21 de novembro de 2010

EM CÍRCULOS


José Pancetti, séc. XX, colhida em pr.gov.br.
cruzei meu barco por mares nunca de antes
por oceanos de borrascas tempestades
por brejos alagados mangues

cruzei fronteiras com meus exércitos de medos
varei países rompi muralhas fortalezas
com as incertezas que me compõem o ser

finquei raízes plantei sementes
arroteei o campo para o cultivo de outros sonhos
colhi as coisas de que preciso

voltei ao mesmo ponto de partida
e tonto desnorteado e lírico
continuo andando em círculos

19 de novembro de 2010

SENTIMENTO HÍDRICO

na minha terra não há lago não há lagoa
apenas valões e corgos
como o valão do coleto o valão do zé doença
o valão liberdade
o valão do lírio no alto da serra da capetinga
(que nunca vi) e outros mais
tudo água tímida e apressada

talvez por isso essa minha ânsia de água grande
esse meu sonho líquido de lagoa feia
de cima dos patos mirim mangueira araruama
que sempre me atraíram no mapa do brasil

por isso talvez essa admiração respeitosa
pela imensidão do mar do oceano
reflexo humano dessa ampla costa brasileira
águas tranquilas reiterativas sempre ali
comunicando-me o eterno o infinito
das coisas capazes de perpassarem o tempo
sem a angústia que nos deixa este momento

18 de novembro de 2010

POEMA SIMPLES

Não trava o gosto na boca

(A. Rodin, O beijo, séc. XIX.)
A fruta que não se prova
A boca que não se beija
O beijo que não se rouba

Não trisca o tato na pele
O corpo que não se toca
A língua que não se roça
Por sob os negros cabelos

Não ferve de fato o sangue
A dor que passa ao largo
A traição consentida
E um arremedo de vida

17 de novembro de 2010

NA COPA (após o velório)

Das Dores estava agora derreada sobre a cadeira barata, encostada à mesa barata, compradas a prestação, na copa-cozinha apertada, azulejada de um azul triste e desbotado, tomando café requentado e pensando na vida.
(Em khepra.blogs.sapo.pt)
Depois de todo o furdunço que aprontara no velório de Carlão, diante da viúva oficial, dos filhos oficiais, dos amigos oficiais, não tinha mais coragem de se olhar no espelho, de encarar seus próprios filhos. Os olhos, inchados de tanto chorar, não tinham mais lágrimas: eram de uma secura só. Os meninos já tinham ido deitar-se, tristonhos, e ela estava ali pensando em como resolver a vida, a partir de então, sem a presença inconstante de Carlão. Era um traste, mas tinha sua serventia. E pensava no que lhe dissera a comadre Carlinda, depois do enterro daquele arremedo de marido: “Pior só, do que mal acompanhada, comadre Das Dô”. Nunca passara necessidade, é verdade, embora tudo lhe fosse contado, pesado e medido. Os meninos vestiam-se singelamente, como ela, estudavam em escola pública e ganhavam presentes apenas no aniversário e no Natal, mas tudo coisa sem brilho, sem encanto.
Ela não queria sentir-se desamparada, não podia sentir-se desamparada, mas estava chegando à conclusão de que a sua vida e a dos filhos, dali por diante, seriam de privações. Como fazer para lhes dar alimento, roupas, um mínimo de lazer, como tudo de minguado que vinha de Carlão?
Às vezes, quando ele voltava das viagens constantes, ora na função de representante comercial, ora na visita a uma doente tia moradora de Varre-Sai, Guiricema, sabe-se lá onde – tudo uma mentirada só –, ainda lhe trazia um queijo curado, um quilo de linguiça apimentada do açougue do Salvador e um pacotinho de doce de leite Xamego Bom, escrito assim mesmo com erro de grafia, mas que as crianças comiam lambendo os beiços, como se diz. Quem, agora, teria essas simplórias atenções para com ela e Dudu, Dondinho e Didigo, jeito carinhoso como chamava os filhos, assim que abria a porta da sala, antes mesmo de tirar a roupa com que viajava, apresentando-lhes o pacotinho daquela delícia que se desmanchava na boca?
Sua vida com Carlão tinha sido tocada em marcha lenta e aos solavancos, como uma velha jardineira desorientada a percorrer estradas de chão do interior, por onde ele dizia que andava. Agora, jardineira quebrada à beira do mato, o mundo apresentava-lhe novos meandros escuros e lamacentos por onde caminhar, por onde conduzir a vida, rebocando a família destroçada, à procura de um tal futuro, propagado pelos meios de comunicação e nunca vislumbrado com nitidez por ela.
(Em angelofabluesky.blogspot.com)
Teria de tirar forças de um buraco no fundo do seu ser, que não sabia onde estava, nem tinha conhecimento de que existisse. Mas, deixa estar, nasceria dali uma nova Das Dores, completamente diferente, disposta a tudo, capaz pegar touro a unha, dar tapa em cara de vagabundo e não temer mais nada. Era a sua disposição. Pensando assim, começou a chorar, dobrou-se sobre a mesa pobre, que molhou com suas lágrimas, e adormeceu mansamente.
O dia seguinte estaria rugindo à sua porta, a pouco mais de seis horas, a exigir o cumprimento de todas as decisões. Ou a vida seria uma equação irresolúvel!

16 de novembro de 2010

ANTISSONETO

(G. Braque, Le portugais, 1911/12.)
este soneto natimorto
por não ter métrica
nem ter temática
não é soneto nem nada

porque soneto
que se pretenda a tanto
além da forma e do tema
tem que ter engenho e arte

mesmo que torto este soneto
é bem possível ver-lhe um metro
de certo movimento

que nada medirá por certo
porque fazer soneto após camões bocage
é chover no molhado e até atrevimento

15 de novembro de 2010

CORAÇÃO MODERNO

na confusão atônita em que me encontro
sem saber a direção do vento
ou a possível cotação da bolsa de valores
o pulsar rítmico do meu distraído coração espanta
em sua regularidade simplória das coisas passadas
ou da certeza de que no presente
nada há que possa ser que possa estar
e o que não é será e o que não foi já é
e o futuro mera repetição do ontem
e mais ou menos assim por diante

ainda bem que meu coração tem amortecedores independentes!

(Imagem colhida em aterraemarte.com)



13 de novembro de 2010

UMA LACUNA BÍBLICA

Não me sinto muito à vontade para falar sobre assuntos bíblicos, porque posso ser mal interpretado. Tudo isso porque, há alguns anos, bandeei para o agnosticismo não praticante e sem pretensões de fazer proselitismo de nenhuma espécie. Nem mesmo quero que gostem dos mesmos legumes que eu, quanto mais que comunguem (viram aí o verbo insidioso?) de minhas ideias, que, aliás, têm muito pouca cotação no mercado geral das ideologias, filosofias e quejandos.
Mas a Bíblia (estou escrevendo com letra maiúscula para não ser acusado de desrespeitoso) é cheia de histórias exemplares. Ou não seria ela o livro sagrado de bilhões de cristãos!
O chamado Velho Testamento contém livros comuns à Torá dos judeus. Vários sãos os seus autores humanos (não vou discutir aqui a questão da inspiração divina em sua criação): há poetas, como Salomão e Davi; há contadores, certamente, como o autor do livro dos Números, canonicamente atribuído a Moisés, como os demais que compõem o Pentateuco.
Mas queria tratar aqui de uma história emblemática contida no Velho Testamento: a de Esaú e Jacó, e o golpe que Jacó aplicou em Esaú, com a participação de sua mãe, Rebeca. Particularmente acho que este episódio parece ter sido urdido por advogado mal intencionado ou detetive particular, com curso tirado por correspondência. Vou tentar resumi-lo, para chegar à conclusão a que me proponho.
Esaú e Jacó eram gêmeos. Porém Esaú nasceu primeiro, o que lhe dava o direito de primogenitura, condição determinante para os direitos sucessórios na ocasião: o primogênito herdava tudo. Os demais filhos que se lascassem. No entanto, Jacó era o queridinho da mamãe Rebeca. Vivia mais chegado a ela, nas lides domésticas, ao passo que Esaú era caçador, cuidava dos rebanhos e das propriedades da família, isto é, pegava no batente. Esaú era peludo, tipo Toni Ramos. Jacó, por sua vez, era mais lisinho, mais parecido com o Reinado Joãoneguim. Esaú era o cara, mas Jacó tinha o apoio da mãe. Quando o pai dos dois, Isaac, estava chegando ao fim da vida e já cego, mandou chamar Esaú, para dar-lhe a bênção da primogenitura e com isso passar para ele todos os direitos de sua casa e, consequentemente, de seu povo, vez que ele era o patriarca dos hebreus. Mas Rebeca quis proteger seu queridinho e fez uma proposta: faria um belo prato de lentilhas, o predileto de Esaú, que em troca deixaria o irmão receber a bênção. Esaú caiu na tentação da gula. A fim de que o plano desse certo, Rebeca confeccionou um casaco de pele de ovelha para que, ao tocar no filho, Isaac pensasse que o peludo era de fato Esaú e não Jacó. Assim foi feito. E a história do povo hebreu foi mudada em função disso. Jacó tornou-se o seu quarto patriarca. Esaú, embora tenha feito as pazes com seu irmão posteriormente, passou à história como um bobo, um tonto. Quero, então, que prestem atenção ao fato: Esaú trocou seu direito de primogenitura e, por consequência, a liderança do seu povo por um prato de lentilhas!

Pois muito bem! Esta história está contida no livro do Gênesis, onde ocupa vinte e cinco capítulos (do 25:19 ao 50:13). Evidentemente que com muito mais detalhes e pormenores, pois vai do nascimento à morte de Jacó. Porém o que me deixa triste até hoje, decorridos mais de dois mil e quinhentos anos de sua provável redação, é que seu autor, desgraçadamente, miseravelmente, não teve o cuidado de registrar a receita de prato tão poderoso, capaz de alterar a história de um povo. Não há a mínima referência a temperos, pertences e demais ingredientes, tempo de cocção, acompanhamentos, harmonização com vinho ou cerveja – bebidas que já existiam à época. Quero apostar com todos que, fosse o autor um francês de boa cepa, ou mesmo um português de Trás-os-Montes, nada disso iria escapar. E hoje teríamos um prato da gastronomia com valor canônico e pouco ou quase nenhum valor calórico.
Enfim nem sempre se pode ter tudo que se quer. Ficaremos, assim, com essa lacuna gastronômica do Gênesis ao Apocalipse, isto é, per omnia saecula saeculorum.