   Cachorro amarrado com linguiça deve ser vegetariano.
37.   Chupa cana e assobia quem não tem nada melhor a fazer.
38.   Cavalinho que se tira da chuva é feito de papel machê.
39.   Quem tem faca de dois gumes pode descascar dois abacaxis ao mesmo tempo.
40.   Se você não é ginecologista nem urologista, não me venha dar toque.
41.   Quem mama nas tetas, se não é político, é bezerro novo.
42.   Se você vive dando o pinote das paradas é porque, certamente, tem sangue de cabrito nas veias.
43.   Quem vive numa boa só pode ser absorvente higiênico de mulher gostosa.
44.   Quem entra em fria seguramente pega pneumonia galopante.
45.   E quem tira você de uma fria, com certeza, é o entregador de gelo.
46.   Para sair do armário, o marceneiro nem precisou assumir.
47.   Mentira de pescador é dizer que não pegou nada.
48.   Gato escaldado não dá bom guisado.
49.   Para bom entendedor, meia palavra bas.
50.   Padeiro que queima rosca não faz pão bengala.
51.   Caolhos e banguelas, na roleta, perderam olho por olho, dente por dente.
52.   Vidente que não vê o presente fica com o futuro incerto.
53.   Deficiente visual só sabe dar nó cego?
54.   Os EUA, na década passada, chegaram à beira do abismo. Ali construíram um mirante de aço e vidro muito bonito.
55.   O agrimensor não media esforços no trabalho, porque tinha perdido a trena.
56.   Seleiro, quando fica noivo, não dá o anel de couro na cerimônia.
57.   Minha amiga séria perguntou por que só escrevo abobrinhas. É porque choveu na minha horta, respondo.
58.   Quem morre de rir não vai para o céu, pois lá é um lugar muito sério.
59.   Rapadura não é mole, porque a cana é dura, disse o delegado ao prender o rapadureiro criminoso.
60.   Quando uma notícia vem a furo, é menos um furúnculo no jornalista.
61.   O político faltou com a verdade, para se encontrar com a mentira esfarrapada.
62.  Atropelar os fatos é quando um caminhão desgovernado invade a feira livre e destrói a barraca de miúdos de porco.
63.  Ri Millôr quem ri primeiro.
64.   Humor com humor se paga.

21 de janeiro de 2011

CHEIO ITABAPOANA

(Para minha irmã Cristina, que motivou o poema com seu torpedo.)

Como furtivo amante que surpreende
a amada na madrugada aflita
com a cheia de seu leito de chocolate
a penetrar a casa que se habita
o rio foge de manhã no entanto
Cheia do Itabapoana, em bomjesus.rj.gov.br.
maculando a cama
deixando lama
fazendo estrago
sorvendo a alma
plantando o pranto
dos que ficaram
com suas lágrimas a lavar
o limo das calçadas
como se não fosse nada


PS: Os estragos que o rio Itabapoana causa jamais chegaram aos níveis do que ocorreu na Região Serrana do Rio de Janeiro, mas é sempre um incômodo a sobressaltar a população às suas margens, a cada temporada de chuvas.

19 de janeiro de 2011

O AMOR

O amor é, sem dúvida,
Um mal necessário.
O morrer de amor, uma consequência natural
Desse processo degradante.

Fede-se de amor, quando se ama.
E, quando não se ama,
Simplesmente existe-se
Na tranquilidade modorrenta e quieta dos dias claros.
O amor, por isso mesmo,
Provoca um revolução interna
A começar pelo intestinos, os prosaicos intestinos,
E acaba por subverter o senso comum da realidade.
Aniquila a autossuficiência.
Espezinha, por fim
E até mesmo,
O paladar.
Amando-se, o gosto é diverso.
Malamando-se, sente-se na maçã a maçã, no vinagre o vinagre.

E mais se ama e mais se morre,
Porquanto a entrega é maior.
Mas não se entrega na única e mera preocupação de entregar-se.
Entrega-se para que se apodreça no outro ser.
E, nesse acabar vexatório e repugnante,
É que se consegue o nada absoluto.
Aprendem-se aí as novas possibilidades
Do inexistir sozinho.
Treinam-se novas modalidades de se rebaixar,
De transigir,
De se deixar subornar, que amor é suborno.
Experimenta-se, então, o inefável sabor do desamparo
H. Van den Broeck, Vênus e Cupido, séc. XVI.
Sabendo-se múltiplo;
A indescritível idiotice galopante,
Sentindo-se sábio;
A intangível fraqueza diária,
Fingindo-se forte.

O amor, enfim, mistura alhos com bugalhos.
Mas, sobretudo, ferve
Ferve num quentinho gostoso
No fundo do nosso ser escrachado.



17 de janeiro de 2011

VALE DO CUIABÁ, UM VALE DE LÁGRIMAS


Quinta da Paz, Vale do Cuiabá, Petrópolis, em viajandocomlucianadias.blogspot.com.

Apaixonado por serras, por diversas vezes, estive com minha mulher, Jane, em Itaipava, como no último fim de ano.
Formos lá passar um réveillon tranquilo, como era o desejo dela.
De todas as outras vezes, embora tivesse notícias da beleza do Vale do Cuiabá, nunca lá estivéramos, até que, no último dia do ano, pelas dezessete horas, chamei-a para irmos conhecê-lo.
Com o horário de verão, a escuridão da noite custa mais a chegar, e, como o Vale é bem próximo de Itaipava, não nos preocupamos com a viagem, porque ainda teríamos cerca de duas horas para desfrutar do passeio.
Chovia fraco. Aliás, foi no dia 31 de dezembro que a chuva começou insidiosa sobre a serra.
Percorremos um bom trecho da Estrada das Arcas, no Vale, visualizando as belas paisagens, as propriedades elegantes, as casas simples, as pousadas de charme, cada curva, a natureza exuberante, o riozinho suave que faz zigue-zague por entre a vegetação e empresta seu barulho à tranquilidade daquelas paragens.
Logo no início da estrada, localiza-se a fábrica da cerveja Cidade Imperial, de pequeno porte, que lamentei não estar aberta, para poder visitá-la. Mas comentei com minha mulher que, numa próxima ida a Itaipava, voltaríamos com essa finalidade. Gosto de fermentados e destilados, com a temperança com que devem ser degustados.
Ao final da ida, empreendemos a volta, mais tranquila, observando melhor cada detalhe paisagístico. Paramos para conhecer a Pousada Tambo Los Incas, onde fomos recebidos de forma cortês pelos funcionários, que estavam nos preparativos para a festa da virada do ano a acontecer à noite.
Na recepção da pousada, que conhecia por reportagens em revistas de viagem e pelo sítio na Internet, pudemos observar a coleção de obras de arte e artesanato, que davam o tom característico ao ambiente.
O funcionário que nos atendeu informou-nos que o restaurante da pousada estaria aberto no dia primeiro e era franqueado ao público. Ficamos de voltar, para lá almoçar, mas não o fizemos, porque fomos a Petrópolis naquele dia. Comentamos que não faltaria oportunidade para nova visita, ou, quem sabe mesmo, para um fim de semana lá hospedados.
Depois de algum tempo, saímos e paramos na lojinha da pousada que ficava ao lado da entrada, bem de frente à estrada, onde compramos alguns produtos. Era de se admirar sua qualidade, a variedade e a qualidade dos vinhos e demais bebidas.
Saímos de Itaipava, de volta a Niterói, antecipadamente, deixando crédito no pacote, a ser usado posteriormente.
O céu já tinha começado a dar mostras de que despejaria sobre a Região Serrana fluminense o turbilhão de dor, desespero e morte, de proporções catastróficas.
Depois de tudo o que temos visto, pode-se dizer que uma das mais belas paisagens do Estado do Rio de Janeiro ficará com cicatrizes tão profundas em sua geografia e em seu povo, que passarão muitas gerações para que elas sejam esquecidas.
Eu e Jane voltaremos lá a qualquer momento, mas não mais encontraremos o Vale do Cuiabá como antes. E tenho quase a certeza de que para nunca mais em nossas vidas.

Vale do Cuiabá, Petrópolis, após a tragédia, em extra.globo.com.

16 de janeiro de 2011

CAMPOS DOS GOYTACAZES (ANOS SESSENTA)

(Dedicado aos amigos Adilson Soares de Oliveira e Augusto César Pereira.)

Dia desses, consultando, no sítio eletrônico Google Maps, um endereço na cidade de Campos dos Goytacazes (grafia esquisita demais!), quase fui levado de roldão pela espiral das lembranças ao início da década de sessenta, quando tinha lá meus treze anos e fui fazer o primeiro ano do antigo curso ginasial no Colégio Bittencourt, em regime de internato.
Saí direto da vilazinha de Carabuçu para a cidade quase grande, mas para mim gigantesca, que, no entanto, não me causou nenhum medo, nenhuma aversão. Talvez já estivesse aí aflorado o meu espírito urbano. Gosto muito de cidades, das pequenas às grandes. Aliás, gosto muito de ver a mão do homem fazendo, sobre o que a natureza oferece, as intervenções urbanísticas que identificam cada lugar, cada povo, cada país.

Campos dos Goytacazes, Praça São Salvador (postal antigo),
colhido em emule.com.br.

Por essa época, precisamente o ano de 1960, a cidade não tinha nada de violência, ou quase nada. Éramos ainda uma sociedade pacata, que andava de bonde e ônibus elétrico. É bem verdade que, vez ou outra, corriam notícias sobre brigas, esfaqueamentos, acidentes. Mas sem a frequência de agora. E, assim, aos meus treze anos, podia, nos fins de semana em que tinha bom comportamento, isto é, quase sempre – menino comportado que era –, passear pela cidade, ir à missa de domingo, ir ao cinema, dentre outras coisas.
Gostava muito, depois da missa das dezoito horas na Catedral, de andar pelas ruas estreitas que ficavam próximo à Praça São Salvador: Boulevard Francisco de Paula Carneiro e Avenida Sete de Setembro.

Boulevard Francisco de Paula Carneiro, 2009,
foto de Fábio Léda, em flickr.com.
Havia nas imediações uma tabacaria, mista de banca de jornais e revistas, que exalava os perfumes inebriantes de fumos das mais diversas procedências. Meu nariz se encantava com esses cheiros e, todas as vezes que por ali transitava, entrava na loja, olhava os jornais e as revistas, mas com interesse maior nos perfumes dos tabacos. Por isso, até hoje, nunca deixo de tomar um café, com um cálice de vinho do Porto, na Tabacaria Africana, na Praça XV. E, o mais interessante em tudo isso: nunca tive interesse em fumar, em injetar fumaça em meus pulmões.
Outra coisa que encantou minha adolescência: as salas de cinema de Campos. Nessa época, o Cine Goitacá era novinho em folha e tinha uma sala de exibição gigantesca. Seu prefixo musical – é, os cinemas tinham prefixo que anunciava o início da sessão – era La cumparsita em versão orquestral, estrondoso sucesso de então. Em frente ao Goitacá, ficava o cinema Coliseu, já transformado no que chamávamos de poeira ou pulgueiro, sala decadente, que jamais frequentei. No Boulevard Francisco de Paula Carneiro, localizava-se o Cine Teatro Trianon, num edifício belíssimo, estilo art nouveu, hoje inexistente. No saguão de entrada, ficavam os cartazes dos filmes e peças a serem exibidos, em nichos iluminados nas paredes laterais. No corredor de entrada, certa ocasião, vi deslumbrado a foto em tamanho natural de Brigitte Bardot, no auge de sua beleza aos dezoito anos, num biquíni mínimo e carinha de menina sapeca, anunciando o filme Manina, a moça sem véu. Por óbvias limitações de idade, não pude ver a atriz francesa, que passou, incontinente, a fazer parte do meu panteão de deusas.
Outro lugar de peregrinação constante era o Mercado Municipal, onde, aos domingos, íamos comer pastel com caldo de cana. As cores e os cheiros do mercado também eram convidativos, mas limitava-me aos pastéis e, às vezes, aos bolinhos de mandioca, que carregava na pimenta. O caldo de cana só fui descobrir na cidade, precisamente, no Caldo Andrade, que ficava na Praça São Salvador. Numa brincadeira que funcionava como um trote, os alunos veteranos Adilson e Augusto, meus amigos de Carabuçu, levaram-me para experimentar o famoso caldo de cana. Ao chegar ao Caldo Andrade e tomar o primeiro gole, exclamei decepcionado:
- Isso é garapa! – e ambos caíram na gargalhada!
Esse era o nome por que conhecíamos o caldo de cana. Ampliei, assim, meu vocabulário com mais essa expressão.
Outra coisa que me marcou, também, foi a descoberta do caqui, fruta que desconhecia. Vi à porta da escola, num intervalo das aulas, alguns colegas comendo tomate com muita avidez. Achei um costume estranho. Mas, na minha cabeça, campista era um povo um pouco estranho mesmo. Quando comentei com o Adilson, ele deu boas risadas e me informou que aquilo era uma fruta. Como sempre gostei de novidades, solicitei ao responsável pelo portão permissão para ir até a carrocinha de frutas para provar mais essa, que foi acrescentada à minha longa lista de preferências.
Recentemente a cidade me deu uma espécie de recompensa, por esse espaço significativo que tem em minha memória e em minha emoção: presenteou-me com o segundo lugar no Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho (os que me leem já viram o conto aqui no blog).
Ê cidade chã, de lembranças profundas!
(Agradeço a Fábio Léda a autorização para uso de sua foto a ilustrar este texto.)