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4 de junho de 2014

VELHO RITMO


pela trilha afora a trôpega tropa
em lenta cavalgada
desenha no ar nuvens de poeira
no serpenteio monótono
do transporte do café em coco.
do alpendre da casa
avistam-se os morros desordenados
que correm junto ao valão
e sustentam a estrada
que vai do nada ao quase nada.
e a tropa na trilha se aproxima da casa
da fazenda e o grito do homem
orienta a chegada:
“vem, canário! arre, godero!”
– burros com nomes de pássaros –
“volta, soberbo!, tchu, tchu, melindroso!”
 – parecem eles homens presunçosos.

e o pobre tropeiro de pele lustrosa
escancara a porteira para a entrada da tropa
e descansa seu corpo sob a sombra da tulha
e termina alquebrado a viagem penosa.


Jean-Baptiste Debret desenhou também os tropeiros conduzindo longas filas de muares, ou tocando boiadas / Aquarela sobre papel 'Carvão' - Rio de Janeiro, 1822
Desenho de Jean-Baptiste Debret, 1822 (em revistadehistoria.com.br).

29 de maio de 2014

PRONTO, O OUTONO!

Pronto
Parece que outro outono bateu ponto
Nas folhas mortas da velha canção francesa
Lá fora a chuva fina
As nuvens densas
A encobrir o Corcovado o Pão de Açúcar
Alguma pressa em retirar do armário
As peças do vestuário que possam prevenir
Qualquer evento mais fresco deste tempo
Tão propenso às alergias e às corizas
O outono e seu descontentamento
O outono e seus problemas de sempre
A nos lembrar que a vida é roda viva
De estações e medos
De ansiedades e sonhos
De coisas assim que são tocadas
Com a dolência do gado a caminhar na estrada

Pronto
O outono bateu ponto!

Baía da Guanabara, a partir de Icaraí, Niterói (foto do autor).

19 de maio de 2014

MEUS MORTOS

Alguns dos meus mortos vivem em mim
Uns mais outros menos
Uns com mais intensidade
Outros mais pacificamente
Uns com marcas viscerais
Outros com pequenas sardas psíquicas
Uns há muito mortos
Outros mortos recentes
Todos diligentes
A compor o que eu sou
Com seus modos de vivos permanentes
A não morrer assim tão facilmente
Enquanto eu continuar a ser
O que venho sendo
Desde que me entendo por gente
Ou me desentendo
E assim para sempre


Cemitério de Carabuçu-RJ (foto do autor).

11 de abril de 2014

SOLIDÃO EM RITMO DE TANGO

Põe um velho elepê na vitrola
Senta-te no teu canto
Sorve um gole de chá que não consola
Arruma teu cabelo com os dedos
Olha o teto negro do teu quarto
Vê por entre as árvores da praça
Através do vidro da janela
A luz do sol sobre os casais apaixonados
Abre teu livro predileto na página dobrada
E segue na leitura de tantos quantos versos
Falam da concretude do amor idealizado
Fecha teus olhos por um momento
E certo de que estás só no universo
Repete bem baixinho o último terceto
E maldiz o nome do vil poeta
Que sabe mais da tua vida que tu mesmo


Tango na madrugada (foto do autor).

8 de abril de 2014

ESSA NOSSA RICA LÍNGUA II - A PERMANÊNCIA DE UMA METÁFORA

A tradição literária da língua portuguesa remonta aos fins do século XII, período em que está atestado o mais antigo texto escrito:  a Cantiga da Ribeirinha, poema de autoria de Paio Soares de Taveirós. A língua da época não era simplesmente o português, mas o chamado galaico-português (ou galego-português), evolução natural do latim vulgar falado no oeste da Península Ibérica, que recebeu as influências de substrato da língua celta da região.
Com o passar o tempo, galego e português foram-se desenvolvendo de forma autônoma, sobretudo em virtude da criação do Condado Portucalense, por D. Afonso Henriques, o D. Afonso I, fundador do que hoje conhecemos como Portugal.
Ao longo de sua história, nossa língua também recebeu, dentre outras, contribuições do árabe, com o qual conviveu por séculos, durante a ocupação da Península, de línguas negras africanas em função do contato com diversos povos para cá trazidos como escravos, bem como do tupi, sobretudo, entre as línguas indígenas faladas no território brasileiro.
O jeito brasileiro de falar é mais próximo à forma como Cabral e seus marinheiros falavam quando aqui chegaram, do que o atual sotaque de Portugal, que começou a se acentuar a partir de Lisboa na segunda metade do século XIX.
O que interessa aqui, no entanto, é a permanência de certos símbolos literários – metáforas – que se comprovam em textos arcaicos e modernos.
Um desses casos, que me parece bastante interessante, é a semelhança temática entre as cantigas medievais de Pero Meogo, jogral português do século XIII, possivelmente contemporâneo do grande rei-poeta D. Dinis, e, particularmente, a música de Vital Farias Sete cantigas para voar, do seu disco Sagas Brasileiras, de 1982, que também foi posteriormente gravada por Elba Ramalho, versão*, inclusive, mais executada nas rádios de então.
Numa das estrofes da composição de Vital Farias, está assim expressa a desculpa da moça que vai à fonte para encontrar o amado:
Cantiga de ninar 
a criança na rede 
mentira de água 
é matar a sede: 
diz pra mãe que eu fui pro açude 
fui pescar um peixe 
isso eu num fui não 
tava era com um namorado 
pra alegria e festa 
do meu coração 
Voa, voa azulão 
Voa, voa azulão
Deve-se dizer que foram preservadas nove cantigas** de Pero Meogo, que constituem uma narrativa em versos, a respeito da iniciação amorosa de uma jovem no século XIII. Nelas, mãe e filha conversam sobre o acontecido: o encontro às escondidas da filha com o amado e as inquirições da mãe acerca do seu comportamento. Na nona e última cantiga, estabelece-se um diálogo em que a mãe desconfia da demora da filha na fonte, ao que ela se justifica dizendo ter ido lavar os cabelos, mas as águas estavam turvas pela presença de cervos, por isso a demora. A mãe não crê na desculpa. Veja o texto da cantiga em galego-português.
- Digades, filha, mia filha velida:
porque tardastes na fontana fria?
            - Os amores ei.

Digades, filha, mia filha louçana:
porque tardastes na fria fontana?
           - Os amores ei.

- Tardei, mia madre, na fontana fria,
cervos do monte a augua volvian:
           - Os amores ei.

Tardei, mia madre, na fria fontana,
cervos do monte volvian a augua:
           - Os amores ei.

-Mentir, mia filha, mentir por amigo;
nunca vi cervo que volvess' o rio:
           - Os amores ei.

Mentir, mia filha, mentir por amado;
Nunca vi cervo que volvess’o alto:
           - Os amores ei

(Possível atualização textual: - Diga-me, filha, minha filha querida, / por que tardastes na fonte fria? / - Estou apaixonada. /Diga-me, filha, minha filha bonita, / por que tardaste na fria fonte? / - Estou apaixonada. / - Tardei, minha mãe, na fonte fria, / cervos do monte a água volviam. / - Estou apaixonada. / - Tardei, minha mãe, na fria fonte, / cervos do monte volviam a água. / - Estou apaixonada. / - Mentir, minha filha, mentir por namorado, / nunca vi cervo que volvesse o rio / - Estou apaixonada. / Mentir, minha filha, mentir por amado, / nunca vi cervo que volvesse a água. / - Estou apaixonada.)

Nesta cantiga de amigo paralelística, a fala da mãe está presente nas duas primeiras estrofes, cujo teor se repete por formas diferentes. A mãe indaga sobre a demora da filha na fonte. A terceira e a quarta estrofes representam a resposta da filha à mãe, ao justificar a demora pela presença de cervos que turvavam as águas onde iria lavar os cabelos. Nas duas últimas estrofes, volta a fala da mãe, que sabe ser a desculpa da filha uma mentira. O refrão (Os amores ei) funciona como o coro que representa a voz interior da moça, ao reconhecer o verdadeiro motivo da demora: ela foi encontrar o namorado, porque estava apaixonada.
Na canção de Vital Farias, a moça pede que se diga à mãe uma mentira, que ela mesma assume: “diz à mãe que eu fui pro açude / fui pescar um peixe / isso eu não fui não / tava era com o namorado /pra alegria e festa / do meu coração”. Observe que o traço moderno da canção da canção de Vital Farias talvez esteja no fato de que a moça assume a mentira, sem titubear, enquanto na canção medieval ela tenta escamotear a verdade para a mãe.
De qualquer forma, constata-se aí uma metáfora que ultrapassa os séculos: a fonte, o açude, como espaço para o encontro amoroso.

Esse fato representa tanto a permanência de tal metáfora, quanto evidencia o elo entre a cultura medieval e a cultura atual, sem um processo de ruptura. Isso significa constatar que somos muito mais antigos do que pensamos. E o que, às vezes, imaginamos ser muito moderno pode estar com um pé fincado há séculos e séculos atrás. E, no caso do Brasil, o Nordeste é um repositório repleto dessas permanências.

Symphonia da Cantiga 160, Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio - Códice do Escorial. (1221-1284). Imagem em pt.wikipedia.org.

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Para ouvir a música com seu autor, clique aqui.

3 de abril de 2014

DESCARREGO


vou me exorcizar um pouco
tomar um banho de cachoeira
uns passes um descarrego
tirar o teu diabo do meu corpo
botar pra fora tua presença
tua chama teu sufoco
que não me dão mais sossego

vou te deixar num despacho de esquina
num prato de pipoca numa garrafa de pinga
depois não reclames que fui violento
tu és exu demais pro meu terreiro

Imagem em cinegnose.blogspot.com.

29 de março de 2014

SONETOS PARA OS NETOS (II)

(Para Gabriela, Bruno e Francisco, mais uma vez.)

Vivo pensando em fazer sonetos para os netos
Mas tenho medo das curvas do primeiro quarteto
Pois se não caio por próprios deméritos
Não escaparia do fecho do último terceto
Todo verso quebrado é um estranhamento
Que não cabe bem em um soneto
Que se pretenda um poema certo
Por isso acho que não vale a pena
Cometer sonetos de somenos
Enquanto há tantos outros versos
Espalhados por inúmeros poemas (ainda que toscos)
Que podem dar sentido
Ao sentimento de incerto avô discreto
Entretido apenas em amar seus netos

Bruno, Gabi e Francisco, em visita ao Museu Janete Costa de Arte Popular de Niterói (foto do avô-coruja).

22 de março de 2014

DISCURSO DO PREGUIÇOSO

Eu vivo numa leseira
Ando bem depauperado
Carrego um peso nas costas
Por isso ando curvado
Nos pés parece haver chumbo
De tamanho exagerado

Quando eu vejo uma cama
Rede balanço ou esteira
É o único momento
Em que ando de carreira
Me atiro pra riba deles
Caio de qualquer maneira

E caio bem satisfeito
Seja de banda de lado
Seja de pança pra cima
Seja de modo emborcado
Caindo de qualquer jeito
Já caio bem confortado

A cama é meu destino
Na rede fico tranquilo
Então se for num balanço
Tiro sonecas de quilo
Em esteiras de embira
De sono preencho um silo

E assim vou produzindo
Como qualquer brasileiro
Planto com lua minguante
Colho o ano inteiro
A preguiça me aduba
Sou um grande prazenteiro

Vendo bocejos fresquinhos
Preguiça de hora em hora
Cochilos bem temperados
Para senhor e senhora
E também moça bonita
Não posso deixar de fora

Tenho visto muita gente
Trabalhando até demais
Procurando o que fazer
Para faturar o gás
O pão o leite e o arroz
Querosene e água rás

O Chico trabalha muito
O Zé então nem se fala
O Tonho vive ferrado
De tanto carregar mala
Façam o que eles quiserem
Que isso não me abala

Porque tenho por princípio
Nunca me apoquentar
Se a comida está bem quente
Calmo espero esfriar
Se o peixe não sai da água
Lá é que não vou buscar

Se o angu tá fumegando
Aguardo desfumegar
Se há muito rebuliço
Espero tudo amainar
Quanto mais a gente mexe
É mais fácil a gente errar

Por isso é que erro pouco
Porque quase nada faço
Pior é quem atrapalha
E causa sempre embaraço
Fazendo tudo o que quer
Esse vexame não passo

E no dia em que eu morrer
Prometo me atrasar
No tempo mais dilatado
Que eu puder dilatar
Talvez faça até gazeta
Na hora de me enterrar.

Bicho-preguiça (imagem em entretenimento.r7.com).

24 de fevereiro de 2014

DESALINHO


Sinto-me em desalinho
Mesmo estando sozinho refratário
Desalinhado das coisas que correm em paralelo a mim
Aqui uma recordação frouxa da infância
Ali um amor perdido no vento
Acolá uma desesperança feita realidade no presente
Outras vezes o desalento a saudade empedernida
E a impertinência comum a tudo o que ocorre na vida

É um desalinho tosco
Ou mesmo um certo empeno
Desses que até a madeira nobre apresenta
A qualquer tempo
Eu
Que sou tão simples tão pequeno
Embora pretenda a grandeza dos heróis eternos
Também mantenho meu desalinho com frequência
Que é para não perder a esperança
De algo bem promissor que me aconteça
Uma coisa bem simples que pareça
Uma deslumbrante forma de viver

Árvore ao anoitecer na Bicuda (foto do autor).

15 de fevereiro de 2014

VIDA LADEIRA ABAIXO

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 8/4/2010).

Vem vindo a vida
Ladeira abaixo
Rolando solta
Por entre os seixos
Depositados
Por enxurradas
Que derrubaram
Muitos barrancos
Que soterraram
Vários barracos
Vem vindo a vida
Ladeira abaixo

Vai indo a vida
Na enxurrada
Por entre a lama
Desenfreada
Paredes tortas
Sonhos zerados
Filhos perdidos
Pais desgraçados
Sem que se possa
Salvar mais nada
Vai indo a vida
Na enxurrada

Sobraram choros
Lágrimas fartas
Que não se bastam
Por tantas faltas
Restamos nós
Todos marcados
Pra todo o sempre
Com a dor que mata
Intermitente
Porque dos olhos
Sobraram choros
Lágrimas fartas
Kandinsky, Unbroken line, 1923 (em invisiblebooks.com).