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14 de fevereiro de 2015

À PROCURA DA MÃE

(Em memória de meu pai, Argemiro.)
Lá por seus noventa e dois anos, meu pai começou a apresentar os primeiros sintomas de demência senil, expressão que mamãe odeia, sobretudo com episódios noturnos. Embora o tratamento a que se submetera tenha dado resultados que impressionaram seu médico, o quadro era de progressão do mal. Ele apresentava algumas calcificações no lobo frontal, o que lhe causava as perturbações comuns à doença.
Aos poucos, contudo, foi entrando num processo de perda progressiva do senso da realidade. Ou pelo menos daquilo que nos parecia a realidade palpável do cotidiano. Até que chegou ao fim de sua existência, aos noventa e cinco anos, já sem reconhecer os filhos e netos, sem falar, sem andar, sem se alimentar normalmente. Talvez só reconhecesse minha mãe, sua mulher de muitos e muitos janeiros. Isto é, ao meu juízo, um tipo de ingratidão que a natureza nos proporciona: permite que o corpo sobreviva, sem qualidade de vida, embora a mente já há muito tenha procurado outros voos, outras paragens.
Um dos episódios que me marcaram – e que estou aqui trazendo aos meus caros leitores – foi o de seu desejo de reencontrar a mãe.
Por essa época, ele ainda andava, tinha certos momentos de lucidez, e foi tomado pela vontade infantil de rever a mãe. Queria de todas as formas que ela o viesse visitar. Pediu-me, inclusive, para que eu telefonasse para ela – um telefone inexistente, para uma pessoa já inexistente –, porque precisava muito dela. E me disse com jeito de menino chorão:
- Meu filho, eu sem ela não sou nada! Mas não lhe diga que estou neste estado.
Sua mãe tinha falecido tragicamente há uns sessenta anos. Desgraçadamente ele a viu em sua cena de morte, enforcada no baldrame do curral da propriedade do meu avô, acometida que fora por uma depressão violenta, depois que tivera a notícia de que estaria com câncer. Tal imagem, tenho certeza, jamais lhe saiu da memória. E, por isso mesmo, em nossa casa, era tabu tocar no nome da vovó Benedita, para que não se reabrissem velhas feridas incuráveis.
Como eu dissesse que não sabia o telefone dela, ele exigiu que o levássemos a Carabuçu, vilazinha onde nascemos todos, e quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana. Sem ter como lhe negar isto, mas sabendo que seria missão impossível encontrá-la, combinei com minha irmã Verônica e minha sobrinha Fernanda que sairíamos, tal exército Brancaleone, à procura do seu graal perdido.
Pegamos a estrada do lado capixaba, margeando o Rio Itabapoana, num dos caminhos para chegar até a vila, a qual estrada atravessa a cidade de Apiacá, antes de se voltar ao lado fluminense. E fomos comentando durante o trajeto que as coisas estavam muito mudadas, que Carabuçu já não era mais a mesma vila que ele deixara, que talvez fosse difícil encontrar a casa da vovó Benedita, localizada na rua da farmácia do Antônio Miranda, como ele informara com veemência para nós.
Entrando em Apiacá, começamos a nos admirar como as coisas estavam mudadas, de quase se não as reconhecerem, com casas novas, asfalto nas ruas, tentando fingir que ali era Carabuçu. Na praça principal da cidade, bem em frente à igreja, parei o carro, desci e fui até uma banca de revistas fingir que tomaria informações acerca da localização da casa da dona Benedita, mulher do seu Chico Albino, que ficava na rua da farmácia do Antônio Miranda.
Voltei algum tempo depois, dizendo que não havia obtido a informação, que as pessoas não sabiam, que talvez ela se tivesse mudado para Duque de Caxias há muito, quando a filha – e irmã do meu pai –, Filhota, para lá também se fora, após o fim do casamento, e levando uma fieira de seus tantos filhos, desde adultos até meninos imberbes.
Retomei a marcha do carro, atravessamos a ponte sobre o Itabapoana, pegamos o asfalto de volta para Bom Jesus, lamentado a frustração de não encontrar vovó Benedita.
Alterando um pouco a voz, homem sempre equilibrado que era, mostrou seu descontentamento conosco:
- Vocês não servem nem para encontrar a casa da mamãe!
E acabamos a viagem com um nó na garganta, os olhos marejados de lágrimas, porque não conseguimos atender ao singelo desejo de o filho encontrar sua mãe.
Tenho a impressão de que já contei essa mesma história, em outro texto, mas o estou fazendo novamente, com minhas desculpas. É que, às vezes, não consigo tirar esse nó da minha vida também.
Perdão, amigos!

Ilustração para o filme L'armata Brancaleone, de Mario Monicelli (em insiemiperpieve.it).

9 de fevereiro de 2015

COISAS EM QUE NÃO ACREDITO, MAS QUE ACONTECERAM


Embora tenha sido extremamente religioso boa parte da infância e juventude – era católico – e vivesse, por esse tempo, no interior, onde as crendices e superstições têm, ou tinham, um papel importante na vida diária, nunca fui chegado a acreditar em boa parte daquelas coisas. Tenho a impressão de que o germe da incredulidade já se esboçava lá dentro da minha cabeça.
Alguns desses tabus eu mesmo procurava quebrar; para outros, tinha alguma reserva. O medo, às vezes, me fazia prudente em não cruzar certas fronteiras.
Havia, por exemplo, coisas assim: não se pode tomar banho depois de almoçar ou jantar, porque dá congestão; não se bebe leite e se come manga, porque é um veneno mortal. O mesmo valia para beber cachaça e comer manga. Quando chovia com raios e relâmpagos, as pessoas cobriam os espelhos com um lençol, para evitar atrair o raio. Não se devia apontar o dedo para a lua, pois nasciam verrugas. As figueiras, árvores de grande porte, eram comumente mal-assombradas, sobretudo nas noites de lua cheia. Nos ermos escuros da noite, havia sacis. Mulas-sem-cabeça se manifestavam em filhos de padre e outros tipos de amaldiçoados pela sorte. Para alguns males, havia sempre uma reza, uma benzedura: espinhela caída, pescoço-duro, vento-virado, panarício, descadeiramento. Punham-se e tiravam-se quebrantos das pessoas. Havia o olho gordo, ruim de matar passarinho, fazer murchar as plantas do jardim e da horta. Fora a imensidade de simpatias e garrafadas para várias ziquiziras que assolavam as pessoas. Tínhamos na vila algumas pessoas especializadas nesses assuntos. Seu Gregório e seu filho, o Filhinho Gregório, faziam garrafadas famosas, capazes de resolver muitos incômodos. Uns eram benzedores: benziam gente e bicho achacados por alguma macacoa.
Uma delas, por exemplo, Sá Luzia, certa vez foi chamada lá em casa. Eu havia voltado do campo do glorioso Liberdade Esporte Clube, onde fora brincar de bola com meus amigos. Ao final da pelada, pulei para pegar a camisa que tinha pendurado no travessão do gol. Mal bati o pé no chão, camisa segura na mão, notei que meu pescoço tinha ficado duro. Por esse tempo, chamávamos torcicolo de pescoço-duro. Já cheguei em casa mal aprumado, pescoço de revesguete. Mamãe não conhecia melhor remédio que a reza de Sá Luzia. Quando a velha mulher chegou e disse o que tinha de fazer, fiquei cabreiro, pois ela pediu à minha mãe agulha e linha, para costurar meu pescoço. Deitei desconfiado sobre sua perna, e ela passou a costurar, sem linha, o pequeno pedaço de pano, que colocara sobre o lado do pescoço acometido pelo torcicolo. E debulhava baixinho uma reza que eu não compreendia. Daí a alguns minutos, levantei dali sem mais sentir nada.
Pouco tempo depois, apareceu-me na parte interna do dedo anelar esquerdo – o seu-vizinho – uma verruga. Quando meu pai viu aquilo, falou com seu Nico Fragoso, tabelião da vila, ateu e comunista, o qual tinha uma simpatia infalível para verrugas e outros problemas de pele. Lembro-me de que meu pai escreveu num papel, a pedido dele, meu nome completo e a data e hora do meu nascimento, pois ele iria fazer a simpatia, sem tocar em mim. Alguns dias depois a verruga desapareceu misteriosamente. E nunca mais voltou.

Aí o leitor amigo vai me perguntar se eu acreditava ou acredito nisso. E vou dizer que, desde então, até hoje, nunca acreditei nesse tipo de procedimento, mas que aconteceu comigo, ah!, isso aconteceu.

Helena Coelho, A benzedeira, 2002 (em pinturasnaifdehelenacoelho.blogspot.com).

8 de outubro de 2014

CHEIRO DE MOLEQUE


Tirante o cheiro normal do moleque que não gosta de banho e vive jogando bola só de calção, lá no meu interiorzão todos os moleques tinham três cheiros característicos, se não me falha a memória olfativa: mexerica, jenipapo e jaca. Todas elas são frutas de odor pronunciado e aderente.

Se não tivesse um cheiro, tinha o outro, quando não os três juntos, o que, então, era praticamente insuportável para os mais velhos.

Para mim, porém, não fazia a mínima diferença: quando fiquei mais velho já não morava lá. Lá eu só fui menino. E, quando adolesci, cacei rumo na vida e tentei usar Vitesse e Lancaster, perfumes que todo jovem quebrado usava. Assim, lá, eu também era um dos portadores de um daqueles cheiros.

Aqui na cidade grande as crianças recendem outras fragrâncias.

Quando a van escolar que trazia meus filhos de volta à casa, no final da tarde, abria a porta, liberava um cheiro de frango molhado. O odor era terrível! Tanto que milha filha, ainda pequena, pediu encarecidamente que não viesse mais naquela horrível câmara de tortura. Ela mesma não suportava.

Pois não é que hoje comprei numa quitanda de luxo perto de casa, dentre outras frutas, um pedaço de jaca!

Jaca, que naturalmente Proust não devia conhecer (imagem em baixaki.com.br).

Na hora em que escolhia a porção adequada a consumo único – minha mulher disse que não iria querer –, ainda troquei ideias com um casal do outro lado da bancada. A esposa do freguês, inclusive, era especialista em jaca, pois ponderou, com dois pedaços não mão, que um era de jaca pau e o outro, de jaca manteiga.

Nunca tive preconceito contra jaca. Pau ou manteiga, eu iria comê-la de qualquer jeito, pois, se há um método infalível de se voltar no tempo – e Marcel Proust está aí para não me deixar mentir –, este passa pelos sentidos do corpo. E o cheiro daquela jaca esquartejada da quitanda me incentivou a isso.

Escolhi o meu pacotinho de jaca cortada, que comportava cerca de oito favos, trouxe-o para casa e comi com a mão, isto é, sem uso de talher, que é a única forma civilizada de se comer jaca. E fiquei com o cheiro impregnado em minhas mãos até agora, momento em que dedilho estas bem traçadas.

Então voltei à infância em que ia para os quintais e os pomares de Carabuçu comer frutas no pé.

Nos quintais da minha avó Maína e do tio Alcides Almeida, eram as laranjas e mexericas que faziam a festa: lima, baía, seleta, coroa de rei, serra d’água, lima-da-pérsia. Na serra, onde moravam meus tios Herson e Alda e meus nove primos, eram abundantes a manga, a jaca, a graviola, o biribá e diversos tipos de laranja. Mais acima, já no topo, casa dos tios Aldany e Neusa e mais quatro primos, eram as bananas: prata, nanica, ouro, maçã. O jenipapo, a gabiroba, o maracujá e a goiaba, comia-os na fazenda dos tios Aurélio e Toninha, acompanhado dos primos. E vinham, do quintal do tio Tatão, cajás e jabuticabas. A cana era apanhada dos caminhões que a transportavam para a usina de açúcar próxima ou tirada dos canaviais à beira dos caminhos. No pequeno quintal da minha casa, meu pai plantou um pé de jamelão, que logo, logo, começou a produzir, contra todo o meu medo de que aquela árvore fosse demorar a crescer. O jamelão deixava a boca, os dentes, as mãos e as roupas com uma nódoa roxa difícil de sair.

E, agora, estou eu aqui a reavivar minha memória proustianamente, dezenas de anos depois, por um simples cheiro de jaca manteiga. Ou jaca pau, sei lá! O que vier eu traço!

Aliás, já tracei, e estava muito boa!

21 de agosto de 2014

PEDALANDO POR UM REFRIGERANTE

(Para meu irmão Gutenberg.)


Estamos pedalando pela estrada de chão batido, seco de um verão medonho, e pensando no refrigerante que iremos beber, assim que estivermos de volta.

Às vezes, meu pai nos mandava ir a Apiacá, no Espírito Santo, para comprar peças para suas bicicletas, que ele mesmo gostava de consertar, reconsertar, arrumar, rearrumar, como um exercício monástico para sobreviver na pachorra da nossa vila. Não havia muita coisa que fazer lá. Ele tinha uma pequena venda de secos-e-molhados, como se dizia, na esquina da rua principal, e passava boa parte do tempo, atrás do balcão, olhando a falta de movimento que era o mote comum da vida. Também gostava de pescar no Rio Itabapoana, divisa natural entre o Rio de Janeiro e o território capixaba. E se utilizava sempre da bicicleta inglesa Humber, seu xodó maior, para chegar até seus pesqueiros prediletos.

E nos mandava – a mim e a meu irmão mais novo, Gute – à vila do outro lado do rio, para comprar a relação de peças, escrita num papelucho qualquer: cônicos, esferas, lonas para o freio, raios das rodas, câmaras de ar.

Gostávamos da aventura que demandava pedaladas vigorosas pelos quase dez quilômetros de poeira, numa estrada quase sem veículos motorizados. Era frequente não encontrar com nenhum automóvel durante o trajeto. E o único obstáculo que se apresentava, logo à saída de Carabuçu, abstraído o sol escaldante, era o Morro do Marta, com seu chão de saibro e seu aclive acentuado, que não nos permitia vencê-lo sem que nos desapeássemos das magrelas, então empurradas morro acima.

Contudo, sempre que papai nos dava tal missão, a exigência que fazíamos – se é que se pudesse chamar exigência a um pedido candente – era que nos desse dinheiro para um Crush ou um Grapette na venda do seu Jáder, ainda do lado fluminense, quase na boca da ponte, antes da travessia do rio por uma aparentemente comprida ponte de madeira. Anos depois, passando de automóvel sobre ela, é que descobri que nem tão comprida assim é ela.

Posso dizer mesmo que a maior recompensa pelo serviço, a que não podíamos fugir, era aquele momento de frescor que nos descia garganta abaixo, em generosos goles, sob a árvore gigantesca que sombreava quase toda a encruzilhada e boa parte da venda. Talvez eu nunca tenha provado um sabor tão inesquecível.

Por isso é que, mais esta vez, meu irmão e eu estivéssemos ansiosos por cumprir logo a missão dada: chegar rápido a Apiacá, comprar a encomenda e voltar de carreira até a venda do seu Jáder. O roteiro era meu pai quem traçava, e dele não escapávamos. No entanto, só nós desfrutávamos deste prazer.

Seu Jáder era um homem alto, magro, óculos de aro redondo, sempre de suspensório, que me parecia muito elegante e educado. Morava por ali mesmo, numa casa alta, com alpendre na frente. A venda, imóvel apartado da casa, era uma construção baixa, de fachada larga, como as boas vendas de beira de estrada do interior, com seu sortimento de tudo de que o povo das redondezas necessitava. Sob a sombra da árvore, ela se mantinha fresca para o verão que abrasava lá fora. Seu Jáder tinha refrigerador largo, daqueles bem antigos, para suas bebidas. Com frequência, contudo, por essa época, os comerciantes que vendiam bebidas usavam colocá-las num buraco na terra, que enchiam com sal grosso e serragem. Aí parecia que ficavam geladas. Pelo mesmo, era a sensação que tínhamos. E o Crush e o Grapette geladinhos do seu Jáder eram um alívio para nossa sede.

Por isso é que eu e meu irmão gostávamos tanto deste momento. Como meninos pobres, não tínhamos o hábito de tomar refrigerantes. E aquela viagem era a oportunidade para que saciássemos uma vontade infantil tão barata e corriqueira, mas que impregnou na nossa memória como uma placa de gelo eterno. 

Antiga garrafa de Crush (imagem em produto.mercadolivre.com.br).

14 de agosto de 2014

INVERNO


Estou aqui me lembrando, sob este frio de 13°C em Niterói, de certo inverno infantil lá na minha vilazinha de Carabuçu, quando ouvi meu pai dizendo que o termômetro marcava apenas oito graus. Não me dei conta de que isto era muito frio. Criança não leva essas coisas em consideração. Isto é preocupação de adulto.

Papai, por exemplo, era um dos poucos a se importar com o tempo, dentre os amigos, e possuía este aparelhozinho que consultava sempre. Na verdade, nunca soube que em sua casa faltasse um. Ainda hoje – ele já falecido – está um termômetro pendurado no portal da porta da cozinha, a indicar a temperatura ambiente. Além disso, ele assuntava os céus para responder se choveria ou não naquele dia, sempre que alguém tinha de sair. E me lembro do tipo de resposta que gostava de dar, caso vislumbrasse água caindo das nuvens:

- Se não quiser se molhar, é melhor levar o guarda-chuva.

E era sempre confiável sua previsão de tempo, que mamãe, debochadamente, chamava de “mete o olho na orgia do Argemiro”.

Por aquele tempo, contudo, era comum termos frio bravo no inverno em Carabuçu. Até mesmo depois de já casado, pai de filhos, e de volta para uma festa da vila, durante um fim de semana de julho, experimentei tal frio, que os músculos das pernas tremiam desordenadamente, motivo por que fui me esconder em casa, naquela noite. Meu primo, com quem conversava, ainda insistiu para que ficasse mais um pouco. Mas, sem um bom conhaque, aquilo era tarefa para escandinavos.


A tal friaca que nos era comum deixou em minha memória uma cena que diria quase épica: os cavaleiros e suas compridas capas gaúchas, que sempre sonhei usar, mas que nunca encontrei por aí. E também já não há o frio para que se as usem.

Por várias vezes, eu os via cruzar a vila conduzindo bois, ou até mesmo depois dessa lida, voltando para seu pouso, imponentes sobre os cavalos, com seus chapéus de feltro de aba larga, copa baixa, o barbicacho sob o queixo, e a capa estendida do pescoço até abaixo do estribo, estendida sobre a anca do animal, de modo solene, quase clerical. Às vezes, sob uma chuva miúda e persistente, eles passavam – cavalos em marcha batida a criar uma melodia ente as ferraduras e as pedras da rua – como se fossem heróis de uma epopeia cabocla, simplória, mas cheia de significados grandiosos para minha mente de menino.

Em certas ocasiões, tais cenas se davam num cenário acinzentado, sob um céu pesado a encrespar o alto dos morros que circundam a vila. Alguns desses homens vinham com uma brasa de cigarro queimando sob a aba do chapéu, a fumaça se confundindo com a cor cinérea do dia.

Diante disso, eu sabia que fazia frio. E não me lembro de nada mais relacionado ao inverno dos meus tempos de criança. A vila sempre foi, para mim, um misto de sol quente e chuvas torrenciais no verão. Nunca vi suas flores primaveris, nem suas folhas caindo no outono, ou as pessoas batendo o queixo entre junho e agosto. É que, no período mais frio do inverno, as fogueiras de São João esquentavam nossos corações despreocupados.


Imagem em amazonascountryclube.blogspot.com,br.

26 de março de 2014

CARRO DE BOIS


Um dia ainda vou tocar bois na estrada. Certamente atrelados a um carro, eu com o garruchão nas mãos, candiando os bichos. Mas terei cuidado em não espicaçá-los com o aguilhão, para não feri-los, apenas batendo com a vara na canga a que vão atrelados, chamando-os com intimidade pelo nome de batismo:
- Vem, Corisco! Vem, Jeitoso!
E o barulhinho das argolas presas à ponteira da vara a tilintarem, hipnotizando os animais que seguirão dóceis, puxando o carro carregado de milho recém-colhido, levado à máquina do seu Lulu, para virar o fubá nosso de cada dia. Ou – o carro sem a mesa – arrastando toras presas ao cocão, as quais deixam um sulco no chão de terra como um rastro. Ou, quem sabe ainda, transportando a mudança pobre do colono que troca de patrão e precisa rebocar seus trecos para a nova casa de sopapo à beira do valão Liberdade, aí o carro com a mesa, os fueiros e a esteira que protege as coisas miúdas de caírem pelo caminho. Ou, ainda mais, o carro abarrotado de cana de açúcar a ser descarregada no engenho do seu Pequetito, na Fazenda do Jacó, onde se transformará em melado, rapadura e açúcar batido.
Tenho essas imagens ainda perdidas no escaninho da memória a voltarem, vez em quando, à soleira do meu dia a dia em molde de saudade caipira. Eu fui um menino feliz do interior.
Claro que nunca candiarei bois. Nem nesta, nem em outra possível encarnação, quando eles ainda não estarão libertos desse duro trabalho e continuarão a se prestar a comida dos seres humanos e de mais alguns outros colegas carnívoros, hospedados em zoológicos confortáveis através do planeta.
Mas a imagem do carro de bois sempre retorna. Sou até capaz de ouvir o som dolente do eixo azeitado, a preencher os espaços vazios nos céus da minha terra natal. Lá longe vem o carreiro chamando os bois, em meio a este canto mecânico, quase narcótico, num movimento andante ininterrupto, tal moto perpétuo. Quanto mais pesado o carro, mais o canto se fazia lamentoso, dando, por vezes, às pessoas a sensação de um sofrimento profundo, sem origem ou motivação, apenas talvez lembrando a todos nós a dor de estar no mundo. E os bois seguiam plácidos, ruminantemente conformados, puxando o peso das nossas e das suas vidas estrada afora.
E cada carreiro procurava tirar o som mais bonito do seu carro. Isto era motivo de orgulho profissional. É provável até que, entre eles, houvesse uma disputa tácita, não declarada, uma espécie de guerra fria, para se produzir o canto mais melódico. Por vezes, como em dueto, carros passavam cantando, cada um, seu canto de modulação particular, pelas estradas perdidas da minha vila.
Por isso é que, ao me assaltar esta saudade, me vem certa tristeza em saber que meus netos nunca terão impressas tais memórias. Como, aliás, provavelmente seus próprios pais não as tenham, embora frequentassem o interior em suas férias escolares da infância.
Infelizmente esta é uma experiência que não se passa aos seus, não se transfere por herança ou doação em vida. Fica ela restrita àquilo que temos de mais escondido dentro da gente, sem que possa ser compartilhada, como está tão em moda nestes tempos virtuais.
Ainda agora estou ouvindo o grito do carreiro se destacar do canto triste do carro de bois, a chamar seus ajudantes na lida da vida:
- Vem, Jeitoso! Vem, Corisco!

Josinaldo, Carro de bois (imagem em artmajeur.com).


(Em homenagem aos antigos carreiros de Carabuçu, sobretudo a seu Bastião Carreiro, pai do meu amigo Didi, ele também carreiro na infância.)

20 de fevereiro de 2014

POR QUE NÃO SOU MAIS VOLUNTÁRIO A NADA

Decidi não me oferecer nunca mais, em tempo algum, para voluntário de qualquer coisa, por mais simples que seja, desde o final do ano de 1965. Posso explicar por que e todos me darão razão.
Era o encerramento do serviço militar no Tiro de Guerra nº 1. O subtenente Silva, diretor do TG1 e instrutor da tropa, formada por cerca de cinquenta jovens das mais variadas origens, solicitou voluntários para ajudarem na seleção dos novos recrutas, tarefa a ser executada por um grupo do comando da Capital, ao qual aquela unidade era hierarquicamente subordinada.
No entusiasmo pelo fim do serviço militar, já com meus dezenove anos completados em novembro, ofereci-me com mais uns cinco ou seis colegas de corporação. Fiquei na expectativa de repetir um serviço que fazia com frequência: datilografar as fichas dos conscritos. Modéstia à parte, eu era exímio datilógrafo, função essa praticamente extinta na vida moderna, mas cujas habilidades foram muito bem exportadas para a tal da digitação que presentemente se faz nos computadores.
No dia marcado, chega o grupo da Capital para proceder à seleção dos novos soldados. Apresentamo-nos os voluntários para as tarefas.
Era dezembro, fazia um calor terrível, e o grupo de candidatos se apresentou nas dependências do antigo departamento de transportes da prefeitura municipal, que tinha um grande pátio e um pequeno espaço coberto composto por dois cômodos, um deles, com cerca de nove metros quadrados, telhado baixo, sem janela, portanto sem ventilação.
Os conscritos eram chamados em grupos de dez e recebiam ordem para tirar toda a roupa no cômodo fechado, aguardando assim chamada para o exame de saúde na sala contígua. Tal exame, feito apenas de olho pelo oficial médico, consistia também em se colher o peso, a altura, as medidas do tórax e das coxas dos rapazes. As fichas eram feitas por um cabo, que viera com o grupo. O oficial médico ainda mandava que cada um deles colocasse o dorso da mão sobre a boca e soprasse com força, sem deixar o ar escapar. Descobri depois que era um meio de se verificar se o candidato  portava  alguma hérnia nas partes inferiores, ou como se dizia lá: se era rendido.
Eram mais de cem candidatos que, em grupo, entravam no cubículo, já transformado em uma estufa, tiravam a roupa e aguardavam a chamada para o exame.
Imaginem para quem sobrou a função de pesar e medir os candidatos? Adivinharam: eu, a besta aqui que se meteu a bonzinho e quis colaborar, no entusiasmo do serviço à pátria e coisa e tal!
O bodum que exalava do cubículo, combinado com a tarefa de pesar e medir aqueles homens pelados, cada um com um cheiro diferente, me produziu tal repugnância – nunca mais experimentada na minha vida –, que, no intervalo para o almoço, não tive estômago para comer. Minha mãe achou aquela inapetência muito grave, pois, nessa época, eu era um garfo firme, de fazer frente a trabalhador braçal diante de um prato de comida. Carne, então, só consegui comer depois de mais de uma semana, após sair de minha memória olfativa aquele odor insuportável de corpos suados e com a higiene vencida. Afora, o espetáculo dantesco de bundas, sacos, pintos e pentelhos, no varejo e no atacado. Vade retro! Cruz-credo!
Bem feito, quem me mandou ficar todo oferecido, que nem mulher dama? A partir de então, tomei a decisão, definitiva e irrevogável, de não me oferecer jamais, em tempo algum, sob nenhuma hipótese, como voluntário para absolutamente nada. Quem quiser que vá, menos eu! Tenho ou não tenho razão?

Leonardo Da Vinci, O homem vitruviano (em em pt.wikipedia.org).


9 de janeiro de 2014

AMARCORD


Ψ
Tenho cravada em minha memória a cena sedutora de um filme mexicano em que a belíssima atriz cubana María Antonieta Pons, dentro de um vagão de trem, deixava que o mocinho (ou seria o bandido?) lhe beijasse o lindo tornozelo torneado, apenas insinuado com o suave levantar de sua saia comprida. Não sei quem era o canalha que lhe beijava o tornozelo, nem o título do filme, nem o nome do diretor, assim como não me recordo de nenhum fotograma anterior ou posterior a esse. Mas esse ainda está incrustado num escaninho qualquer lá dentro de mim. Imaginem, então, o que a cena causou em minha cabeça! Devia ter lá meus doze/treze anos, quando vi o filme. E tive o cuidado de, após a sessão, saber o nome daquela bela atriz e seu tornozelo maravilhoso: María Antonieta Pons! Aliás, o cinema mexicano da época, através da Pelmex, era pródigo em belas mulheres. Só para citar algumas: Libertad Lamarque, Dolores Del Río, Ninón Sevilla, María Felix. E desconfio de que continue assim até hoje…

María Antonieta Pons (em cinemexicano.mty.itesm.mx). 

Ψ
De quando em vez, meu saudoso avô Chico Albino, que à época morava em Duque de Caxias, ia visitar os parentes – dentre eles meu pai, seu filho – que deixara na pequena vila de Carabuçu. Eu o admirava profundamente. Achava-o um homem elegante, porte nobre, sempre vestido com correção e dono de uma dicção limpa, clara. Não tenho lembranças de que levasse presentes. Nesse tempo, não era comum, pelo menos na minha terra, que se dessem presentes. Mas sua presença por lá era motivo de grande satisfação minha. Numa dessas visitas, estava conversando com os amigos na venda de meu pai, contando lá as histórias de Duque de Caxias, quando se referiu a certo cidadão, personagem do que dizia, com a palavra cafajeste:

- Fulano era um verdadeiro cafajeste!

Na hora, achei a palavra muito bonita, muito sonora, e gostei de ouvi-la da boca de meu avô. Como já era um menino esperto, perguntei-lhe o que significava cafajeste. Tive, então, a maior decepção com o sentido. Como podia uma palavra tão sonora, tão bonita, significar aquilo que me dizia? Comecei, assim, a perceber que nem sempre os sons correspondiam aos sentidos.

Quando fui para a faculdade, tive confirmada essa percepção, ao saber do lamento do grande poeta francês Guillaume Apollinaire, autor de Calligrammes, com a língua francesa, que tem a palavra jour (pronunciada /jur/), de sonoridade fechada, escura, para o que em português é dia, de pronúncia aberta, clara. Dizia ele da necessidade poética, em francês, de adjetivar a palavra para carrear, para seu sentido de claridade, também a claridade da pronúncia, que há na palavra portuguesa. Assim propunha, por exemplo, clair jour (pronúncia /klér jur/) – dia claro – em que o adjetivo de som aberto como que clareia o sentido de jour.

Ψ
Lá nos idos de 1950, meu pai soube, por um dos fregueses de sua venda, que certo conhecido, durante uma partida de futebol de várzea das roças no entorno da vila, tinha sido esfaqueado, por motivo de discussão boba, desmotivada. Virou-se, então, para o que trazia a notícia e exclamou:

- Xi! Coitado! Deu com os costados na cerca!

Ao ouvir isso, quis saber do meu pai se o homem se ferira na cerca, normalmente feita de arame farpado. Meu pai deu um sorriso amarelo e me disse:

- Não, morreu mesmo! Dar com os costados na cerca quer dizer morrer.

Dessa vez, percebi também que as palavras nem sempre querem dizer o que dizem e podem nos meter em enrascada. Ê vida difícil! É o que talvez justifique aquele camarada que se explicou à autoridade, dizendo que chamara o outro de filho da puta no bom sentido.

Ψ
Bom sentido que não existia há algumas décadas. E foi o que motivou um tio-avô a atirar num desafeto, justamente por chamá-lo de filho da puta. Na época, era a maior ofensa que se fazia a um homem, porque atingia diretamente sua mãe. Era um agravo na raiz da nascença, como se dizia, que manchava toda a descendência, ainda que por tabela. Tão logo foi xingado, meu tio agrediu o ofensor. A turma do deixa-disso fez a separação dos briguentos. Após a rixa, correu a notícia de que o outro estava andando armado, para dar fim a meu tio, que também pôs o revólver na cinta. Não era, então, estranho as pessoas andarem armadas. Os de menor posse muniam-se de facas e peixeiras; os de maior, de garruchas e revólveres. Mesmo que não se portassem as armas, elas estavam dentro das casas. Por isso ocorreu que, estando meu tio num bar, em conversa com amigos, de costas para a porta, ao ouvir o chamamento do desafeto – não se matava um homem pelas costas –, ele já se virou atirando. O homem, alvejado, foi levado para o hospital de Bom Jesus, vindo a falecer, tempos depois, em consequência de complicações pelo tiro que levou.

Ψ
Os mais velhos contam uma história interessante, ocorrida em Carabuçu. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, foi instituída uma força policial volante, que vasculhava o interior para desarmar as pessoas. Nessa época, havia por todo lado muitos jagunços, muitos grupos armados, e os confrontos eram corriqueiros*. Para o norte do antigo estado do Rio de Janeiro – a Velha Província que teimava em sobreviver –, foi mandada a volante comandada pelo tenente Coaracy, homem de estatura baixa, mas tido como enquizilado, carne de pescoço, temido por todos.

Vem a volante entrando na vila, tenente Coaracy à frente, montado em sua garbosa mula alta. Ele, de pequetito, virava um homenzarrão sobre a besta. Na porta do botequim, estava um homem que, ao ver o grupamento, julgou por bem não se afastar, para não levantar qualquer tipo de suspeita, o que, certamente, o levaria a passar maus momentos. Tenente Coaracy estaca a montaria diante do homem, que já imagina o pior. Com sua voz firme e autoritária, pergunta ao homem:

- Caboclo, você fuma?

Tremendo de medo, o pobre coitado não teve como mentir e disse, com a voz já por um fiapo:

- Fumo, sim, senhor! Mas, se o senhor quiser, eu largo o vício.

- Não é nada disso, caboclo! Me arranja um cigarro, que o meu acabou!
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(* Se quiserem conhecer mais detalhes desse período da história brasileira, indico o excepcional romance de Mário Palmério Chapadão do bugre, que também serviu de base para minissérie homônima, levada ao ar pela Rede Bandeirantes, no ano de 1988, com direção de Valter Avancini e Jardel Mello.)

16 de dezembro de 2013

AO FOGÃO

(Para minha mãe, pelo Natal.)

Algumas vezes me vem à memória a faina de minha mãe ao fogão, em certas ocasiões. Não sei por que isso me assalta de vez em quando. Não que me doa. Ao contrário, para mim que não estava na lida dura de mãe de uma casa pobre, tudo eram alegrias.

Certas vezes, chegava a época de torrar o café que seria consumido. Isso demandava a tarde inteira de trabalho, logo após o almoço. E não se fazia mais nada nesse dia.

O fogão era à lenha, encostado num dos cantos da cozinha, revestido de cimento vermelho por algum pigmento – talvez zarcão. Em sua traseira, ficava o forno, de onde subia uma chaminé feita de manilhas redondas de barro.

Por essa época, a única coisa em minha casa movida a energia elétrica era o rádio, além das lâmpadas, é claro. Não tínhamos, por pobre ou por ainda não existirem, nenhum dos aparelhos que, posteriormente, foram aparecendo no mercado para facilitar a vida das pessoas. Na verdade, em Carabuçu, pelos idos de cinquenta do século passado, até os anos sessenta, pouquíssimas famílias possuíam geladeira. Mesmo o liquidificador chegou um pouco depois, eu já entrando na adolescência. Quando a tevê brilhou nas casas das pessoas de maiores recursos, já estava um galalau, morando em Bom Jesus.

Por isso é que minha mãe, em sendo pobre, tinha de se desdobrar em produzir o café que se ia beber durante certo tempo. Meu pai comprava os grãos secos, e minha mãe os torrava toda uma tarde. Eu sempre ficava ali ao seu lado, sentado numa cadeira, olhando a trabalheira toda que ela tinha, no calor do fogão, em meio a alguma fumaça que a lenha fazia, e conversando. No final, estávamos – nós e a casa – um pouco defumados. Mas com o cheiro gostoso do café.

Meu pai fizera um suporte sobre o fogão em que a torradeira – uma lata de banha de vinte litros cortada ao meio e furada a prego, com alças de arame e um cabo de vassoura como mecanismo de movimento – era manipulada por mamãe, num vaivém sem parar, a fim de que não se queimassem os grãos. Vez ou outra, ela aspergia água sobre eles, durante a torra, momento em que a fumaça e o aroma subiam mais fortes na cozinha miúda.

Para que não ficasse com muito cheiro de café torrado, minha mãe cobria a cabeça com um pano. E era única vez em que a via assim.

Sempre fui um menino meio quieto, tranquilo, e gostava de conversar com minha mãe, que sabia de muita coisa do mundo ainda por descobrir para mim. Por vezes, nessas ocasiões, aparecia um de seus irmãos, principalmente Paulinho ou Cate, a lhe contar sobre o último filme que tinham visto no cinema em Bom Jesus ou sobre suas peripécias com as moças locais.

Outro momento de trabalho menos intenso, porém mais frequente, era a feitura de pés de moleque, que meu pai vendia na venda que se situava na parte da frente da casa. Muitas pessoas ficavam esperando a saída daquela delícia que minha mãe faz ainda hoje, com seus oitenta e sete anos, de forma incomparável, embora eu mesmo – maldito fantasma da diabetes – não me delicie mais com eles. Ela até briga comigo, dizendo que sou radical:

- Unzinho só não vai fazer mal!

Porém eu me privo desse prazer de que já desfrutei por décadas. Para que não me sinta muito frustrado, penso sempre: já comi muito! E vou levando a vida sem essa delícia.

Pois os pés de moleque saíam, se não me falha a memória, dia sim, dia não. E é interessante que tanto havia fregueses que deles gostavam ainda um tanto macios e quentinhos, quanto os que os preferiam dormidos de um dia para o outro. Eu comia qualquer um, porém o quentinho tinha a má fama de causar piriri em criança. Talvez esse argumento fosse uma maneira de impedir que eu e meus irmãos começássemos a devorá-los tão logo estivessem prontos.

À feitura do doce propriamente, antecedia o descasque das vagens, normalmente realizado na noite anterior com todos nós – pais e filhos – em torno de uma grande peneira, aos pés do rádio, ouvindo os programas que faziam a delícia daquelas noites singelas do interior: A Lira de Xopotó, PRK-30, Balança Mas Não Cai, Grande Teatro Tupi, alguma partida de futebol de que meu pai, eu e meu irmão Gute sempre gostamos.

No dia seguinte, mamãe torrava os grãos num tabuleiro ao forno ou mesmo na torradeira de café e, depois que eles esfriassem, tinham sua casca removida manualmente aos punhados, na concha das mãos em movimentos opostos. A seguir, sofriam maceração com uma garrafa, de modo a que uma parte ficasse quebrada. Nesse momento, aproveitávamos para comer alguns. Era a paga pela ajuda à tarefa.

Num tacho de cobre, que ela trazia sempre brilhando, a poder de sabão preto, areia e caldo de limão, derretia o açúcar mascavo, conhecido por nós como açúcar batido (Alguns até diziam no feminino: açúcar batida.), até que atingisse o ponto ideal, testado sempre numa cuia com água, sobre a qual derramava um pouco do caldo formado pelo fogo intenso, sempre alimentado por lascas de lenha. Chamávamos a esse produto puxa-puxa, parente chegado do pirulito, que devorávamos de imediato.

Obtido o ponto, minha mãe retirava o tacho do fogo e continuava a mexer, até o momento em que acrescentava os caroços de amendoim torrado e começava a tirar, com duas colheres, as porções que moldariam os doces sobre o tampo de madeira da mesa. Para que a mistura não enrijecesse, estava sempre mexendo. Assim que esfriassem um pouco mais, os doces podiam ser removidos da mesa com um simples toque dos dedos. E iam para o vidro redondo da venda de meu pai, já alguns fregueses prontos a comer os primeiros exemplares do dia.

Minha mãe nunca teve empregada. Sempre fez todo o trabalho da casa. Quando crescemos um pouco mais, ajudávamos em algumas outras tarefas. Ainda hoje, quase chegando aos noventa, consegue produzir maravilhas da cozinha trivial brasileira – nossa tão cultuada comida caseira –, embora dizendo que jamais tenha gostado de cozinhar, fazendo-o tão somente para alimentar a casa.

E, a despeito disso, teve tempo de criar, junto com meu pai, cinco filhos, que mandou à escola já alfabetizados, ler seus livros, escrever seus poemas, costurar camisas com maestria, cultivar suas amizades, conversar com as vizinhas nas noites frescas da vila e falar com Deus o tempo todo, pedindo por todos nós, como se garantisse a salvação de cada um com a mesma devoção com que se dedicou e se dedica à família em parceria com o fogão por tanto tempo, sem nenhum demérito. Aliás, muito ao contrário. E disso todos tiramos proveito!

Almeida Junior, Cozinha caipira, 1895 (Pinacoteca do Estado de São Paulo).


20 de novembro de 2013

HISTÓRIAS REAIS, MAS QUASE MENTIROSAS*



“1 O 2 SACO DE CAL”

Zezé Borges, figura das mais importantes na história de Bom Jesus do Itabapoana, tanto na política, quanto na econômica, tinha uma sortida venda, naquele tempo em que não havia crediário formal e as compras eram feitas por caderneta, que o devedor sempre levava a cada ida ao estabelecimento.

Certo dia, recebe ele um bilhete em mal traçadas linhas de um fazendeiro das terras de São José do Calçado, vizinha cidade do meu amigo Zé Antonio Lahud, em que solicitava o envio de certa mercadoria. O bilhete garatujado dizia, objetivamente, o seguinte:  “Amigo Zezé, mande 1 o 2 saco de cal. Do amigo Fulano”.

Zezé achou exagerado o pedido de cento e dois sacos de cal, mas imaginou que o amigo resolvera caiar toda a cerca da fazenda, não só para protegê-la, bem como para deixá-la bonita e vistosa. Como não tivesse tanto saco de cal, apenas cinquenta, providenciou a remessa do seu estoque, acompanhado de outro bilhete: “Amigo Fulano, seguem 50 sacos. Depois mando o resto. Do amigo Zezé”.

Quando lá chegou a encomenda, o fazendeiro estranhou muito e não aceitou a entrega, pois não fora nada daquilo que pedira. Resolveu aproveitar a carona do caminhão de entrega que voltava, para esclarecer com o próprio Zezé o mal-entendido.

Chegando a Bom Jesus, foi logo falando ao comerciante:

- Que isso, Zezé?! Ficou maluco?! Mandar aquela montoeira de cal, que eu nem pedi?!

Zezé pegou o bilhete e lhe mostrou, dizendo:

- Ora, você me pediu para mandar cento e dois sacos de cal.

- Não é nada disso, Zezé. Tá escrito aí: Zezé, mande um “o” dois saco de sal.

- Mas aqui você escreveu cal.

- É que eu esqueci a cedilha!
Imagem em pt.dreamstime.com.

O PORCO DO QUINIM

Quinim Freire, também proprietário rural, só que em Bom Jesus do Itabapoana, era um homem alegre, divertido, cheio de histórias um  tanto absurdas. Os ouvintes atentos de seus casos diziam que ele era um grande mentiroso, desse tipo folclórico do interior, que passa bom tempo da vida matutando patranhas para dizer aos outros.

Lá um dia, Quinim Freire contava que estava criando uns porcos de raça, coisa muito avantajada, que chegavam a um tamanho nunca visto por aquelas bandas. Era raça vinda das estranjas, como dizia. Gavou tanto a qualidade dos porcos que disse que um deles já tinha chegado a dezenove palmos de comprimento. Os ouvintes da história não acreditaram, sabendo quem ele era. Porém, muito convicto, garantiu que era verdade, que o porco tinha crescido muito, e começou a mostrar no balcão do bar do Salim, onde eles se reuniam para a prosa e o cafezinho, contando compassadamente os palmos de sua mão imensa, homem alto que era.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito...

Aí parou para olhar o ponto de partida da contagem, já um pouco desconfiado ele mesmo, sabendo que não estava nem na metade do tamanho que garantira. Então, saiu-se com uma exclamação, para não deixar dúvidas:

- Eh, porco grande, sô! Nove, dez, onze...


O TELEGRAMA

O glorioso time do Liberdade Esporte Clube, na década de 50 do século passado, foi excursionar lá para os lados da Zona da Mata de Minas Gerais, lugar longe, só demandado em viagem de caminhão de várias horas por estradas ruins. Era viagem de três dias: num vai; noutro joga; no terceiro volta. Por isso o presidente do clube alvianil, orgulho da vila, solicitou ao chefe da delegação que, imediatamente após a contenda, passasse telegrama dando conta do score do match entre os dois teams, como se escrevia na época, as palavras ainda não aportuguesadas.

No final daquela noite de um domingo chuvoso, o presidente recebe o telegrama, vazado nos seguintes termos: “CHEGUEMO, JOGUEMO, NUM GANHEMO, NEM PERDEMO. EMPATEMO. ASSINEMO, NICODEMO.”

Tudo dentro da mais perfeita comunicação que se poderia esperar do chefe da ínclita delegação.


“PANARÁ OU PURITIBA”

Certo dia, adentrou a venda de meu pai um velho freguês, homem simples das roças que rodeavam a vila, querendo comprar uma caixa de fósforo. Minha mãe, no momento, era quem estava atendendo ao balcão.

- Dona Zezé, quero uma ca’ de fósso - que era como, mais ou menos, as pessoas simples falavam.

Quando minha mãe foi pegar a caixa de fósforo, o freguês manifestou uma curiosidade antiga:

- Dona Zezé, ondé que é a fábrica desse fósso? Ouvi dizê que é no Panará.

Minha mãe, então, foi olhar no rótulo e lhe disse:

- É isso mesmo. Aqui está: fábrica em Curitiba.

Então ele replicou imediatamente:

- Ah! bão, então é em Puritiba e não no Panará.


(* Ou seria o contrário?)



10 de outubro de 2013

HISTÓRIAS DE CRIANÇAS


1.       Meus sobrinhos Dondinho e Dudu, hoje belos rapazes, certa vez estavam com os pais para o almoço de domingo num restaurante da Praia dos Cavaleiros, em Macaé, onde moram. Enquanto aguardavam o pedido, os dois começaram a brincar e, como é de praxe, a brigar. O pai, para tentar acalmar a dupla, leva-os para fora, num espaço aberto que havia na frente do restaurante. Já lá estava um menino menor, dos seus quatro anos, fortes óculos de grau a denunciar hipermetropia. Dando um pito nos filhos, dirigiu-se ao menino zoclerinho (como dizia minha filha quando pequena, ao ver uma criança de óculos) e falou:

- Veja como é feio dois irmãos brigarem!

Do alto do seu meio metro e de sua larga experiência de vida, o zoclerinho  disse:

- Eu não se meto em briga de irmão dos outros!


2.       Dois sobrinhos de minha amiga e madrinha de casamento Marília, de cerca de cinco e três anos, começaram a se estranhar. Empurra um, empurra outro, o mais velho lança ofensa desabonadora ao mais novo:

- Seu bosta!

O mais novo não titubeou e deu o troco, com juros, multa e correção monetária:

- Seu bosta, seu cagosta, seu mijosta!

 
3.       Um primo da mãe de Dondinho e Dudu morre no Rio de Janeiro, vítima de fulminante infarto. Em Macaé, ela recebeu a notícia a tempo de vir com o marido, para o sepultamento do  primo. Antes, no entanto, foi explicar para os filhos o motivo da viagem:

- Estamos indo ao Rio, porque o primo morreu.

- Morreu de quê, mãe? – pergunta Dondinho.

- Do coração.

- Foi tiro, mãe? – ainda Dondinho, querendo entender a causa da morte.

- Não filho, não foi tiro.

- Então foi flechada?

A violência já era muita e na cabeça dele flechas ainda voavam pelo céu do Rio de Janeiro, como nos tempos de Arariboia.


4.       Quando minha filha tinha lá seus dois anos, falava pelos cotovelos uma língua portuguesa mal e mal adquirida. Todas as manhãs, ia levá-la à escola, juntamente com o irmão mais velho, e gostávamos de ouvi-la falar um trio de palavras que saíam com o fonema /r/ fora do lugar. Dávamos boas risadas:

- Curlé, murlé, carlô! - dizia ela, eufórica com seu desempenho linguístico.

Quase sempre, quando já estávamos próximos à escola, pedíamos para que ela falasse aquelas três palavrinhas engraçadas. E ela sem vacilar:

- Curlé, murlé, carlô!

Até que um dia, toda orgulhosa, disse:

- Pai, descobri outra palavrinha igual àquelas.

- Qual?

- Curlé, murlé, carlô, dormi!

Aí a risadaria foi geral!

 
5.       Minha netinha Gabriela, hoje com oito anos, morou em São Paulo de janeiro de 2007 a maio de 2008, portanto entre um e dois anos e poucos meses. Tinha um belo relógio da Barbie, que usava no bracinho pequeno. Acabou esquecendo o relógio em um restaurante de Alphaville, perto de casa. Quando esteve conosco, posteriormente, reclamou a perda do relógio. A vó, então, prometeu-lhe outro igual. Procuramos o relógio em várias lojas de Niterói e do Rio, sem sucesso. O tempo passou-se.

Em  2009, já com quatro anos e de volta ao Rio de Janeiro, ela pede que a vó lhe compre a fantasia de Cinderela. A avó diz que compraria. Ela duvida de que a avó vá cumprir o acordo. Deslembrada do fato, a avó diz:

- E a vó, alguma vez, não cumpriu alguma coisa que prometeu a você?

Ela, com a memória própria das crianças, diz com segurança, dois anos depois:

- E o relógio da Barbie, que você prometeu e não me deu?!

 
6.     Minhas sobrinhas Sheila e Shana, na época com cerca doze e nove anos, tinham hábitos e comportamentos bem distintos. Sheila dormia sempre tarde, era mais calada, mais introspectiva, mais estudiosa. Shana, por sua vez, era espevitada, brigona, dormia cedo e não costumava deixar de dar troco em nada. Certo dia, as duas discutiam e Sheila disse para a irmã:

            - Você dorme com as galinhas!

            Shana achou-se profundamente ofendida e respondeu na lata:

            - E você dorme com as piranhas!


"Criança com uma Laranja", de Van Gogh
Van Gogh, Criança com uma laranja (em expresso.sapo.pt).