20 de dezembro de 2010

POR FAVOR

por favor
abram meu coração aos poucos
não estou habituado a choques violentos
digam apenas o que já sei por alto
o desconhecido deixem para depois de morto
evitem-me sofrer decepções
angústias
urticárias
eu vivo tão desamparado neste país

Geneviève Caplet, Abandon., 2007 (acrílico sobre papel).














(Mes remerciements à Geneviève Caplet, qui m'a autorisé l'usage de son dessin ci-dessus.)

19 de dezembro de 2010

PASSANDO AO LARGO

Sheila Machado, Blocos caindo do Breiðamerkurjökull, Islândia,
em comamochilanascostas.wordpress.com.

certas manhãs parecem tardes sombrias
certas tardes desperdícios
noites altas madrugadas frágua e dúvidas
o dia todo e nada
e o desvario da vida passando ao largo

(Agradecimentos a Sheila Machado pela cessão da foto a ilustrar este poema.)

17 de dezembro de 2010

CONCURSO NACIONAL DE CONTOS JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO


Mais uma vez este ano, a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, através da Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima, promoveu nova edição do concurso nacional de contos, cuja denominação dá título a esta nota.
Vi, achei interessante e para lá enviei três contos, conforme permitido em seu regulamento. E qual não foi minha surpresa ao ver que um deles obteve o segundo lugar. Hoje estou publicando o conto no blog, para que os meus parcos e pacientes amigos-leitores também o conheçam.
Este conto, todos os que me leem perceberão muito bem, é uma homenagem que presto ao grande José Cândido de Carvalho, na minha opinião um dos maiores escritores de língua portuguesa.
Assim, para a consecução desse fim, tentei fazer a aproximação da linguagem do meu conto à de sua obra-prima O coronel e o lobisomem.
O conto vai aí abaixo.

O DIA EM ZÉ CÂNDIDO CHEGOU AO CÉU

José Cândido de Carvalho
Quando Zé Cândido embarcou na nuvem das dezessete e pouco de uma tarde sorumbática do primeiro dia do mês de agosto do fatídico ano de 1989, apeado do corpo físico com que transitava pelo mundo, não cogitou que fosse encontrar na outra margem do rio Aqueronte a figura familiar e fanfarrona do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, seu invento no livro O coronel e o lobisomem.

Trajado nos trajes costumeiros, chapelão enfiado na cabeça, as botas respingadas de barro – tinha havido uma tempestade naqueles páramos –, baforando um charutão que lhe deixava o barbadão vermelho todo perfumado, o fantasminha de Vermelhinho aboletado no ombro, com a crista em modelo de bandeira ventada, o Coronel foi efusivo com o eflúvio do escritor. Sem maiores continências, gritou seu nome, naquele molde normal de falar, no meio do magote de visagens que desciam da barca de Caronte, sem tempo para que Zé Cândido pegasse o troco da viagem, pelo que o barqueiro ficou deverasmente satisfeito.
- Zé Cândido! Zé Cândido! Aqui, na ponta da pedra. É seu velho conhecido, o Ponciano de muitas luas e reinações! Vim fazer as honras! Vim dar as boas-vindas!
Zé Cândido ficou embaralhado das ideias. Jamais poderia imaginar encontrar ali o aluado Coronel. Pensou ser recebido por Rabelais, Cervantes, mesmo Érico Veríssimo, seu compatriota e admirador, ou pelo bruxo do Cosme Velho, o casmurro Machado de Assis. Nunca pelo Coronel Ponciano. Por suas contas, ele ainda estaria assombrando os pastos de Campos dos Goytacazes, de Santo Amaro a Mussurepe, de Travessão a Morangaba, chegando às escumas do mar para os lados de Atafona, já em terras de São João da Barra: assombração eterna a encantar moças desavisadas, nos comecinhos das noites mornas de lua cheia da Baixada Campista.
Capa de O coronel e
o lobisomem, com
desenho de Appe.
Ed. J. Olympio.
O Coronel abraçou-o fortemente, quase avariando o pouco de costela que restara de sua pessoa física, ainda quentinha no espírito. E, do alto do seu porte de palmeira, continuou a discursama receptiva:
- Veio muito depressa, Zé Cândido! Não esperava sua pessoa em antes de mais de trinta anos. Tem muita gente que deveria embarcar e ficou remancheando à beira do rio, sem querer atravessar. Tive ciência até de que deixou serviço por fazer, sem dar os devidos finalmentes.
- Para você ver, Coronel. Nem tudo o que planejamos conseguimos executar.
- Se tivesse requerido minha serventia, bem que poderia dar um ajutório, assoprar umas ideias na cova do ouvido, para que você completasse a obra com mais ligeireza, amigo velho. Mas se fez de rogado, cheio de sobrançarias, aí deu no que deu: embarcou em hora imprópria. Foi uma pena, mas o que fazer?
- Mas não dizem que os planos da natureza são inescrutáveis, Coronel?
- É o que alardeiam por aí, é o que trombeteiam, Zé Cândido! Me chegou, inclusive, notícia de que você resolveu gastar tinta sobre um tal rei Baltazar, o visitador do menino Jesus na noite de Natal, não é mesmo?
- É verdade!
- Pois é. O zum-zum-zum que sobreveio aqui deste lado é de que ia ser um livro por demais importante, muito portentoso, de um rei muito famoso, cheio de nós pelas costas. Coisa nunca vista pratrasmente na literatura brasileira. De encher as burras do povinho das rotativas e das bancas de livros.
- Nem tanto, Coronel! Mas era uma história bem amarrada, bem urdida, de um personagem interessante.
- É... chegou aos meus ouvidos! As bocas do fuxico ainda invencionaram que esse tal personagem capazmente que fosse o maior que você já tivesse rabiscado em suas linhas. Cheio de ostentações e avultamentos, não é?
- Nem tanto, Coronel! Mas era um bom personagem, com uma história misteriosa, que eu ia procurar desvendar.
- E aí ia encaixotar no ostracismo o velho amigo aqui! De não ser lembrado depois desse tal rei bajulador do Menino Deus!
- Que é isso, Coronel? Nossa amizade está acima de qualquer coisa. Se não fosse por você, pode ser que ninguém se lembrasse de meu nome, nem mesmo me conhecesse.
- Sei não, Zé Cândido, sei não! Aí começaram a avultar umas caraminholas aqui no meu juízo, que diziam que eu ia acabar no fundo de um curral qualquer lá nas aguadas de Mata-Cavalo ou do Sobradinho, deslembrado de todo mundo. Até mesmo Machado de Assis, que encontrei, por acaso, montado numa nuvem ostentosa dia desses, me disse: “Cuidado, Ponciano, seu reinado vai acabar! É preciso fazer alguma coisa, para que sua memória não se extinga. Tome tino, Ponciano, tome tino!” Expeliu até uma frase em língua defunta : "Ab hoc momento pendet aeternitas".
- Estou achando essa história muito estranha, Coronel. Mas... e então?
- Pois, então! Procurei um tal de Ovídio, visagem vinda lá das Romas antigas, versado em priscas letras, para saber o sentido do dito, porque o meu latim é só arranhado lá do colégio dos padres – se lembra? –, e tomei um susto. “Deste momento depende a eternidade” é o que o dito versava, me falou ele. Em seguimento, deliberei que tinha de tomar umas urgências, fazer umas perquirições, antes que meu nome saísse do baú das reminiscências.
- Coronel, não acredito no que estou imaginando...
- Pois é, Zé Cândido, em nome da nossa velha amizade, preciso que você me releve isso, mas tive de requerer a São Pedro seu chamamento antecipado. Antes dos finalmentes que você tencionava pôr na obra do tal Rei Baltazar. Ou não me chamaria mais Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente da Guarda Nacional, do que tenho honra, e desbravador dos escondidos das moças de portas e tramelas abertas! E depois tem outra, amigo: você não ia precisar de mais um livro, para ser tão afamado quanto eu, sem falsa modéstia.
Com uma gargalhada estentórea que chegou a assustar Vermelhinho, de poleiro em seu ombro, o Coronel bateu o mãozão grande nas costas de Zé Cândido, em feitio de amizade selada, carimbada e assinada embaixo, e o encaminhou ao santo porteiro do céu, para o acerto final das contas, para o fechamento das pendências terráqueas daquele campista desvaidoso. Tudo dentro do planejado, nos conformes do espírito folgazão e invencioneiro de Ponciano de Azeredo Furtado, aprontando mais uma das suas já no coval do mundo dos espíritos.

16 de dezembro de 2010

NÃO SÓ DAS TUAS PROMESSAS É QUE SE VIVE

Não só das tuas promessas é que se vive
Guanabara
Nem me banhaste o corpo como outrora
Em tuas águas há manchas de um presente
Que me confunde os poros
Que me desvirtua a mente
Eu sou apenas um corpo sólido
Flutuando num barco em plena barra
Distante dos teus portos
Inseguro sobre as vagas
Maquinando no meu cérebro
Que futuro nos importa
E mais nada que se viva doravante
Guanabara
Será tão simples como fora

Foto de Eduardo Sengès, em highclick.com.br.
(Agraecimentos a Eduardo Sengès pela cessão da foto a ilustrar este poema.)

15 de dezembro de 2010

MEMÓRIA OU LOGRO


R. Magritte, La mémoire, 1948,
Museu de Ixelles, Bruxelas.

Lavei a alma na água dos teus olhos
Vesti-me todo com os trapos do teu corpo
Sorvi o gozo dos teus prazeres mortos
Vivi a vida malgrado teu desgosto

Hoje não sei ao certo o que me sobra
Se é memória ou logro

14 de dezembro de 2010

O HIPOCONDRÍACO

Não admitia que houvesse pessoa mais doente que ele. Tomava isso como uma ofensa pessoal, algo imperdoável. Já tivera – ou imaginara ter – todas as doenças, num raio de duzentos quilômetros de onde morava. Uma época, inclusive, resolveu atribuir-se o título de “Defensor dos Frascos e Comprimidos”, do qual muito se orgulhava, tal era a quantidade remédios que comprava para debelar todo tipo de incômodo, até vento virado. Quando supunha que em algum lugar, porventura, alguém pudesse desfilar com doença que desconhecesse, coisa quase impossível, para lá se dirigia, no intuito de incorporar todos os sintomas em seu organismo já imaginariamente bastante debilitado. Voltava para casa com a consciência tranquila, ou melhor, doída do dever cumprido.

(Em blogdocrato.blogspot.com)
Com frequência ia para filas – quaisquer que fossem elas –, com o objetivo de se atualizar nos mais diversos males que acometem o ser humano. Ficava assuntando, ouvindo atentamente as conversas, imiscuindo-se em conversa alheia, sempre que dali pudesse tirar enriquecimento para sua hipocondria. Quase sempre, voltava com algumas mazelas a mais.

Com o advento da internet, as coisas ficaram ainda mais fáceis, apesar de, vez ou outra, sentir-se humilhado com doença nova. Foi o que aconteceu, por exemplo, ao descobrir que, em numa ilha qualquer do arquipélago das Filipinas, uma rara doença estava transformando um homem em árvore. Quase teve uma síncope com a descoberta. Chegou mesmo a amaldiçoar aquele cidadão das terras do caixa-prego, sem eira nem beira, que teve a petulância de aparecer com aquilo. Sentiu-se desfeiteado, ofendido. Caso descobrisse o endereço eletrônico do coitado, iria dizer-lhe poucas e boas.

A família já nem dava atenção às suas reclamações. Os sobrinhos, então, de muxoxo, diziam:

- Lá vem aquele chato do tio doente.

Certo dia, por ocasião do seu aniversário de casamento, quando mulher e filhos resolveram fazer um churrasco no quintal da casa, teve um acometimento convulso, vindo do nada, só porque tomou um copo d’água gasosa. Resolveram, assim, levá-lo à emergência do hospital mais próximo. Chegou quase morto, ou o que quer que isso pudesse significar na cabeça dele.

O atendimento foi urgente e de primeira, coisa também rara em nossos hospitais. Vasculharam aquele organismo indigente em todos os seus setores e departamentos, com os mais diversos exames, nas mais modernas máquinas e não descobriram xongas nenhuma. Nadica de nada! Ele estava bom como um coco, mais certo que boca de bode.

No quarto onde ficou, a equipe médica foi dar o resultado da futucação empreendida em sua pessoa, na presença de toda a família.

- Seu Aldemiro, o senhor não tem nada. Aliás, o senhor nunca teve nada. Sua saúde é de ferro. Nem unha encravada e joanete descobrimos no senhor. O senhor está de alta, e passe muito bem!

Aldemiro saiu do hospital derrotado, acabado, mais humilhado que deputado pego em flagrante de corrupção, mas não se deu por vencido. Não iriam fazer aquele desaforo com ele, sem a devida reparação. E contratou advogado de fama duvidosa, para mover ação contra hospital, equipe médica e enfermeiros, por calúnia, injúria e difamação.