Acharam no bolso do cadáver atropelado na esquina bilhete de despedida para a mulher. Não que ele tivesse cometido suicídio. A morte fora uma fatalidade. É que ele já tinha dado o pinote, abandonado o barco matrimonial em meio a uma tempestade doméstica sem precedentes. Então, para não encarar os fatos de frente, para não ter de discutir a relação pela centésima vez nos últimos meses, preferiu uma saída desonrosa. Num momento de distração dela, saiu de mala e cuia, por assim dizer, e foi para um hotel de cavaleiros que fica no centro do Rio de Janeiro, pelos lados da Lapa. Iria mandar o bilhete pelo correio. Só que não houve tempo.
Parece, entretanto, que a moira não concordara com sua atitude e resolveu pregar-lhe uma peça. Antes mesmo que desfizesse as malas e arrumasse suas roupas no armário acanhado do hotel, saiu para comprar cigarro e foi atropelado pelo caminhão de lixo, que resolveu aproveitar a mudança de sinal e avançou na luz amarela. O resultado foi que metade da sua pessoa ficou sob a roda do caminhão. O fedor insuportável que exalava do caminhão, inclusive, espantava os curiosos, que ficaram de longe a observar a cena.
Depois de recolhido pelo rabecão e removido para o IML, teve esse mau passo revelado, porque a agora viúva fora chamada para reconhecer o corpo. Ela, que já estava preocupada com o sumiço do marido desde cedo, suspendeu o choro no necrotério, tão logo viu as mal traçadas linhas com a desculpa esfarrapada em que ele lhe jogava toda a culpa da separação sobre as costas. O traste não teve nem a decência de reconhecer que fracassara como marido, foi o que ela pensou, quando chegou ao fim da leitura. Miserento covarde! Ainda me dá o trabalho de me despencar do Cachambi para vir até o IML e olhar essa cara de tacho, com o estupor da morte estampado nos olhos, continuou pensando.
O médico responsável pela necropsia lera o bilhete e se desculpou pelo fato, dizendo que lamentava muito a situação ter chegado a esse ponto. Ela disse que não era nada, que o casamento já estava mesmo se esboroando, não era de hoje, só que ela não esperava que ele fosse sair sem dizer palavra viva, de própria boca, e usasse o jeito unilateral de dar por encerrada a convivência, sem que ela pusesse o ponto final, o arremate, como era de seu feitio – a última palavra sempre a dela. Agora ali, diante do defunto, tinha seu discurso inconcluso, impossibilitada de lhe dizer poucas e boas, de lhe jogar na cara todas as mágoas e reclamações. Tá bom também!, pensou em seguida. Fico com a pensão dele, recebo o seguro, pinto a casa de verde alface, e sento-me na varanda, para tomar licorzinho com as vizinhas, contando mentiras de minha vida com ele. Todas ficarão com inveja de mim, com dó do sucedido, dizendo que sou muito nova para viver sozinha, que precisarei novamente de um marido bom como ele. E eu vou rir por dentro, disfarçando tudo, sem querer nunca mais saber desse bicho esquisito que é homem, que gosta mais do time de futebol do que da gente, que reclama por pouco sal ou muito sal na comida e ainda tem o desplante de pedir que lhe peguemos uma cervejinha gelada, para não perder o lance do jogo. Faça-me o favor! Antes só, do que mal acompanhada.
18 de outubro de 2010
17 de outubro de 2010
DEPOIS DO SOL, FOI-SE A VIDA
depois do sol
saiu também da minha vida o teu sorriso
a tua gargalhada lúbrica de bruxa
e não sobrou sorriso pra comemorar
depois da lua
entrou no meu vazio a tua negra ausência
aquele antigo estado d’alma ledo e cego
e uma escuridão atônita de medo
e foi-se o tempo
em que os mesmos pés de milho embonecaram
nas encostas verdes dos morros ondulados
fertilizados pelas chuvas de verão
e foi-se a vida
correndo de mansinho pelas minhas veias
dilaceradas pelas farpas dos teus dedos
sangrando todas os meus sonhos pelo chão
saiu também da minha vida o teu sorriso
a tua gargalhada lúbrica de bruxa
e não sobrou sorriso pra comemorar
depois da lua
entrou no meu vazio a tua negra ausência
aquele antigo estado d’alma ledo e cego
e uma escuridão atônita de medo
e foi-se o tempo
em que os mesmos pés de milho embonecaram
nas encostas verdes dos morros ondulados
fertilizados pelas chuvas de verão
e foi-se a vida
correndo de mansinho pelas minhas veias
dilaceradas pelas farpas dos teus dedos
sangrando todas os meus sonhos pelo chão
16 de outubro de 2010
DEU LADRÃO NA PENSÃO DE DONA DINORAH
Já quase uma da madrugada e estava estudando Literatura Francesa, para a prova que aconteceria na semana seguinte. Era um sábado e, no meu quarto de três camas, o Milton dormia, depois de ter vindo da casa da noiva, e o Luís do Bá, como sempre, andava pela noite, em libações.
Atento à leitura que fazia, sob a luz de abajur na mesa colada à cabeceira da cama do Milton, não percebi quando ele se levantou para ir ao banheiro. Na volta, sim, porque veio alvoroçado e me disse entre dentes uma frase que foi preciso repetir, porque não atinara para seu sentido:
- Você não sabe de nada e não viu nada!
E se deitou novamente, cobrindo a cabeça com o cobertor ralo típico de moço de pensão.
Não deu dois minutos e entrou pelo quarto, enrolado numa toalha, empunhando uma pistola Mauser 7.65 automática, o vizinho, que entrara pela janela do banheiro, através do telhado da casa da pensão geminada à sua (como já disse no primeiro texto deste blog - Hoje eu vou dormir com um homem de obra). Estava à procura de alguém que tinha chegado à janela do seu banheiro, parede e meia com o banheiro da pensão, no justo momento em que tomava banho, àquela hora da madrugada, sabe-se lá por quê!
Quando me viu, perguntou se percebera alguém entrando no quarto. Aí a ficha me caiu. Falei que não tinha visto ninguém, que estava estudando ali já há um bom tempo e que ninguém entrara no quarto. Ele disse que havia entrado ladrão pela janela do banheiro.
Ao perceber meu colega deitado, todo coberto, puxou-lhe o cobertor e como que reconheceu a cara que vira, num átimo, olhando pela janela.
- Foi você, seu canalha, que estava olhando pela janela do meu banheiro! Por quê? O que é que você queria?
Milton jurou de pés juntos que não fora ele, que não saíra daquela cama desde que se deitara, por volta das onze da noite, pedindo, inclusive, meu testemunho. Garanti que sim, que ele não arredara o corpo da cama.
O homem estava possesso, asseverando que era ele, e saiu procurando pelos outros quartos, vazios àquela hora propícia à boemia.
O pandemônio instalado na parte superior da pensão acabou por acordar Dona Dinorah e as moças que moravam no térreo. Todas ficaram espantadas com o fato de que alguém, supostamente, tenha invadido a casa. Ao saberem da possibilidade de ter sido um ladrão, já escafedido do local, Nêmesis, moça bem humorada, ainda rogou praga no possível invasor, por se ter metido em domínios masculinos do segundo andar, enquanto na parte de baixo, segundo ela, havia várias donzelas desamparadas:
- Bem feito! Tomara que seja preso! Onde já se viu isso: com tanta mulher carente aqui em baixo, vai logo se meter nos quartos dos rapazes!
Passada uma meia hora de tumulto, o vizinho, ainda de arma em punho, falando pelos cotovelos, acreditando piamente que era o Milton o autor da façanha, dizia que não iria prejudicá-lo, levando o caso à polícia, porque sabia ser ele também colega bancário. A suspeita se fez forte, porque Milton esquecera as sandálias de dedo junto da janela. Na contra-argumentação, Milton dizia ser comum os rapazes esquecerem suas sandálias no banheiro. Desculpazinha muito da esfarrapada, que o vizinho não aceitou.
Enfim o vizinho voltou para sua casa e o zum-zum-zum ficou zoando na madrugada da pensão por quase uma hora, até que tudo voltou ao normal.
Tudo sossegado, quis saber do Milton o que, de fato, acontecera.
Ele, com os olhos vermelhos de sono, então me disse que, ao se levantar para ir urinar, ouviu o barulho do chuveiro da casa ao lado. Imaginando que fosse a mulher loura, bonita, gostosa e um tanto dadivosa do vizinho a tomar banho àquela hora, resolveu dar uma olhada, como vários rapazes na pensão faziam. Deu azar, pois era o marido, que viu aqueles grandes olhos curiosos na janela de seu banheiro.
E eu, inocente e bobo na situação, ainda tive de dar falso testemunho para as malandragens do Milton.
Vida em pensão é fogo!
Atento à leitura que fazia, sob a luz de abajur na mesa colada à cabeceira da cama do Milton, não percebi quando ele se levantou para ir ao banheiro. Na volta, sim, porque veio alvoroçado e me disse entre dentes uma frase que foi preciso repetir, porque não atinara para seu sentido:
- Você não sabe de nada e não viu nada!
E se deitou novamente, cobrindo a cabeça com o cobertor ralo típico de moço de pensão.
Não deu dois minutos e entrou pelo quarto, enrolado numa toalha, empunhando uma pistola Mauser 7.65 automática, o vizinho, que entrara pela janela do banheiro, através do telhado da casa da pensão geminada à sua (como já disse no primeiro texto deste blog - Hoje eu vou dormir com um homem de obra). Estava à procura de alguém que tinha chegado à janela do seu banheiro, parede e meia com o banheiro da pensão, no justo momento em que tomava banho, àquela hora da madrugada, sabe-se lá por quê!
Quando me viu, perguntou se percebera alguém entrando no quarto. Aí a ficha me caiu. Falei que não tinha visto ninguém, que estava estudando ali já há um bom tempo e que ninguém entrara no quarto. Ele disse que havia entrado ladrão pela janela do banheiro.
Ao perceber meu colega deitado, todo coberto, puxou-lhe o cobertor e como que reconheceu a cara que vira, num átimo, olhando pela janela.
- Foi você, seu canalha, que estava olhando pela janela do meu banheiro! Por quê? O que é que você queria?
Milton jurou de pés juntos que não fora ele, que não saíra daquela cama desde que se deitara, por volta das onze da noite, pedindo, inclusive, meu testemunho. Garanti que sim, que ele não arredara o corpo da cama.
O homem estava possesso, asseverando que era ele, e saiu procurando pelos outros quartos, vazios àquela hora propícia à boemia.
O pandemônio instalado na parte superior da pensão acabou por acordar Dona Dinorah e as moças que moravam no térreo. Todas ficaram espantadas com o fato de que alguém, supostamente, tenha invadido a casa. Ao saberem da possibilidade de ter sido um ladrão, já escafedido do local, Nêmesis, moça bem humorada, ainda rogou praga no possível invasor, por se ter metido em domínios masculinos do segundo andar, enquanto na parte de baixo, segundo ela, havia várias donzelas desamparadas:
- Bem feito! Tomara que seja preso! Onde já se viu isso: com tanta mulher carente aqui em baixo, vai logo se meter nos quartos dos rapazes!
Passada uma meia hora de tumulto, o vizinho, ainda de arma em punho, falando pelos cotovelos, acreditando piamente que era o Milton o autor da façanha, dizia que não iria prejudicá-lo, levando o caso à polícia, porque sabia ser ele também colega bancário. A suspeita se fez forte, porque Milton esquecera as sandálias de dedo junto da janela. Na contra-argumentação, Milton dizia ser comum os rapazes esquecerem suas sandálias no banheiro. Desculpazinha muito da esfarrapada, que o vizinho não aceitou.
Enfim o vizinho voltou para sua casa e o zum-zum-zum ficou zoando na madrugada da pensão por quase uma hora, até que tudo voltou ao normal.
Tudo sossegado, quis saber do Milton o que, de fato, acontecera.
Ele, com os olhos vermelhos de sono, então me disse que, ao se levantar para ir urinar, ouviu o barulho do chuveiro da casa ao lado. Imaginando que fosse a mulher loura, bonita, gostosa e um tanto dadivosa do vizinho a tomar banho àquela hora, resolveu dar uma olhada, como vários rapazes na pensão faziam. Deu azar, pois era o marido, que viu aqueles grandes olhos curiosos na janela de seu banheiro.
E eu, inocente e bobo na situação, ainda tive de dar falso testemunho para as malandragens do Milton.
Vida em pensão é fogo!
15 de outubro de 2010
NÃO HÁ JARDIM NEM FLORES
não há jardim nem flores
muito menos verduras frutas e legumes
hortas e pomares.
a terra está definitivamente calcinada
as fontes de água soterradas
e o ar contaminado
e ninguém sabe ninguém viu
ninguém nem aí.
já o ouro – esse corruptor –
poucos o possuem
e deixam as migalhas para todos
as migalhas da miséria
para repartir como na multiplicação dos peixes e dos pães:
uma concessão benevolente dos novos deuses.
não há pátria nem esperança
apenas o latifúndio improdutivo de alguns
e o desespero degredado de milhões.
não há poesias nem risos
só os ventres vazios os corpos corrompidos
e o horizonte fechado a cadeado.
muito menos verduras frutas e legumes
hortas e pomares.
a terra está definitivamente calcinada
as fontes de água soterradas
e o ar contaminado
e ninguém sabe ninguém viu
ninguém nem aí.
já o ouro – esse corruptor –
poucos o possuem
e deixam as migalhas para todos
as migalhas da miséria
para repartir como na multiplicação dos peixes e dos pães:
uma concessão benevolente dos novos deuses.
não há pátria nem esperança
apenas o latifúndio improdutivo de alguns
e o desespero degredado de milhões.
não há poesias nem risos
só os ventres vazios os corpos corrompidos
e o horizonte fechado a cadeado.
13 de outubro de 2010
HORÓSCOPO
Dia desses faltou energia elétrica, mais uma vez, na
cidade. Sem nada para fazer, fiquei em casa, num canto da sala, quieto,
pensando na vida. Eis senão quando, desandei a psicografar um horóscopo único e
definitivo, com orientações para a vida de cada um. Não sei quem mo ditou (como
diria um gramático purista), mas tenho a impressão de que foi o tal “anjo
torto, desses que vivem na sombra”, do grande Carlos Drummond de Andrade.
Como sei que muita gente não dá um passo na vida sem saber o horóscopo, tento com este resolver a questão, para que vocês não sejam obrigados a consultá-lo todos os dias. Uma vez basta. É como aquela injeção antiga para sífilis, a famosa 1914: se não matava, curava.
Confiram aí e vejam o que se aplica a quem. Coloquei em ordem alfabética, porque o anjo não meu deu a sua cronologia.
Aquário – Você está mais para aquário de peixinho dourado do que para Aquífero Guarani, Lagoa dos Patos ou reservatório de Xingó. Por isso, é bom baixar um pouco a bola, senão sua batata assa. Aproveite e tampe sua caixa-d'água, para evitar a dengue.
Áries – Essa mania de aventura que você tem o máximo que pode permitir é uma pescaria num açude, num fim de semana. Pegue seu símbolo e o transforme numa garateia que, no mínimo, você poderá pegar baiacus e lambaris. Peixe grande? Só em Holywood.
Câncer – Você não é a doença, felizmente. Em compensação, é regido por aquele bicho que só anda de marcha a ré. Já viu: seu futuro está na traseira. E não adianta querer consertar, porque isso é um determinismo astrológico. Os astros não estavam brincando quando o escolheram. Agora aguente!
Capricórnio – Você tem de tomar tenência e procurar fugir desse carma zodiacal, cabra chifrudo! Ou sua vida será uma eterna chacota. Não faça como os de Touro que, não sabendo a força que têm, passam a vida dando cornadas. Entre no rumo, tome tento, cabra chifrudo!
Escorpião – Seu veneno não mata nem de raiva. Não vá usar sua traseira fortuitamente, tentando pegar os outros. Vai que você acabe gostando. Aí não pegará bem, não é mesmo? Principalmente se a sua orientação sexual for tipo positivo/negativo ou negativo/positivo.
Gêmeos – Não se desesperem se, de manhã, vocês não sabem quem sua mãe acordou. Um dia, vocês terão a chance de trabalhar numa novela da Globo. É só fazerem um retrospecto. Se não morrerem antes da próxima, certamente serão convidados a estrelá-la.
Leão – Você pode ser rei pra suas negas e, mesmo assim, lá no mato onde nasceu. Aqui na cidade grande, seu urro virou miado e qualquer vira-lata é mais esperto que você. A propósito: corte essa juba, que você não está na Argentina!
Libra – As coisas andam muito pesadas para você, e suas costas não aguentarão. Procure aliviar um pouco e tire essa empáfia que carrega nos ombros. Vai ajudar bastante. Lembre-se de que sua libra não é a moeda inglesa: é só peso.
Peixes – Tu não estás com nada. Nada fazes, nada esperam de ti. Tu és um nada à esquerda, pior que zero, que, pelo menos, ainda é escrito. Desiste, peixe, e vai procurar teu cardume! Antes que um tubarão te engula. (Ditado por anjo letrista de samba-canção: sempre na segunda pessoa.)
Sagitário – Sua mira é cega. Você não acerta uma e, mesmo assim, continua infernizando a vida da(o) colega de trabalho com diretas e indiretas. Entre num curso de tiro ao alvo ou então aprenda a letra do samba de Adoniran Barbosa.
Touro – Chifre não existe, é uma coisa que botam na sua cabeça. Com base nessa sabedoria popular, é só sair dando cornadas a torto e a direito, sem se importar para o que as más línguas possam dizer. A felicidade é o dom supremo.
Virgem – O que é isso?! Isso está fora de moda! Arranje um preservativo, um anticoncepcional e detone o troço. Se passar muito tempo, aí só na base da britadeira. Pode acontecer, então, de mais ninguém querer colaborar. Vá por mim!
(Omar Xerife, astrólogo egípcio radicado no Badu.)
12 de outubro de 2010
ORAÇÃO
rezarei sobre teu corpo todas as orações
do amanhecer ao sol posto
e traçarei os rumos da minha vida
com a beleza transcendente do teu rosto
no exato momento do gozo
e depois me perderei me salvarei
e inundarei a minha alma sem razão
com os descompassos do teu coração
e me deixarei ficar sem máculas
redimido
por todos os séculos dos séculos
amém
do amanhecer ao sol posto
e traçarei os rumos da minha vida
com a beleza transcendente do teu rosto
no exato momento do gozo
e depois me perderei me salvarei
e inundarei a minha alma sem razão
com os descompassos do teu coração
e me deixarei ficar sem máculas
redimido
por todos os séculos dos séculos
amém
11 de outubro de 2010
NENA E ANQUIMAR
Nena e Anquimar trabalhavam no velho caminhão
Chevrolet Gigante da fábrica de manteiga de Libelton Boechat. Anquimar, o
motorista; Nena, o ajudante, incumbido de tirar e colocar latões de leite na
carroceria. Anquimar tinha o olho esquerdo desviado mais para a esquerda,
estufado, inconfiável para golpes de vista. Nena era fanho, gago, completamente
caolho, cabeça achatada na testa, dentição irregular, queixo embutido, meio
pancado das ideias.
Viviam lá os dois às voltas com o trabalho. Enquanto Nena carregava e descarregava o caminhão, Anquimar ficava cofiando a bigodeira preta, logo abaixo do olho esquisito e de uma pinta escura na bochecha. Nena trabalhava e cantava músicas que até hoje os ouvidos ainda não conseguiram decifrar. Enfim, cantava.
Determinada manhã, após a coleta do leite pelas fazendas e sítios próximos, o velho Chevrolet Gigante adentra o pátio da fábrica para a descarga dos latões. Nena, sobre a alta calçada na mesma linha da carroceria, fanhosamente orienta a manobra de marcha a ré de Anquimar:
- Vem, vem mais; pode vim; vem mais que dá! Vem!
Até que o caminhão bate na calçada.
Anquimar, furioso, sai da boleia e repreende o ajudante, aos gritos:
- Isso é modo de guiar a gente, Nena? Tá vendo: o caminhão bateu!
Nena, no seu quase inocente juízo avariado, argumenta cheio de razão:
- Quem manda ocê ser caolho?
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