16 de janeiro de 2011

CAMPOS DOS GOYTACAZES (ANOS SESSENTA)

(Dedicado aos amigos Adilson Soares de Oliveira e Augusto César Pereira.)

Dia desses, consultando, no sítio eletrônico Google Maps, um endereço na cidade de Campos dos Goytacazes (grafia esquisita demais!), quase fui levado de roldão pela espiral das lembranças ao início da década de sessenta, quando tinha lá meus treze anos e fui fazer o primeiro ano do antigo curso ginasial no Colégio Bittencourt, em regime de internato.
Saí direto da vilazinha de Carabuçu para a cidade quase grande, mas para mim gigantesca, que, no entanto, não me causou nenhum medo, nenhuma aversão. Talvez já estivesse aí aflorado o meu espírito urbano. Gosto muito de cidades, das pequenas às grandes. Aliás, gosto muito de ver a mão do homem fazendo, sobre o que a natureza oferece, as intervenções urbanísticas que identificam cada lugar, cada povo, cada país.

Campos dos Goytacazes, Praça São Salvador (postal antigo),
colhido em emule.com.br.

Por essa época, precisamente o ano de 1960, a cidade não tinha nada de violência, ou quase nada. Éramos ainda uma sociedade pacata, que andava de bonde e ônibus elétrico. É bem verdade que, vez ou outra, corriam notícias sobre brigas, esfaqueamentos, acidentes. Mas sem a frequência de agora. E, assim, aos meus treze anos, podia, nos fins de semana em que tinha bom comportamento, isto é, quase sempre – menino comportado que era –, passear pela cidade, ir à missa de domingo, ir ao cinema, dentre outras coisas.
Gostava muito, depois da missa das dezoito horas na Catedral, de andar pelas ruas estreitas que ficavam próximo à Praça São Salvador: Boulevard Francisco de Paula Carneiro e Avenida Sete de Setembro.

Boulevard Francisco de Paula Carneiro, 2009,
foto de Fábio Léda, em flickr.com.
Havia nas imediações uma tabacaria, mista de banca de jornais e revistas, que exalava os perfumes inebriantes de fumos das mais diversas procedências. Meu nariz se encantava com esses cheiros e, todas as vezes que por ali transitava, entrava na loja, olhava os jornais e as revistas, mas com interesse maior nos perfumes dos tabacos. Por isso, até hoje, nunca deixo de tomar um café, com um cálice de vinho do Porto, na Tabacaria Africana, na Praça XV. E, o mais interessante em tudo isso: nunca tive interesse em fumar, em injetar fumaça em meus pulmões.
Outra coisa que encantou minha adolescência: as salas de cinema de Campos. Nessa época, o Cine Goitacá era novinho em folha e tinha uma sala de exibição gigantesca. Seu prefixo musical – é, os cinemas tinham prefixo que anunciava o início da sessão – era La cumparsita em versão orquestral, estrondoso sucesso de então. Em frente ao Goitacá, ficava o cinema Coliseu, já transformado no que chamávamos de poeira ou pulgueiro, sala decadente, que jamais frequentei. No Boulevard Francisco de Paula Carneiro, localizava-se o Cine Teatro Trianon, num edifício belíssimo, estilo art nouveu, hoje inexistente. No saguão de entrada, ficavam os cartazes dos filmes e peças a serem exibidos, em nichos iluminados nas paredes laterais. No corredor de entrada, certa ocasião, vi deslumbrado a foto em tamanho natural de Brigitte Bardot, no auge de sua beleza aos dezoito anos, num biquíni mínimo e carinha de menina sapeca, anunciando o filme Manina, a moça sem véu. Por óbvias limitações de idade, não pude ver a atriz francesa, que passou, incontinente, a fazer parte do meu panteão de deusas.
Outro lugar de peregrinação constante era o Mercado Municipal, onde, aos domingos, íamos comer pastel com caldo de cana. As cores e os cheiros do mercado também eram convidativos, mas limitava-me aos pastéis e, às vezes, aos bolinhos de mandioca, que carregava na pimenta. O caldo de cana só fui descobrir na cidade, precisamente, no Caldo Andrade, que ficava na Praça São Salvador. Numa brincadeira que funcionava como um trote, os alunos veteranos Adilson e Augusto, meus amigos de Carabuçu, levaram-me para experimentar o famoso caldo de cana. Ao chegar ao Caldo Andrade e tomar o primeiro gole, exclamei decepcionado:
- Isso é garapa! – e ambos caíram na gargalhada!
Esse era o nome por que conhecíamos o caldo de cana. Ampliei, assim, meu vocabulário com mais essa expressão.
Outra coisa que me marcou, também, foi a descoberta do caqui, fruta que desconhecia. Vi à porta da escola, num intervalo das aulas, alguns colegas comendo tomate com muita avidez. Achei um costume estranho. Mas, na minha cabeça, campista era um povo um pouco estranho mesmo. Quando comentei com o Adilson, ele deu boas risadas e me informou que aquilo era uma fruta. Como sempre gostei de novidades, solicitei ao responsável pelo portão permissão para ir até a carrocinha de frutas para provar mais essa, que foi acrescentada à minha longa lista de preferências.
Recentemente a cidade me deu uma espécie de recompensa, por esse espaço significativo que tem em minha memória e em minha emoção: presenteou-me com o segundo lugar no Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho (os que me leem já viram o conto aqui no blog).
Ê cidade chã, de lembranças profundas!
(Agradeço a Fábio Léda a autorização para uso de sua foto a ilustrar este texto.)

15 de janeiro de 2011

CONSIGO CRIAR MEUS SONHOS COM TEUS DESTROÇOS

Consigo criar meus sonhos com teus destroços
Erguer castelos sobre a areia de teu corpo
Mas é impossível estar sozinho com meus ócios
A cabeça louca a matutar remorsos
Djanira, Parque de diversões, em
museudainfancia.unesc.net.
Por tudo aquilo que ficou sem solução.
Então não peças que me mantenha estoico
Quando os problemas que se me colocam
Diariamente sobre a mesa posta
São tua ausência, teus delírios, lábios
E a imprevisão daqueles dias nossos.

14 de janeiro de 2011

CONSELHO DE MÃE



Imagem colhida em colunistas.ig.com.br.

Botou a minissaia mais bonita, ou melhor, a que lhe deixava as pernas mais bonitas, penteou-se com esmero, maquiou-se com perfeição, calçou as botas mais brancas e foi para a entrevista no novo emprego.
Não arranjou emprego, arranjou uma paixão fulminante que não a deixou mais sossegada. Teria o que quisesse: bom salário, regalias, prêmios, gratificações, incentivos, patrocínio de cursos, viagens a congressos e encontros, o diabo a quatro.
Melhor não tivesse deixado lá seu currículo com telefone, endereço, data de nascimento, estado civil. Queria somente um emprego. As pernas, o corpo, o rosto, a elegância eram apenas para conseguir um emprego. Não queria coroa atrás de si, chorando solidões, prometendo mundos e fundos, pegando-lhe no pé. Bem feito, quem me mandou exagerar no charme, pensava ela. No fundo, no fundo, uma grande vaidade por aquela paixão definitiva.
O cara, aquele coroa, não parava de lhe telefonar. A mãe até já reconhecia a voz dele, tinha ficado íntima pelo telefone e, ainda por cima, andava servindo de advogada para ele.
Uma boba, essa minha filha! Ah, se fosse no meu tempo! Deitava na sopa! Veja só o que eu fui arranjar, casando com seu pai e aquele empreguinho mixuruca dele. Veja só o exemplo de casa, sua burra! É tudo chorado, tudo minguado! Nem vida boa, conforto, dinheiro, pudemos te dar! E você enjeitando isso. Vai ver, acaba até casando com ele. É só saber trabalhar o coroa. Nem tão velho assim parece ao telefone. Só quarenta e cinco anos?! Bobagem, sua tola! Pense só no vidão que você pode ter! Vai sair dessa vidinha de bosta que nós levamos. Não vá me dizer que pensa em se casar com o Carlinhos, aquele quebrado que não tem nem onde cair morto? Vá ser burra assim lá longe! Não vá dizer por aí que é minha filha, depois dessa, hem! E você nem precisa, se não quiser, desmanchar com o besta do Carlinhos. Dá pra ficar com os dois. Com ele, a miséria, isto é, a continuação da miséria; com o coroa, a boa vida, sua idiota! Veja se aprende! Ah, se fosse no meu tempo! Nem pensava duas vezes! E olha que eu não era de se jogar fora, não, hem! Mas naquela época isso era coisa feia, a moça ficava falada. Hoje fica falada se fizer a burrice que você tá fazendo. Veja lá, hem!
A garota pensou lá com seus mamilos e aceitou tudo o que o coroa propôs. Desde emprego com salário gordo, até fim de semana em Búzios. Desde sociedade na firma, até no seu casamento com o Carlinhos, que, aliás, tem passado bons momentos, a vida tem melhorado muito, a firma da mulher vai de vento em popa. Eu disse de vento em popa? Desculpe, foi ato falho!

13 de janeiro de 2011

O CASO DO TRANSPLANTE TRIPLO

Foi com um misto terror e presunto que ele descobriu que seu sanduíche estava envenenado. A queimação no esôfago, o inferno no estômago e a hecatombe intestinal levaram-no ao CTI de um hospital da rede privada. Pior para ele! Se, em pouco tempo, ficou livre da maior intoxicação que um ser humano possa suportar, acabou saindo do hospital sem um rim, uma córnea e um tímpano: tudo arrancado à sua revelia, para implante num corretor da bolsa carioca, à beira da falência corpórea.
Tragédia maior foi quando descobriu que o receptador - sim, receptador, pois aquilo foi um roubo! - dos seus órgãos era seu próprio patrão. Como, pelo menos, tentar reaver seu patrimônio? Como se ressarcir do prejuízo? Se cobrasse, naturalmente iria para o olho da rua, hipótese, aliás, que julgou com certa simpatia, depois de ter perdido a visão do esquerdo.
Desenho de Terezinha Bordignon, colhido em
piquiri.blogspot.com.
Para marcar seu protesto contra situação tão ridícula, comprou meia bengala de cego, um aparelho de surdez com a pilha fraca e passou a mijar de lado, só para o lado do rim restante.
Por uma dessas coincidências que a vida prepara para quem nela está, seu patrão soube que o doador involuntário fora ele, seu contador. Muito emocionado, convocou-o à sua sala para agradecer-lhe o gesto e, de uma ou outra maneira, retribuir-lhe o grande favor, se é que a expropriação pudesse ter esse nome. Após cumprimentá-lo efusivamente, quando até o chamou de “meu pai, porque me deu a vida de novo”, perguntou o que ele queria como recompensa. Perplexo, o pobre contador titubeou, vacilou, engasgou, pigarreou, dando oportunidade a que seu patrão lhe oferecesse a função de síndico da massa falida da corretora, sob intervenção do Banco Central, porque ele, patrão, totalmente reformado a poder de muita plástica, iria para a Europa curtir a vida com mulher nova, com quem planejava prevaricar para mais de três meses, se é que as coronárias reforçadas por stents suportassem.
Se não pegar cadeia, pode ser até que leve um bom quinhão nos acertos finais das contas da corretora. Pelo menos, é isso que costuma acontecer.
(Agradeço a Terezinha Bordignon a autorização para utilizar seu desenho acima.)

12 de janeiro de 2011

M A L

uma doença me consome o corpo
como incêndio
estou também um tanto louco
delirante
preciso urgente de uns
psico-trópicos
de uns
caboclos
de uns
                despachos

(Imagem em rafaellaryon.com.)
de umas
                   macumbas boas
ou de um
amorzinho à toa

11 de janeiro de 2011

SOBRE PALAVRAS - NOVAS LUZES


Colhida em visioncultural.worpress.com.
Todos que me conhecem sabem que sempre fui um aficionado por palavras e pelo que elas representam para o ser humano. Acho mesmo que o que nos diferenciou dos demais animais é que criamos e desenvolvemos esse código de comunicação insubstituível, capaz de nos proporcionar todo tipo de uso, até mesmo com a finalidade aparente de não comunicar nada, como num soneto de Jorge de Sena (1919-1978), poeta português. Senão, veja só:

                                               AMÁTIA (Soneto 4 a Afrodite Anadiómena)
                                               Timbórica, morfia, ó persefessa,
                                               melaina, andrófona, repitimbídia,
                                               ó basilissa, ó scotia, masturlídia,
                                               amata cíprea, calipígia, tressa

                                               de jardinatas nigras, pasifessa,
                                               luni-rosácea lambidando erídia,
                                               erínea, erítia, erótia, erânia, egídia,
                                               eurínoma, ambológera, donlessa.

                                               Áres, Hefaistos, Adonísio, tutos
                                               alipigmaios, atilícios, futos
                                               de Lívia damitada, organissanta,

                                               agonimais se esgorem, morituros,
                                               necrotentavos de escancárias duros,
                                               tantisqua abrandimembra a teia canta.

                                               (José Lino Grünewald (org.). Grandes sonetos da nossa língua. 2. ed.
                                                       Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1987.)

Pelo texto, percebe-se que a maioria das palavras foi criada por ele apenas para o poema. Ainda que se possa sentir a sua motivação criadora, intelectualmente fica difícil penetrar-lhe o significado. Como a poesia é filha direta da música (nossas mais antigas poesias eram cantigas), sua sugestão maior é auditiva. É como se ouvíssemos uma música em língua estrangeira que não dominamos.
Mas os criadores de palavras não são apenas os poetas e os sábios. Todos os que falam a língua podem criar palavras. Há gírias novas, palavras que inexistiam há algum tempo e que hoje são usadas por certos estratos sociais.
Pensando nisso, é que me debrucei sobre algumas delas, para tentar saber que tipo de falante as criou. É bom que se diga, aliás, que nem os mais profundos estudos de Etimologia (estudo da origem das palavras) conseguiram tal proeza. Vou-me arriscar e seja o que o Aurélio quiser!
Palavras criadas por gagos, cultos ou incultos, daqui e do estrangeiro: vicissitude, paralelepípedo, soçobrar, pererecar, pururuca, murucututu, Titicaca, pipilar, ciciar, vivificar, tartamudear, tatibitate, titubear (Trabalhei com um gago que dizia, mais ou menos assim, ao pedir fogo para o cigarro: fa-fe-fi-fa-fogo!).
Palavras criadas por fanhos em geral, indígenas ou não, bêbados ou sóbrios: nhem-nhem-nhem (esse também era gago), Carinhanha, fanfarrão, Pindamonhangaba, Jequitinhonha, Anhangabaú, nhanjaçanã, mumunha, murundu, Bumbum Patricumbum Prugurundum (O Beto era sem braço, mas o Aluísio Machado*, que não é meu parente, talvez seja o fanho.), nhambu, nhambuanhanga, etc. e tal.
Palavras criadas por quem não tinha nada que fazer, a não ser atrapalhar a vida dos demais falantes: idiossincrasia, estafilococo, ipecacuanha, superstição, antroponímia, ambliopia, antropomórfico, abespinhamento, acantoquitoninos, descoroçoado, dodecafônico, esquistossomose, sesquitepernoide (e quase todos os vocábulos científicos da área de Anatomia, Química e quejandos), octingentésimo (e todos os numerais ordinais acima de décimo; veja esse exemplo: 51ª Delegacia de Polícia, que o vulgo diz “cinquenta e uma Delegacia de Polícia”). Um desses desocupados é o Millôr Fernandes. Confiram só o soneto dele (está lá no Saite do Millôr, em uol.com.br):
Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se parte carmo tu que esperepéia
Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso
sem ter mavorte fide lastimina
és todavia piso de horroroso
e eu reclamo - Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco
martume ezole, ezole martumar
que tua para enfim é mesmo um taco.

e se rabela capa de casar
estrumenente siba postguerra
enfim irá, enfim irá pra serra.

Palavras criadas por falantes com mania de grandeza, cheios de nós pelas cordas vocais: oftalmotorrinolaringologista, inconstitucionalissimamente, anticonstitucionalissimamente e algumas palavras da indústria farmacêutica, designativas de medicamentos, que nem consigo aqui transcrever, sem dar um nó nos dedos.
Palavras criadas por preguiçosos de toda laia, nacionais ou não (Com mais de vinte e três consoantes e não sei mais quantas vogais, ficar só nisso é muita preguiça!): ar, ás, bá, dar, dó, fé, rir, ser, ver, lá, ler, ló, pé, pó, pai, mãe, vó, vô, mel, mó, fel, só, sé, nu, eu, tu, ele, nós, vós, eles (e muitos pronomes pessoais átonos e tônicos), dentre outras.
Palavras e expressões criadas por falantes bem nascidos, cujo único objetivo é atrapalhar falantes pobres e, assim, manter essa dicotomia social condenável (a versão pobre vai entre parênteses): artrose e artrite (astrose e astrite), estômago (estromo), próstata (prosta), catástrofe (catasfre), problema (poblema, pobrema, probrema, ploblema), mortadela (mortandela), em mim (ni mim), em nós (ni nóis), opta (opita), saltar do ônibus (soltar do ônibus), que pernas! (ques perna!) e assemelhadas, entre mim e ti (entre eu e tu), caderno (cardeno), caderneta (cardeneta), lagarto (largato) lagartixa (largatixa), aeroplano (arioplano), aeronáutica (arionáutica), bicarbonato (bicabornato), insolubilidade (trem sem jeito, sô!) polícia (puliça), menor de idade (dimenor), varia (vareia), vive (véve), somos nós (é nóis!), como vai você? (aí, mano, firmeza?). E por aí vai!
Palavras e expressões criadas por pedantes para confundir o falante mediano, que pensa que há uma forma diferente (entre parênteses, a forma presumida): rubrica (rúbrica), privilégio (previlégio), cumprimentar (comprimentar), basculante (basculhante), trazido (trago, em: Ele tem trago presentes pra mim.), extrair dente (distrair dente), comprar um fogão (tirar um fogão), menos dívidas (menas dívidas), para eu fazer (pra mim fazer), pode vir (pode vim), se você vir (se você vê).
Palavras criadas por falantes sacanas, cujo objetivo é colocar maldade na cabeça do falante inocente: abundância, abundar, cubelo, cubiú, cuscuz, enxequetar, picadão, picadura, piçamá, pintada, puço, pudente, pudibundo, pudicícia, pudico, xereta.
Para não me alongar demais nessa demonstração do que pude colher, destaco mais duas palavras, que passavam distraidamente em frente ao meu laboratório etimológico e cuja estrutura é formada pelo chamado processo de composição de palavras, isto é, com a junção de mais de uma. Vejam só:

Reivindicar – indica que Sua Majestade não virá de bus, nem de ship, muito menos de plane, mas de car, de automóvel (naturalmente com capota escamoteável e cheio de seguranças). Vejam aí, inclusive, já a presença da língua de Shakespeare a botar suas unhas de fora.
Ancestrais – mineiro querendo confirmar se os parentes que o vêm visitar vão, de fato, trazer o leitão que combinaram. Em português culto, deveria ser uma frase: Ãh, vocês trazem? Mas mineiro tem mania de juntar tudo, igual a alemão, que diz apfelstrudel para folhado de maçã.
Espero que esses apontamentos tenham trazido mais ilustração para o seu já rico cabedal linguístico. Tenho dito!
(* Desculpe a brincadeira, grande Aluísio Machado, um dos maiores vencedores de sambas-enredo do Salgueiro!)

10 de janeiro de 2011

ESSA MULATA GORDOTA

                                         
Essa mulata gordota
Fornida de carnes
De perna bem grossa
De fogo na grota
Caminha sestrosa
Entope a aorta
Consegue o milagre
Em sendo inibida
Roer qualquer vida
Fazer que esse dia
Virado paulista
Talvez possa ser
Um prato mais fino
Por certo escalope.

Colhida em elo7.com.br.
Essa mulata gordota
Caminha na rua
Levando o olhar
De tantos que passam
Uns tantos que viram
Torcendo o pescoço
E olham seu torso
E sem ter remorso
Abaixam seus olhos
Mirando nas ancas
Os olhos de fome
Ressecadas línguas
Caninos que babam
Narizes que pingam.

Essa mulata gordota
Segue seus passos
Sem dar-se por si
E o estrago que causa
Na tarde vadia
Da rua lotada
De homens nervosos
Atrás do sustento
Do clã numeroso
E veem naquela
Mulata gostosa
Promessas perdidas
De dias infindos
Por toda uma vida.

Essa mulata gordota
Não está nem aí!