8 de dezembro de 2010

A MULHER QUE SE AMA

(Di Cavalcanti, Abigail, 1947.)

a mulher que se ama
não pode ter a pele de palha áspera
nem lixa nas mãos que se afagam
nem baba na boca que se beija
nem martírio no prazer a que se entrega

a mulher que se ama
precisa estar presente o dia inteiro
mesmo longe o corpo que inflama
e carregar nos passos pelo chão
o beijo que se deposita em seus pés

a mulher que se ama
pode tudo mas finge que é frágil
só para desfrutar bem mais desse poder

6 de dezembro de 2010

MULHERES BRASILEIRAS - MULATAS (PS)

Este post scriptum extemporâneo, muito depois da publicação da crônica dedicada às nossas mulheres mulatas (veja em http://asfaltoemato.spaces.live.com/blog/cns!423604DCC16797D8!355.entry) tem sua justficativa: dia desses vi a mesma mulata monumental, ciclópica, acachapante, idiossincrática (sei que a palavra não se aplica ao caso, mas é isso que me parece), esperando a abertura da mesma agência bancária de Icaraí, bem próxima do meu endereço.
Fiquei deverasmente (permitam-me o advérbio) preocupado com o cidadão a receber a visita da mulata. Não há alibi, habeas corpus, defesa, despacho, simpatia, sessão de descarrego, exorcismo, capazes de livrá-lo. Ainda bem para ele, porque a mulata é de fazer Cabral perder o caminho marítimo para as Índias. Valha-me, Deus!

DISFUNÇÃO CARDÍACA

(exercicioresistido.blogspot.com)
há no meu peito
um destrambelhado artefato explosivo
em função permanente no bombear o sangue
para as artérias as veias e os vasos.
segue no seu descompasso próprio
qual máquina caquética a que faltam peças
e lubrificação periódica.
e lá vai ele...
eu aqui de fora sem superioridades nem rancores
vou tolerando esse serviço de segunda que me presta
muito mais porque contido no que emana
que propriamente no sangue que bombeia.

4 de dezembro de 2010

A LOURA DO CALÇADÃO DA PRAIA


(Foto colhida em neilimafotos.blogspot.com.)
Caminhava no calçadão da praia sem a menor das intenções. Seu objetivo era seguir orientação médica, para que pudesse regularizar umas taxas que não iam lá muito bem. Assim, pelo menos três vezes na semana, vestia-se adequadamente e ia fazer o exercício que lhe fora prescrito pelo endocrinologista. Com isso, também, garantia que, nos fins de semana, pudesse tomar sua cervejinha sagrada com os amigos, no bar da esquina da Moreira César com a Pereira da Silva, o conhecido Queima-Filme.

Ia ele compenetrado na marcha, sem se dar conta da beleza da manhã de maio, com leves nuvens esparsas pelo céu que já anunciavam a partida, a fim de deixar o céu de um azul forte, quando, com passo mais apressado, passa por ele uma mulher mais jovem, loura, cabelos compridos, toda de malha negra colada ao corpo, cujos contornos pareciam esculpidos por Rodin em seus delírios de amor por Camille Claudel.

O arrebatamento foi avassalador! O desacerto produzido em seu cérebro, até então amortecido, pela passagem daquela mulher refletiu-se no organismo, ao produzir-lhe espasmos nos músculos. Pensou mesmo que ia ter um troço, como na velha marchinha de carnaval de Jackson do Pandeiro. De imediato resolveu que ela era a mulher da sua vida, sem ela não poderia mais viver. E apertou o passo, na ânsia de se aproximar dela.

- Oi, não vejo você sempre por aqui.

A loura olhou-o de soslaio, sem diminuir o ritmo, e disse:

- É que eu vim há pouco de Itaocara. Morava lá. – E continuou na marcha.

Ele não poderia perder a oportunidade e procurou acompanhá-la, muito mais lépida que ele, num esforço a mais para não deixá-la afastar-se. Já um pouco mais ofegante, perguntou-lhe sobre sua vida, assim sem mais nem menos. Ela lhe disse, então, que ficara viúva e, por isso, resolvera mudar-se para Niterói. Ele lamentou a tragédia de sua vida, embora ela não parecesse assim tão abalada. Ainda comentou que o marido defunto, assoberbado por dívidas impagáveis, acabou por atirar-se da ponte sobre o rio Paraíba do Sul.

- Coitado! Morreu afogado? – lamentou-se ele.

- Não! Na verdade, o rio estava muito baixo e ele acabou batendo a cabeça na pedra. Foi concussão cerebral.

Quando viu que não ia conseguir acompanhá-la na subida do MAC, inventou a desculpa de que já estava na sua hora e combinou encontrá-la no dia seguinte naquela mesma hora, naquele mesmo calçadão.

Voltou para casa cheio de lucubrações na cabeça. Subiu o elevador do prédio e entrou no apartamento. Deu de cara com a esposa, sentada no sofá, anotando uma receita nova que o programa de televisão mostrava. Olhou-a um pouco mais demoradamente e percebeu os estragos que o tempo fizera em sua mulher, antes tão bela. Ela estranhou um pouco e lhe perguntou se estava tudo certo. Ele disse sim e foi para o banheiro. Quando tirou a roupa para o banho matinal, pelo espelho pôde observar também a mão do tempo sobre seu corpo. Cinquenta e pouco anos não são cinquenta e poucos dias. O tempo é implacável, sobretudo quando não se têm os cuidados que todos os médicos teimam em recomendar, pensou ele com certo pesar.

A água morna caiu-lhe como um calmante sobre as caraminholas da cabeça. Pensou, refletiu, repassou a vida em fotogramas cronológicos bem nítidos, os dias e os anos compartilhados com a mulher, as coisas realizadas, as tristezas e as alegrias, as dívidas e as dúvidas.

Começou a enxugar-se, esfregou a cabeça com mais força nesse dia, como a expulsar as tais caraminholas. Vestiu-se para ir ao trabalho. Ao passar pela cozinha, para tomar o copo d’água e o cafezinho de todos os dias, antes de sair, disse para a mulher:

- Querida, vamos sair hoje, jantar fora, tomar um bom vinho e comemorar todo esse tempo que estamos juntos.

A mulher tomou um susto e pensou que, talvez, o marido estivesse tendo um mau pressentimento. Vai ver ele está sentindo que vai morrer, Deus do céu, continuou a pensar ela. Mas aceitou assim mesmo.

- Mas por que isso agora, querido?

- É que eu tive um mau pressentimento, quando corria pelo calçadão da praia, e percebi que a vida é muito traiçoeira, muito escorregadia. Temos que aproveitar todos os momentos.

Beijou a esposa com mais carinho nesse dia e foi para o trabalho, com a decisão tomada de trocar o horário da caminhada. Agora iria à noite, para não sofrer nenhuma recaída. Que aquela loura era quase uma coação irresistível.

3 de dezembro de 2010

TEU CORPO


(Farnese de Andrade, Nu, 1983,
em emule.com.br.)
teu corpo sob meu controle
tenso
torna-se imenso quando o toco
transformado então em paraíso
lasso
em tempo eterno
em embaraço em que me esqueço
a cada espaço

teu corpo intenso sob meu controle
frágil
me absorve fácil sem contratempo
e reduz-me a mísero idólatra
a idiota ágil
encontrado redimido
no caleidoscópio multicolorido
do teu corpo grácil.

2 de dezembro de 2010

TEMPERO


(Baía de Guanabara. em pt.wikipedia.org.)

única concentração aquosa da baía de guanabara
e da costa norte do estado do rio de janeiro
cuja salinidade não poderá jamais servir de tempero
para bifes ovos e alfaces
senão para corações partidos
é essa estranha lágrima que me nasce.

1 de dezembro de 2010

A INJUSTIÇA

Justo achou injusto deixarem Justinho de castigo porque não quisera cantar o Hino Nacional. Aliás, Justinho não sabia a letra. Essa é que era a grande verdade. A professora não conversou: depois da aula, por mais meia hora!

Justo reclamou justamente à diretora aquele abuso de autoridade da professora. A diretora, nem te ligo e o castigo valeu.

(Imagem de chitchatbabel.wordpress.com.)
Apenas como retaliação, Justinho resolveu decorar aquela letra comprida e esquisita: “brado retumbante, impávido colosso, terra mais garrida, raios fúlgidos, penhor dessa igualdade, margens plácidas, raio vívido, berço esplêndido, fulguras ó Brasil, florão da América, lábaro que ostentas estrelado...”

Leu, decorou, cantou, descantou e cantou e decorou e leu e foi ao dicionário tantas vezes quantas foram necessárias, para entender tim-tim por tim-tim tudo por que raios Osório Duque Estrada se enveredara por vias tão estranhas.

Cheio de si, lá um dia, desafiou a professora e mostrou que sabia todo o Hino de cor e salteado, com as significações e tudo que até mesmo a senhora não sabe porque só decorou mas eu não eu procurei todas as palavras esquisitas no dicionário e sei todas elas e a senhora não sabe que eu sei que a senhora não sabe. Debulhou ele, assim, a mágoa pelo castigo.

E acabou ficando mais meia hora depois da aula por desacato à autoridade e abuso de conhecimento vocabular, o que Justo achou extremamente injusto com Justinho. Mas ficou muito orgulhoso de toda aquela sabedoria do filho.

E deu a história por encerrada e a vingança por completa. E pensou como arremate: Tal pai, tal filho; não deixa dinheiro sem troco, não deixa ponto sem nó! Esse é o meu menino!