15 de novembro de 2010

CORAÇÃO MODERNO

na confusão atônita em que me encontro
sem saber a direção do vento
ou a possível cotação da bolsa de valores
o pulsar rítmico do meu distraído coração espanta
em sua regularidade simplória das coisas passadas
ou da certeza de que no presente
nada há que possa ser que possa estar
e o que não é será e o que não foi já é
e o futuro mera repetição do ontem
e mais ou menos assim por diante

ainda bem que meu coração tem amortecedores independentes!

(Imagem colhida em aterraemarte.com)



13 de novembro de 2010

UMA LACUNA BÍBLICA

Não me sinto muito à vontade para falar sobre assuntos bíblicos, porque posso ser mal interpretado. Tudo isso porque, há alguns anos, bandeei para o agnosticismo não praticante e sem pretensões de fazer proselitismo de nenhuma espécie. Nem mesmo quero que gostem dos mesmos legumes que eu, quanto mais que comunguem (viram aí o verbo insidioso?) de minhas ideias, que, aliás, têm muito pouca cotação no mercado geral das ideologias, filosofias e quejandos.
Mas a Bíblia (estou escrevendo com letra maiúscula para não ser acusado de desrespeitoso) é cheia de histórias exemplares. Ou não seria ela o livro sagrado de bilhões de cristãos!
O chamado Velho Testamento contém livros comuns à Torá dos judeus. Vários sãos os seus autores humanos (não vou discutir aqui a questão da inspiração divina em sua criação): há poetas, como Salomão e Davi; há contadores, certamente, como o autor do livro dos Números, canonicamente atribuído a Moisés, como os demais que compõem o Pentateuco.
Mas queria tratar aqui de uma história emblemática contida no Velho Testamento: a de Esaú e Jacó, e o golpe que Jacó aplicou em Esaú, com a participação de sua mãe, Rebeca. Particularmente acho que este episódio parece ter sido urdido por advogado mal intencionado ou detetive particular, com curso tirado por correspondência. Vou tentar resumi-lo, para chegar à conclusão a que me proponho.
Esaú e Jacó eram gêmeos. Porém Esaú nasceu primeiro, o que lhe dava o direito de primogenitura, condição determinante para os direitos sucessórios na ocasião: o primogênito herdava tudo. Os demais filhos que se lascassem. No entanto, Jacó era o queridinho da mamãe Rebeca. Vivia mais chegado a ela, nas lides domésticas, ao passo que Esaú era caçador, cuidava dos rebanhos e das propriedades da família, isto é, pegava no batente. Esaú era peludo, tipo Toni Ramos. Jacó, por sua vez, era mais lisinho, mais parecido com o Reinado Joãoneguim. Esaú era o cara, mas Jacó tinha o apoio da mãe. Quando o pai dos dois, Isaac, estava chegando ao fim da vida e já cego, mandou chamar Esaú, para dar-lhe a bênção da primogenitura e com isso passar para ele todos os direitos de sua casa e, consequentemente, de seu povo, vez que ele era o patriarca dos hebreus. Mas Rebeca quis proteger seu queridinho e fez uma proposta: faria um belo prato de lentilhas, o predileto de Esaú, que em troca deixaria o irmão receber a bênção. Esaú caiu na tentação da gula. A fim de que o plano desse certo, Rebeca confeccionou um casaco de pele de ovelha para que, ao tocar no filho, Isaac pensasse que o peludo era de fato Esaú e não Jacó. Assim foi feito. E a história do povo hebreu foi mudada em função disso. Jacó tornou-se o seu quarto patriarca. Esaú, embora tenha feito as pazes com seu irmão posteriormente, passou à história como um bobo, um tonto. Quero, então, que prestem atenção ao fato: Esaú trocou seu direito de primogenitura e, por consequência, a liderança do seu povo por um prato de lentilhas!

Pois muito bem! Esta história está contida no livro do Gênesis, onde ocupa vinte e cinco capítulos (do 25:19 ao 50:13). Evidentemente que com muito mais detalhes e pormenores, pois vai do nascimento à morte de Jacó. Porém o que me deixa triste até hoje, decorridos mais de dois mil e quinhentos anos de sua provável redação, é que seu autor, desgraçadamente, miseravelmente, não teve o cuidado de registrar a receita de prato tão poderoso, capaz de alterar a história de um povo. Não há a mínima referência a temperos, pertences e demais ingredientes, tempo de cocção, acompanhamentos, harmonização com vinho ou cerveja – bebidas que já existiam à época. Quero apostar com todos que, fosse o autor um francês de boa cepa, ou mesmo um português de Trás-os-Montes, nada disso iria escapar. E hoje teríamos um prato da gastronomia com valor canônico e pouco ou quase nenhum valor calórico.
Enfim nem sempre se pode ter tudo que se quer. Ficaremos, assim, com essa lacuna gastronômica do Gênesis ao Apocalipse, isto é, per omnia saecula saeculorum.

12 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (VIII)


(Em picasaweb.google.com)
 DESERTO DE ATACAMA

Pelo deserto plano de Atacama
Passeiam olhos e vagares lentos
Durante a cálida viagem
O sol e o céu se fazem cúmplices
Em sua imperturbável composição meteorológica
Cuja única finalidade
Além de enganar incautos com visões d’águas
É manter esturricados
Mil quilômetros de chão
Afora alguns oásis
A terra quente assegura sua inexistência aflita
Até à noite
Quando então esfria
E se nutre para um novo dia de aridez e de miragens
Dos sentimentos da gente que a habita


Obs.: Com este texto, encerro a série Apontamentos de viagem, em que traduzi minhas breves impressões da viagem empreendida pelo Cone Sul, em janeiro de 1975. Os textos, como disse no início, foram produzidos àquela altura e só agora tornados públicos.

11 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (VII)


(Trem Cuzco-Arequipa, imagem colhida em skyscrapercity.com.)


TREM DE AREQUIPA

Não há paisagem à janela deste trem noturno
solitário passageiro do deserto.
No entanto um frio intenso me ilude
em ver no silvo vento
na areia neve.
E o que me resta de conforto e explicação perdida
para tamanha friagem que me invade
é o desamparo concreto desta vida.

10 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (VI)



(Imagem colhida em wikipedia.org.)
  MACHU PICCHU

machu picchu
ver o pico
ver os cimos circundantes
natureza farta e bela nos caminhos dos andes
tal cidade cidadela meramente
sem histórias
com turistas
dói na vista dói no peito
nos ouvidos
o grito de cada pedra
contra o espanhol inimigo.

9 de novembro de 2010

NO VELÓRIO


(Imagem colhida em flikriver.com.)

Das Dores entrou esbaforida na capela mortuária do Cemitério da Cacuia, acompanhada da escadinha de filhos ainda não entrados na adolescência. Chegou ao lado do caixão, onde se destacava a cara estanhada do Carlão e aplicou-lhe alguns tabefes de mão aberta, de fazer barulho até na cantina ao lado.

- Então é isso, né, Carlão, que você me apronta? Diz que vai visitar uma tia muito doente em Varre-Sai, some e aparece morto, com essa cara gorda aí cercada de flores? Essa é mais uma das suas, Carlão? Agora, pelo menos, é a última, não é, Carlão?! Não vai mais me aprontar umas e outras, seu cafajeste, seu traste imprestável!

Ao ouvir os gritos de Das Dores, os outros três filhos rapazes do defunto, que tomavam cafezinho na cantina, correram para a capela, a fim de apurar o que estava acontecendo.

A viúva oficial, de papel passado e tudo, mãe dos três, sentada do outro lado do ataúde, debulhava um compungido terço, no intuito de recomendar a alma do marido defunto à corregedoria celeste. Porém desmaiou ao ver a cena.

Os parentes mais próximos se atiraram sobre Das Dores e a imobilizaram, com certa dificuldade, diga-se de passagem, dado o volume com que ela resfolegava sua pessoa no mundo dos vivos. Seus filhos, também três meninos, ficaram em estado de choque, ao ver a mãe aplicar tais bolachas nas bochechas do pai, canela espichada, esperando a hora de virar comida de minhocas.

Com a chegada dos filhos rapazes, a parentada tratou de rebocar aquela estranha criatura desvairada para fora, sem, contudo, conseguir calar de sua boca um enxame de frases gritadas.

- Carlão, seu canalha! E, agora, como é que eu fico com as crianças, seu cretino? Sempre me dizendo que ia ver uma coisa e outra, uma tia doente, um cliente nervoso! Tava sempre viajando e era isso, Carlão? Com outra família, cheia de filhos, a mulher viva, seu desgraçado! Me soltem que eu quero meter a mão naquela cara de tacho, naquele salafrário! Me enganou a vida toda! Me tirou de casa, eu ainda virgem, boba, cheia de sonhos! Falou que era um viúvo tresnoitado, sem filhos, cheio de amor pra dar! Até meu pai caiu na sua conversa, Carlão! A mulher tinha morrido atropelada por uma ambulância, igual à Iracema do samba! Cachorro! Tinha idade para ser meu pai e eu acreditei em você, seu sacripanta! Se não fosse comadre Carlinda, possa ser que eu nem chegasse aqui a tempo, seu monte de banha!

Quanto para mais distante levavam Das Dores, mais o tom de sua voz aumentava, para que todos ali a ouvissem. Os três meninos, desamparados e confusos, acompanhavam o reboque da mãe para longe de onde seu pai dormia provisoriamente. Até que um dos filhos da viúva tida e reconhecida por todos percebesse o estado de choque de seus irmãos, desconhecidos para ele até aquele instante. Chamou-os de lado e tentou acalmá-los. Coitados, eles os mais vulneráveis.

Os outros dois, mais os parentes, tentaram, então, acalmar a mulher. Pediram-lhe para parar com o escândalo, falasse baixo, eles a ouviriam. Sua mãe não tinha necessidade de passar por mais um dissabor na vida, e logo na hora do velório do marido. Eles, por sua vez, lhe disseram que também tinham passado por poucas e boas. Seu pai se ausentava com frequência: era uma velha tia doente em Guiricema, um cliente mal satisfeito numa cidade longe a requerer sua presença. Problemas e problemas que se iniciaram quando ainda eram pequenos e que continuaram até que ele fez a passagem. Fossem conversar, depois, civilizadamente, para resolver todas as pendências que, reconheciam, deveriam ser muitas. Das Dores, no entanto, parecia possuída. Estava endemoninhada. E foi só se descuidarem, para que voltasse correndo em direção à capela, onde entrou atropelando pessoas e coroas de flores, acabando por derrubar o caixão, o morto e os castiçais.

Com a queda do finado do alto da essa, escaparam-lhe da boca as dentaduras duplas que iria levar para o além. E lá ficaram elas rindo da situação, Das Dores estirada no chão, a baderna instalada naquilo que deveria ser compunção e recolhimento. Até que a estupefação da cena fosse quebrada pelos gritos desesperados dos filhos mais novos:

- Mamãe, mamãe! Deixa papai morrer em paz!

Nesse momento, o espírito malquisto do Carlão rodopiou no ambiente cheirando a vela apagada, vazou pelo basculante entreaberto e tratou de cair fora, antes que sua carcaça oca baixasse à terra fria e as encomendas protocolares soassem estéreis aos ouvidos do Criador. E deixou para trás o pandemônio que construiu em vida.

Carlão sempre aprontando das suas!

8 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (V)


(Imagem colhida em alfredo-moreirinhas.blogspot.com)

TELHADOS DE CUZCO

os vetustos telhados de Cuzco vistos do alto
do tanque do velho hotel
sonolentos do tempo em que foram feudais
agora parecem tristes tortos e envergonhados
quando sob suas sombras
no quadrilátero da Plaza de Armas
marcham vergados sob o peso estúpido
de trecos troços bagulhos bugigangas cacarecos quinquilharias
os filhos do deus Sol
cuja única e simples culpa
foi e é a de terem sido vencidos.