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12 de novembro de 2014

REFLEXÕES CARTESIANO-ACHÍSTICAS ACERCA DA VIDA

1. INVEJA/INVEJOSOS: Pressupor que a inveja incomode mais o invejoso do que o invejado é um grande equívoco. Este, o invejado, passa parte de sua vida envolvido em mandingas, rezas, fechamentos de corpo, descarregos, banhos de proteção, uso de arruda atrás da orelha, espada-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode na porta de casa. Já o invejoso apenas exerce seu direito à inveja. E quem quiser é que se proteja!

2. ECONOMISTAS/PROFETAS: Economistas e profetas exercem profissões semelhantes: fazem prospecção de futuro negro para os povos. Os profetas ainda podem anunciar alguma salvação à frente, como ocorreu no Velho Testamento. Contudo os economistas modernos só apontam um horizonte de desgraças. E nisto, fundamentalmente, eles acabam por não se parecer tanto quanto parece (Uma incongruência, pois não?). Embora eu, particularmente, não acredite em nenhum dos dois.

3. UNHAS/UNHEIROS: Tenho visto crescer, nestes últimos tempos, um afeto quase exagerado por parte das mulheres por suas unhas e pelas unhas mais bem pintadas de suas desafetas, isto é, as outras mulheres. O que causa sérios problemas psicológicos femininos. Proliferam na Internet sites, blogs e postagens a respeito do sem-número de invenções modernas, para tornar as unhas mais importantes que os dedos, de tal forma exageradas tais invenções que vão acabar produzindo uma epidemia de unheiro. Depois não digam que não avisei.

4. CORRUPTOS/CONSCIÊNCIA: Há uma crença popular generalizada, criada pela elite corrupta e imposta ao povo como amortecedores eletrônicos, de que o pobre e/ou o honesto deitam a cabeça à noite em seu travesseiro e dormem o sono dos anjos, dos justos e dos inocentes. Já os safados, os corruptos e os larápios de toda gama – diz esta mesma crença – não têm sossego nem na hora do sono. E mais: não teriam coragem de olhar nos olhos dos filhos. Grande mentira! Os honestos é que não dormem tranquilos. Os safados têm a consciência petrificada e estão-se lixando para o que os outros pensem. E olham nos olhos do filho como canalhas que são, capazes até de inocular nos miúdos o veneno de sua canalhice. Ou não seriam canalhas. Se tivessem um pouquinho de consciência ética, seriam honestos.

5. CRIME SEM CASTIGO: Quanto mais a Polícia Federal e o Ministério Público investigam, tanto mais corruptos e criminosos se encontram. Parece aquela velha história do interior que diz que não se deve mexer em bosta de boi, pois quanto mais se mexe, mais fede. O mais interessante é que nossos conterrâneos não esquentam a cabeça com o fato e continuam fazendo as mesmas trapalhadas e falcatruas de sempre. A recente publicação do relatório sobre a violência no país traz dados alarmantes. O brasileiro, na verdade, não desiste nunca.

6. LADY GAGA/MADONA: Não sei qual é uma, qual é outra. Embora ache as duas um tanto teteias. De Madona tenho guardada a sete chaves a revista em que mostrou ao mundo a abundância de seus pelos pubianos em fotos P&B, no auge da sua juventude, antes mesmo de ser a diva do pop. Dessa eu me lembro bem. Porém quando vejo Lady Gaga cantando – acho que porque estou ficando gagá – me confundo e acho que seja Madona. Aí, ao aparecer Madona, acho que é Lady Gaga. Por isso é que sempre presto muita atenção à performance erótico-musical de ambas. Estou aposentado, sem fazer nada mesmo, não me custa ficar olhando.


Lady Gaga, com o peito caído da Madona (en.wikipedia.org).


13 de outubro de 2014

TERNO MARROM


Esta história se deu na Paróquia do Senhor Bom Jesus, na cidade de Bom Jesus do Itabapoana, nos anos tais, com as pessoas quais, cujos nomes alterei, que não estou aqui para ser processado por calúnia, injúria e difamação. Mas é tão verídica, quanto qualquer outra que já contei ou posso vir a contar, para fazer a crônica da minha cidade natal. Para o bem ou para o mal.
Zé de Lina é corno. Lina é a que o fez ser corno. Mas ele se conforma: não leva para o lado da ofensa pessoal o comportamento deletério da mulher. É corno sem vergonha naquela cara estanhada, bexiguenta, de homem desmoralizado. Lina não chega a ser essa belezura toda. Mas tem ancas largas, cabelo preto comprido penteado em grossa trança, que desce até a vertente da popa. E uns seios estofados de fazer platibanda sobre a barriga já um tanto redonda. E não se esconde atrás de nenhuma dessas posturas falsas, fingindo-se dona de virtudes peregrinas, como estampa sempre A Voz do Povo, o jornal local, ao se referir às damas da sociedade. Conta para as vizinhas suas reinações e a bonomia de Zé, que a tudo assiste impávido, como convém a um corno conformado. Ele não desconfia, mas é a vergonha da rua do cemitério, onde mora. Todos ali sabem de sua condição vexaminosa. E ele continua a jogar sua sinuca e a tomar sua cerveja com os parceiros, com a mesma cara como se fosse o mais amado dos maridos das senhoras de respeito.
Dentre os casos de que detinha a posse, Lina tinha certa predileção por Zinho Mateus e seus mimos. Homem de muitos alqueires de terra e de centenas de cabeças de gado, conduzia seu caso com Lina nas mesas dos bares por onde ia bebericar nas noites de calor, com os amigos parecidos com ele. Na cidade pequena, boa parte da população conhecia a história.
Zé sabia de Zinho, que pensava que o corno fosse inocente. E Zinho tinha até alguma comiseração pelo papel do marido, sem desconfiar de que o sujeito era de caráter mais frouxo que precata velha.
Certo dia, Zinho vinha chegando sem se dar conta de que Lina não pusera na janela da esquina a toalha vermelha, indicativa da ausência do marido. E foi contando os passos quintal adentro, ultrapassando o portão de madeira, que fechou com um golpe seco no trinco de ferro. Até o cachorro de Zé tinha o amante como pessoa das intimidades da casa.
Lina, pega então de surpresa, disse apreensiva para o marido que o amante estava chegando de supetão. Sem tempo para se escafeder dali e deixar o pasto livre para o cavalo pastar, Lino se atirou sob a cama do casal, já que o armário era acanhado demais para sua pessoa.
Com a sem-cerimônia dos amantes estabelecidos, Zinho foi entrando, enquanto Lina corria a se preparar para os embates que se anunciavam, como de hábito. O homem senta-se à beira da cama e começa a tirar as botinas, enquanto fala algo até então impensável para ela:
- Lina, ando com pena do Zé, coitado! Estou botando chifre nele há tanto tempo, que isso já está me deixando com remorso. Estou até pensando em comprar um corte de linho azul e dar de presente para ele mandar fazer um terno novo. Até pago o feitio para ele lá no Branco Alfaiate.
Embaixo da cama, Zé ouve a ponderação daquele que lhe aplica os chifres sobre a cabeça, futuca a mulher, já deitada ao lado com as lingeries do dia, e lhe diz baixinho para não ser ouvido:

- Pede marrom, que azul eu já tenho.

Imagem em mercadolivre.com.br.

3 de outubro de 2014

DUELO TITÃS

(Para Romeu Pimentel do Carmo.)


Cartaz do faroeste clássico (livrariascuritiba.com.br).

Por causa de uma bobagem, uma discussão besta, meteu o taco na cabeça do parceiro de jogo. A turma do deixa-disso conseguiu apaziguar os ânimos, tomar o taco da mão do agressor e providenciar um curativo na cabeça do agredido. Embora amigos de longa data, indefectíveis parceiros de sinuca, naquele sábado chegaram à agressão. Esse o motivo para que os dois deixassem de se falar. O agredido, inclusive, prometeu forra, vingança. Daria um tiro no meio da cara do outro.

Os dois, então, anunciaram-se com um trabuco na cintura. Conhecessem os dois e saberiam que isso não passava de conversa fiada. Eles, na verdade, dois poltrões, de ninguém levar fé. A ameaça, porém, estava lançada. Pairava no ar a hipótese de um homicídio qualificado. Bom Jesus do Itabapoana estava prestes a ver derramamento de sangue.

Por via das dúvidas, os dois procuraram passar por vias distintas, a fim de evitar um confronto decisivo. Sem, contudo, imaginar que tal oportunidade ocorresse tão de imediato, acabaram por se encontrar em frente ao Cine Monte Líbano, na Praça Governador Portela. Ao se notarem, cada um levou a mão à cintura, para sacar uma arma de fogo. À distância de uns oito metros um do outro, permaneceram imóveis, na posição de saque, durante alguns segundos, como num fotograma congelado na tela do cinema. Não fossem eles, pareceriam Kirk Douglas e Anthony Quinn em Duelo de titãs.

Como nenhum dos dois se dispusesse a puxar a arma, porque não a possuíam – tudo uma encenação só! – correram ambos para trás das grossas pilastras de sustentação do prédio do cinema. E ficaram aguardando que o desafeto atirasse.

A cena atingiu o ridículo, chegando mesmo a comédia de pastelão, a bangue-bangue à italiana, quando, dentre os espectadores, Romeu falou em voz alta que não deixasse dúvidas:

- Aí, seus frouxos, vamos parar de palhaçada, que ninguém aí está armado! Vocês se cagam de medo de revólver, como é que vão estar com um na cintura? O máximo que vocês têm é uma garrucha de feijão!

Vergonhosamente os dois saíram de seus abrigos e cruzaram caminho, cabisbaixos, sob a risadaria geral.

E ninguém falou mais em dar tiro em ninguém! Naquele dia Bom Jesus foi dormir tranquila.

25 de setembro de 2014

SUSTO FATÍDICO


Marido de mulher feia se assusta até com espirro. Pelo menos é esse um dos princípios filosóficos mais banais dos bares e biroscas da vila. E Décio sabia dele, comungava com ele. Por isso fugia de mulher feia como o diabo da cruz. Mas, como não era lá também essa mimosura de pessoa, não podia estar exigindo além da conta. Convencido por esse contra-argumento, tomou a firme decisão de encarar a Carlinda, sobretudo pela sua viuvez espalhada por fazenda de tantos alqueires, montada em lombo de não sei quantas vacas leiteiras e fundada em saldo de vários contos de réis, no Banco de Crédito Rural.

A corte, se é que se pode chamar assim àquela coisa meio desenxabida que ele principiou na festa de Santo Antônio, despertou a atenção de várias futriqueiras. Conversa vai, conversa vem, combinaram um encontro mais engatilhado para outra ocasião, fora dos olhos e dos ouvidos dos curiosos.

E não é que, após as chuvas torrenciais daquele verão, choveu na hora do Décio? O casamento, bem no mês das noivas, teve pompa e circunstância, de acordo com a viuvez da fazendeira.

Antes, porém da lua de mel, no meio da festança, Décio recebe notícia da morte de um irmão, em terras do norte de Minas, para os lados de Pedra Azul. Lá se foi, deixando a fuzarca dos lençóis para daí a dias.
Quatro dias levou até voltar para casa.

Melhor, no entanto, não voltasse àquela hora. Chegando pela madrugadinha, antes da claridade do sol, assustou-se de tal forma com a figura da mulher espalhada na cama, que sofreu uma brochura fulminante.

Hoje, passado algum tempo do consórcio nupcial, está ele em tratamento com doutor de cabeça, para ver se consegue botar as duas para funcionarem ao mesmo tempo.



Imagem em mentesdecontacto.blogspot.com.

5 de setembro de 2014

TIPO ASSIM


Uma época, tipo assim mil quinhentos e alguma coisa, inventaram um país, tipo assim cheio de florestas e flores, de índios, de bichos e de mar muito bonito, tipo assim azul.
Aí trouxeram mais gente, tipo assim da Europa e da África, tipo assim brancos senhores e negros escravos, e começaram a explorar todas as riquezas desse tal país, tipo assim madeira, ouro, diamantes.
Depois de muito tempo, tipo assim quinhentos anos, esse país ficou tipo assim cheio de problemas, de gente, de estradas esburacadas, favelas, pobreza, tipo assim come hoje e não come amanhã, tipo assim fome braba mermo, mermão!
Aí, durante as eleições, o povo, tipo assim os eleitores, deram de eleger gente tipo assim calhorda, canalha, larápia, esculachada, tipo assim despreparada e mal-intencionada, e o país ficou tipo assim uma merda, tipo assim uma bosta mermo, brô!
E o povo, tipo assim todo mundo, não só os eleitores, ficou tipo assim, tipo assado e mal pago. Sacou? É mais ou menos por aí, tipo assim!
Charge de Novaes (em novacharges.wordpress.com).

30 de agosto de 2014

AMARRANDO OS SAPATOS

Van Gogh, O par de sapatos (em pensaacabeca.blogspot.com).

Vivia na guaxa, na zona do meretrício, na margem direita do rio. Tinha até amante. Toda noite passava por lá para molhar o ganso. A mulher mesmo, a esposa de papel passado, mãe dos filhos, já não prestava para nada: gorda como porca cevada. Servia, isso sim, para brigar com ele, aporrinhar seu juízo e, vez ou outra, descer-lhe aquele braço balofo no meio da cara.

Também pudera: ele pequeno, magrelo, minguado e, sobretudo, homem de muita paz, diga-se de passagem! A não ser que tivesse de dar, salvo melhor juízo, data venia, um tiro nela. Isto, nem pensar! Assim, era melhor mesmo, de vez em quando, levar uns cacetes. Tinha lá também suas compensações.

Por causa desta vida de zona, com amante e tudo, fora exonerado do cargo de promotor de justiça ad hoc da comarca. Muito desclassificante tal comportamento em comarca do interior norte do estado. Está bem, conformou-se! Sua banca de advogado dava para o sustento da casa e da vida desregrada, o que era coisa passada em julgado.

A esposa, no entanto, nem sonhava com suas peripécias. Por isso é que, numa manhãzinha de segunda-feira, após uma noitada de esbórnia, estava ele chegando a casa com todo o cuidado para não acordá-la. Sutil como gato, sentou-se na cama, com o indefectível terno, e começou a desamarrar os sapatos.

Um movimento um tanto mais brusco, no entanto, acordou a mulher, que de imediato queria saber o que estava acontecendo. Ele, para não começar a semana levando safanões e contravapores, voltou a amarrar os sapatos, dizendo que tinha assunto urgente para tratar com cliente no Arraial dos Cabritos, no Arrebenta Rabicho, em Sacramento, sei lá.

Ajeitou o nó da gravata, passou a mão no paletó tresnoitado e saiu pela Praça Governador Portela, passo apressado, os olhos ardendo como brasa, sem direito de tirar um ronquinho em sua própria cama, em sua própria casa. E ia ter de tomar o café da manhã no bar do Salim, seu patrício.

Que ele podia ser tudo na vida, menos bobo!


26 de agosto de 2014

SEMPRE UMA NOVIDADE


Seu Fulano estava de saída para a banca de jornal, quando a mulher lhe pede que compre o remédio para o exame que iria fazer.
Quando se chega à idade dos estragos, há um sem número de exames a se fazerem. Aquele, especificamente, era do tipo desastroso: colonoscopia. O leitor mais jovem, com toda a certeza, nunca ouviu falar disso. O que é até razoável. Mas, depois que o Cabo da Boa Esperança é ultrapassado, as invasões corpóreas se dão de norte a sul: examina-se o estômago, por cima; e os intestinos, por baixo. Este é a colonoscopia. A palavra, se meu caro leitor tiver passado por aulas de etimologia, há de ser conhecida. Se não, não me custa dizer: visão do cólon. Quer dizer, é coisa de se introduzir um tipo de mangueira, com uma câmara na extremidade, naquilo que Mussum outrora chamava de forévis, para a prospecção do pré-sal, se é que me entendem. Só de pensar, é de dar arrepios a frade de pedra, aquele lá do Espírito Santo.
Por isso é que, para que a visão intestina não tenha atrapalhos, se faz necessário limpar as tripas de todo tipo de detrito. Então, a recomendação dela para que Seu Fulano trouxesse o laxante, o destranca tripa. Leu ele lá no papel com as indicações do laboratório e verificou: Ducolax ou Lacto-Purga.
- Querida, vou trazer Lacto-Purga.
- Ah, não! Traga outro! Esse, não!
- Por que não esse que já conhecemos?
- É que quero variar um pouco. Não gosto de ficar repetindo coisas.
Ah! a mulher e sua incontrolável mania de novidades!
O marido achou estranho. Que ela quisesse um novo sapato, uma bolsa diferente, um vestido de corte moderno, tudo bem! São novidades previstas no cardápio do estilo feminino de ser. Mas, diabos, querer novidades em laxante intestinal aí já chega às raias da insensatez.
E tentou ponderar com ela que nem sempre é preciso estar inovando, procurando ser diferente. Ela não iria a um desfile de cagonas, onde certamente diria dos benefícios de um novo remédio, da dinâmica da sua ação e das consequências daí advindas. Iria, bolas, apenas desobstruir os intestinos, para que o médico pudesse verificar se não haveria novidades indesejadas lá dentro. Nada além disso, pombas! Até lhe falou, todo cheio de dedos – há sempre de se ter muito tato com o espírito feminino –, do acerto dessa preocupação dela em estar sempre descobrindo coisas novas, para apresentar nas conversas com as amigas. Mas, para tudo, há um limite. Não seria necessário que um simples remédio para provocar caganeira fosse motivo para seu desejo novidadeiro.
Depois de alguns minutos de idas e vindas de argumentos, a mulher cedeu, sob certos protestos, mas resolveu não inovar no remédio desta vez. Ele havia ganhado a batalha do piriri programado. Foi à farmácia e voltou com o bendito Lacto-Purga.

Imagem em agenciailumina.spaceblog.com.br.

5 de agosto de 2014

PENSAMENTOS BEM PENSADOS REQUENTADOS


Como ando assoberbado de coisas por não fazer, falta-me tempo hábil para engendrar alguma coisa neste meu cérebro nervoso (Quem é da minha geração identificará o samba-canção de onde plagiei isto, certamente.). Assim vejo-me na contingência de lançar mão de alguns pensamentos bem pensados, já publicados em Gritos&Bochichos, porém inéditos aqui. Não são brilhantes que mereçam ser repetidos. Contudo, como dizem que não há piada velha, mas público novo, espero que eles ainda não tenham sido lidos pelos leitores que me honram com sua vista d’olhos sobre minhas bobagens.

Vamos a eles!

1. Não que eu tenha implicância com o ornitorrinco, porém até o nome do bicho é esquisito.

2. Chama-se de gaviões da fiel um bando de corintianos tarados que ficam de olho na honesta mulher do vizinho palmeirense.

3. Um dia é da cabritada; o outro, da buchada de bode.

4. Incongruências do reino animal: perua que solta a franga arrisca a desencaminhar a periquita.

5. O primeiro resultado prático do máximo divisor comum se deu quando Cristo dividiu um peixe e um pão com cinco mil seguidores. Depois disso, tal cálculo jamais funcionou muito bem.

6. Na Praça dos Três Poderes manda quem pode e obedece quem não tem nenhum poder.

7. A situação anda tão esquisita, que gavião real está aceitando emprego de urubu.

8. Adaptação da lei física: a toda ação corresponde uma réplica, uma tréplica e um sem-número de recursos protelatórios, que chegam até ao STF.

9. Nem cavalo marinho dá coice, nem pangaré respira embaixo d'água. Portanto, cada um na sua!


10. Diz a Bíblia que, "no princípio, era o verbo". Depois vieram as outras classes gramaticais e, consequentemente, os gramáticos. A partir daí, as coisas só se complicaram.

Imagem em fmanha.com.br.

25 de julho de 2014

PALESTINOS E ISRAELENSES

Publiquei em 19/10/2011, em Gritos&Bochichos, onde costumo dar opiniões sem nenhuma consistência, mas apenas exercendo o meu direito ao pitaco, o texto abaixo, em que trato da relação conturbada entre palestinos e israelenses.
Sei que tal relacionamento depende muito mais de discussão ou diálogo do que do poder das armas, sempre uma solução estúpida.
Repito-o aqui, porque eles se repetem na estupidez. E, direito à estupidez, todos nós temos.

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Como sei que, tão cedo, o conflito entre israelenses e palestinos chegará a bom ou mau termo, também vou meter minha colher de pau nesse angu já muito encaroçado.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que isso é briga em família - tais povos são originariamente irmãos, quando muito primos - o que torna qualquer tentativa de acordo muito mais difícil. Parente é serpente, como no filme de Mario Monicelli (1992). Em segundo lugar, habitam o mesmo espaço geográfico. Quer dizer, são vizinhos parede-meia. Assim o que um faz incomoda o outro. E como o grau de tolerância/intolerância, além de todos os argumentos, está baseado em suas crenças religiosas, aí o problema cresce de tamanho. Se se considerarem os interesses econômicos e geopolíticos, então nem se fala.

Imagem em nayyagami.blogspot.com.

Não que, se fossem seguidores do mesmo Deus, se resolvesse a parada. Há cristãos que se engalfinham, budistas que já quebraram o pau uns com os outros, assim como muçulmanos que, ao longo da história, também tiveram suas diferenças. Mais recentemente, só para lembrar, iranianos e iraquianos travaram uma guerra estúpida. Ou dentro do próprio território do Iraque, a desavença entre xiitas e sunitas. Mais ou menos como católicos e protestantes no Reino Unido.

Deste modo, para se encrespar um com o outro, basta que os dois queiram. E isto é o que não falta: gente disposta à guerra!

Com relação ao conflito na região da chamada Terra Santa, ocorreu há pouco a troca de um israelense, Gilad Shalit, soldado do exército, por milhares de palestinos presos em Israel. Há alguma coisa estranha, vez que Marcelo Yuka e Seu Jorge afirmaram que a carne mais barata no mercado é a carne negra*. Pelo visto, a carne palestina também anda com a cotação lá embaixo: 1000×1. Isso não paga nem placê.

A imprensa diz que o israelense era cativo e os palestinos, prisioneiros. Vejam que há um peso semântico distinto nas duas palavras que destaquei, como se houvesse a noção de injustiça para um e justiça para outros.

Ora, Gilad Shalit é soldado, portanto envolvido naquela guerra estúpida e passível de sofrer qualquer tipo de ação contundente de palestinos interessados na independência e no reconhecimento de seu território.

Os palestinos, no entanto, recusam-se a reconhecer o Estado de Israel, vez que tal estado foi uma imposição da ONU, em meados do século passado, em lugar já ocupado por palestinos, que ali só estavam porque os judeus sofreram a  diáspora no primeiro século de nossa era, os quais, por sua vez, vindos da Caldeia sob a batuta de Abrahão, vários séculos atrás, conquistaram o território que consideravam a Terra Prometida.

Vejam como o negócio é enrolado. Com quem estará a razão? E respondo-lhes com tranquilidade: com os dois e com nenhum deles.

Enquanto um não se dispuser a reconhecer o direito do outro à existência como povo, nação e estado soberanos, não haverá a mínima possibilidade de paz.

E quem fará isso? Quem meterá no coração furioso de um e outro a aceitação do diferente: Jeová ou Alá? Shimon Peres ou Mahmud Abbas? Natalie Portman ou Shakira (Sei que esta é colombiana descendente de libaneses, mas entrou aqui porque é bonita que dói, como a outra! E, toda vez que escrevo Shakira no blog, aumenta o número de leitores.)

Certa vez, Chico Anísio disse que o princípio cristão do "amai-vos uns aos outros" é fácil de ser posto em prática, quando o outro está em Belém do Pará e você no Rio de Janeiro. Porém, tolerar aquele seu vizinho nojento e antipático é muito mais complicado, já é pedir demais.

E acho que a coisa é mais ou menos por aí. Os dois - israelenses e palestinos - são vizinhos nojentos, antipáticos, insuportáveis, que querem a desgraça mútua. Óbvio que há muito mais questões a serem resolvidas nisto. Contudo, até agora, Israel teve o apoio e o beneplácito do Ocidente. Caso contrário também já teria sido varrido do mapa pelos povos árabes.

Aí é intolerável suportarem-se! E, enquanto não se sentam à mesa para negociarem uma convivência, aproveitam o tempo de sobra para meter o ferro daqui e dali, com o sofrimento maior daqueles que podem menos, como a história está careca de nos mostrar.

Essa desavença ainda vai longe!

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*A carne, música gravada por Elza Soares, no cd Do cóccix até o pescoço, Maianga Discos, 2002.

29 de junho de 2014

IRONIA


Nomes que são avessos
Tropeçam em seus sentidos
Reparem como se desdizem
Certos nomes conhecidos:
Vivaldo morreu de vez
Felícia é desinfeliz
Patrício é estrangeiro
E Letícia anda sempre triste
Armando desmonta tudo
O que Fabrício nem fez
Fernando malha ferro frio
Com o martelo do Marcelo
Antígona é bem moderna,
Não tem nada de antiga
Prometeu não promete nada
E Simplício é só soberba
Altivo anda jururu
Pacífico, de maus bofes,
Anda querendo briga
E Celeste encontrou afinal
O tal do inferno astral
Delícia é bem azeda
E Divino, por seu turno,
Parece filho do capeta
Alberto fechou-se em copas
Germano nasceu no Acre
Ítalo veio de Teresina
Sílvia odeia selva
Marina mora na serra
Bem distante do mar
Silvestre vem da cidade
E odeia coisas do mato
Aparício sumiu no mundo
Clarice escureceu
Bruna tem pele alva
E Albino é mestiço fula
Prudêncio é insensato
Crescêncio encolheu o porte
Amâncio é muito brabo
Ascêncio só vai pra baixo
Cristiana renegou a crença
Acrísio é muito impuro
Plácido anda nervoso
Eugênio tem berço ruim
Florinda está murchando
Aguiar perdeu seu rumo
Salvador não se salvou
Agostinho é de janeiro
Setembrino é de março
E Júlio, de fevereiro
Dolores só têm prazer
Glauco enxerga muito
Aparecida está sumida
E Bonfim danou-se todo
Quando soou o seu sino.
Repararam como, na vida,
Uma coisa está escrita,
Mas é coisa bem diversa
O que as letras contêm?
Será birra do destino?




Imagem em hsacaduracabral.blogspot.com.

24 de junho de 2014

DISCURSO DE FORMATURA


Pediu a palavra durante a festa de formatura do Grupo Escola Marcílio Dias, na progressista vila de Carabuçu, e falou:

- Caros concidadãos! Sob os augúrios desta efusiva efeméride, não me seria possível furtar ao inefável prazer, senão à elevada honra, de dirigir-me a esta ínclita e seleta assembleia para enunciar alguns efêmeros vocábulos laudatórios aos diletos formandos. Ei-los aqui, nobres pares, com o meridiano discernimento dos iluminados de que a labuta não foi vã, não foi inócua e improfícua sua determinação. Assim, prestem-se estes nossos incipientes patrícios como irretorquível exemplo para as novas gerações, a fim de que, reafirme-se sempre, o estar no mundo se configure, amiúde, como uma inequívoca prova de que o Criador nos regalou com a probabilidade do aprimoramento social, relativamente proporcional ao melhoramento individual. Sejam eles, então, ratifique-se, o lúmen e o apanágio para os neófitos, que ora estão, tão somente, abeberando-se nos inescrutáveis mananciais do saber. Em virtude de tão relevante papel que se lhes atribui, peroro meus nobres concidadãos, reunidos nesta inenarrável solenidade, a bradarem em uníssono, como forma superlativa de incentivo: Eia! Sus! Avante, camaradas! Tenho dito. Muito obrigado!

O auditório explodiu em aplausos. Lá no fundo do salão, Manuel Bento, um dos que mais aplaudia, murmurou eufórico para a esposa:

- Ô, Dorinha, não entendi patavina do que o doutor falou, mas, taí!, vai falar bonito assim lá no raio que o parta!




Imagem em vampyrusbr.blogspot.com.


16 de junho de 2014

REGISTROS FORENSES FESCENINOS


Amantes 45, por Nicoleta Tomas Caravia (afilosofiadolobo.blogspot.com).


1. O jovem casal presta concurso público para a secretaria do Tribunal de Justiça. É aprovado. Toma posse e cada um dos cônjuges vai trabalhar em locais distintos, andares diversos, no mesmo prédio. Ambos ainda não completaram trinta anos, são inteligentes, dedicados, bonitos, interessantes. Uma tarde, certo juiz de direito, assessor da presidência, precisa descer de um andar a outro imediatamente abaixo e resolve ir por umas escadas de serviço pouco movimentadas. Encontra os dois jovens – marido e mulher – em pleno ato sexual, na penumbra daquelas escadas quase nunca frequentadas. Por ainda estarem em estágio probatório, foi relativamente simples sua demissão sumária, após comunicação do fato aos canais competentes pelo zeloso magistrado.

Eles conseguiram realizar o grande fetiche de suas vidas: formarem-se em direito, serem aprovados em difícil concurso público para a Justiça e copularem como cão e cadela nos desvãos de uma escada pouco frequentada do Poder Judiciário.


2. Na sexta-feira de manhã, como sempre, faz-se a limpeza do salão nobre do prédio da Justiça, onde se reúne o Tribunal Pleno às quintas-feiras. Naquele dia, de perigosos prenúncios, a jovem faxineira, de olhos claros, touca protegendo os cabelos, iria repetir um gesto que vinha fazendo com frequência em outros ambientes: a felação do seu chefe imediato. Senhor de seus sessenta e poucos anos, o chefe tinha como meta na vida ser sugado atrás da cadeira do presidente da casa. Ele nunca pudera estudar, porém não iria deixar passar a oportunidade para exercer qualquer tipo de poder. E ali, o lugar ideal. Era cerca de nove horas da manhã, quando seu coração parou no justo instante em que a jovem faxineira aplicava sua especialidade bucal. Ele ficou lá, duro atrás da cadeira, a moça desesperada com a cena, todos correndo para socorrer. Era tarde, muito tarde! Por isso, a faxina desandou naquela sexta-feira de perigosos prenúncios.


3. Nilo transitava pelos corredores do fórum há quase trinta anos, extrapolando competências no cartório da Vara de Falências. Agora levava processos para o juiz titular despachar. Quando entra no gabinete do magistrado, encontra a jovem e elegante advogada ajoelhada sob a mesa de despacho, aplicando em sua excelência felação jurídica inicial. Pego de surpresa, o magistrado reage com certa indignação, alegando que não se entra em sua sala sem se anunciar. Com a autoridade que lhe davam tantos anos de trabalho, o serventuário devolve a reprimenda com a informação ao juiz de que seu gabinete não era o melhor lugar para isto. E saiu como entrou, levando a pilha de processos sob o braço. Naquele dia, a vara do juiz foi que faliu!

11 de junho de 2014

O CASO DO GOLEIRO CEGO

Vão jogar, pelo campeonato rural de Carabuçu, quarto distrito de Bom Jesus do Itabapoana, as gloriosas equipes do Serrinha Futebol Clube e do Mutum Esporte Clube. É jogo decisivo, final de campeonato.

No gol do Serrinha, o técnico escalou seu próprio irmão, Zezito, cego de pai e mãe desde os tempos de menino. O centroavante do time do Mutum, artilheiro do campeonato, Jair Bodinho, imaginou-se fazendo gol até de bunda. Ledo engano! Durante o primeiro tempo, no gol de Zezito não entrou nem pensamento.

No intervalo, o técnico do Mutum chamou os atletas às falas: Como é que não enchiam o adversário de gols? Onde já se viu cego pegar no gol? Cadê o artilheiro do campeonato, o matador? Viraram um bando de pernas-de-pau, de mariquinhas? É assim que vocês querem ser campeões, sem fazer gol em cego? Vão ser é campeões de merda, cambada de frouxos! E só não apanhou dos atletas, depois de quinze minutos de descomposturas e ofensas, porque, além de fazendeiro rico e dono do time, ocupava o honroso cargo de subdelegado de polícia da vila.

O time do Mutum voltou a campo comendo grama pela raiz. Partiu todo para cima do goleiro Zezito que, misteriosamente, milagrosamente, mediunicamente, defendia todas as bolas.

A pressão do Mutum foi aumentando, aumentando, até que, nos minutos finais, aconteceu um pênalti em cima do artilheiro. Este tá no papo! É bola no filó! Pensou ele. Santa inocência!

Pois, lá onde a coruja dorme, o endiabrado Zezito foi catar o tirambaço, segurando a bola com mais firmeza do que toda a Serra da Capetinga.

Encerrado o jogo, o artilheiro Jair Bodinho, injuriado por todos os deuses do futebol, foi até o técnico do Serrinha, para saber o segredo de seu irmão goleiro.

- Muito simples! Você notou, quando pegou a bola para bater o pênalti, que ela estava untada de sebo de boi?

- Notei.

- E então?! É que Zezito agarra pelo faro, vai atrás do fedor do barriguim.

Zezito pegando o pênalti cavernoso de Jair Bodinho (imagem gartic.uol.com.br).

15 de maio de 2014

MULHERES BRASILEIRAS (VII) - RUIVAS

Encerro esta série de textos em louvor à mulher brasileira com as ruivas. Meu parco conhecimento da mulher é bem menor que a admiração que por ela tenho. Assim, é de bom alvitre - como se dizia no tempo de Machado de Assis - que eu não me meta mais a procurar outros padrões de beleza feminina. 

Vamos ao texto.

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As ruivas sempre me intrigaram. Nunca soube com segurança de onde vêm as ruivas. Da Polônia? Da Ucrânia? Da Bielo-Rússia? De Israel? Isso porque toda ruiva tem um sobrenome difícil de guardar e escrever.
Mas essa intrigante questão também interessa às mulheres. Não é incomum se encontrarem pelas ruas ruivas de todas as cores de pele, desde negras até branquelas, passando por morenas e mulatas. O que comprova a atração quase fatal que essa cor de cabelo exerce sobre a psique feminina. Minha irmã, morena, acaba de me confessar isso. E haja tintura!
Para ser realmente natural, no entanto, a ruiva tem de ter sardas, aquelas manchinhas sensuais que lhe enfeitam as faces. Nessas circunstâncias, ela passa a ser uma sedutora de marca maior. Até mesmo porque, junto a essas duas características, vêm também os olhos claros. Reparem: ruiva, cheia de sardas e olhos azuis! É a própria composição de anjos das cortes celestes a arrebatar nossos corações imprudentes.
O problema é que as ruivas não se mostram com frequência, não andam de coletivos, em ônibus apinhados de gente, em vagões de trem de subúrbio ou de metrô. Raramente vão ao Maracanã lotado. Elas só se manifestam onde o ambiente permita, porque sua ruivice ocupa mais espaço que o comum dos mortais costuma ocupar. Certa vez, na estação de Queimados, inadvertidamente, uma ruiva, com seus olhos de jade e suas sardas de âmbar, vaporosa num vestidinho verde-água, embarcou num vagão ainda vazio naquela hora. Ninguém mais ousou compartilhar o vagão com ela. Ninguém se sentiu à altura de dividir espaço com a ruiva, o que gerou grave problema de acomodação nos outros vagões. Foram quinze estações de soberania total até a Central do Brasil, onde banda de música e fogos de artifício a aguardavam.
Quando uma ruiva viaja ao estrangeiro – e elas viajam amiúde, sobretudo ao estrangeiro –, as autoridades de imigração sempre desconfiam da veracidade de seu passaporte brasileiro. O Brasil não é pródigo em ruivas, mas tem as suas, que se rivalizam com quaisquer outras das mais diversas nacionalidades. No entanto, com duas palavras e uma piscadela de olhos, ela resolve tudo. Disso fui testemunha no aeroporto Charles De Gaulle. Na minha vez de passar pela alfândega, quase tive de mostrar que não levava dinheiro na cueca, tal era o rigor do policial de La Douane em serviço.
Tenho uma concunhada ruiva, assim como sua descendência, até o netinho mais recente. Porque ruiva é assim: projeta a ruividão para além de si, como a marcar território. Mas dela, pelo menos, sei a origem: vem de uma família francesa de muitos anos atrás, aqui chegada do interior sul da França, todos eles descentes de Hugo Capeto, que reinou naquele país no século X e foi o fundador da famosa Dinastia Capetíngia, detentora do poder por mais de oitocentos anos. 
Como veem, não é pouca coisa. Talvez isso explique razoavelmente tudo o que se pode perceber das características das ruivas.

Marina Ruy Barbosa e sua ruivice (em vilamulher.com.br).