2 de janeiro de 2011

POR TEU CORPO


Colhida em k2.centerblog.net
por teu corpo novo passeiam amores mortos
miscelânea confusa de gestos de carinho
e perdida história – traços de outrora

em tua carne ficaram feridas e cortes
marcas estúpidas de um passado sem glória
que não justificam em nada teu caos de agora

em tua lembrança pululam elétricos choques
incitações nervosas na confusão do cérebro
que atropelam os fatos a cada dia e hora

em teus olhos claros restaram vagas imagens
sugestões imprecisas que te traem a memória
quando a lágrima brota e desiludida choras

1 de janeiro de 2011

O PARAÍSO


  uma versão paralela, não autorizada, da criação do mundo que circula por aí e que tomo a liberdade de repartir com vocês.
Consta que, depois da trabalheira toda que o Senhor teve para criar o Universo, Ele decidiu dar aquele capricho na decoração de um canto da Terra, botando rios mansos, belas florestas, animais selvagens amistosos, árvores frutíferas em profusão, florezinhas perfumadas, pássaros canoros e multicoloridas borboletas esvoaçantes – afinal estava criando o Éden. E, como todos sabem, em seguida criou Adão e Eva.
As coisas corriam às mil maravilhas para os dois. Não tinham emprego, não tinham patrão, nem trânsito caótico. Nem mesmo sogras e cunhados – afinal era o Paraíso – que lhes viessem pedir uma ajuda, um dinheirinho para comprar o botijão de gás, ou o empréstimo do cartão de crédito para tirar fogão novo numa promoção de última hora. Não sofriam problemas de desabastecimento, de carência de alimentos, de corte repentino de iluminação. Os ventos sopravam brandos e as estações se sucediam dentro do previsto pela criação – afinal estavam no Paraíso (E não vou repetir mais isso, que todos estão cansados de saber!).
Por ter terminado seu trabalho e a Terra ainda ser praticamente inabitada, o Criador dispunha de muito tempo ocioso, de modo que podia ficar atendendo as necessidades dos dois inexperientes que pusera para desfrutar das benesses daquele jardim.
Numa dessas ocasiões, passados alguns meses, tendo Adão já entrado em relações totais e completas com Eva, num processo de conhecimento mútuo ainda incipiente, achou por bem dirigir-se ao Criador, para algumas considerações que julgava pertinentes até aquele momento.

Imagem colhida em
dererummundi.blogspot.com.
- Senhor, acho que está tudo muito bom, tudo muito bem, mas humildemente tenho um reparo a fazer. Penso que o Senhor poderia ter feito só aquele aparelhinho quentinho e gostoso que a Eva tem, desagarrado do resto dela. O conjunto todo fica muito complicado de ser gerenciado. Só o aparelhinho ia ficar melhor, pois tem lá uns pontos que ainda não consigo manipular direito, motivo de muita reclamação dela. Mas, quando sai dali, o resto é muito complicado. A cabeça, por exemplo, tem uma porção de coisas que fogem à minha compreensão. Depois, sai da boca da Eva, tão logo termino de mexer no aparelhinho dela, umas falas estranhas, umas conversas esquisitas. Ela fica perguntando quais são minhas intenções, se eu estou preparado para assumir compromisso sério ou se quero apenas ficar brincando nele. Não sei como responder a tantas indagações. Por isso é que acho que só o aparelhinho já estaria de bom tamanho para a felicidade geral no Éden.

O Senhor, então, com a voz suave de quem conversa ao pé do ouvido (Ele só passou a ser tonitruante algum tempo depois, quando já havia muito humano na Terra fazendo merda a toda hora.), disse-lhe:
- Adão, por ser o equilíbrio a mola da felicidade que reina no Paraíso, como você pode observar com todas as criaturas, tenho de consultar Eva, para saber o que ela tem a dizer. Vou chamá-la reservadamente e depois decidir.
Assim feito, o Criador ouviu Eva.
- Senhor, posso ver que todas as coisas criadas estão funcionando direitinho. O Senhor teve muita competência. Mas, com todo respeito, o Adão veio com a montagem muito simplória. Veja bem, Senhor: quando o aparelhinho dele começa a funcionar, a cabeça desliga, não raciocina, não mede consequências. Aí ele só quer brincar com o meu aparelhinho. Talvez, se pudesse separar o aparelhinho do resto do Adão, eu poderia viver com mais segurança. Toda vez que ele acaba a brincadeira, quer dormir na relva, fica cheio de preguiça, não quer conversa. Então eu quero saber quais são os projetos que ele tem para a vida afora. Porque eu tenho visão de futuro e ele só quer ficar mexendo no aparelhinho dele. Se não for pedir muito, já que o Senhor achou melhor fazer assim, pelo menos arranje alguma coisa para ele fazer. Dê uma ocupação para ele.
O Criador pensou num átimo – sendo quem é, não precisava ficar matutando uma resposta por mais que um átimo – e chamou os dois, já com uma voz um pouco mais grossa, prevendo os problemas que iria enfrentar daí por diante:
- Ô vocês dois! Venham aqui! O negócio é o seguinte (O Criador também falava como simples mortal, quando necessário.). Os aparelhinhos estão corretos. Não há problemas de projeto. É isso mesmo. É preciso que vocês saibam usá-los com o restante de cada um. Cada um tem o seu pacote completo. Não há como separar o aparelhinho do resto. E, Adão, veja se presta mais atenção, que a coisa não é tão difícil assim. Eva, você também deve deixar dessa mania de querer conversar depois da brincadeira. Senão o aparelhinho do Adão pode deixar de funcionar e, aí, você vai se arrepender. Vai-se acabar a brincadeira!
Dois  dias depois, acatando sugestão de Eva – e, para isso, teve de pensar um pouco mais –, o Criador mandou que o Arcanjo Gabriel levasse alguns instrumentos agrícolas que tinha acabado de criar, para dá-los a Adão, com a recomendação de que ele pensasse em fazer algo a mais, porque, pelo que tinha percebido, em alguns meses viria outra pessoa e aquela boa vida estava por se acabar. O Paraíso não poderia se transformar numa casa de cômodos. Tudo também tem o seu limite, ora! E bonecas infláveis e vibradores só num futuro muito distante. Talvez só daqui a milhares de anos. E olhe lá!

31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO!

Vem aí o Ano Novo
resfolegando sobre os trilhos d'antanho
abrindo brechas em nossos sonhos
anunciando o improvável o impossível

Tomara que não descarrilhando
o trem que vem cheio de planos
possa trazer como é nosso desejo
goiabada com queijo
abraços e beijos
alfenins de açúcar
paladares suaves
muita paz e justiça
se possível dinheiro
pelo ano inteiro.

PAZ, SAÚDE E FELICIDADE A TODOS!

29 de dezembro de 2010

PROMESSAS DE ANO NOVO


(Imagem obtida em copacabana.com)

Era tido e havido como um esbanjador. Mazinho, como era chamado por todos, gastava mais do que podia. E podia sempre mais. Aí vivia encalacrado em dívidas, tendo de trabalhar dobrado, fazer serão, biscate, apostar no bicho, tomar empréstimo com parentes, para poder levar os trinta dias até o fim do mês. Caso contrário, terminava na quinzena, o mais tardar no dia vinte, apenas tomando café com leite e pão com manteiga, no pendura da padaria de seu Romário, uma espécie de contraparente, com quem contava na hora do aperto.
Na verdade, nem ganhava bem, mas tinha nascido com o espírito de rico. Quem é o culpado? Eu, você? Ninguém! Muito menos ele. Apenas dava vazão ao seu instinto de perdulário, incapaz de ser contido por qualquer conselho, por qualquer dificuldade. Tinha sempre a confiança de que, um dia, por um milagre qualquer, ajudado talvez pela providência divina, que não falta ao devoto, acertaria na sorte grande de qualquer loteria, ou encontraria uma mulher mal amada e bem nascida, a quem pudesse consolar nas noites de frio, e, como consequência, arrumar sua vida.
E ia sonhando assim, sem procurar precaver-se para o futuro, alguma coisa incerta em sua vida. Um dia tudo se ajeitaria. Era o que esperava.
Numa passagem de ano – fecho de uma década e abertura de outra – cheia de bons presságios, um novo signo, ou um dos bichos esquisitos do imaginário chinês, a gerir a vida de todo o planeta, tratou de encomendar despacho bem urdido, em terreiro com letreiro de neon na entrada. Para não dar chance ao azar, também procurou todas as simpatias, rezou todas as rezas, comeu as uvas necessárias, deu os tais pulinhos em não sei quantas ondas, jogou flores para a rainha do mar e soltou o barco enfeitado, que adentrou a escuridão das águas na passagem da meia-noite. Em seguida, cruzou e descruzou os dedos, benzeu-se e beijou a primeira mulher feia que encontrou, com tanta paixão, que a pobre coitada desfaleceu, achando que seu príncipe encantado acabara de chegar. Cumpriu, assim, a última fase do ritual que um vidente lhe receitara, para ajeitar as finanças e poder usar as roupas bonitas que sempre desejara, entupir-se de perfumes caros e frequentar manicuras e pedicuras nas tardes de quinta-feira, sem compromissos a tratar.
Assim que se pôs a voltar em direção ao calçadão da praia, o barco já sumido no breu da noite, sentiu alguém puxar-lhe a camisa branca devocional. Era a mulher feia, que já havia recobrado o tino das coisas e entendeu que suas preces também tinham acabado de ser atendidas. Podia estar ali o homem da sua vida.
Apresentou-se, mas ele não a reconheceu, pois a beijara sem escolher, no impulso de cumprir o ritual recomendado. Foi a primeira que encontrou ao dar as costas para o mar. Ela insistiu e ele caiu em si. A mulher, do jeito que estava, merecia uma reforma geral de um competente cirurgião plástico e não o amor devotado de um homem pretensioso como ele. Mas, quando ela declinou seu nome, com sobrenome de coluna social e negócios de atacadista de secos e molhados na praça de Niterói, Mazinho viu que, talvez com algum sacrifício, pudesse sair da situação de arrocho em que vivera até então e estabelecer-se na função de marido sortudo. Já que não nascera rico, pelo menos poderia casar-se com mulher rica.
Contou a ela, então, o motivo do seu gesto, e ela viu naquilo a predestinação dos astros que se conjugavam nos desvãos do universo, a fim de unir suas vidas. Ele achou-lhe o discurso um pouco precipitado, mas ponderou, de si para consigo, no escondido do cérebro, não ser hora de chutar para escanteio uma bola que lhe era lançada na pequena área, com o gol vazio, goleiro já nocauteado. Não lhe custaria mais esse sacrifício, depois de tantos por que passara. E, sordidamente, pensou em todas as possibilidades que um homem enricado da noite para o dia teria com as mulheres desamparadas que circulavam pela cidade e adjacências. E vislumbrou suas inconsequências devastando Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Região dos Lagos.
Mas não contava ele que as mulheres, feias ou belas, têm as suas artimanhas, quando intencionam enredar em suas teias de Ariadne o mais esperto dos mortais.  Foi, depois de visitá-la pela primeira vez, atendendo a um convite promissor, que já acordou, no dia seguinte, de juízo virado, de interesse verdadeiro por aquela mulher já nem tão feia quanto lhe parecera na noite de réveillon. Tinha tomado o tal café coado na calcinha usada na noite do beijo, como também recomendara a ela espírita vidente de panfleto distribuído nas esquinas do centro da cidade e consultório montado em galeria comercial.
E aí se deu a sua desgraça. Passou a ser um cordeirinho servil, na rédea curta, tocado com vara de marmelo, a fazer tudo o que a rainha mandasse, a paixão tão avassaladora, que chegou a pensar em inscrevê-la no concurso da mais bela mulher casada do clube IPC, de saudosa memória. E, se não fosse o conselho dissuasório da cunhada sensata, tinha passado por esse vexame diante da comissão de inscrição do concurso.
O borogodó de Carminha, esse é o nome dela, era de abalar seminário menor e desvirtuar padres e coroinhas. E Mazinho não teve o discernimento suficiente para compreender a enrascada em que se metera. As mulheres desamparadas de Niterói e adjacências continuam até hoje aguardando pelo fogoso cavaleiro que virá preencher suas noites de concupiscência, conforme também indicavam a elas as cartas da espírita vidente com consultório montado em galeria comercial.

28 de dezembro de 2010

TIRO ASMA COM SEIS APLICAÇÕES

(Para a amiga Cleia Miranda, protagonista da história.)

Já cansada de mal respirar em sua vida, minha amiga Cleia procurou socorro numa médica indicada por vizinha que teve o filho curado de uma asma renitente, que se apossara de seus pulmões, tão logo metera a cara no mundo. Segundo sua versão, mal o menino botou a cabeça para fora, já reclamou falta de ar.
A vizinha gavou muito a competência da médica, com consultório montado lá para as bandas de Areia Branca, em terras do município de Nova Iguaçu.
Com o endereço anotado num pedacinho de papel, minha amiga partiu para o local, que, em hipótese alguma, fazia jus àquilo que se poderia chamar de clínica ou consultório. O imóvel era singelo demais para desbaratar asmas e bronquites, como a propaganda dizia. Mas, já que tinha andado tanto, resolveu entrar.
Faço aqui um parêntese, para que não julguem minha amiga ingênua. Não sei se sabem meus possíveis leitores, mas os asmáticos e os brônquicos, pela própria natureza de suas mazelas, são levados a acreditar em todo tipo de tratamento, por mais estranhos que sejam, pois têm a esperança imorredoura de que, um dia, seus pulmões funcionarão a toda carga.
A casa era simples, e da sala de recepção, onde já estavam algumas pessoas tentando capturar qualquer arzinho que pudessem, através de seus narizes praticamente inoperantes, ela observou uma cozinha bem acanhada, em que se instalavam um fogãozinho Jacaré de duas trempes, alguns utensílios de alumínio um tanto gastos pelo uso, uma pia de qualidade duvidosa e aspecto ainda mais duvidoso, vidros e apetrechos mais.
Ao sair o cliente que estava sendo atendido, ela teve o seu nome cantado pela figura de jaleco branco, em cujo bolso estava bordado Dra. Osvaldina, numa caligrafia errática. Desconfiada, minha amiga tentou vislumbrar o diploma que, costumeiramente, se coloca logo atrás da cadeira da doutora, o que não foi possível por inexistente.
A figura da esculápia – permitam-me o neologismo - era uma mistura de cozinheira de barraca de feira e vendedora de cocada baiana da Praça Quinze – sem demérito nenhum para essas profissionais. Eu mesmo já tive um excelente professor de Fonética e Fonologia que, com seu jaleco branco, dava aparência de dono de açougue. Em suas aulas, ficávamos aguardando quando ele tiraria de sua pasta uma chaira e uma faca de desossar. O que nunca aconteceu, é bom que se diga.
Pois então! Diante da situação que se apresentava, Cleia tentou saber da pressuposta doutora a eficiência de sua medicina, ao que ela afirmou que a cura se daria em pouco tempo, não necessitando de alongar tratamento, já que tinha desenvolvido um remédio definitivo, a ser administrado por injeção subcutânea, que era porreta para qualquer tipo de malefício advindo das partes respiratórias e adjacências. E o tratamento poderia começar naquele mesmo instante, era só a paciente oferecer o local onde ocorreria a agulhada. Com mais cinco ou seis, o mal estaria debelado para sempre, de nunca mais ser lembrando, nem mesmo por ocasião do espargimento de pólen pelas mimosas flores da natureza. Coisa garantida!
Cleia assustou-se com a segurança da médica e, para se garantir da ciência de que era portadora, fez a pergunta básica:
- Doutora, qual é a diferença entre asma e bronquite.
Imagem colhida em
riodejaneiro.muraldacidade.com.
Pelo início da resposta, minha amiga decidiu não se submeter a tal temeridade.
- O pobrema básico tá no diafragno, que não funciona nos conformes da anatomia humana.
E a afamada doutora Osvaldina perdeu, de imediato, uma paciente com mais de cem por cento de indicação para seu miraculoso medicamento, projetado, desenvolvido e alambicado na cozinha que ficava ao lado de seu consultório.
Para se safar, Cleia alegou ter bebido duas cervejinhas, enquanto aguardava a hora de sua consulta, e julgava que o tratamento deveria começar depois. Doutora Osvaldina ainda deu como certo que o álcool, inclusive, ajudaria na ação do remédio, mas minha amiga resolveu marcar para outro dia, outra hora, que, mais de vinte anos passados, ainda não aportaram no calendário. É o tal dia de São Nunca de tarde.
Trinta ou quarenta dias depois, Cleia vê estampada no jornal foto da sergipana presa por exercício ilegal da profissão.
E, por ter sido viva na ocasião, continua viva até hoje, a poder de bombinhas e nebulizações.

27 de dezembro de 2010

NEM COMO, NEM QUANDO

tenho perdidos dentro de mim
todos os amores
com seus risos escondidos
e suas dores escancaradas
com suas promessas ridículas
e seus sonhos irrealizáveis.
tenho perdido dentro de mim
sem que eu saiba onde
o projeto fundamental do ser humano.
nem como nem quando.

T. Géricault, A balsa da Medusa, 1919,
Museu do Louvre.

26 de dezembro de 2010

O TOM CERTO DO BATOM

Em errodito.blogspot.com
Quando Vanilce, fingidamente despretensiosa, resolveu retocar o batom em seus lábios no grande espelho da loja em que trabalhava no shopping, não imaginou que fosse provocar o agravamento da hipertensão das malbaratadas artérias de Figueiredo, proprietário da óptica Clin d’Oeil do outro lado do corredor. Aquilo não era propriamente uma boca: era a cratera de um vulcão em plena atividade, a despejar magma incandescente de suas entranhas.

Foi só, mais outra vez, nos últimos meses, observar a morena sacudida, de cabelos anelados, lábios de Angelina Jolie, jeito de Juliana Paes, para começar a sentir uma pinicação na parte interna do braço direito, acompanhada de uma dor lancinante na parte externa, e um bolo, em movimento de sobe e desce, pelo esôfago calcinado por um azedume infernal. Achou que iria sucumbir naquele mesmo instante. Mas antes que desfalecesse, amparado pelo empregado balconista, teve tempo de pensar: Ou eu morro, ou eu caso com essa diaba! Esse desespero há de ter um fim!

Angelina Jolie, em allmoda.com.
Acomodado na primeira cadeira que o empregado conseguiu, refazendo-se do escurecimento das vistas, como diz o povo, com um copo d’água gelado, pediu que lhe comprassem um café expresso bem forte e ligassem para seu médico imediatamente.

Mais uma vez foi atendido pelo esculápio, que reforçou todas as recomendações anteriores, renovou o estoque de remédios e sugeriu que ele deixasse de frouxidão e fosse falar com a dita morena Vanilce, de tão boas referências, ou sua caldeira cardíaca explodiria.

Protegido por um “dinitrato de isossorbida, quimicamente designado de 2,5-dinitrato de 1,4:3,6-dianidro-D-glucitol”*, que atende singelamente por Isordil, na tarde seguinte, Figueiredo convidou Vanilce para um lanche na praça de alimentação do shopping. Tinha um assunto sério a confabular com ela, que requeria urgência e solução definitiva, a fim de que pudesse sanar certas idiossincrasias de sua presença no mundo.
Juliana Paes, em adrianeboneck.com.br.

A morena estranhou o palavreado, mas como o conhecia desde que começara a trabalhar na loja de cosméticos Hot Lips, combinou que, na hora do lanche, faria um sinal para ele e os dois poderiam esclarecer tudo aquilo e outras possíveis pendências.

Mas posso afiançar-lhes, sem conhecer ainda o fim desta história, que a morena bem sabia de tudo o que acontecia, porque cada ação sua era de uma deliberação milimétrica e, sobretudo, maquinada por cérebro predisposto à razia, ao saque e à devastação. Não há aquela música: “Quem sabe de mim sou eu e aquele abraço”? Pois é, era mais ou menos por aí.

Figueiredo era uma agitação só, pelo que foi aconselhado pela moça do caixa e se proteger com mais uma dose do milagrento, a fim de não dar baixa do rol dos vivos, antes do encontro com a moça de frente.

Lá pelas quatro da tarde, um pouco antes de lhe dar o sinal, Vanilce foi, novamente, retocar os lábios criminosos, tendo Figueiredo preferido desviar os olhos de dono de óptica e não olhar a cena, senão seria capaz de virar defunto fresco.

Sentados a uma mesa, no canto do café, ele escandiu nos ouvidos da morena todo seu desejo, toda sua sofreguidão, todas as suas pretensões para com ela. Garantiu-lhe, inclusive, que isso vinha ocorrendo desde o primeiro dia em que a vira na loja em frente à sua. Daí em diante, sua vida sofrera o que os franceses chamam de bouleversement, coisa assim de virar de cabeça para baixo até a mais bem instalada pessoa na face da Terra. Prometeu-lhe, ainda, casa montada, apetrechos domésticos de última geração e sociedade no comércio de lentes e armações, tirante papel passado em cartório diante de juiz de paz, testemunhas e convidados, com direito a taças de champanha e fatias de bolo decorado e lua de mel boiando pela costa brasileira.

A morena assustou-se! Percebeu que seu poder de encantamento estava hipertrofiado. Virara um monstro sem governança. E não pretendia tanto. Queria apenas fazer figuração, caras e bocas, para quem quisesse olhar. E sabia que ele era um de seus admiradores. Tentou ainda ponderar com ele que não havia chegado a hora de tomar uma decisão tão séria, nem mesmo pensava em se casar, sua vida ainda no comecinho, praticamente havia saído da adolescência. Muitos sonhos a realizar. E, de mais a mais, estava mesmo era à procura de um tom apropriado para os batons que experimentava na loja, porque, aí sim, no dia em que o encontrasse, sairia em desfile triunfal pelos corredores do shopping a ouvir os corações dos incautos rolarem atrás de si atropeladamente. No entanto, agora, só queria isso: o tom certo e o brilho adequado para aqueles lábios de Angelina Jolie. E, em sendo apenas aquilo, deu, então, por encerradas todas as prováveis pendências com ele e sugeriu a Figueiredo levar suas idiossincrasias a uma pet-shop no final do corredor, para banho, secagem e tosa.

(*Obrigado, Wikipédia!)