6 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM (II)

CAMINHOS DOS ANDES

Cada caminho dos Andes conta uma história diferente
Aqui Tupac Amaru
Ali Manco Capac
Por toda parte sussurros de liberdade
Hoje tristeza miséria saudade
Resplandecem no rosto redondo de cada oriental traído.



(Imagem colhida em hermehunter.blogspot.com.)
 

5 de novembro de 2010

APONTAMENTOS DE VIAGEM

Inicio hoje a postagem de alguns poemas breves que fiz há alguns anos, a partir de uma viagem empreendida pelo hoje chamado Cone Sul. Embora tenha durado cerca de um mês, ela gerou, no entanto, impressões ligeiras que triscaram o emocional, mas que permanecem até hoje, sobretudo quando revejo os textos que aqui irão. 

Abaixo, os dois primeiros.

Espero que gostem!

APONTAMENTOS DE VIAGEM (I)

i. TREM PANTANEIRO

tanto trem de ferro pelo pântano
pelo pântano que se cruza pantanal
tanto trem
tanto vai tanto vem
tanta gente pouca gente
tanto gado pela terra amealhado
tanto sol tanto bem
fazendeiro tanto vai tanto vem
pelo pântano tanto mal tanto bem
pantanal.

ii. CORUMBÁ

Corumbá resfolega seu casco senhorial
à beira do Paraguai
que há muito aportou suas águas
na Cidade Branca
e de lá não sai
com medo de que o futuro
lhe pregue uma peça en guarani.

4 de novembro de 2010

HÁ AMORES PELAS RUAS


(Imagem colhida em ponteirosaoavesso.wordpress.com.)

há amores pelas ruas de chuva
indiferentes ao tráfego
à pressa dos motoristas
e à insistente troca do sinal.
os corações são caminhos esburacados
sempre em contramão
e alheios à luz verde
e ao apito do guarda
e estão sempre acima
de todos os postulados do código nacional de trânsito.

3 de novembro de 2010

O OMBRO SUSTÉM O MUNDO

o ombro sobre si tem o mundo
e mais o que dele exceda depois de tudo
depois de todos os prazeres
com o peso mais pesado
de todo imponderável

o ombro sustém o mundo
e não se cansa jamais
por proibido
apenas aderna de lado à marcha compassada
pois o fardo deve ser levado
este fardo que se repete
enfadonhamente
desde que o mundo é mundo

1 de novembro de 2010

PÕE VINTE NO GALO!


Põe vinte aí no galo. Cerca pelos sete lados, que esse bicho é arisco. Quero ver se ganho alguma coisa. Estou a neném e com algumas contas atrasadas. Pelo menos, a conta de luz eu pago. Se ficar sem luz lá em casa, Dona Encrenca encrenca de vez! Se ficar sem ver a novela, posso me considerar um homem morto. Defunto encomendado e garantido. Põe mais dez na cobra. É que eu tenho uma dentro de casa. A sogra mora comigo há uns dez anos, desde que seu Gervásio morreu. Homem bom tava ali! Era como um pai. Que Deus o tenha! Agora, ela... é uma canina! Só não me inferniza mais com a filha, porque já estou mais sujo que pau de galinheiro, que chão de curral. Sabe chão de curral? Pois é, cheio de bosta de vaca! Eu sou do interior e via isso lá. No milhar, põe cincão. Cercado e invertido. Vem aí o dia das crianças, e o menino pediu um presente. Se não der, é outra confusão na minha vida. Aí serão a mulher, a sogra, que já é de praxe, e o filho. Já pensou?! Meu menino até trocou de time, porque pegou birra comigo. Torcia pelo meu time. Só porque falhei com ele no aniversário, num ano desses aí, ele embirrou e disse que agora torce pelo Botafogo. É mole? Você, cruz-maltino, ter um filho botafoguense! Fiz tudo por aquele moleque, e ele me fez essa desfeita! Também vivo lembrando a ele o gol que o Dinamite fez em cima do Osmar. Lembra? Mas ele diz que não liga. Ele não era nascido. Aí fica me jogando na cara o campeonato de 97 em cima da gente, quando já era nascido – tinha só dois anos –, mas fez questão de se informar na internet só para me fazer raiva. Fica lembrando o gol do Dimba e a rebolada no final do jogo. Só vale a partir do seu nascimento, diz ele. Vou te contar: é só problema na vida! Trabalho no almoxarifado da empresa como uma besta, e é só pepino. O salário, às vezes, atrasa e as contas vão pras cucuias. Veja só: estou com o pendura do botequim também atrasado. Seu Manuel ainda vai ter de aguentar mais uns dias. Pior que eu fico sem poder passar até na calçada do bar. Não quero ser envergonhado com ele me cobrando na frente dos outros. Aí, quando receber, vou lá e pago, e invento uma desculpa: estava doente, coisa assim. Nem de beber, a gente tem direito. Vida de pobre é foda, cara! Por isso é que eu, às vezes, faço a minha fezinha no bicho. Quem sabe? Um dia eu ganho, acerto no milhar e ponho tudo nos eixos. Do jeito que está, é que não posso ficar. Põe mais dois, no grupo. Não é nada, mas pelo menos salvo o que apostei e aí as coisas vão ser adiadas por mais uns dias. Também quem me mandou nascer pobre. Pobre é foda, cara! Tem mais é que levar ferro! Não tem aquele ditado que diz que pobre e cachimbo nasceram pra levar fumo? Pois é! É isso mesmo! Minha mulher fica me mandando entrar pra igreja dela, pra eu dar um rumo na vida, que eu tou muito perdido... essas coisas. Como é que vou? Eu tou é durango, mesmo, cara! E o pastor ainda vai me cobrar dez por cento. Com esse dinheiro, eu jogo no bicho. Deus, se tiver compaixão de mim, há de ver a minha luta e me socorrer. O pastor, quando abriu a igreja, nem carro tinha. Andava de ônibus. Hoje, desfila com um carrão bonito, cheio de pneu e antena. Ainda teve a coragem de botar um plástico no vidro de trás: Propriedade do Senhor Jesus. Tem cada cara de pau! É o Senhor Jesus que paga o IPVA, que vai passar fim de semana no hotel fazenda, que bate o carro? Isso ela não vê. Mas, se eu falo assim em casa, arranjo mais confusão pro meu lado. Desculpe, companheiro, ninguém precisa ficar ouvindo minhas lamentações, mas é que chega uma hora em que, se a gente não desabafa, a cabeça explode. O bom é que sobrou ainda um dinheirinho, que vou ali no botequim tomar uma, senão ninguém aguenta.

31 de outubro de 2010

VINHO TINTO



traga-me, amor
seu líquido precioso
onde se revelarão meus desejos de corpo.
emborque seu cálice em minha boca
para que lhe sorva a espuma da paixão
e deixe que o espírito do vinho
penetre-nos a carne
que consumiremos
até o último gozo.