8 de outubro de 2010

SENTIMENTOS

rio calmo
e com tal riso vou levando
o caudal que escorre do peito

choro baixo
e com tal choro irrigando
o fértil chão por onde ando

grito brando
e com tal grito reclamando
por nossos perdidos direitos

sofro tanto
e tal sofrimento vem sendo
apenas parte de um mais amplo

gozo pouco
e com tal gozo percebendo
que há gozo muito mais gozoso

sonho alto
e com tal sonho construindo
o mundo novo que invento

7 de outubro de 2010

A GUARDA NOTURNA

Diziam lá na vila que, à noite, estavam acontecendo coisas esquisitas. Não se tinha certeza de que fossem humanas ou sobrenaturais. As madrugadas ficaram, assim, propensas a assustar os moradores em seu tranquilo sono dos cinquenta. Não encontraram eles, então, outra alternativa a não ser instituir uma guarda noturna, que rondasse as ruas, da meia-noite até o dia clarear.

Vila pequena, guarda pequena: só dois homens. Mas dois valentes, dois destemidos, dois desassombrados. Não dois quaisquer. Sobretudo, dois que se dispusessem a deixar a cama quente e a costela da mulher para bater perna num lugarejo sem vitrines, sem luminosos, sem notívagos. A paga pelo trabalho daria para as compras do mês e sobraria um dinheirinho bom.

Tudo acertado, Zé Carola e Nego Souza começaram na nova função. Cada dia, tinham histórias mirabolantes para contar. Perseguições a vultos que desapareciam por entre as trevas, corrida atrás de um provável ladrão de galinha ou de roupa no varal. Até que, numa noite de lua cheia, abarrotada de malefícios e fantasmagorias, um tiro de garrucha ribombou na vaguidão das ruas. Um uivo macabro se ouviu a seguir. E mais tiros e passos de uma perseguição apressada sobre os paralelepípedos. O sol da manhã veio revelar sobre calçadas e pedras do chão marcas de sangue.

O relato dos dois foi de arrepiar os cabelos. O vulto de um cão negro, imenso, surgido das sombras, olhos faiscantes, dentes luminosos arreganhados, baba cintilante, língua vermelha incandescente, a boca ameaçadora a expelir um bafo pestilento. Zé Carola não teve dúvidas: a encarnação do capeta ou o próprio capeta. Num repente, municiou sua garrucha com cartuchos benzidos por Alziro Zarur através das ondas do rádio e mandou chumbo. O coisa ruim, um fogaréu só, fedor insuportável de enxofre, disparou rua abaixo, até desaparecer na figueira perto do valão. Nego Souza confirmou tudo, tudinho, tudinhozinho, tal e qual Zé Carola contou, sem tirar nem pôr. Só que ele também andou dando uns tiros, embora com cartuchos mundanos, sem serventia para essas ocasiões.

Espantadíssimo, o povo, que acreditava até na Carta Brant de Carlos Lacerda, combinou fazer uma novena em desagravo de qualquer coisa que estivesse chamando o belzebu.

Não foi preciso. Domingos Peçanha, pescando no valão da figueira, descobriu estendido no capim o cadáver do vira-lata preto, de nome Azeviche, que era o divertimento das crianças do lugar.

A guarda noturna foi desfeita no dia seguinte, mas os dois juram de pé junto, até hoje, por tudo que é mais sagrado, quero ver a minha mãe morta, que o satanás, príncipe de todos os infernos, andou, em pessoa, assombrando a vila de Santo Antônio da Liberdade, nos idos do governo do Dr. Getúlio, que Deus o tenha!

6 de outubro de 2010

POEMAS BREVES (I)

I.

põe-se o sol sobre as montanhas.
lá em casa ao lado da mesa posta
as crianças brincam de amanhã.
a luz não se apaga simplesmente.
porém tudo é transitório e perene
como o trajeto do sol.

a noite não desce sobre as coisas
e as consciências.
apenas um pouco de escuridão
transita também em nós.

II.

o relógio marca uma hora qualquer
sobre o peito dos desesperados.
o tempo é incêndio devastador
sem controle possível
de extinção imprevista.
do lado de fora da casa os vírus
e as demais vicissitudes
mancomunam-se para tornar a vida
um interstício de um tempo sem medida.

III

não direi trinta e três entre tosses
meu pulmão está ótimo.
não me queixarei ao analista
de minha cabeça múltipla
ela é até lógica.
o que me incomoda
o que não me deixa dormir sossegado
é essa pátria amada
é esse oba-oba
é esse bode.

5 de outubro de 2010

NO BAR

Malaquias resolveu dar uma de macho no bar, mal acabara de chegar. Depois de ter bebido uma cachaça dupla, falou a plenos pulmões:

- Aqui não tem macho! Mas, caso tenha algum, é só esfregar o bigode que já vai entrar no cacete! Homem, comigo, é assim: trato na base do pau, do cacete! E se não gostar, aí é que apanha mais. Quebro o chifre, amasso a cara, ainda deixo o desinfeliz avariado nos países baixos. E não venha tirar farinha comigo, que o caldo entorna de vez. Fico mais bravo que touro miúra, mais venenoso que viúva-negra. Não quero cochicho! Macho não cochicha! Falem alto! Tem uns e outros aí em que eu bato só com um braço, que nem o Natal da Portela. E ainda faço engolir o cigarro e cuspir a cinza. Não quero ninguém cuspindo no chão, senão vou esfregar o nariz do sujeito no escarro.

Como ninguém respondesse, como era de se esperar, Malaquias botou o avental e foi abrir as portas do estabelecimento, que o dia começava cedo no Bar e Restaurante São Jorge, no tradicional bairro de Oswaldo Cruz, a poucos metros da gloriosa Escola de Samba Portela. E não havia melhor terapia para aguentar o rojão até os confins da noite de uma sexta-feira treze, que prometia.

4 de outubro de 2010

ARREPENDIMENTOS QUE MATAM

1.Nem o gigante Adamastor
Caminhava pela calçada da Rua Moreira César, soterrado por toda a inocência do mundo, quando, de repente, saiu do supermercado, passos rápidos, uma mulher loura, superdecotada, short curtinho de doer nos olhos, cabelos longos e jeitos superiores. Sua pele parecia resplandecer ao sol, para usar uma imagem simplesinha, muito pálida diante do objeto descrito. Saíra para fumar, pois, como todos sabem, não se pode mais fazer fumaça sob tetos.

A repentinidade do acontecimento e a corpulência da loura, provida de tudo aquilo que dá inveja até em estátuas de mármore, quase me fizeram voltar ao estágio fetal, impotente e embasbacado com aquilo tudo.

Derrotado em minha pequenez, senti-me impedido de olhar com mais delongas a loura, como é comum acontecer nesses casos. Não tive coragem de usar a tática de fingir que esquecera alguma coisa e voltar dois passos, para depois, novamente, fingir que não esquecera nada, e voltar outros dois, e assim empreender exame mais percuciente que me fizesse apreciar o panorama que se me descortinava à visão.

Entretanto fui imbuído de um acachapante espírito franciscano: eu, simplesmente, não merecia aquilo! Por isso, continuei andando pela calçada, sem sequer me arriscar a um torcicolo justificável. E me arrependo profundamente até hoje. Uma visão daquelas, nem Vasco da Gama diante do gigante Adamastor! Faça-me o favor!

2. Comentário perfunctório
Editon já havia cursado as faculdades de Letras e de Direito, quando se meteu a fazer Museologia. Era um espírito inquieto, que jamais estava preso a limitações. Queria sempre mais. Mas a mistura que a cabeça fazia com tanta informação levava-o, às vezes, a usar palavras e expressões que pareciam rajadas de metralhadora descalibrada em mãos de criança pequena. Certa ocasião, participava de um curso extracurricular e se encantou pela erudição da professora. Ao fim de uma palestra cheia de informações e novidades sobre a arte medieval europeia, com destaque para o Barroco e o Rococó, não se conteve e lhe disse em tom altamente elogioso:

- Mestra, a senhora hoje foi simplesmente perfunctória. Parabéns!

Ao chegar ao trabalho e contar ao colega, foi advertido para o real significado da palavra. Sem acreditar, pegou o dicionário para conferir. Foi um balde de água fria que o Aurélio lançou sobre ele: “Que se faz como simples rotina funcional, e não por necessidade ou visando a um fim útil; superficial, ligeiro.”

E resolveu não voltar para a aula seguinte, a fim de não ser acusado de agnosia.

Arrependeu-se amargamente do desgoverno vocal e se lembrou de Pepeu, Baby e Galvão: “O mal é o que sai da boca do homem”.

3. "Quem é esse cadáver?"
Luciano é seu nome civil. No batistério, consta José Luís, pois o padre se recusou a batizá-lo com o nome que alegou ser pagão. No entanto era simplesmente o Pipa, apelido que fazia jus à sua silhueta arredondada. Na roda de amigos, era reconhecido por sua alegria, sua descontração e o prazer que tinha em fazer galhofas com os demais. Quando começou a trabalhar na Organização Construtora, comércio de material de construção, localizada na Rua Abreu Lima, era um jovem sem experiência e, por isso, foi exercer a função de boy.

Na época, corria por Bom Jesus uma gíria nova, que os rapazes estavam utilizando para se referir a outra pessoa: cadáver. Era comum, então, um amigo passar pelo outro e dizer:

- E aí, cadáver? Que vai fazer hoje, cadáver? Viu o cadáver do Zé Américo aí?

Um tanto esquisito, mas era isso o que acontecia.

Um dos sócios da empresa era conhecido pelo diminutivo de seu prenome, Joãozinho, ou seu Joãozinho, como os empregados o tratavam.

Lá uma tarde, seu Joãozinho determinou que se fizesse um depósito bancário em sua conta pessoal na agência do Banco do Brasil. Chamei o Pipa, já com a ficha de depósito preenchida e o dinheiro correspondente, e pedi que ele fosse até o banco.

- Pipa, por favor, faça esse depósito na conta de João Batista Ferreira Borges, no Banco do Brasil.

Gaiato como sempre, cheio de dentes na boca debochada, perguntou do topo da escada que dava acesso ao escritório, ao lado da mesa do patrão, que lá estava:

- Quem é esse cadáver?

Da mesa detrás, apontei discretamente para o patrão, que teve a cor das orelhas passada, em fração de segundos, do rosa para o roxo.

Daí em diante, com o arrependimento atravessado na goela, Pipa tratou de baixar sua bola e ter mais concentração no trabalho, senão iria parar no olho da rua.

No entanto, na verdade, seu Joãozinho deu boas gargalhadas, depois que o funcionário boquirroto saiu para o banco.

2 de outubro de 2010

CHUVAS DE INVERNO (a partir de Fernando Lobo)

Podemos ser amigos
Não tão simplesmente que não nos toquemos.
E nas noites chuvosas de inverno
Em que as gotas parecem infiltrar-se na alma
Possamos estar juntinhos
Corpos cosidos um no outro
A se condoerem
A se machucarem
Nas coisas sempre do amor.

1 de outubro de 2010

O CONSERTADOR DO MUNDO

- Vou consertar o mundo! – proclamou em voz alta, numa tarde fresca do mês de setembro, por entre as bananeiras do quintal, no alto da Serra da Cachoeira Alegre, no distrito de Carabuçu, no município de Bom Jesus do Itabapoana, Estado do Rio de Janeiro, o cidadão que atendia pelo nome de registro de Antônio Fonseca da Assumpção, assim mesmo com a grafia antiga.

Dá-se a localização precisa, para que se perceba a gravidade do brado que partiu daquele homem pretensioso e da rápida reviravolta em suas pretensões caboclas.

Ele nunca tinha ultrapassado os limites do distrito em que nascera, há coisa de trinta e tantos anos, e achava um borbotão de coisas erradas. O plano da criação era falho: havia lacunas a serem preenchidas, itens a serem criados, alguns a serem reformados, outros a desaparecerem. Por exemplo, nestes últimos, ele queria saber qual era a utilidade do berro da vaca. Aquilo só incomodava. Ninguém entendia língua de vaca: nem o boi, nem os bezerros. Para que, então, ela ficar berrando? A bosta, não, a bosta servia de adubo, tinha lá sua serventia. Mas o berro era de uma inutilidade só. Comentando isso na venda do Valter, num sábado tranquilo de primavera, teve o desgosto de ouvir do amigo de talagadas João Simplício que o leite Mococa estava usando o berro da vaca na propaganda do rádio: “A vaquinha Mococa está mugindo / A vaquinha Mococa está dizendo / Beba leite em pó Mococa!” – e a vaquinha a berrar a cada verso cantado. O abalo na sua convicção durou até o próximo gole. Já mais calibrado, voltou a defender seu ponto de vista.

Outras coisas que mereciam seu reparo eram o arroz e o abacaxi. Onde já se viu? Gasta-se uma quantidade exorbitante de água para cultivar o arroz e sai aquele grão pequenininho e seco, duro que só ele, enquanto o abacaxi, plantado no areal, na terra seca, é cheio de caldo, cheio de sumo. Está-se vendo que o troço foi mal planejado: desperdiça de um lado e falta do outro. Tinha de haver um equilíbrio. E o tamanho da árvore da gabiroba, para o tamanho da frutinhazinha furreca que ela dá? Para que uma árvore tão grande para produzir uma fruta tão pequena, ao passo que a abóbora, grande do jeito que é, nasce pelo chão em rama que não dá para sustentar um abacaxi? Estava tudo errado, mal planejado e mal executado!

E a mulher do Zé Portinho? Aquilo era uma aberração da natureza, um atentado ao bom gosto de tão feia e porcamente acabada. Tinha que passar por uma reforma total: do chassi à carroceria, incluindo os estofados. Faça-me o favor! O problema seria convencer o marido da necessidade da obra. O negócio era de tal vulto, que ele ainda não tinha decidido por onde começar: se nas partes de baixo, se nas partes de cima, pelo porão ou pela cumeeira. Mas que era de urgência, isso lá era! E ria, quando falava assim.

Foi acabar de tecer essas considerações e o Zé Portinho surgir porta adentro da venda do Valter, curvando seu corpão dobrado no balcão. João Simplício fingiu que ia lá fora cuspir, porque julgou que o caldo ia entornar, a situação ia catingar a chifre queimado.

O de sobrenome Assumpção, pego de surpresa com a aparição do outro, não titubeou:

- Amigo Zé Portinho, que muito me estima sua amizade! Tenho um negócio muito bom pra lhe propor, coisa que só um amigo faz para o outro!

Do lado de fora da venda, João Simplício sentiu um frio na barriga, prevendo tragédia anunciada. E pensou com seus botões: não quero nem ouvir!

- Pois diga lá, Tonico! Se é negócio bom, é comigo mesmo! – falou com disposição Zé Portinho.

- Tou precisando vender a minha tropa de burros e a chácara, pra mode pagar uma dívida que tenho com o amigo João Simplício, ali fora cuspindo, e cair nesse mundão de Deus, porque tenho umas intenções aqui na cabeça que espero realizar em antes de morrer.

João Simplício não acreditou no que acabara de ouvir. Voltou para dentro da venda e percebeu que o efeito da camulaia não era tão bravo assim. O amigo tinha tomado juízo.

- Ora, bote preço, que eu vejo se posso pagar. – disse Zé Portinho.

- Quase nem um nada, amigo Portinho! Coisa de pouca monta, de pouco valor. Você me dá três contos de réis, passo tudo para o amigo de papel passado, na conformidade dos cartórios.

- Três contos de réis é meio muito, Tonico! Se você aceitar oferta, posso até pensar no caso.

- Pois oferte, que tou aqui para negociar!

- Já que o amigo diz que vai cair no mundo, vai precisar de uma boa montaria. Dou meu cavalo pampo, arreado, e mais dois contos de réis.

- Que é isso, amigo, tá desfazendo da minha propriedade? Se chegar a dois e meio mais o pampo, eu fecho com você!

- Vamos fazer o seguinte, amigo Tonico: o cavalo arreado, dois contos de réis e pode levar a patroa consigo, que tou abrindo mão dela também.

- Que isso, Zé Portinho? Aí nem com cinco contos de réis eu topo o negócio. Manta em amigo não se dá, companheiro!

E foi uma risadaria só, a roda de cachaça se renovando entre aqueles homens rudes.

Depois dessa, Antônio Fonseca da Assumpção, assim mesmo com a grafia antiga, parou com a besteira de querer consertar o mundo. É melhor deixar tudo como está, inclusive a dívida com o amigo João Simplício. No fim, tudo se arranja, mas a feiura da mulher do Zé Portinho, nem com dez encarnações!