5 de outubro de 2010

NO BAR

Malaquias resolveu dar uma de macho no bar, mal acabara de chegar. Depois de ter bebido uma cachaça dupla, falou a plenos pulmões:

- Aqui não tem macho! Mas, caso tenha algum, é só esfregar o bigode que já vai entrar no cacete! Homem, comigo, é assim: trato na base do pau, do cacete! E se não gostar, aí é que apanha mais. Quebro o chifre, amasso a cara, ainda deixo o desinfeliz avariado nos países baixos. E não venha tirar farinha comigo, que o caldo entorna de vez. Fico mais bravo que touro miúra, mais venenoso que viúva-negra. Não quero cochicho! Macho não cochicha! Falem alto! Tem uns e outros aí em que eu bato só com um braço, que nem o Natal da Portela. E ainda faço engolir o cigarro e cuspir a cinza. Não quero ninguém cuspindo no chão, senão vou esfregar o nariz do sujeito no escarro.

Como ninguém respondesse, como era de se esperar, Malaquias botou o avental e foi abrir as portas do estabelecimento, que o dia começava cedo no Bar e Restaurante São Jorge, no tradicional bairro de Oswaldo Cruz, a poucos metros da gloriosa Escola de Samba Portela. E não havia melhor terapia para aguentar o rojão até os confins da noite de uma sexta-feira treze, que prometia.

4 de outubro de 2010

ARREPENDIMENTOS QUE MATAM

1.Nem o gigante Adamastor
Caminhava pela calçada da Rua Moreira César, soterrado por toda a inocência do mundo, quando, de repente, saiu do supermercado, passos rápidos, uma mulher loura, superdecotada, short curtinho de doer nos olhos, cabelos longos e jeitos superiores. Sua pele parecia resplandecer ao sol, para usar uma imagem simplesinha, muito pálida diante do objeto descrito. Saíra para fumar, pois, como todos sabem, não se pode mais fazer fumaça sob tetos.

A repentinidade do acontecimento e a corpulência da loura, provida de tudo aquilo que dá inveja até em estátuas de mármore, quase me fizeram voltar ao estágio fetal, impotente e embasbacado com aquilo tudo.

Derrotado em minha pequenez, senti-me impedido de olhar com mais delongas a loura, como é comum acontecer nesses casos. Não tive coragem de usar a tática de fingir que esquecera alguma coisa e voltar dois passos, para depois, novamente, fingir que não esquecera nada, e voltar outros dois, e assim empreender exame mais percuciente que me fizesse apreciar o panorama que se me descortinava à visão.

Entretanto fui imbuído de um acachapante espírito franciscano: eu, simplesmente, não merecia aquilo! Por isso, continuei andando pela calçada, sem sequer me arriscar a um torcicolo justificável. E me arrependo profundamente até hoje. Uma visão daquelas, nem Vasco da Gama diante do gigante Adamastor! Faça-me o favor!

2. Comentário perfunctório
Editon já havia cursado as faculdades de Letras e de Direito, quando se meteu a fazer Museologia. Era um espírito inquieto, que jamais estava preso a limitações. Queria sempre mais. Mas a mistura que a cabeça fazia com tanta informação levava-o, às vezes, a usar palavras e expressões que pareciam rajadas de metralhadora descalibrada em mãos de criança pequena. Certa ocasião, participava de um curso extracurricular e se encantou pela erudição da professora. Ao fim de uma palestra cheia de informações e novidades sobre a arte medieval europeia, com destaque para o Barroco e o Rococó, não se conteve e lhe disse em tom altamente elogioso:

- Mestra, a senhora hoje foi simplesmente perfunctória. Parabéns!

Ao chegar ao trabalho e contar ao colega, foi advertido para o real significado da palavra. Sem acreditar, pegou o dicionário para conferir. Foi um balde de água fria que o Aurélio lançou sobre ele: “Que se faz como simples rotina funcional, e não por necessidade ou visando a um fim útil; superficial, ligeiro.”

E resolveu não voltar para a aula seguinte, a fim de não ser acusado de agnosia.

Arrependeu-se amargamente do desgoverno vocal e se lembrou de Pepeu, Baby e Galvão: “O mal é o que sai da boca do homem”.

3. "Quem é esse cadáver?"
Luciano é seu nome civil. No batistério, consta José Luís, pois o padre se recusou a batizá-lo com o nome que alegou ser pagão. No entanto era simplesmente o Pipa, apelido que fazia jus à sua silhueta arredondada. Na roda de amigos, era reconhecido por sua alegria, sua descontração e o prazer que tinha em fazer galhofas com os demais. Quando começou a trabalhar na Organização Construtora, comércio de material de construção, localizada na Rua Abreu Lima, era um jovem sem experiência e, por isso, foi exercer a função de boy.

Na época, corria por Bom Jesus uma gíria nova, que os rapazes estavam utilizando para se referir a outra pessoa: cadáver. Era comum, então, um amigo passar pelo outro e dizer:

- E aí, cadáver? Que vai fazer hoje, cadáver? Viu o cadáver do Zé Américo aí?

Um tanto esquisito, mas era isso o que acontecia.

Um dos sócios da empresa era conhecido pelo diminutivo de seu prenome, Joãozinho, ou seu Joãozinho, como os empregados o tratavam.

Lá uma tarde, seu Joãozinho determinou que se fizesse um depósito bancário em sua conta pessoal na agência do Banco do Brasil. Chamei o Pipa, já com a ficha de depósito preenchida e o dinheiro correspondente, e pedi que ele fosse até o banco.

- Pipa, por favor, faça esse depósito na conta de João Batista Ferreira Borges, no Banco do Brasil.

Gaiato como sempre, cheio de dentes na boca debochada, perguntou do topo da escada que dava acesso ao escritório, ao lado da mesa do patrão, que lá estava:

- Quem é esse cadáver?

Da mesa detrás, apontei discretamente para o patrão, que teve a cor das orelhas passada, em fração de segundos, do rosa para o roxo.

Daí em diante, com o arrependimento atravessado na goela, Pipa tratou de baixar sua bola e ter mais concentração no trabalho, senão iria parar no olho da rua.

No entanto, na verdade, seu Joãozinho deu boas gargalhadas, depois que o funcionário boquirroto saiu para o banco.

2 de outubro de 2010

CHUVAS DE INVERNO (a partir de Fernando Lobo)

Podemos ser amigos
Não tão simplesmente que não nos toquemos.
E nas noites chuvosas de inverno
Em que as gotas parecem infiltrar-se na alma
Possamos estar juntinhos
Corpos cosidos um no outro
A se condoerem
A se machucarem
Nas coisas sempre do amor.

1 de outubro de 2010

O CONSERTADOR DO MUNDO

- Vou consertar o mundo! – proclamou em voz alta, numa tarde fresca do mês de setembro, por entre as bananeiras do quintal, no alto da Serra da Cachoeira Alegre, no distrito de Carabuçu, no município de Bom Jesus do Itabapoana, Estado do Rio de Janeiro, o cidadão que atendia pelo nome de registro de Antônio Fonseca da Assumpção, assim mesmo com a grafia antiga.

Dá-se a localização precisa, para que se perceba a gravidade do brado que partiu daquele homem pretensioso e da rápida reviravolta em suas pretensões caboclas.

Ele nunca tinha ultrapassado os limites do distrito em que nascera, há coisa de trinta e tantos anos, e achava um borbotão de coisas erradas. O plano da criação era falho: havia lacunas a serem preenchidas, itens a serem criados, alguns a serem reformados, outros a desaparecerem. Por exemplo, nestes últimos, ele queria saber qual era a utilidade do berro da vaca. Aquilo só incomodava. Ninguém entendia língua de vaca: nem o boi, nem os bezerros. Para que, então, ela ficar berrando? A bosta, não, a bosta servia de adubo, tinha lá sua serventia. Mas o berro era de uma inutilidade só. Comentando isso na venda do Valter, num sábado tranquilo de primavera, teve o desgosto de ouvir do amigo de talagadas João Simplício que o leite Mococa estava usando o berro da vaca na propaganda do rádio: “A vaquinha Mococa está mugindo / A vaquinha Mococa está dizendo / Beba leite em pó Mococa!” – e a vaquinha a berrar a cada verso cantado. O abalo na sua convicção durou até o próximo gole. Já mais calibrado, voltou a defender seu ponto de vista.

Outras coisas que mereciam seu reparo eram o arroz e o abacaxi. Onde já se viu? Gasta-se uma quantidade exorbitante de água para cultivar o arroz e sai aquele grão pequenininho e seco, duro que só ele, enquanto o abacaxi, plantado no areal, na terra seca, é cheio de caldo, cheio de sumo. Está-se vendo que o troço foi mal planejado: desperdiça de um lado e falta do outro. Tinha de haver um equilíbrio. E o tamanho da árvore da gabiroba, para o tamanho da frutinhazinha furreca que ela dá? Para que uma árvore tão grande para produzir uma fruta tão pequena, ao passo que a abóbora, grande do jeito que é, nasce pelo chão em rama que não dá para sustentar um abacaxi? Estava tudo errado, mal planejado e mal executado!

E a mulher do Zé Portinho? Aquilo era uma aberração da natureza, um atentado ao bom gosto de tão feia e porcamente acabada. Tinha que passar por uma reforma total: do chassi à carroceria, incluindo os estofados. Faça-me o favor! O problema seria convencer o marido da necessidade da obra. O negócio era de tal vulto, que ele ainda não tinha decidido por onde começar: se nas partes de baixo, se nas partes de cima, pelo porão ou pela cumeeira. Mas que era de urgência, isso lá era! E ria, quando falava assim.

Foi acabar de tecer essas considerações e o Zé Portinho surgir porta adentro da venda do Valter, curvando seu corpão dobrado no balcão. João Simplício fingiu que ia lá fora cuspir, porque julgou que o caldo ia entornar, a situação ia catingar a chifre queimado.

O de sobrenome Assumpção, pego de surpresa com a aparição do outro, não titubeou:

- Amigo Zé Portinho, que muito me estima sua amizade! Tenho um negócio muito bom pra lhe propor, coisa que só um amigo faz para o outro!

Do lado de fora da venda, João Simplício sentiu um frio na barriga, prevendo tragédia anunciada. E pensou com seus botões: não quero nem ouvir!

- Pois diga lá, Tonico! Se é negócio bom, é comigo mesmo! – falou com disposição Zé Portinho.

- Tou precisando vender a minha tropa de burros e a chácara, pra mode pagar uma dívida que tenho com o amigo João Simplício, ali fora cuspindo, e cair nesse mundão de Deus, porque tenho umas intenções aqui na cabeça que espero realizar em antes de morrer.

João Simplício não acreditou no que acabara de ouvir. Voltou para dentro da venda e percebeu que o efeito da camulaia não era tão bravo assim. O amigo tinha tomado juízo.

- Ora, bote preço, que eu vejo se posso pagar. – disse Zé Portinho.

- Quase nem um nada, amigo Portinho! Coisa de pouca monta, de pouco valor. Você me dá três contos de réis, passo tudo para o amigo de papel passado, na conformidade dos cartórios.

- Três contos de réis é meio muito, Tonico! Se você aceitar oferta, posso até pensar no caso.

- Pois oferte, que tou aqui para negociar!

- Já que o amigo diz que vai cair no mundo, vai precisar de uma boa montaria. Dou meu cavalo pampo, arreado, e mais dois contos de réis.

- Que é isso, amigo, tá desfazendo da minha propriedade? Se chegar a dois e meio mais o pampo, eu fecho com você!

- Vamos fazer o seguinte, amigo Tonico: o cavalo arreado, dois contos de réis e pode levar a patroa consigo, que tou abrindo mão dela também.

- Que isso, Zé Portinho? Aí nem com cinco contos de réis eu topo o negócio. Manta em amigo não se dá, companheiro!

E foi uma risadaria só, a roda de cachaça se renovando entre aqueles homens rudes.

Depois dessa, Antônio Fonseca da Assumpção, assim mesmo com a grafia antiga, parou com a besteira de querer consertar o mundo. É melhor deixar tudo como está, inclusive a dívida com o amigo João Simplício. No fim, tudo se arranja, mas a feiura da mulher do Zé Portinho, nem com dez encarnações!

30 de setembro de 2010

DEDOS DE PROSA I - AS ELEIÇÕES ESTÃO AÍ!

i - Brasília fede

Em Brasília, Joaquim Roriz, homem probo e limpo de espírito, praticamente uma Vestal da política brasileira, tirou seu cavalinho da chuva e pediu que seus fiéis idiotas – desculpem! – seus fiéis eleitores votem na dona patroa. Se ela desistir, poderão votar no seu cachorro, no seu cágado ou em qualquer pau-mandado que ele indicar.

Aliás, corre na grande rede vídeo* do debate de que participou dona patroa. Foi lamentável! O que é aquilo? Fiquei com vergonha de ver!

Parece que Brasília nasceu com vocação para latrina. É uma pena!

ii - Só mané

Enquanto a legislação eleitoral aceitar a inscrição de candidatos que se escondem atrás de apelidos, ridículos ou não, a política brasileira será essa degradação que se vê. É óbvio que nem todas as mazelas provêm disso. Mas já é um indício de que as coisas vão mal.

O eleitor é obrigado a levar o desacreditado título, cuja validade será atestada por mais um documento com foto, para votar em Tiririca, Zé do Posto, Antônio da Birosca, Neguinho da Água, Leo do Bode, Boy Malvão, Mc Geleia, Barriga do Açougue, Filé, Zé Bonitinho, Eu Faz, Papinha, Broder, Beko Negão, Bimbim, Burrinho da Oficina, Chica Chiclete, Zezinho Merda, Xota Oi Meu Bem, etc., etc.

iii - O eleitor tem de ser idôneo

Não sei se, com a falta de decisão sobre a ficha limpa (ou suja, como queiram), o STF agiu como Pôncio Pilatos, lavando as mãos e postergando sua posição definitiva. Com isso a canalha vai continuar com o direito de se candidatar? Seria assim uma nova espécie de indulgência plenária? Talvez sim!

No entanto esse povinho que milita nos códigos e nas contravenções penais não pagou nada por essa indulgência, como era comum no passado. Ao contrário, surrupiou, tirou, roubou, fraudou, enganou, iludiu, falsificou, matou, traficou, desviou, contrabandeou, prevaricou, açambarcou, invadiu, depredou, cooptou, subornou, foi subornado, malversou, dilapidou, saqueou, despojou, sonegou, etc., etc. E vai continuar faceiro, rindo da cara do eleitor, que terá de levar título+documento com foto para provar que não está cometendo falsidade ideológica e é idôneo para exercer seu dever.

iv - Amputado estadual

Fui ao Rio de Janeiro ontem e vi na Praça Quinze, à saída da estação das barcas, meio boneco gigante do candidato Wagner Montes. Era apenas o busto, vestido com um paletozão escuro, sua cara esculpida em papel machê.

Tomei um susto pelo tamanho do boneco, mas fiquei encasquetado. O Wagner, afinal, tem apenas uma perna ou não tem nenhuma, como seu boneco de propaganda? Escraaacha!

Ê eleiçãozinha mais rastaquera, sô! Mas domingo estarei lá, apertando botões para tentar criar alguma coisa melhor do que temos aí e não uma hecatombe nuclear.

(*Se quiserem ter o mesmo desgosto meu, o endereço é http://www.youtube.com/watch?v=tPAFK_3nx9k)

28 de setembro de 2010

TIO AURÉLIO

Do alpendre, era possível ver os animais pastando, o milharal subindo pela encosta do morro, os cafezais até as grimpas e o arroz no brejo, à esquerda da casa. Bem diante dos olhos, do outro lado da estrada poeirenta, o pé de jenipapo frondoso fornecia sombra para os burros da tropa. Atrás da casa, fora do alcance da vista de quem estivesse no alpendre, o viveiro de café coberto por um maracujazeiro de frutos generosos. O galinheiro repleto, o chiqueiro e as cevas, onde os capados engordavam. Além do valão, que corria dolentemente sobre um leito de areia limpa, as embaúbas com suas preguiças lerdas de séculos e as bananeiras. Ainda as goiabeiras, os limoeiros, as mamoneiras. Mas, sobretudo, os filhos e os sobrinhos, sempre em corriolas alegres, aumentavam-lhe a satisfação de ter construído alguma coisa de mais sólido, de mais perene. E olhava para tudo, como se olhasse por uma nesga do tempo que lhe antecipasse os dias vindouros. Ele, sempre de bom humor com tudo e com todos.

Com a política do governo para os cafeicultores, também foi obrigado a erradicar seu cafezal, que substituiu por gado leiteiro. E sua propriedade, se continuou rendendo o de sempre, ficou porém pobre de gente, de colonos, de meeiros, de tropeiros, de seleiros, esse povo todo que habitava os campos e as roças.

Agora, em vez da verdura das plantações, ouvia o mugido das vacas e sentia no ar o cheiro de bosta de boi, que, embora ativo, não repugnava.

Os filhos e os sobrinhos cresceram e caíram no mundo, como se diz. A seguir, vieram os netos e tudo continuou na mesma, a vida tocada no compasso da boiada atravessando estradas à procura de pastos.

Um dia, o coração derrubou-o na escada da cozinha, a cabeça batida contra os degraus. Os filhos socorreram, a mulher atendeu-o com cuidado. Recuperou-se. Parecia melhor. Porém o coração em frangalhos, cirurgia impossível. Fosse tateando a vida, redobrasse os cuidados.

Outro dia, o último, o coração fulminou-o quase no mesmo lugar, sem dar tempo a que as lágrimas tivessem esperança. Ele, que soube, principalmente, ser bem-humorado, teve um velório triste, um enterro melancólico, lúgubre. Parece que levou consigo a alegria que andava espalhando da Fazenda do Jacó à vila de Carabuçu.

27 de setembro de 2010

TOCANDO A VIDA

(Em memória de Crival Braz de Assis, e para seus filhos Roberto, Ana Maria, Adriano, Anselmo e Leandro.)

Há gente que só faz besteira na vida! Há gente que tenta acertar. Mas, se tirar pelo que já fez, ele se pode dar por satisfeito. É só observar os descendentes. Mas é possível ainda mais, examinando tudo detalhadamente. Olha só as muitas roças que botou. Espia só os muitos peixes que pescou por açudes, poços, valões e rios. Presta bem atenção na casa feliz que erigiu do nada, dureza e felicidade escapando por portas e janelas. Põe bastante sentido nos amigos que plantou como chuchu. Atina bem para os casais que juntou em nome da lei, ele juiz de paz da roça. E vai ver que um homem assim conseguiu extrapolar seus limites e invadir o de seus conterrâneos da vilazinha perdida no norte do Estado.

Agora está ele arrancado à força da sua vidinha maneira, tranquila, pra mode tratar dos rins, com um sanativo de nome esquisito, num aparelho danado de complicado, que fica filtrando seu sangue, até que os dias se consumam e a luz dos seus olhos se apague como chama de toco de vela soprada pela viração que vem do pasto.

A vila ficou pra lá. Impossível sobreviver nela, sem a parafernália médica.

A vida, talvez, tenha ficado também por lá. Impossível viver nesta barafunda toda do Rio de Janeiro.

Os dias, assim, se sucedem na intransigência de uma doença que, se não soube levá-lo de roldão feito as enxurradas descidas das serras, quer, por todos os meios, dizer para ele que a vida anda cheia de tristezas.

Mentira, tudo mentira! É só espiar a mulher amorosa, os filhos, os netos, os amigos de pescaria, os parceiros de sinuca, o campo amarelando, a colheita enchendo os balaios e as tulhas, a...

(Escrito um pouco antes do falecimento do Crevalzinho, em 1987.)