22 de outubro de 2010

UMA VIDA DE FRASES FEITAS

Agora estava ali, sentado no meio-fio da calçada, em frente ao botequim cheio de homens à toa, jogando conversa fora, falando mal da vida alheia, cuspindo o sarro grosso de conhaque barato no chão da rua. Ao seu lado, de pé, o amigo passava-lhe uma descompostura por tudo que fizera. Uma biografia cheia de deméritos.

A mulher expulsara-o de casa pelo acúmulo de desregramentos durante a vida conjugal. O ponto culminante da cordilheira de ignomínias que ergueu foi ter ido a uma pousada beira de praia com seu filho adolescente, que lhe serviria como um álibi, e a amante.

E o pior de tudo é que o próprio filho, com dezoito anos pelas platibandas, aplicou-lhe um par de chifres, lá mesmo, na estada que deveria ter sido idílica, e acabou fugindo com a devastadora para Santa Catarina, onde, além de cobertura na praia da Joaquina, detinha ela ainda cargo na administração federal, cujo salário era de fazer inveja a muito marmanjo. Por isso deu de um tudo ao fedelho, na posse de todas as forças da natureza, benza-o Deus! Do coroa, não quis nem mais saber o número do telefone, que apagou da memória do celular.
Agora estava ali, sentado, chorando, levando um esporro do amigo, e sem condições de contra-argumentar absolutamente nada, por inepta qualquer fundamentação que pudesse desfiar. Sempre fez o que quis. Agora, aguentasse as consequências. A mulher, coitada, sofrera calada todas as traições, sempre recebendo ligações de uma e outra que, por vezes, lhe diziam infâmias, garantido o anonimato do telefone sem identificador de chamada.
Quando tinha qualquer entrevero em casa, ia para esse mesmo botequim encher a cara e dividir parolagens com os amigos de copo, para os quais sempre posava de garanhão inveterado e incorrigível. Voltava, então, já tarde, a mulher dormindo, e enfiava-se na cama sorrateiramente como bicho sem dono.
Agora estava ali, sentado, ouvindo poucas e boas do amigo sincero, que não media palavras, para dizer de seu comportamento censurável, da vida desregrada, da justeza da esposa que o mandara embora, sem mesmo permitir que pegasse uma mísera cueca limpa que fosse. Vai procurar sua turma, canalha! Foi a última frase que ouviu, antes de descer pela escada do prédio, pois teve vergonha do vizinho que esperava o elevador naquele mesmo instante. Não tinha coragem de olhar na cara de ninguém. Por isso foi direto para o botequim, esperando que o Araújo ali estivesse e talvez pudesse falar algo que lhe levantasse o ânimo, lhe desse algum alívio. E o que aconteceu? Ouvia do amigo de tantos tragos e garrafas o que não queria. Daquela cantilena ele já sabia, pois, cada vez que ia para o banho, a água na cabeça lhe dava um pouco de reflexão sobre toda a porqueira em que vivia. Mas era só enxugar os cabelos que tudo parecia voltar ao que era antes. E umas gotas de perfume distribuídas aqui e ali ressuscitavam o sibarita irrecuperável.
Sentava-se à mesa para fazer as refeições, a mulher sempre de cara amarrada, e ele puxando conversa, como se nada tivesse acontecido em tempo algum. O mais inocente dos maridos, o mais santo dos homens. Mas as mulheres sabem mais do que imagina a pretensão masculina. E ela acumulava em cada pé-de-galinha dos olhos a mágoa por ter-se casado com aquele pulha, aquele traste. E, mais hoje, mais amanhã, pensava, iria mandá-lo embora, nem que tivesse que comer o pão que o diabo amassou. E pensava sempre: antes mal acompanhada do que só, como dizia sua já falecida avó Mariquinha, de muitos maridos e muitos defuntos acumulados, cada um pior do que o outro.
Reclamou com o Araújo que até o filho, quando ligava para casa, não queria falar com ele, só com a mãe. Se ele atendesse a ligação, desligava sem dizer nada, mal reconhecesse sua voz. E foi para isso que eu gerei aquele infeliz, Araújo? Indagava, tentando compreender tudo. Se Araújo lhe disse que quem semeia vento colhe tempestade, estaria chovendo no molhado. Ele sabia de todos esses detalhes. Só que nunca imaginou que seu reino fosse ruir como um castelo de areia, levado pela maré.

Agora estava ali, sentado no meio-fio, enxugando as lágrimas que não derramara durante toda a vida e que estariam presentes para o resto dos dias ainda a serem debulhados na folhinha. Sem prazo para se estancarem.

21 de outubro de 2010

PAÍSES

há vários países em meu corpo
vagando por entre as veias
rugindo nos escondidos do meu cérebro
há um país dos corruptos
outro dos entreguistas outro dos poderosos
outro dos ariscos
e um outro tão delével e frágil
que nem sei onde se esconde
só lhe sei o nome bobo:
é o país do povo!

20 de outubro de 2010

FOME

Banham os campos de arroz
de verde e amarelo
a fome do povo
e o desespero da tarde que morre
na serra de Flores.
Não há centeio cevada
apenas o arroz plantado na vargem
enlameando os pés dos homens
costas curvadas como enxadas
e as mãos grossas.
Não há trigo nem soja
só a planura calma
dos cachos dourados do arroz
das vargens de Miracema.
E parece que toda a fome do povo
soluciona-se na visão tranquila
desses arrozais sazonados.

19 de outubro de 2010

TÉDIO

bocejo
olhos em nada
horizonte nulo
paisagem interior zerada
percepções externas adormecidas
o amanhã escrito na areia da praia
todas as convulsões sociais num copo d’água
no quarto em desalinho um cheiro nauseante de dormido
nos tímpanos cansados o som é só um vácuo
e na boca amarga sabor de trapos
nuvens espessas pela sala
desilusões sem rumo
vida sem remédio
tudo inútil
tédio

18 de outubro de 2010

ANTES SÓ DO QUE MAL ACOMPANHADA

Acharam no bolso do cadáver atropelado na esquina bilhete de despedida para a mulher. Não que ele tivesse cometido suicídio. A morte fora uma fatalidade. É que ele já tinha dado o pinote, abandonado o barco matrimonial em meio a uma tempestade doméstica sem precedentes. Então, para não encarar os fatos de frente, para não ter de discutir a relação pela centésima vez nos últimos meses, preferiu uma saída desonrosa. Num momento de distração dela, saiu de mala e cuia, por assim dizer, e foi para um hotel de cavaleiros que fica no centro do Rio de Janeiro, pelos lados da Lapa. Iria mandar o bilhete pelo correio. Só que não houve tempo.

Parece, entretanto, que a moira não concordara com sua atitude e resolveu pregar-lhe uma peça. Antes mesmo que desfizesse as malas e arrumasse suas roupas no armário acanhado do hotel, saiu para comprar cigarro e foi atropelado pelo caminhão de lixo, que resolveu aproveitar a mudança de sinal e avançou na luz amarela. O resultado foi que metade da sua pessoa ficou sob a roda do caminhão. O fedor insuportável que exalava do caminhão, inclusive, espantava os curiosos, que ficaram de longe a observar a cena.

Depois de recolhido pelo rabecão e removido para o IML, teve esse mau passo revelado, porque a agora viúva fora chamada para reconhecer o corpo. Ela, que já estava preocupada com o sumiço do marido desde cedo, suspendeu o choro no necrotério, tão logo viu as mal traçadas linhas com a desculpa esfarrapada em que ele lhe jogava toda a culpa da separação sobre as costas. O traste não teve nem a decência de reconhecer que fracassara como marido, foi o que ela pensou, quando chegou ao fim da leitura. Miserento covarde! Ainda me dá o trabalho de me despencar do Cachambi para vir até o IML e olhar essa cara de tacho, com o estupor da morte estampado nos olhos, continuou pensando.

O médico responsável pela necropsia lera o bilhete e se desculpou pelo fato, dizendo que lamentava muito a situação ter chegado a esse ponto. Ela disse que não era nada, que o casamento já estava mesmo se esboroando, não era de hoje, só que ela não esperava que ele fosse sair sem dizer palavra viva, de própria boca, e usasse o jeito unilateral de dar por encerrada a convivência, sem que ela pusesse o ponto final, o arremate, como era de seu feitio – a última palavra sempre a dela. Agora ali, diante do defunto, tinha seu discurso inconcluso, impossibilitada de lhe dizer poucas e boas, de lhe jogar na cara todas as mágoas e reclamações. Tá bom também!, pensou em seguida. Fico com a pensão dele, recebo o seguro, pinto a casa de verde alface, e sento-me na varanda, para tomar licorzinho com as vizinhas, contando mentiras de minha vida com ele. Todas ficarão com inveja de mim, com dó do sucedido, dizendo que sou muito nova para viver sozinha, que precisarei novamente de um marido bom como ele. E eu vou rir por dentro, disfarçando tudo, sem querer nunca mais saber desse bicho esquisito que é homem, que gosta mais do time de futebol do que da gente, que reclama por pouco sal ou muito sal na comida e ainda tem o desplante de pedir que lhe peguemos uma cervejinha gelada, para não perder o lance do jogo. Faça-me o favor! Antes só, do que mal acompanhada.

17 de outubro de 2010

DEPOIS DO SOL, FOI-SE A VIDA

depois do sol
saiu também da minha vida o teu sorriso
a tua gargalhada lúbrica de bruxa
e não sobrou sorriso pra comemorar
depois da lua
entrou no meu vazio a tua negra ausência
aquele antigo estado d’alma ledo e cego
e uma escuridão atônita de medo
e foi-se o tempo
em que os mesmos pés de milho embonecaram
nas encostas verdes dos morros ondulados
fertilizados pelas chuvas de verão
e foi-se a vida
correndo de mansinho pelas minhas veias
dilaceradas pelas farpas dos teus dedos
sangrando todas os meus sonhos pelo chão

16 de outubro de 2010

DEU LADRÃO NA PENSÃO DE DONA DINORAH

Já quase uma da madrugada e estava estudando Literatura Francesa, para a prova que aconteceria na semana seguinte. Era um sábado e, no meu quarto de três camas, o Milton dormia, depois de ter vindo da casa da noiva, e o Luís do Bá, como sempre, andava pela noite, em libações.

Atento à leitura que fazia, sob a luz de abajur na mesa colada à cabeceira da cama do Milton, não percebi quando ele se levantou para ir ao banheiro. Na volta, sim, porque veio alvoroçado e me disse entre dentes uma frase que foi preciso repetir, porque não atinara para seu sentido:

- Você não sabe de nada e não viu nada!

E se deitou novamente, cobrindo a cabeça com o cobertor ralo típico de moço de pensão.

Não deu dois minutos e entrou pelo quarto, enrolado numa toalha, empunhando uma pistola Mauser 7.65 automática, o vizinho, que entrara pela janela do banheiro, através do telhado da casa da pensão geminada à sua (como já disse no primeiro texto deste blog - Hoje eu vou dormir com um homem de obra). Estava à procura de alguém que tinha chegado à janela do seu banheiro, parede e meia com o banheiro da pensão, no justo momento em que tomava banho, àquela hora da madrugada, sabe-se lá por quê!

Quando me viu, perguntou se percebera alguém entrando no quarto. Aí a ficha me caiu. Falei que não tinha visto ninguém, que estava estudando ali já há um bom tempo e que ninguém entrara no quarto. Ele disse que havia entrado ladrão pela janela do banheiro.

Ao perceber meu colega deitado, todo coberto, puxou-lhe o cobertor e como que reconheceu a cara que vira, num átimo, olhando pela janela.

- Foi você, seu canalha, que estava olhando pela janela do meu banheiro! Por quê? O que é que você queria?

Milton jurou de pés juntos que não fora ele, que não saíra daquela cama desde que se deitara, por volta das onze da noite, pedindo, inclusive, meu testemunho. Garanti que sim, que ele não arredara o corpo da cama.

O homem estava possesso, asseverando que era ele, e saiu procurando pelos outros quartos, vazios àquela hora propícia à boemia.

O pandemônio instalado na parte superior da pensão acabou por acordar Dona Dinorah e as moças que moravam no térreo. Todas ficaram espantadas com o fato de que alguém, supostamente, tenha invadido a casa. Ao saberem da possibilidade de ter sido um ladrão, já escafedido do local, Nêmesis, moça bem humorada, ainda rogou praga no possível invasor, por se ter metido em domínios masculinos do segundo andar, enquanto na parte de baixo, segundo ela, havia várias donzelas desamparadas:

- Bem feito! Tomara que seja preso! Onde já se viu isso: com tanta mulher carente aqui em baixo, vai logo se meter nos quartos dos rapazes!

Passada uma meia hora de tumulto, o vizinho, ainda de arma em punho, falando pelos cotovelos, acreditando piamente que era o Milton o autor da façanha, dizia que não iria prejudicá-lo, levando o caso à polícia, porque sabia ser ele também colega bancário. A suspeita se fez forte, porque Milton esquecera as sandálias de dedo junto da janela. Na contra-argumentação, Milton dizia ser comum os rapazes esquecerem suas sandálias no banheiro. Desculpazinha muito da esfarrapada, que o vizinho não aceitou.

Enfim o vizinho voltou para sua casa e o zum-zum-zum ficou zoando na madrugada da pensão por quase uma hora, até que tudo voltou ao normal.

Tudo sossegado, quis saber do Milton o que, de fato, acontecera.

Ele, com os olhos vermelhos de sono, então me disse que, ao se levantar para ir urinar, ouviu o barulho do chuveiro da casa ao lado. Imaginando que fosse a mulher loura, bonita, gostosa e um tanto dadivosa do vizinho a tomar banho àquela hora, resolveu dar uma olhada, como vários rapazes na pensão faziam. Deu azar, pois era o marido, que viu aqueles grandes olhos curiosos na janela de seu banheiro.

E eu, inocente e bobo na situação, ainda tive de dar falso testemunho para as malandragens do Milton.

Vida em pensão é fogo!