7 de janeiro de 2011

ANEDOTA BÍBLICA


A. Cabanal,  A expulsão de
Adão e Eva, séc. XIX.
Tendo Adão pecado por tentação de Eva
Embora tudo seja atribuído à serpente
O céu se enerva e imediatamente
Decide aplicar-lhes punição.

Um arcanjo do Senhor desce ao Paraíso
E munido da sentença celestial
Aplica no juízo terrestre mal instalado
A pena capital:
Adão deverá trabalhar para o resto da vida
Contribuir para o INSS e virar aposentado
Eva mais compungida receberia a pena merecida:
Pagar com seu próprio sangue o pecado cometido.

Mas Eva discute o veredicto que julga arbitrário
E propõe pagar a pena em pequenas doses mensais.
O arcanjo aceita e dá a sentença por cumprida.

Pronto: estava inventado o crediário!

6 de janeiro de 2011

NATUREZA MORTA

a mosca apenas toca o rosto inerte
dentro do ataúde roxo
sobre a mesa restos de bolo um bule de café insulso
frutas orvalhadas da geladeira
xícaras sujas borrões na manteigueira
as mãos do morto cruzadas sobre o busto
as faces crispadas fendidas pela dor
no peito dos parentes derrotados
na parede da sala um velho retrato
em viragem sépia
dos tempos de outrora
da janela o som dos corvos e das gralhas urubus rondando o teto
no fundo da cova úbere da terra
multidões de vermes aguardando o corpo
Natureza morta de Vanitas, Pieter Claesz, 1630.
nos olhos dos não-mortos e nas bocas
o amargor ressequido do desgosto

5 de janeiro de 2011

NO TEMPO DA POMADA JAPONESA

A renomada pomada japonesa
de tão grandes serviços à
causa dos amores possíveis.
Raphael, assim mesmo com ph a lhe denunciar a data antiga do nascimento, aumentava seu calo na barriga na função de zelador da Escola de Teatro Martins Pena, lá pelos meados dos anos 70, ainda no auge da ditadura militar que nos assolou por décadas.
Era lá um senhor, à época, já com seus quase sessenta anos, montado em apenas um metro e sessenta de pessoa do pé à cabeça, se tanto, e com talvez a mesma medida na circunferência do vultoso abdômen, que fazia questão de cultivar com cervejotas tomadas durante o período das aulas noturnas.
A Escola de Teatro Martins Pena funciona, ainda hoje, em um antigo casarão que pertenceu ao escritor Coelho Neto, localizado na Rua Vinte de Abril, nas proximidades da Praça da República, antigo Campo de Santana, nome inclusive muito mais simpático que o atual.
As cercanias, por esse tempo, eram uma conjugação perigosa de botequins e hoteizinhos suspeitos, cuja finalidade era dar abrigo aos corações vadios que procuravam se acasalar antes de tomar a condução para seus respeitosos lares.
Raphael conhecia e frequentava quase todos, pois tinha engatilhada em sua lábia uma certa dona de caprichosos contornos corporais, idade bem menor que a dele e, talvez, certa volúpia que a mal curada juventude lhe dava. Ele caía de amores por ela, mas só nessa de ir lá, “comparecer”, como ele dizia, com alguma dificuldade, já que o fogaréu que ilumina os céus das noites de São João tinha ficado num tempo pretérito. E por essa época ainda não havia a tão afamada pílula azul, cujo nome não declino aqui para não fazer propaganda desautorizada.
Deu-se, então, que apareceu no mercado informal, desses que se aboleta em qualquer esquina, sobre qualquer calçada, uma tal pomada japonesa, capaz de operar milagres de ereção no mais provecto usuário. Essa mercadoria, evidentemente, entrou na cidade pelas vias tortas do contrabando e era vendida à boca pequena – ou quase. É que havia um camelô na esquina de São José com Quitanda, especializado em baralhos importados, que passou a oferecê-la, assim que chegou à praça. Era engraçado vê-lo metido em seu terno escuro, gravata bem ajustada ao pescoço, anunciando os produtos:
- BARALHOS DE PLÁSTICO, BARALHOS DE NYLON, pomada japonesa.
Assim mesmo, gritando as duas primeiras pechinchas e diminuindo o volume vocal para anunciar a novidade do momento, no intuito de não chocar senhoras e senhoritas que por ali transitavam. E isso na década de 70. Por aí, vocês podem ver como a cidade se degradou posteriormente. Hoje se vendem calcinhas e sutiãs provocantes em bancas a céu aberto, sem o menor constrangimento.
Pois muito bem! Raphael resolveu, então, satisfazer a gula de sua parceira e adquiriu no comércio próximo a tal pomada milagrosa. Naquela noite, falou para os que sabiam de suas tramoias amorosas:
- É hoje que ela vai ver! Não vai poder reclamar. Vai ter o que quer. Ô mulher insaciável!
No dia seguinte, procuramos Raphael para tomar umas e outras e saber dele o que sucedera depois do expediente das aulas noturnas, no hotelzinho de frente para o Campo de Santana.
Sem ter lido a bula da pomada, Raphael passou a mais não poder o remédio em sua área de lazer. A resposta, segundo ele, foi quase imediata. A parceira entrou em tal euforia com o desempenho dele, que teve de ser mandada embora, a fim de que o patrimônio não sofresse dilapidação por excesso de uso, seu proprietário já exausto com a farra que ela fazia.
Depois que ela foi embora, Raphael ficou com um verdadeiro pepino na mão – com perdão do trocadilho infame: não havia meios de o negócio abaixar, ter um sossego, por mais que seu atarantado dono entrasse embaixo do chuveiro frio daquele quartinho acanhado de hotel.
Como começasse a se sentir mal, dada a concentração de sangue na indigitada área, não encontrou outra solução senão atravessar a rua, em direção ao Hospital Souza Aguiar, aonde chegou envolvido na toalha do hotel, tentando disfarçar o volume incomodativo, a fim de se socorrer da medicina alopática, com o intuito de pôr um ponto final naquele desespero.
E contou isso às gargalhadas, mas com a promessa de que, dali por diante, cardíaco que era, passaria a ter mais cuidado com a pomada japonesa. Que aquilo era de levantar defunto frio. Ora, se era!

4 de janeiro de 2011

O MENINO VAI À ESCOLA NO INTERIOR DO PAÍS

(Para Dona Olívia Felício, eterna diretora de G. E. Marcílio Dias.)

Acordo cedo e ponho o uniforme
Tomo o café e saio com os livros sob o braço
De azul e branco
E de pés no chão

Repito o ritual de todos os alunos pobres
Das escolas do interior do Brasil

Colhida em rafaelnick.wordpress.com

Sem muitas dificuldades
Subo o morro
Chego à escola
E minha vida se transforma para sempre

A letra impressa me impressiona
E o mundo se reúne à minha frente
Não há mais fronteira entre a vila
E o resto do universo

Descobri até que mandioca se chama aipim

3 de janeiro de 2011

NESTA MANHÃ TRANQUILA DE FRIO E CHÁ


Nicolas de Staël, Natureza morta em
cinza, 1955, coleção particular.
Nesta manhã tranquila de frio e chá
Há sofreguidões impercebidas
E planos de suicídios coletivos

No ar
Borrifos de fumaça de odor invisível
E no meu coração
Todas as escleroses deste tempo

Não sou passado nem futuro
Mas o presente teima em se anunciar duvidoso

O mais que tenho agora ou que me falta
É tão singelo que não produz um poema

Só os planos do governo
E o desespero geral que eles geram
Conseguem reverter as expectativas
E anunciar que a vida não é só as dores de que disponho
Pode ser um copo d’água contra a sede
E um carinho sussurrado em meu ouvido

2 de janeiro de 2011

POR TEU CORPO


Colhida em k2.centerblog.net
por teu corpo novo passeiam amores mortos
miscelânea confusa de gestos de carinho
e perdida história – traços de outrora

em tua carne ficaram feridas e cortes
marcas estúpidas de um passado sem glória
que não justificam em nada teu caos de agora

em tua lembrança pululam elétricos choques
incitações nervosas na confusão do cérebro
que atropelam os fatos a cada dia e hora

em teus olhos claros restaram vagas imagens
sugestões imprecisas que te traem a memória
quando a lágrima brota e desiludida choras

1 de janeiro de 2011

O PARAÍSO


  uma versão paralela, não autorizada, da criação do mundo que circula por aí e que tomo a liberdade de repartir com vocês.
Consta que, depois da trabalheira toda que o Senhor teve para criar o Universo, Ele decidiu dar aquele capricho na decoração de um canto da Terra, botando rios mansos, belas florestas, animais selvagens amistosos, árvores frutíferas em profusão, florezinhas perfumadas, pássaros canoros e multicoloridas borboletas esvoaçantes – afinal estava criando o Éden. E, como todos sabem, em seguida criou Adão e Eva.
As coisas corriam às mil maravilhas para os dois. Não tinham emprego, não tinham patrão, nem trânsito caótico. Nem mesmo sogras e cunhados – afinal era o Paraíso – que lhes viessem pedir uma ajuda, um dinheirinho para comprar o botijão de gás, ou o empréstimo do cartão de crédito para tirar fogão novo numa promoção de última hora. Não sofriam problemas de desabastecimento, de carência de alimentos, de corte repentino de iluminação. Os ventos sopravam brandos e as estações se sucediam dentro do previsto pela criação – afinal estavam no Paraíso (E não vou repetir mais isso, que todos estão cansados de saber!).
Por ter terminado seu trabalho e a Terra ainda ser praticamente inabitada, o Criador dispunha de muito tempo ocioso, de modo que podia ficar atendendo as necessidades dos dois inexperientes que pusera para desfrutar das benesses daquele jardim.
Numa dessas ocasiões, passados alguns meses, tendo Adão já entrado em relações totais e completas com Eva, num processo de conhecimento mútuo ainda incipiente, achou por bem dirigir-se ao Criador, para algumas considerações que julgava pertinentes até aquele momento.

Imagem colhida em
dererummundi.blogspot.com.
- Senhor, acho que está tudo muito bom, tudo muito bem, mas humildemente tenho um reparo a fazer. Penso que o Senhor poderia ter feito só aquele aparelhinho quentinho e gostoso que a Eva tem, desagarrado do resto dela. O conjunto todo fica muito complicado de ser gerenciado. Só o aparelhinho ia ficar melhor, pois tem lá uns pontos que ainda não consigo manipular direito, motivo de muita reclamação dela. Mas, quando sai dali, o resto é muito complicado. A cabeça, por exemplo, tem uma porção de coisas que fogem à minha compreensão. Depois, sai da boca da Eva, tão logo termino de mexer no aparelhinho dela, umas falas estranhas, umas conversas esquisitas. Ela fica perguntando quais são minhas intenções, se eu estou preparado para assumir compromisso sério ou se quero apenas ficar brincando nele. Não sei como responder a tantas indagações. Por isso é que acho que só o aparelhinho já estaria de bom tamanho para a felicidade geral no Éden.

O Senhor, então, com a voz suave de quem conversa ao pé do ouvido (Ele só passou a ser tonitruante algum tempo depois, quando já havia muito humano na Terra fazendo merda a toda hora.), disse-lhe:
- Adão, por ser o equilíbrio a mola da felicidade que reina no Paraíso, como você pode observar com todas as criaturas, tenho de consultar Eva, para saber o que ela tem a dizer. Vou chamá-la reservadamente e depois decidir.
Assim feito, o Criador ouviu Eva.
- Senhor, posso ver que todas as coisas criadas estão funcionando direitinho. O Senhor teve muita competência. Mas, com todo respeito, o Adão veio com a montagem muito simplória. Veja bem, Senhor: quando o aparelhinho dele começa a funcionar, a cabeça desliga, não raciocina, não mede consequências. Aí ele só quer brincar com o meu aparelhinho. Talvez, se pudesse separar o aparelhinho do resto do Adão, eu poderia viver com mais segurança. Toda vez que ele acaba a brincadeira, quer dormir na relva, fica cheio de preguiça, não quer conversa. Então eu quero saber quais são os projetos que ele tem para a vida afora. Porque eu tenho visão de futuro e ele só quer ficar mexendo no aparelhinho dele. Se não for pedir muito, já que o Senhor achou melhor fazer assim, pelo menos arranje alguma coisa para ele fazer. Dê uma ocupação para ele.
O Criador pensou num átimo – sendo quem é, não precisava ficar matutando uma resposta por mais que um átimo – e chamou os dois, já com uma voz um pouco mais grossa, prevendo os problemas que iria enfrentar daí por diante:
- Ô vocês dois! Venham aqui! O negócio é o seguinte (O Criador também falava como simples mortal, quando necessário.). Os aparelhinhos estão corretos. Não há problemas de projeto. É isso mesmo. É preciso que vocês saibam usá-los com o restante de cada um. Cada um tem o seu pacote completo. Não há como separar o aparelhinho do resto. E, Adão, veja se presta mais atenção, que a coisa não é tão difícil assim. Eva, você também deve deixar dessa mania de querer conversar depois da brincadeira. Senão o aparelhinho do Adão pode deixar de funcionar e, aí, você vai se arrepender. Vai-se acabar a brincadeira!
Dois  dias depois, acatando sugestão de Eva – e, para isso, teve de pensar um pouco mais –, o Criador mandou que o Arcanjo Gabriel levasse alguns instrumentos agrícolas que tinha acabado de criar, para dá-los a Adão, com a recomendação de que ele pensasse em fazer algo a mais, porque, pelo que tinha percebido, em alguns meses viria outra pessoa e aquela boa vida estava por se acabar. O Paraíso não poderia se transformar numa casa de cômodos. Tudo também tem o seu limite, ora! E bonecas infláveis e vibradores só num futuro muito distante. Talvez só daqui a milhares de anos. E olhe lá!