31 de outubro de 2010

VINHO TINTO



traga-me, amor
seu líquido precioso
onde se revelarão meus desejos de corpo.
emborque seu cálice em minha boca
para que lhe sorva a espuma da paixão
e deixe que o espírito do vinho
penetre-nos a carne
que consumiremos
até o último gozo.

30 de outubro de 2010

GRAVE ESPECTRO DA MORTE

pesadas medidas e contadas nossas dores cotidianas
sobramos nós
                        sós
profusa solidão de seres       
                                                           povo

dosadas balanceadas e racionadas nossas alegrias incertas
sobram eles
                     neles
                              deles
                                      por eles
minúscula reunião de homens
                                               grave espectro
                                                         da morte
Pieter Brueghel, O triunfo da morte, séc. XVI.

29 de outubro de 2010

EU QUERO UM TRABALHO FÁCIL!

Tripalium (Eh, vidinha difícil!)



Embora todos saibamos que “o trabalho dignifica o homem”, o que é uma verdade verdadeira, nem sempre o homem digno trabalhou. Pelo menos com a acepção da palavra trabalho como temos modernamente. A casta de nobres romanos não trabalhava. Trabalhar era coisa de escravos e da classe baixa da população.
Na verdade, a palavra trabalho da língua portuguesa tem no seu étimo, na sua raiz mais remota, o termo latino tripalium (literalmente “três paus”), que nomeava uma espécie de instrumento de tortura aplicada a escravos e infratores da Lex romana. De tripalium saiu o verbo tripaliare, fonte do nosso trabalhar. Os verbos latinos que tinham o sentido de “trabalhar” eram operare (port., obrar) e lavorare (port., laborar, lavrar).
Vê-se, por aí, que a atividade laborativa, em nossa língua, assim como em francês (travailler), espanhol (trabajar), catalão (treballar), galego (traballar), não é bem recomendada, diga-se, etimologicamente. Em francês, inclusive, o verbo também tem o sentido de “atormentar”, como na frase “Cette idée me travaille depuis quelque temps.” (Esta ideia me atormenta há algum tempo), acepção, aliás, em desuso em português. Já em italiano, a palavra correspondente é lavorare.
Não bastasse esse passado pouco recomendável, ainda conseguimos, no Brasil, agravar mais o significado, com palavras e expressões como: cavar, ralar, suar, trampar, dar duro, pegar no batente, pegar no pesado, dentre outras. Ninguém que exerça a atividade identificada com essas palavras ou expressões ganha bom salário. Bom salário só ocorre quando a atividade é identificada com expressões do tipo: presidir, gerenciar, dirigir, coordenar, administrar, elaborar um projeto, coordenar um grupo de trabalho, empresariar um jogador de futebol famoso ou uma dupla sertaneja estourada na mídia. Mesmo assim, todos esses, embora remunerem condignamente, também exigem esforço.
No entanto, há certos trabalhos fáceis, suaves, gratificantes (óbvio que não estou pensando no salário mínimo!), isto é, trabalhos moles.
Um deles, por exemplo, é o daqueles papagaios de candidato, que ficam atrás do patrão, nos discursos, balançando a cabeça em sinal de aprovação às grandes ideias apresentadas para a salvação do país. Em tempos de campanha política, é muito fácil vê-los compondo a cena reproduzida nos noticiários das tevês. Lá estão eles, como aquelas tartaruguinhas em miniatura que balançam a cabeça ao menor movimento. E, quanto mais improvável seja o conteúdo da promessa, mais eles balançam a cabeça.
Outro trabalho mole é, nas redações dos jornais, o do cara incumbido de colocar entre parênteses a atualização da data no texto da notícia:
                                   “O líder sindical afirmou:
- Iremos amanhã (hoje) ao Ministério, para fazer nossas reivindicações.”
Viram como esse servicinho é fácil? É só ir lá e colocar nos parênteses.
Um muito tranquilo, de remuneração sempre boa, até porque não exige contrapartida, é o de aspone (assessor de po... nenhuma). Não faz nada, a não ser deixar o paletó no espaldar da cadeira, marcando território, dizendo para todos os idiotas que ralam no setor que aquele lugar tem dono. De vez em quando, tem de trocar o paletó, para não pegar mal.
Mas o trabalho do aspone é um pouco mais difícil do que o do funcionário fantasma, já que este nem precisa ir ao local de “trabalho” depositar o terno. O funcionário fantasma é tão fantasma que lá não aparece, ninguém sabe quem é, ninguém jamais o viu. Mas o salário pinga na conta no fim do mês, senão na sua, naquela de quem lhe deu o cargo. Mas que pinga, lá isso pinga, pode ter certeza!
Personal trainer de dondoca é outro trabalho fácil, bem remunerado e prazeroso. Vá que a dondoca seja carente! Aí a coisa rola (e não, rala!). O ambiente de trabalho é frequentemente agradável: uma bem montada academia, o calçadão das praias de Ipanema, do Leblon ou de Copacabana, ou a própria bela casa de sua pupila. Neste último local, costuma rolar, após as árduas maratonas, um refrescante suco de abacaxi com hortelã com biscoitinhos integrais.


Zé Mayer trampando para ganhar seu salário em "Viver a vida".
 Agora, vamos ser sinceros, o melhor trabalho que existe é o de beijar belas atrizes do cinema e da tevê. A gente fica olhando (digo por meu lado) aqueles abestados beijando a Camila Pitanga, a Paola Oliveira, a Ana Paula Arósio, a Thaís Araújo, dentre outras – isso para ficar só no produto nacional, e ainda receberem salário por isso. Conheço um monte de marmanjos – eu incluído – que até pagaria salário mensal à emissora só para ficar ali, pendurado no beiço daquelas belezuras. De não querer arredar do local em prazo bem alongado. Eh! trabalhinho difícil! Benza, Deus!

28 de outubro de 2010

ESSA INTERNET É UM PERIGO!

Diante do computador conectado, fica-se mais visível que diante desses modernos scanners corporais de aeroportos. Por isso é que ultimamente ando apavorado com a capacidade que a Internet tem de saber dos detalhes mais íntimos da vida da gente. E olhem que não faço parte de nenhuma dessas comunidades de Facebook, Orkut, etc. Não exponho minhas intimidades na rede. Por isso ando com uma pulga atrás da orelha.
Aliás, por falar em Orkut, há uns três anos atrás, Patrick, um jovem de seus vinte anos, meu colega de trabalho – quando ainda me dava a essa veleidade –, me perguntou se eu tinha lá alguma coisa que andava circulando pela Internet. Disse-lhe que não. Do alto de sua irresponsabilidade quase juvenil, disse:
- Então vou entrar no seu Orkut e botar lá.
Imediatamente lhe disse:
- Patrick, você me respeite, que já sou um senhor adentrando na terceira idade e não vou admitir que um cara recém-saído das fraldas ponha qualquer coisa no meu Orkut.
A risadaria foi geral. Mas devo admitir que fiquei constrangido com aquela história. Nomezinho mais esquisito do inventor da coisa! Mas, em Orkut que mamãe botou talquinho, não é qualquer fedelho que vai introduzir nada.
Agora tenho recebido com insistência mensagens eletrônicas, anunciado o paraíso: ora querem me vender Viagra a preço de ocasião, ora se propõem a aumentar o tamanho do meu tênis como num passe de mágica. Uns falam em três centímetros, outros em quatro, cinco e, hoje, chegou um prometendo oito centímetros. Estou ficando muito tentado com essas ofertas. Quando chegarem a vinte centímetros, mais uma caixa de Viagra de brinde, tenho quase certeza de que não vou resistir.
Mas, pensando bem, o que eu faria com os dois?
Quando atingi os sessenta anos, comentei com meu primo Roberto Bedu que a língua portuguesa às vezes é muito irônica. Passamos a ser sexagenários, quando o sexo já está na curva descendente de uma espiral diabólica. Sexagenário deveria ser quando temos vinte, trinta anos. Depois disso, também, já é forçação de barra. Aos sessenta, deveria ser alguma coisa como broxagenário.
Assim, o que eu faria com essas duas maravilhas da ciência moderna que me chegam quase todos os dias em meu correio eletrônico: mais vinte centímetros no meu tênis e uma caixa de Viagra? Vai ser arma pesada, com munição farta, de manipulação quase impossível.
Toda essa conversa fiada me fez lembrar do amigo Fernando Lemos, grande professor de Linguística, que disse, certa vez, que o homem tem três fases, relativamente a sua vida sexual: 1) fase psicológica: é só pensar, que o bicho funciona; 2) fase mecânica: se não manipular, o troço não calibra; e 3) fase hidráulica: é só tesão de mijo, com perdão da expressão chula, e olhe lá!
E, se quiserem dar boas risadas a respeito, é só clicar na seta na imagem, para ouvirem Zé Mulato e Cassiano darem uma explicação musical muito bem humorada sobre o assunto.


PS: Acabou de chegar um e-mail com conselhos para "incendiar o relacionamento". Acho que vou comprar um litro de álcool e uma caixa de fósforo.

27 de outubro de 2010

INADAPTAÇÃO

Auguste Rodin, Os burgueses de Calais
    
a vida não tem mistérios
                porém insoluções
                           ignorâncias
vivê-las
            em permanente violência
a seus limites
é que faz do homem
essa coisa
               mal adaptada à existência

26 de outubro de 2010

ZÉ DE LINO

(Para o professor José Luiz Padilha Martins)

Ao chegar a certa idade, com a cacunda já devastada pelo trabalho árduo, Zé de Lino abandonou a lida da roça, essas coisas de tocar a enxada, carpir mato, cavucar terra para plantar, e aceitou o emprego de zelador do prédio do recém-inaugurado Ginásio Liberdade, vizinho do velho Grupo Escolar Marcílio Dias.
A chegada do curso ginasial à vila também trouxe uma onda de orgulho aos moradores, carentes de melhores oportunidades para seus filhos que quisessem prosseguir os estudos e pudessem, com isso, encontrar novos caminhos a trilhar.
Embora fosse aquilo que se possa chamar de caipira, Zé de Lino sabia muito bem da importância da escola. Ele mesmo tivera filhos que não puderam escapar ao fatalismo de estar visceralmente presos à terra, por conta de suas próprias limitações.
Por isso, a benquerença, a estima por escola e livros se colocava na extremidade oposta de sua parca e mal letrada vida de homem roceiro, que assinava o nome assim, assim, com umas garatujas desgovernadas, caneta e lápis bichos ariscos para suas mãos cheias de calos. Se ele não conseguiu entrar pela porta da frente da escola, não seria por isso que se rebaixaria. Deliberou que, a partir de então, não mais seria aquele mocorongo simplório, de fala estropiada. Já que estava trabalhando no Ginásio Liberdade, tinha de cuidar também do seu jeitão de falar, como cuidaria do prédio e do espaço anexo. E pensou lá com seus botões: “Tá morto o matuto pé-duro. Nasceu um novo homem letrado!”.
Passou, assim, a aproveitar todo tempo vago para ler o que lhe caísse nas mãos. Era com dificuldade, tanto pela fraca instrução, quanto pelas vistas vacilantes, que lia isso e aquilo, tendo no dicionário sua predileção. Às vezes, já tarde da noite, após o serviço, morgava sobre a mesa o corpo cansado a cobrir o livro, a mulher tendo de chamá-lo a ir para a cama.
Não demorou nada e começou a disparar frases e mais frases que passaram a assustar os ouvintes. Ô, diacho! De onde, diabos, Zé de Lino tirava aquelas palavras, de combinação estapafúrdia, para dizer as coisas mais banais do mundo? Se lhe perguntassem simplesmente o que achava do tempo, ele respondia:
- Na minha imaginação cismática, a precipitação de água deixará canídeos submersos!
- Tem fogo aí para um cigarro, seu Zé?
E ele, todo soberbo, voz gutural a sublinhar a frase pomposa:
- Olvidei o equipamento ígneo no recesso do lar.
Ao lhe dizerem “Bom dia, seu Zé!”, a resposta vinha tortuosa, quase esquizofrênica:
- Bom interregno de tempo diário para você também!

Certo dia, tendo faltado material para a limpeza dos banheiros, como lhe comunicou a faxineira, dirigiu-se ao diretor, professor Padilha:
- Vim requerer a Vossa Senhoria a liberação de estipêndios, a fim adquirir no comércio local insumos desinfetantes para as zonas de micção.
E, se o diretor não conhecesse a figura, seria bem provável que o odor de ureia extravasasse os umbrais do mijadouro, pela falta de verba.
Depois de trabalhar o tempo que lhe permitiu requerer a aposentadoria, assim que voltou do posto do INSS, onde protocolara requerimento autuado dentro das exigências burocráticas, anunciou a todos que se encontravam na secretaria da escola:
- Presentemente desejo manifestar o intencionamento de dar baixa nas minhas atividades laborativas e adentrar no rol dos subvencionados pelas burras governamentais.
- O quê?! – espantaram-se todos, sem entender.
- Como diz o vulgo: vou me aposentar, súcia de apedeutas!
Tão logo lhe foi deferida a solicitação pelo órgão do governo, botou o pijama e também aposentou sua linguagem arrevesada para nunca mais. Que aquilo de carpir livro, cavucar dicionário, semear frases, dava um trabalhão danado para os miolos! Afadigava sobremaneira o conteúdo acinzentado da caixa craniana! Arre!

25 de outubro de 2010

NOVAS EXPRESSÕES PARA NOVOS TEMPOS


Uma vez que é irreversível ser politicamente, socialmente, ecologicamente, racialmente, etcmente correto, e tendo em vista algumas palavras e expressões que já circulam por aí, resolvi assumir o troço e também propor a mudança de velhas palavras, carregadas de sentidos preconceituosos, por novas expressões que rompam esse espírito. Abaixo vão algumas (a lista pode aumentar com o passar do tempo).
Em vermelho as formas reprováveis, que não devem mais ser utilizadas por pessoas decentes; ao lado, as formas recomendadas a essas mesmas pessoas. Isso, é claro, se alguém fizer absoluta questão de ser uma pessoa decente neste país!
Quero esclarecer que, sempre antepondo-se à nova expressão, deverá ser usada palavra denotativa de deferência e consideração (cidadão, senhora, senhorita), sem a qual a expressão pode parecer desrespeitosa, o que, convenhamos, é justamente o contrário desta nossa proposta. Tenho a impressão de que uma das razões por que o Japão é tão desenvolvido deve-se ao fato de que lá sempre usam a palavra honorável (san, em japonês, aplicado ao fim da palavra) para tudo. Por exemplo: o guarda do metrô de Tóquio que empurra a multidão de japas para dentro dos apertados vagões é chamado de honorável empurrador, assim como o que puxa, na estação de desembarque, a multidão de japas enlatados é chamado de honorável puxador. Aqui, talvez, esse honorável puxador tivesse outro sentido. Mas isso não vem ao caso agora.
Os repórteres Jilozinho e Totó, assíduos no blog Interrogações, do amigo Zatonio Lahud, têm feito uso, eu diria mesmo que até abusivo, de algumas dessas expressões, vez que, embora residentes ainda na singela São José do Calçado, primam por uma postura civilizada e responsável.
Eis, enfim, a lista:
Agiota > cidadão lucrativamente cobiçoso
Analfabeto > cidadão apartado do abecedário
Anão > cidadão verticalmente prejudicado (Forma que ouvi de Zatonio.)
Árbitro de futebol > cidadão maternalmente mal referido
Baitola > cidadão prazerosamente cessionário das partes pudendas
Bandido > cidadão habitué do Código Penal
Banguela > cidadão odontologicamente deficitário
Branquelo > cidadão desprovido de melanina (Num país tropical, branquelo é injúria grave!)
Bunda-mole > cidadão francamente irresoluto
Cachaceiro > cidadão compulsivamente aderente ao Pró-Álcool
Cafetão > cidadão corretor de serviços sexuais
Caloteiro > cidadão desmemoriado relativamente a dívidas
Careca > cidadão desprevenido de cobertura capilar
Cego > cidadão luminosamente insensível
Cidadão > abestado (Se quiserem, para compor a expressão: cidadão abestado.)
Corno > cidadão galhudamente decorado
Covarde > cidadão especialista em retiradas estratégicas
Desasseado, porco > cidadão padecente de hidrofobia eletiva
Eleitor > cidadão periodicamente iludido em sua boa-fé
Fanho > cindãdão permanentemente nãsõbstruído
Gago > cidadão fa-fe-fi-falante
Gastador > cidadão pendente ao esbanjamento
Gigante > cidadão verticalmente desabusado
Gorda > senhora/senhorita lipofílica ou afeiçoada a tecidos adiposos
Gostosa > senhora/senhorita gostosa (Essa o politicamente correto vai me perdoar!)
Ladrão > cidadão amigo do alheio (Como há muito referido nos jornais de minha terra natal.)
Loura burra> senhora/senhorita nordicodescendente de Q. I. irrisório
Macumbeiro > cidadão afeiçoado aos orixás ancestrais do continente primevo
Magrela > senhora/senhorita osseamente avantajada
Manco > cidadão periclitantemente andarilho
Narigudo > cidadão cyrano-bergeraquense
Negão > cidadão afrodescendente (Não fui eu que inventei essa; forma já consagrada.)
Orelhudo > cidadão auricularmente avantajado
Pão-duro > cidadão monetariamente afeiçoado
Piranha > senhora/senhorita permissionária de serviços sexuais remunerados
Policial > senhor cidadão puliça (É preciso ter mais respeito!)
Portuga > cidadão panificador luso-vascaíno
Preguiçoso > cidadão reconhecidamente ergofóbico
Sapatão > senhora/senhorita sequiosa da fonte da donzela
Surdo-mudo > cidadão sonoramente debilitado
Velho > cidadão etariamente recalcitrante
Zarolho > cidadão ocularmente bifurcado

Espero que, depois desta tentativa de tornar o convívio social mais harmonioso, com o uso de tais expressões, eu não seja taxado de cidadão semeador de vetustas maledicências.