4 de dezembro de 2010

A LOURA DO CALÇADÃO DA PRAIA


(Foto colhida em neilimafotos.blogspot.com.)
Caminhava no calçadão da praia sem a menor das intenções. Seu objetivo era seguir orientação médica, para que pudesse regularizar umas taxas que não iam lá muito bem. Assim, pelo menos três vezes na semana, vestia-se adequadamente e ia fazer o exercício que lhe fora prescrito pelo endocrinologista. Com isso, também, garantia que, nos fins de semana, pudesse tomar sua cervejinha sagrada com os amigos, no bar da esquina da Moreira César com a Pereira da Silva, o conhecido Queima-Filme.

Ia ele compenetrado na marcha, sem se dar conta da beleza da manhã de maio, com leves nuvens esparsas pelo céu que já anunciavam a partida, a fim de deixar o céu de um azul forte, quando, com passo mais apressado, passa por ele uma mulher mais jovem, loura, cabelos compridos, toda de malha negra colada ao corpo, cujos contornos pareciam esculpidos por Rodin em seus delírios de amor por Camille Claudel.

O arrebatamento foi avassalador! O desacerto produzido em seu cérebro, até então amortecido, pela passagem daquela mulher refletiu-se no organismo, ao produzir-lhe espasmos nos músculos. Pensou mesmo que ia ter um troço, como na velha marchinha de carnaval de Jackson do Pandeiro. De imediato resolveu que ela era a mulher da sua vida, sem ela não poderia mais viver. E apertou o passo, na ânsia de se aproximar dela.

- Oi, não vejo você sempre por aqui.

A loura olhou-o de soslaio, sem diminuir o ritmo, e disse:

- É que eu vim há pouco de Itaocara. Morava lá. – E continuou na marcha.

Ele não poderia perder a oportunidade e procurou acompanhá-la, muito mais lépida que ele, num esforço a mais para não deixá-la afastar-se. Já um pouco mais ofegante, perguntou-lhe sobre sua vida, assim sem mais nem menos. Ela lhe disse, então, que ficara viúva e, por isso, resolvera mudar-se para Niterói. Ele lamentou a tragédia de sua vida, embora ela não parecesse assim tão abalada. Ainda comentou que o marido defunto, assoberbado por dívidas impagáveis, acabou por atirar-se da ponte sobre o rio Paraíba do Sul.

- Coitado! Morreu afogado? – lamentou-se ele.

- Não! Na verdade, o rio estava muito baixo e ele acabou batendo a cabeça na pedra. Foi concussão cerebral.

Quando viu que não ia conseguir acompanhá-la na subida do MAC, inventou a desculpa de que já estava na sua hora e combinou encontrá-la no dia seguinte naquela mesma hora, naquele mesmo calçadão.

Voltou para casa cheio de lucubrações na cabeça. Subiu o elevador do prédio e entrou no apartamento. Deu de cara com a esposa, sentada no sofá, anotando uma receita nova que o programa de televisão mostrava. Olhou-a um pouco mais demoradamente e percebeu os estragos que o tempo fizera em sua mulher, antes tão bela. Ela estranhou um pouco e lhe perguntou se estava tudo certo. Ele disse sim e foi para o banheiro. Quando tirou a roupa para o banho matinal, pelo espelho pôde observar também a mão do tempo sobre seu corpo. Cinquenta e pouco anos não são cinquenta e poucos dias. O tempo é implacável, sobretudo quando não se têm os cuidados que todos os médicos teimam em recomendar, pensou ele com certo pesar.

A água morna caiu-lhe como um calmante sobre as caraminholas da cabeça. Pensou, refletiu, repassou a vida em fotogramas cronológicos bem nítidos, os dias e os anos compartilhados com a mulher, as coisas realizadas, as tristezas e as alegrias, as dívidas e as dúvidas.

Começou a enxugar-se, esfregou a cabeça com mais força nesse dia, como a expulsar as tais caraminholas. Vestiu-se para ir ao trabalho. Ao passar pela cozinha, para tomar o copo d’água e o cafezinho de todos os dias, antes de sair, disse para a mulher:

- Querida, vamos sair hoje, jantar fora, tomar um bom vinho e comemorar todo esse tempo que estamos juntos.

A mulher tomou um susto e pensou que, talvez, o marido estivesse tendo um mau pressentimento. Vai ver ele está sentindo que vai morrer, Deus do céu, continuou a pensar ela. Mas aceitou assim mesmo.

- Mas por que isso agora, querido?

- É que eu tive um mau pressentimento, quando corria pelo calçadão da praia, e percebi que a vida é muito traiçoeira, muito escorregadia. Temos que aproveitar todos os momentos.

Beijou a esposa com mais carinho nesse dia e foi para o trabalho, com a decisão tomada de trocar o horário da caminhada. Agora iria à noite, para não sofrer nenhuma recaída. Que aquela loura era quase uma coação irresistível.

3 de dezembro de 2010

TEU CORPO


(Farnese de Andrade, Nu, 1983,
em emule.com.br.)
teu corpo sob meu controle
tenso
torna-se imenso quando o toco
transformado então em paraíso
lasso
em tempo eterno
em embaraço em que me esqueço
a cada espaço

teu corpo intenso sob meu controle
frágil
me absorve fácil sem contratempo
e reduz-me a mísero idólatra
a idiota ágil
encontrado redimido
no caleidoscópio multicolorido
do teu corpo grácil.

2 de dezembro de 2010

TEMPERO


(Baía de Guanabara. em pt.wikipedia.org.)

única concentração aquosa da baía de guanabara
e da costa norte do estado do rio de janeiro
cuja salinidade não poderá jamais servir de tempero
para bifes ovos e alfaces
senão para corações partidos
é essa estranha lágrima que me nasce.

1 de dezembro de 2010

A INJUSTIÇA

Justo achou injusto deixarem Justinho de castigo porque não quisera cantar o Hino Nacional. Aliás, Justinho não sabia a letra. Essa é que era a grande verdade. A professora não conversou: depois da aula, por mais meia hora!

Justo reclamou justamente à diretora aquele abuso de autoridade da professora. A diretora, nem te ligo e o castigo valeu.

(Imagem de chitchatbabel.wordpress.com.)
Apenas como retaliação, Justinho resolveu decorar aquela letra comprida e esquisita: “brado retumbante, impávido colosso, terra mais garrida, raios fúlgidos, penhor dessa igualdade, margens plácidas, raio vívido, berço esplêndido, fulguras ó Brasil, florão da América, lábaro que ostentas estrelado...”

Leu, decorou, cantou, descantou e cantou e decorou e leu e foi ao dicionário tantas vezes quantas foram necessárias, para entender tim-tim por tim-tim tudo por que raios Osório Duque Estrada se enveredara por vias tão estranhas.

Cheio de si, lá um dia, desafiou a professora e mostrou que sabia todo o Hino de cor e salteado, com as significações e tudo que até mesmo a senhora não sabe porque só decorou mas eu não eu procurei todas as palavras esquisitas no dicionário e sei todas elas e a senhora não sabe que eu sei que a senhora não sabe. Debulhou ele, assim, a mágoa pelo castigo.

E acabou ficando mais meia hora depois da aula por desacato à autoridade e abuso de conhecimento vocabular, o que Justo achou extremamente injusto com Justinho. Mas ficou muito orgulhoso de toda aquela sabedoria do filho.

E deu a história por encerrada e a vingança por completa. E pensou como arremate: Tal pai, tal filho; não deixa dinheiro sem troco, não deixa ponto sem nó! Esse é o meu menino!

29 de novembro de 2010

O DIREITO INALIENÁVEL AO PITACO

Uma das características básicas do comportamento humano, observada sobretudo no cidadão urbano, é a capacidade, quase inesgotável, de dar pitaco em qualquer coisa. Ser palpiteiro nos mais diversos assuntos, principalmente naqueles para os quais não se está habilitado, é um direito inalienável da pessoa física, essa que não é pega na malha fina do imposto de renda. Também, se houver habilitação, aí já passa a ser opinião abalizada, contra a qual se levantarão dezenas de juízos contestantes, aliás quase todos muito bem fundamentados.

O palpiteiro tem praticamente imunidade em seus pitacos e chega ao máximo do seu desempenho quando, diante de uma situação, não diz palavra, apenas manifesta sua avaliação através de uma interjeição: Xiiiiiiiii! Nesse momento, se você estiver fazendo alguma coisa, pode parar, suspenda a ação, porque fatalmente ouvirá a seguir: Sabia que não ia dar certo! E, quanto mais longa for a interjeição, maior a chance do insucesso da sua empreitada.

É que o palpiteiro é especialista em generalidades. Tecnicamente não sabe absolutamente nada de coisa alguma, mas é provido pela natureza de um sentido extracorpóreo, parente próximo da mediunidade, que o torna quase um contador Geiger para as mais diversas situações. Quando o palpiteiro acumula a função de sogra, aí, então, a propabilidade de erro zero para os pitacos que lança no dia a dia é quase cem por cento. Sogra palpiteira é mais fatal que chumbinho com guaraná. Acerta todas!

Se você contrata um mandingueiro, um especialista em botar reparo na vida dos outros, paga por um serviço, com vela, cachaça, arreio em touceira de bambu e outras mumunhas mais, pode ter certeza de que o serviço não funcionará. Coisa muito bem trabalhada não dá certo, não vai adiante. Veja todos os planos de governo. Se for um encosto, não pega. Se for uma praga na ex-mulher, no ex-marido, ele e ela continuarão a vida de folgança ainda mais proveitosa. Se for uma orientação espiritual para resolver grave problema por que está passando, o problema se agravará. Agora, se um mané qualquer der um pitaco na vida, por exemplo, da pobre colega de trabalho da mesa do lado, seguramente ela levará um pé na bunda no fim do mês, vai perder o namorado, a marmita vai cair no cais da estação do metrô ou vai torcer o pé exatamente com a sandália recém-comprada.

(Imagem em periplus.blogspot.com.)
 A melhor ocasião para se flagrar um palpiteiro em ação é quando há um ajuntamento de pessoas na rua em torno de alguém caído, por qualquer motivo: atropelamento, desmaio, queda, piripaque. Com uma voz anônima, vinda de lugar incerto e não sabido, quase sempre do fundo do ajuntamento, alguém dará o pitaco certo para salvar a criatura. Ou para metê-la ainda mais em apuros. Mas o pitaco será dado, sem dúvida nenhuma!

Há também os palpiteiros oficiais, com salários polpudos nas diversas esferas da administração pública. Lembram-se do último apagão e de quantos pitacos ouvimos das mais diversas autoridades acerca do que acontecera? Até hoje não sei qual deles foi o mais eficiente. Porém, quando o pitaco é do governo, bem provavelmente estará errado. E a vocação da nossa política externa para dar pitaco no concerto das nações? Na matéria, somos insuperáveis.

Eu, contrariamente a essa turba cada vez maior de palpiteiros, tenho horror a dar pitaco na vida alheia. Vai que eu acerte num momento negativo? Olha a minha fama de ave de mau agouro, de boca de cumbaca. Mas tenho também os meus palpites. Agora, por exemplo, acho que você está muito tempo em frente ao computador. Isso talvez lhe faça mal aos olhos. Essa xícara de café ao lado do teclado pode virar. Se derramar em cima das teclas, adeus teclado! E essa sua cor de pele, não acha que está um pouco esquisita? Tome um pouco de sol. Ah! não aplique seu rico dinheirinho em dólar. É uma furada!

Depois não vá dizer que não avisei!

28 de novembro de 2010

TODO POEMA DE AMOR

queria fazer um poema que dissesse do amor
sem a baba que dele escorra
– pegajoso que é todo discurso amoroso –
mas que fluísse solto límpido
sobretudo muito moderno
bem ao gosto das pessoas de bom gosto

queria compor um poema lírico
sem pieguices sem babaquices
mas que pudesse muito bem e facilmente
causar arrepios em toda a gente
e no final encantasse por bobinho
qualquer coração desavisado de menina-moça
e esquentasse suas coxas redondas
e incendiasse seu clitóris travoso

queria compor um poema erótico
e depois deitado sobre o corpo da amada
descansasse do seu cio do seu gozo

mas todo poema de amor é tão bobo!...

26 de novembro de 2010

COM LICENÇA, NELSON RODRIGUES!

(F. Botero, A cama II.)

O casal era desproporcional. Fez-me lembrar personagens do grande Nelson Rodrigues: a Vizinha Patusca e o Sobrenatural de Almeida. O que abundava em tecido adiposo na mulher sobrava no outro em “pele e osso simplesmente, quase sem recheio” (com todos os direitos autorais reconhecidos e preservados). Perto dela, o marido parecia apenas manifestação espiritual, eflúvio da alma.
Adentraram o restaurante como um cargueiro adentra o porto: o rebocador pequetito a puxar pela mão aquela aberração. Sistema a peso, pensei no prejuízo que o marido teria ao pagar a conta da comida a sustentar toda aquela ostentação de gente. Obviamente ela não era manutenida a água e luz. É que há umas pessoas por aí que se alimentam de luz, coisa que não consigo imaginar o que seja. Será que nasceram com um terminal de tomada em alguma parte do corpo?
Mas voltemos ao casal. Fiquei curioso em observar a quantidade a ser servida por cada um. E vejam como a maledicência humana paga por ser apressada: espartanamente, o prato da gorda era um primor de decência; o do magrelo, um despautério. A imaginação começou a voar. Imaginei, então, que ele talvez fosse cavalheiro e estivesse levando o prato da mulher, para que nenhum comensal partidário de uma dessas seitas que pugnam por se comer assim ou assado, sem medo de leis antidiscriminação, pudesse ofendê-la. Mas não foi nada disso.
O magrelo instalou diante da sua pessoa aquela maquete culinária da Cordilheira do Himalaia e começou a devorar todos os picos, do mais baixo ao culminante. A gorda – fiquei até com pena dela – mastigava, não sei quantas vezes, porções miligrâmicas de verdes e brotos, de legumes cozidos na água e sal e filezinho de truta grelhado. Ela, aí sim, espartanamente, comia sua ração dietética regada a água sem gás. O magrelo mal e porcamente mastigava. Como que apertava a comida com a língua e a engolia à moda dos patos. Empurrava o bolo com goles caprichados de cerveja. Não ouvi, mas presumo que tenha arrotado várias vezes, tal era sua voracidade. O magrelo era abusado para comer! Vai comer assim nos quintos dos infernos!
Como não sou parente ou agregado que os acompanhasse, tive que ficar, ao final da comilança, sozinho no meu canto do restaurante, agora fazendo suposições para o que viria. Ele, naturalmente, beberia doses e doses de bicarbonato de sódio, acompanhadas de antiácidos e tinturas repulsivas para o bom funcionamento do fígado. Ela, tranquilamente, chegaria a casa, leve, apesar de tudo, e dormiria o sono dos previdentes.
Nada disso, meus amigos! O magricela do marido aboletava-se na poltrona da sala, diante do televisor, para palitar os dentes e futucar a unha do dedão do pé, sem a menor pressa, aguardando a pobre esposa fazer chás e infusões, no intuito de aliviar o afrontamento de gases estomacais. O descarnado era possuidor de um rotorooter gastrointestinal, capaz de processar qualquer coisa.

Vejam vocês como a natureza é sábia: aparelhou o magrelo com todos os instrumentos internos em pleno funcionamento, para que ele se nutrisse competentemente, uma vez que os embates de lençóis e travesseiros, a varar a noite, requeriam toda a força do mundo!