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27 de abril de 2016

MINHA MÃE FAZ NOVENTA ANOS

(Para minha mãe, Zezé, por seu aniversário.)

Neste fim de semana e fim de mês, minha mãe faz noventa anos. Os desavisados podem pensar que iremos comemorar o aniversário de uma senhorinha idosa, já alquebrada pelo tempo. Ledo engano, como diriam os antigos! Minha mãe, aliás, nossa mãe – ela tem cinco filhos e uma fieira de netos e bisnetos – ainda está lúcida, ativa e divertida como tem sido nesses últimos sessenta e nove anos e alguns meses. Isto só da parte que me cabe testemunhar, como filho mais velho.
Particularmente, posso dizer que aprendi muita coisa com ela, além da visão otimista e descontraída da vida. Por exemplo, o gosto pela poesia, pela literatura. Ela sempre foi uma leitora interessada. E tanto os livros de fundo religioso, quanto os da literatura dita profana, estiveram sob seu olhar atento. Eu, ainda mal alfabetizado, li pela primeira vez alguma coisa de Casimiro de Abreu que ela tinha em casa: Canção do exílio e outras poesias. Li também ainda miúdo seu livro de Raimundo Correia, o famoso poeta das pombas (“Vai-se a primeira pomba despertada...”). E nunca mais parei com esta mania de ler.
Tenho a impressão, quase certeza, de que esta busca pela literatura era uma maneira de dar vazão ao seu espírito aventureiro, que nunca pôde ser exercido, dadas as condições de vida a que estava ligada: casada, mãe de filhos, e todos os demais compromissos disto decorrentes.
A par disso, ou talvez embalada por isso, ela levou a vida pobre e humilde de uma mulher do interior com estoicismo e dedicação. Criou seus filhos, juntamente com o nosso pai, com rígidos princípios de ética e correção no trato com o semelhante. E os encaminhou à religião, de que até hoje é segura devota. Se, por acaso, algum de nós errou, culpa não lhe cabe. E isto também posso testemunhar a seu favor.
No final da vida de meu pai, cujo falecimento tem três anos, ela se dedicou a ele integralmente, sem abrir mão de um momento sequer do seu cuidado. Tomou para si, com o auxílio de minhas irmãs, o zelo pelos últimos dias do chefe da família que, aos poucos, foi tendo a saúde deteriorada. E, quando ele deu seu último suspiro, lá estava ela ao lado, como a ampará-lo no derradeiro instante. Chorou, como era de se esperar. Mas não se desesperou, porque deposita sua esperança numa vida melhor, tão logo desembarquemos desta experiência terrestre.
Depois deste momento difícil, às vezes tem a emoção aguçada por certas lembranças, mas seu coração está em calma, pois cumpriu o que a consciência sempre lhe ditou, com todas as letras e entonações. Por isso, nunca fugiu àquilo que os cristãos como ela identificam como a cruz que se tem a carregar, como Cristo. E, mesmo se pesada, diz que a sua cruz é leve, seu fardo é suave, porque crê e tem esperança.
Os seus noventa anos nem parecem tantos assim, pois ainda está ativa, trabalhando, lendo seus livros, interessando-se por política, por notícias e novidades que enchem os meios de comunicação. E praticando a vida religiosa de que tanto gosta.
Como há algum tempo perdi a fé, ela se põe a pedir dobrado por mim, porque diz que tenho um compromisso com ela, assim que este jogo for terminado, e passemos a outro plano. Não sei se vou conseguir cumprir, embora, abstraída a descrença, continue praticando todos os ensinamentos de solidariedade, respeito ao próximo e despojamento e modéstia, com que criou todos nós.
Nestes noventa anos, minha mãe pode orgulhar-se de cada gesto seu, por menorzinho que tenha sido, porque olha em volta – aliás, olha para frente – e vê sua existência multiplicada por filhos, netos e bisnetos, todos também orgulhosos dela.
Parabéns, dona Zezé! Parabéns, mamãe!

Dona Zezé, com a imagem de um de seus santos de devoção, na comemoração
junina da família,  em 2015, "O arraiá da Bizezé" (foto do autor).



7 de março de 2016

OS GÊMEOS


Eram cerca de cinco e meia da manhã de uma segunda-feira, quando cheguei à estação rodoviária de Itapuranga, a fim de pegar o primeiro ônibus para Goiânia, distante cerca de duzentos e poucos quilômetros a sul. Ainda estava escuro, mas já havia razoável movimento de passageiros. Comprei a passagem e fui tomar café num bar defronte, já aberto àquela hora. Depois voltei e me sentei num banco à espera de embarcar. À minha frente, em outro banco, foi sentar-se uma família, formada por jovem casal de pais e um casal de filhos, de cerca de oito a dez anos. Criancas moreninhas, bonitas, do mesmo tamanho e bastante parecidas. Logo a seguir, sentou-se ao meu lado, um goiano com seu sotaque típico do interior.Também moreno, magro, cabelos escuros, vestido com modéstia, mas dignamente, aparentava seus trinta e tantos anos. Depois de algum tempo em silêncio, virou-se para mim e falou baixinho, referindo-se às crianças:
- Será que são geminhos?
À minha resposta negativa, emendou a conversa:
- Mas parece, né? Acho que são gêmeos mesmo. Ser gêmeo é um problena sério. Sempre acaba com alguma desgraça. Eu acho que aqueles dois são gêmeos. Um é igualinho ao outro. Quando eu vejo gêmeos fico preocupado, porque nunca dá certo. Lá perto da propriedade do meu pai, há uns tempos, nasceram duas meninas gêmeas. Elas foram crescendo e, quando uma foi casar, caiu da pinguela e morreu afogada no ribeirão. Nem chegou a casar, coitada! Dizem que era porque era gêmea. Sempre vem uma desgraça com um deles. Nunca dá certo esse negócio de ser gêmeo.
E ele alongou a conversa com outras histórias sobre outros tantos gêmeos, sempre com uma desgraça com um deles, quando não com os dois.
Daí a pouco, a família resolve também ir ao bar, naturalmente para comer alguma coisa, antes de pegar viagem. Os quatro atravessam a rua, chegam à padaria, e o caboclo ao meu lado continua com suas considerações acerca deste fenômeno agourento.
De repente, vira-se novamente para mim e diz resoluto:
- Não aguento! Se não souber se eles são gêmeos, não vou ficar sossegado!
E sai a passo apressado em direção à padaria. Vejo que lá chega, rodeia os pais das crianças, que estão iniciando o seu lanche matinal. Percebo que ele se dirige ao homem, diz alguma coisa, ouve a resposta e volta célere para o banco em que estou.
- Não falei, não falei? São gêmeos! Eu sabia! Vai acontecer uma desgraça na vida de um deles. Que dó!
Meu ônibus encostou na plataforma, embarquei e, de dentro, fiquei observando aquele caboclo preocupado com o destino trágico previamente anunciado para aquelas crianças gêmeas. Um dia, ele cria piamente nisso, iria ocorrer uma desgraça com algum deles. Senão com os dois.
Não sei se ele teve um bom dia, com tanta preocupação. Daí umas três-quatro horas, eu estava chegando a Goiânia, onde tomaria o avião de regresso ao Rio de Janeiro, com mais essa história no meu repertório de crendices do povo do interior.

Os gêmeos, por Os Gêmeos (em quasedelicadaa.blogspot.com).

10 de fevereiro de 2016

CASO MÉDICO: HOMEM É MULHER!


Passeava há pouco com meu netinho e, na volta para casa, dei uma olhada rápida nos jornais expostos na banca em frente ao banco. Lá estava estampada uma tragédia pessoal: um homem de 66 anos – um só ano mais novo do que eu – pela primeira vez foi a um médico, o que em si não é propriamente uma tragédia, e descobriu que é mulher.
Ora, como pode ser uma coisa dessas? Confesso que não li a notícia, mas o direito inalienável ao pitaco não exige conhecimento prévio de qualquer natureza, para que se saia por aí falando sobre tudo e todos. Então vou exercê-lo soberanamente aqui.
Voltemos, então, à pergunta: como é que pode uma pessoa passar sessenta e seis anos da vida pensando que é homem, e um médico qualquer, despreparado, formado não se sabe onde, jogar na sua cara que ele é mulher?
- Seu Jeroboão, infelizmente tenho de lhe informar que o senhor não é homem, seu Jeroboão! O senhor é mulher, pelo que pude examinar.
- Mas, doutor, e esse troço pendurado aqui no meio das minhas pernas?
- Isso, seu Jeroboão, é o que a ciência chama de hipertrofia do clitóris. Isso não é um pênis, seu Jeroboão, é um clitóris. E só mulher tem clitóris. E pelo que vejo é uma hipertrofia e tanto. Valha-me Deus! Confesso ao senhor que nunca vi uma hipertrofia deste tamanho neste órgão.
- Mas, doutor, o senhor há de me desculpar a ignorância: e essas bolotas penduradas logo embaixo?
- Outra aberração da natureza, seu Jeroboão. Pelo que a ciência informa, elas não poderiam estar aí, já que tecnicamente o senhor é mulher.
- E o bigodão? E a barba que tenho de fazer sempre?
- Conheço muita mulher barbada, seu Jeroboão. O senhor nunca foi a circo que tem mulher barbada? Pois é! É a mesma coisa. Na minha família, seu Jeroboão, tinha uma tia por parte de pai, uma tia avó, que tinha barba e falava grosso como o senhor. Infelizmente já faleceu, que Deus a tenha!
- Sei não, doutor, acho que o senhor está enganado. Eu nunca fiquei incomodado. Mulher não fica incomodada todo mês?
- Também a ciência explica o seu caso: quando há hipertrofia do clitóris e essas bolotas se desenvolvem desembestadamente, as regras não vêm. Ficam inibidas pelo resto da vida. E de regras passam a exceção, seu Jeroboão!
- Tá na ciência isso, doutor?
- Claro que está, seu Jeroboão! Ou o senhor está achando que sou um charlatão? Passei anos da minha vida estudando o assunto e posso garantir, sem erro, que tudo isto está na ciência.
- E como é que vou explicar à Dulcina, minha mulher, com quem tenho sete filhas, mais os netos que vieram, que eu sou mulher nessa altura da vida, doutor?
- Aí, seu Jeroboão, o problema é seu! É bom o senhor mandar investigar, porque é muito esquisito. Nunca soube que mulher transando com mulher desse em procriação. O senhor, por acaso, não tem um vizinho muito chegado, muito amigo? É bom averiguar, seu Jeroboão, porque aí tem truta.
Jeroboão estava transtornado com a notícia do médico. Pensou que talvez tivesse sido melhor nunca procurar um doutor formado. Lá no seu sitiozinho perdido no alto da serra, vivia muito bem, tratando-se com ervas e plantas.
E agora o que faria? Como falar com Dulcina, mulher de sérios princípios religiosos, que ela esteve casada com outra mulher por mais de quarenta anos. E, pior, que a sua parceira – ele – nunca tinha negado fogo. E também ia tirar umas suspeitas com o compadre Tonhão Campista, vizinho de propriedade e muito chegado à família. Tanto que é padrinho das sete filhas dele. Miserável do compadre Tonhão Campista, pensou Jeroboão lá com seus botões.
Pagou a consulta ao médico, que lhe deu o receituário com reguladores de menopausa e a seguinte recomendação, assim que saía do consultório:
- Seu Jeroboão, e trate também de ir a um cartório trocar esse nome. Que não pega bem uma mulher como o senhor com esse nome de macho.


Imagem em letrasmusicadas.blogspot.com.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

4 de fevereiro de 2016

AMIZADE

(Aos meus amigos, particularmente a Romeu Pimentel.)

Tenho cultivado amizades, embora não saiba plantar nem um pé de couve. E nisto me sinto um latifundiário. Talvez meu campo seja extenso, porque não há resquício de inimigos a lhe oporem limites. A não ser quando criança, nunca entrei em confronto com o meu semelhante. Nunca cheguei às vias de fato, como os diários sensacionalistas costumam dizer, quando as pessoas saem no braço, dão-se sopapos. Ou, pelo menos, se ofendem verbalmente. Não nasci para isto.
Lembro-me de Ziraldo citando Otto Lara Resende, cujas palavras diziam mais ou menos o seguinte: A natureza não me proveu do sentimento do ódio. Por isso planto amigos a mancheias, para parafrasear o grande Castro Alves. Ainda que não sejam muitos, são intensos, são especiais, são daqueles de se guardarem debaixo de sete chaves, nas palavras de Fernando Brant musicadas por Milton Nascimento. Estou muito citador hoje!
E planto em todos os gêneros, sexos, cores e condições, embora perceba que amigos sãos os que mais próximos estão daquilo que sentimos. Não propriamente do que pensamos. O pensar é livre, cada um tem sua ideologia, sua filosofia. O sentir é mais ou menos semelhante entre os seres, pela própria condição física. Não há tanta diversidade no sentir, quanto no pensar. Por isso é que dou mais valor ao que é menor, para acabar por fazê-lo maior.
Por outro lado, a amizade que planto não é grama. Tem raízes profundas e dá sombras generosas, frutos saborosos, sucos capitosos. Meus amigos são meu orgulho. Quando falo de um amigo, fico até com receio de o outro sentir ciúmes. E aí tento falar sem ostentar as qualidades que vejo naquele, a fim de não melindrar esse. Mas todos estão em meu coração numa escala de entupir artérias.
Aliás a vida sem amigos deve ser – se existir! – uma coisa sem sabor. Ainda que, por momentos, possamos sofrer com o que sofre o amigo, ainda assim é tudo um grande prazer. Até mesmo nisso. Porque, se um amigo está em perigo, o perigo é meu também. Se ele chora, sou capaz de chorar junto. Mas, se ele resolve beber um vinho, aí me emborracho com ele. Um vinho com um amigo é de casta superior, só cultivada no campo da emoção.
Por vezes, fico sozinho em casa, diante do computador, ouvindo uma música, vendo um vídeo, lendo um livro, e sempre me vem à memória os amigos que tenho, alguns especificamente que talvez devessem também compartilhar daquele momento simples, mas cheio de prazer, que consigo tirar das coisas mais corriqueiras. E, nessas ocasiões, fico feliz em saber deles, que andam por esse mundão afora, levando suas vidas, curtindo os seus, fazendo valer sua presença na existência, e isto me dá um conforto muito grande. Às vezes, até um orgulho infantil.
Os meus amigos são soberbos! Não que sejam orgulhosos, cheios de vaidade. Não que se sintam melhores que os outros. Superiores aos demais. Mas são os amigos que trago no meu mais profundo sentimento. Aqueles que estão soberanos na minha estima. E disso não abro mão, nem faço economia no adubo.
Salve o amigo! Viva meus amigos!

Árvore em Itaocara-RJ; 1/12/2013 (foto do autor).

24 de janeiro de 2016

VEM AÍ MEU IRMÃOZINHO!

(Uma ficção calcada em fatos reais e vindouros. 
Para Bruno e Gabriela.)
Dia desses, minha mãe e meu pai me chamaram para uma conversa. Disseram que tinham uma notícia muito importante. Eu, na verdade, nunca sei o que é muito importante para eles. Talvez falar de escola, de trabalho, do Botafogo. Meus pais são botafoguenses. Até minha mãe, que não era, virou por nossa causa. Aí fiquei pensando em que tipo de notícia eles tinham para mim. Será que, porque vamos mudar para São Paulo, eles iam dar nossa cachorra Banana para os outros?
Preciso dizer aqui que tenho uma irmã mais velha, a Gabi, que vai fazer onze anos. Eu vou fazer sete, um mês antes de ela fazer os onze. Ainda tenho seis. Será que a notícia era só para mim e não para a Gabi também? Então não deve ser por causa da Banana ou de São Paulo, senão seria uma conversa com nós dois. Aí acho que fiquei meio preocupado.
Pois eles começaram a dizer que era uma boa notícia, que eu iria gostar muito. Então comecei a ficar animado. Seria outra viagem à Disney? Ou outro passeio com os meus avós? De vez em quando eu e minha irmã também viajamos com eles, e gosto muito. Ou iríamos passar férias na casa de Araras da nossa outra avó?
Mas não era nada disso. Com o jeito estranho dos adultos para falar essas coisas, eles me disseram que vou ganhar um irmãozinho. Ou irmãzinha. Ainda não sabem. No início fiquei sem saber o que dizer. Mas, de repente, soltei um sorriso e um oba! que bom!
Não sei se quando eu fui nascer, eles também falaram assim com minha irmã. Acho também que não ia adiantar muito, porque ela ainda era muito pequena e não entenderia. Eu agora já sou grande, sei muitas coisas e entendo tudo. Eles podem muito bem falar, que eu entendo. Não sou mais um bebezinho que não sabe nada. Tenho até umas perguntas para fazer para eles: Em São Paulo neva? Ainda é 2015 em São Paulo? Não quero me mudar para um lugar atrasado. Aqui em Vitória é muito bom de morar.
Uns dois dias depois, meu pai me perguntou como eu estava me sentindo por saber que ia ter um novo irmão (Ou irmã. Até agora ninguém sabe!) e deixaria de ser o irmão mais novo, para passar a ser o irmão do meio. Acho que meu pai anda preocupado com o que eu possa sentir. Deve estar pensando que eu vou deixar de ser o príncipe da mamãe, por causa desse que vem aí. Eu posso até deixar de ser o príncipe e o outrozinho passar a ser. Mas eu vou me tornar o rei da mamãe. Ele que fique de príncipe!
Pensei um pouco e disse para papai:
- Vai ser legal, pai, mas não vou fazer com ele o que a minha irmã faz comigo!
E ele quis saber o que a Gabi faz comigo. Então tive que dizer mesmo.
- Ela enfia as unhas grandes no meu braço e rasga a minha carne!
Ele ficou muito espantado, quando revelei como minha irmã faz comigo. Ela, na verdade, é uma boa irmã. Brincamos e brigamos do mesmo jeito. Mas eu precisava deixar claro para meu pai que estava começando a doer eu perder a condição de príncipe da mamãe. Aliás, devo dizer aqui que a mamãe tem um chamego todo especial comigo. E me passou pela cabeça que ela pode dar muita confiança para o meu irmãozinho – ou irmãzinha, sei lá!
Papai quase não acreditou no que eu disse e quis saber ser era mesmo verdade o que a Gabi faz comigo. Eu disse que sim, que ela estraçalha a minha carne, mas que eu não iria fazer isso com meu irmãozinho. Papai ficou todo feliz e perguntou por que eu não faria a mesma coisa com ele:
- É que não tenho unhas compridas como a Gabi! - respondi.
Acho que, nessa hora, senti que meu pai tomou um susto, mas no fundo parecia querer rir. Não entendi muito bem a cara que ele fez, mas eu só fui sincero, e acho que a gente não pode ser castigado só porque é sincero. Como sempre penso muito rapidamente e saco muito bem as coisas, e completei:
- Que bom! Vai ser bom ter o neném, porque eu vou ter em quem mandar, pelo menos!
Meu irmãozinho – ou irmãzinha (Daqui mais um tempo, a gente vai saber.) pode ficar tranquilo, porque minhas unhas nunca ficam compridas como as da Gabi. Minha babá está sempre me mandando tomar banho, escovar os dentes e cortar as unhas.
Puxa vida!

Eu e minha irmã, no Mundo a Vapor, em Gramado (foto do meu avô).


20 de janeiro de 2016

FAZER OU NÃO FAZER


Mesmo que você seja um preguiço contumaz – e não vou aqui enumerar alguns que me conheço –, sempre terá o que fazer do ponto de vista linguístico. Nossa língua nos provê de um bom número de expressões do fazer que, propriamente, podem não produzir nenhuma obra que se preze, mas, ao contrário, servirão para expressar muitos e variados conceitos. Aliás, conceitos pertinentes a respeito das coisas do dia a dia (Até hoje não concordo muito com a reforma ortográfica que suprimiu o trema e escorraçou o hífen de muitas palavras de forma inexplicável.).
Consegui arrolar algumas delas para a sua apreciação, caro leitor.
Aí vão.
Fazer a vida – Trabalhar; exercer certo ramo de atividade; sair do estado de inatividade para o de produtividade.
Fazer água – Romper-se o casco, com a consequente entrada de água na embarcação. Produzir resultado pífio ou aquém da expectativa; resultar uma ação em consequência desprezível.
Fazer barulho – Alardear; manifestar-se em altos brados; propagar; tornar público.
Fazer beiço/beicinho – Chorar; começar a chorar; fingir chorar a fim de comover o outro.
Fazer bobice – Fornicar; manter relações sexuais. Agir de forma debochada, ou com brincadeira. / Também na forma popular interiorana: fazer bobiça.
Fazer cara de paisagem: Fingir distanciamento do que acontece; mostrar-se alheio ou indiferente à situação.
Fazer caminho – Viajar; ir em busca de realizar algo; sair. Procurar um rumo na vida.
Fazer cera – Demorar propositadamente a fazer algo, na intenção de ganhar tempo; remanchar; retardar a execução de uma tarefa. No futebol, demorar na reposição da bola em jogo, a fim de ganhar tempo, quando o próprio time está com o placar favorável.
Fazer chacota – Zombar; tratar com desconsideração ou desprezo.
Fazer comichão – Instigar; incentivar; motivar.
Fazer (cu) doce – Colocar-se acima da situação, fingindo não se interessar por aquilo que acontece; fingir distanciamento; fingir superioridade.
Fazendo doce, literalmente (em guiadicas.net).
Fazer das tripas coração – Transformar, pelo trabalho exaustivo, algo negativo em positivo. Produzir bom resultado, a partir de dados negativos.
Fazer de conta – Fingir; fabular.
Fazer feio/ bonito – Realizar algo com bom/mau resultado; errar/acertar na execução de uma tarefa.
Fazer figa – Tentar precaver-se de maus resultados; fingir não dar importância a algo.
Fazer figura/cena – Fazer pose; fingir um estado de espírito; mostrar-se; pavonear-se.
Fazer filho – Engravidar alguém (o homem); engravidar-se (a mulher).
Fazer firula – Expressão oriunda da linguagem do futebol: tentar ou executar jogada de efeito bonito, mas sem aplicação prática na partida. Fazer algo sem praticidade, apenas na tentativa de aparecer para o outro.
Fazer gato e sapato – Tratar de maneira irresponsável reiteradamente; abusar.
Fazer mal – Manter o homem relações sexuais com mulher inexperiente, normalmente virgem.
Fazer merda/cagada – Fazer algo que produza resultado negativo, por imperícia ou precipitação; fazer algo malfeito, inútil ou sem bom acabamento.
Fazer mundo – Viajar; viajar sem roteiro pré-programado; sair em busca de realizar algo; viver vida errante.
Fazer o diabo – Agir de forma abusada e excessiva. Exercer muitas atividades; fazer muitas coisas.
Fazer onda – Mostrar-se superior diante do outro em determinada situação. Também se diz tirar onda.
Fazer ouvidos de mercador – Fingir que não ouve algo que é dito, a fim de não se obrigar a reagir.
Fazer piada/troça – Zombar; não levar a sério um assunto; ridicularizar.
Fazer pouco – Desconsiderar; levar em pouca conta ou consideração.
Fazer presença – Estar presente; comparecer; estar em determinado lugar ou situação, sem se comprometer com o que ocorre.
Fazer-se ao mar – Partir em viagem marítima; navegar.
Fazer-se de morto – Não participar de determinada atividade ou opinião, para não se compromete; omitir-se.
Fazer-se de vítima – Aparentar inocência para fugir à responsabilidade de sua própria ação; dissimular.
Se você, leitor, quiser aplicar algumas dessas expressões a alguém que conheça, da vida pública ou privada, esteja à vontade. Não sou proprietário delas; é a língua que nos provê deste vasto repertório de palavras e expressões de que podemos dispor, para exprimir nosso conceito do mundo que nos cerca. E pelos sete lados, como numa aposta do jogo de bicho.
Até a próxima, que tenho mais o que fazer!
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

9 de janeiro de 2016

SACRIFICANDO BICHOS, MATANDO PLANTAS


Lêmure da cauda anelada, quisquilhaneto de nosso possível ancestral, conforme as mais loucas teorias (pt.wikipedia.org).

A quase ditadura do politicamente correto, que, muita vez, não deixa margem à contradição está também presente na área da alimentação, com inúmeras correntes que propugnam por hábitos alimentares os mais diversos.

Há os que se recusam a comer carne, por exemplo, com argumentos sinceros sobre o sacrifício que se impõe aos animais, que acabam por chegar esquartejados às nossas mesas.

Para também ser sincero, eu como carne desde o homo sapiens, quiçá desde o australopithecus, se não for antes, desde os lêmures que se penduravam nas árvores do continente africano, na Gondwana, na Pangeia, sabe-se lá onde.

Entretanto há muitas pessoas por esse mundão afora que se recusam a comer qualquer animal, mesmo que seja um mosquitinho esvoaçante que, desavisado, entre em suas bocas, como fazem os jainistas. Estes, ao saírem às ruas, cobrem a boca com uma máscara, a fim de que nem mesmo uma muriçoca distraída lhes entre goela adentro e eles sejam constrangidos a comê-la. Consideram eles, coerentemente com sua crença religiosa, homens e animais semelhantes, portanto merecedores do reconhecimento da condição de iguais, de irmãos. Já com as plantas em geral - frutas, legumes, cereais e vegetais -, não têm tanta consideração e mandam ver: comem-nas cruas e cozidas, em saladas, em refogados, salteadas, sós e acompanhadas. Coitadas, por que não merecem elas o mesmo status?!

Na minha descrença generalizada, julgo mais grave que matar uma galinha para comer, é dizimar um canteiro de singelas hortaliças, que nem com o recurso da fuga foram brindadas pela natureza. Elas são as nossas vítimas mais indefesas, porque imóveis.

Ora, senhores, se toda a natureza se faz na base da cadeia alimentar, uns comendo os outros, e nós, seres desumanos, inseridos nesta mesma cadeia e sendo quem somos, comemos todas as outras criaturinhas sem culpas, constrangimentos ou preferências: rastejou, nadou, andou, voou ou simplesmente se balançou ao vento e à brisa, nós podemos comer, segundo nossos hábitos e costumes.

Ser vivo come ser vivo. E, de mais a mais, tudo tem vida. Até mesmo o granito mais duro. Só que aí a vida se conta em bilhões de anos.

Então, não entendo muito bem as campanhas contra a picanha e a costeleta, se não as há contra os brócolis e a alface, o maxixe e a beldroega.

Acaso estes últimos não experimentam algum tipo de sofrimento ao serem cortados? Só dói, se sangra, berra ou esperneia? Os sem voz e sem ação – todos os seres do reino vegetal – merecem muito mais nossa solidariedade, que um boi que nos pode chifrar, ou uma galinha que nos pode bicar. Acidentam-se muito mais humanos com seus semelhantes-bichos do que com seus semelhantes-plantas. Muito raramente um pé de pau cai em cima de alguém. É bem mais comum levarmos uma chifrada e uma mordida, que termos a cabeça rachada por um galho de árvore despencado. 

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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 6/9/2011.


28 de novembro de 2015

NUNCA HOUVE UM FÍGADO DE GALINHA COMO O DO BAR PRACINHA!

(Para Jane, Maria Lúcia e Jorge Neiva.)


Às vezes sou assaltado por certas lembranças gustativas – talvez uma das mais constantes em minha vida de glutão -, assim do nada. Sem mais nem menos, elas aparecem. Até já postei textos aqui sobre isso. Estou fazendo alguma coisa e pum! lá vem a memória de alguma coisa gostosa que experimentei durante minha vida.
É claro que isto deve ser comum a todos os seres humanos, desumanos e extraterrenos. Comer é um dos grandes prazeres que se tem na vida, e necessariamente deixa alguma coisa gravada em nós.
Estava há pouco num botequim aqui próximos de casa, onde fui bebemorar o campeonato do Glorioso (Maitê, ainda estou esperando!), com a alternância entre um chope escuro/um chope claro (Só faltou a Estrela Solitária.), acolitados por moelas, e me veio à memória o fígado galinha que comia no Bar Pracinha de Miracema.
O Bar Pracinha era um grande salão na Rua Direita, cujo vão era sustentado por colunas de ferro, um balcão de atendimento à direita de quem entrava por uma de suas três ou quatro portas (Ele não existe mais.) e várias mesas e cadeiras em toda a extensão à esquerda.
A primeira vez que lá fui, há bons anos, foi a convite do meu sogro, o saudoso seu Beethoven, que me disse da qualidade daquele fígado.
Aqui é preciso fazer uma digressão de caráter gourmand. Fígado de galinha é uma iguaria não muito apreciada pelo cidadão cosmopolita e urbano de cidade grande. O pessoal do interior como eu é muito chegado a certas guloseimas para as quais o homem da cidade torce o nariz, como se fosse coisa de segunda ou terceira categoria. Fígado, moela, rim, língua – e por aí vai – estão nesta categoria.
Pois muito bem! Convidado por ele, não me furtei a experimentar o tal fígado.
Quando lá chegamos, o bar já estava todo tomado por clientes. Era um sábado à tardinha. Sobrou-nos, então, a posição mais apropriada aos bares: encostar o umbigo ao balcão e degustar o que possa sair lá de dentro da cozinha. Pedimos uma cerveja (Na época, não havia esta sofisticação que hoje há, e meu sogro também foi habituado a só beber uma marca de cerveja.) e uma porção de fígado.
Posso garantir aos amigos leitores que me honram com sua atenção que os galináceos não morreram em vão para o bar e seu cozinheiro. Não faço a mínima ideia de como se preparou aquele fígado. Na verdade, ele não vinha com nenhuma atração visual maior, que não sua integridade esplendorosa, um tanto vítrea ao olhar, a maciez de que é dotado e um paladar inigualável. Só acrescentei algumas gotas de pimenta, como é de meu feitio.
Tirante o fígado de galinha que minha mãe pescava na panela onde fazia o restante da penosa (Até digo isto para não parecer um filho ingrato.), nenhum outro se comparou em toda a minha vida àquele fígado feito pelo cozinheiro do Bar Pracinha.
Alguns anos depois, despareceu o bar, dando lugar a outro empreendimento comercial sem o charme e o apelo do botequim, e nunca jamais, em tempo algum, pude provar outro semelhante.
Por isso é que, ao escolher um tira-gosto hoje no botequim aqui ao lado, para acompanhar a homenagem etílica ao meu Glorioso, resolvi ficar na moela de galinha acebolada.
Não queria magoar a memória daquele fígado, nem do prazer que tinha em ir ao bar com meu saudoso sogro, Beethoven Neiva, flamenguista dos mais enjoados que conheci. Aliás não conheço flamenguista que não seja enjoado!
Salve o Botafogo! Viva Maitê Proença! Saudades do seu Beethoven!

Imagem em youtube.com.

17 de novembro de 2015

NAQUELE TEMPO


Lembro-me de que brincávamos de carro-de-boi de sabugo de milho. Os sabugos eram os bois. O carro, alguma pedra que amarrávamos aos sabugos, que eram candiados como qualquer boi de carro de verdade. Vem, Soberbo! Força, Fumaça!
As trilhas eram traçadas no chão batido e encontravam alguma dificuldade no monte de areia em que os bois deviam subir, puxando a carga imensa que colocávamos sobre o carro: um caroço de manga seco, um cavaco qualquer de pau, pedaços de telha antiga defumada pelo uso, algumas folhas que fingiam ser a última colheita de uma lavoura imaginária, olhos-de-boi que depois serviam a curar terçóis, a que sempre estávamos sujeitos.
Não foram poucas as vezes em que assim brincamos. Sobretudo na fazenda do tio Aurélio, no Jacó, com meus primos Délbio e Zé Luís, filhos dele, e Zé Fábio, que sempre estava na corriola conosco. Com tanto menino junto, algumas vezes havia encrenca, sobretudo porque os dois Zés sempre foram briguentos. Mas tudo não passava de minguados minutos, e a brincadeira voltava a reinar entre a turma.
Tio Aurélio era um tio bonachão, extremamente bem-humorado, e não esquentava a cabeça com nossas peraltices ou desavenças passageiras. E sempre tinha uma boa saída, para não tomar decisão alguma diante de bobagens infantis. Por vezes, Délbio ia reclamar de certa atitude do irmão:
- Pai, o Zé Luís tá implicando com a gente!
Ele, com o vozeirão de que era possuidor, indagava sério:
- Com a gente ou com os outros?
- Com a gente!
- Ah, pensei que fosse com os outros!
E não fazia absolutamente nada. Se a resposta fosse “com os outros”, ele mudava sua frase:
- Ah, pensei que fosse com a gente!
E tudo continuava na mesma. Ele é que não iria envolver-se em briga de meninos, que, instantes depois, estariam brincando, como se nada houvesse acontecido.
Já tia Toninha, irmã de minha mãe, tinha alvará expresso para aplicar o corretivo necessário, durante a estada em sua casa. Eu mesmo nunca levei catiripapos dela. Não sei o peso que tinha seu braço. Apenas uma vez peguei castigo coletivo, por conta de armações normais de criança.
E jogávamos muita bola! Havia na fazenda um grande terreirão para a secagem do café, que meu tio plantava, com o piso em barro vermelho batido e ressecado. Se chovesse não podíamos andar pelo terreirão, a fim de não deformar seu chão plano. Em tempo seco e sem o café espalhado, sempre havia uma pelada entre meninos ou entre adultos. Ali se formou o time do Soca Terreiro, que uma vez por ano disputava o torneio rural, de curtíssima duração.
Também brincávamos com as chuvas torrenciais de verão, fazendo barragens nas sarjetas e soltando barcos de papel na enxurrada. Ou tomando banho nas bicas que se formavam da água que descia forte dos telhados das casas baixinhas da vila.
Nas noites manchadas de estrelas e vaga-lumes, corríamos para esconder na brincadeira de pique ou de siliprina (palavra que nunca encontrei em nenhum dicionário), de mocinho e bandido.
Pulávamos o muro do campo de futebol para também fazer nossas peladas, ou outra brincadeira que envolvesse muita criança. E alguns aproveitavam para roubar laranja no quintal do tio Chiquito, fronteiro ao campo, ao final das peladas.
Sobre as calçadas, ou nas varandas das casas, ocorriam ferrenhas partidas de futebol de botão, com campeonato organizado, botões famosos a lembrar jogadores dos principais times do Rio de Janeiro. Às vezes ocorriam negociações, e determinado botão passava de um a outro menino, por troca ou por compra. Andei pagando alguns com os pés de moleque que minha mãe fazia.
Nas noites de sábado e domingo, banho tomado, cabelo penteado, saíamos a passear pela Rua Coronel Alfredo Portugal, da esquina com a Rua Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo, nome do meu bisavô, em direção à Praça Antônio Guimarães, a antiga Praça do Sabiá. E aproveitávamos para paquerar as meninas, no circuito desta balada inocente e interiorana.
Não tínhamos consciência de que cresceríamos, andaríamos por caminhos distantes e estranhos, enfrentaríamos os desafios que a vida nos imporia, com toda a certeza. Brincávamos e nos divertíamos como meninos, sem atentar para o mundo estranho que estaríamos construindo.
Mas, pelo que me é dado relembrar, era assim, naquele tempo!

Cândido Portinari, Futebol em Brodósqui, 1935 (em estudosavancadosinterdisciplinares.blogspot.com).

5 de novembro de 2015

PROPINAS DIVINAS


Um dia, Senhor, caiu em uma conta num banco suíço, milagrosamente aberta em meu nome por um anjo de Vossa corte celestial, alguns caraminguás. Uns tempos depois, pingaram outros mais e mais outros, enfim dezenas de caraminguás voaram para lá, raiava sanguínea e fresca a madrugada¹ aqui em terras tropicalientes. Até minha santa mulher e minha filha imaculada foram beneficiadas por esse anjo, com contas de que eu nem sabia, como a comprovar que “as aves do céu não semeiam, nem colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas?”². E Vós mesmo já dissestes, em priscas eras, que era para confiar para caramba! E eu humildemente confio!
Pois, Senhor, alguns maus funcionários da justiça daquele país de queijos esburacados (Como confiar em um país que não consegue nem fazer um queijo sem buracos?) resolveram assacar contra a minha pessoa - e a de minha mulher e a de minha filha adorada - aleivosias e insinuações, repletas de comprovantes diabolicamente conseguidos por vários meios, para afirmarem que tudo aquilo que a providência divina resolveu cumular em meu favor fosse fruto de desfrute de dinheiro público.
Ora, Senhor, ainda que fosse verdade, bem sabeis que, em meu país varonil, tudo que é público não tem dono, e, se não tem dono, pode ser meu, ainda que eu não tenha tido a má intenção de pegar para mim, tão somente por um cúpido desejo de locupletação, mas sobretudo para Vossa honra e Vossa glória. Estava mesmo, Senhor, pensando em adquirir uma linda mansão no Irmão do Norte em Vossa homenagem e de Vosso filho, tanto que até criei uma empresa religioso-benemérita, sem fins lucrativos, de nome Jesus.com (O .com foi um descuido de minha parte, no momento de registrar a empresa.), com o fito de que tudo que por ali passasse fosse abençoado e limpo de qualquer possível mácula, pecado ou desconto no imposto de renda.
Assim, Senhor, vos imploro para que nada do que dizem contra mim seja confirmado, pois, estando em Vossa companhia, nada temo. Como já dizia a velha canção brasileira pagã, quem anda com Deus não tem medo de assombração; eu ando com Jesus Cristo no meu coração³ e nas minhas contas milagrosamente aparecidas em bancos suíços.
Por fim, Senhor, quero lembrar-vos do que Vós mesmo nos dissestes: “Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas serão acrescentadas a vocês.”⁴.
Simples assim, Senhor: eu busquei e as coisas me foram acrescentadas por Vossa divina providência.
Saravá! Perdão, Senhor: Aleluia!

Imagem em terapiasparatodos.com.br
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¹ Citação de As pombas, de Raimundo Correia.
² Mateus, 6:26.
³ Luiz Vieira e Arnaldo Passos, Menino de Braçanã (Caso queira ouvir a música, na bela gravação de Rita Lee, clique aqui.)
⁴ Lucas, 12:31

5 de outubro de 2015

SONHAR NÃO CUSTA NADA

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.)

Houve um tempo em nossas vidas – para aqueles que têm, por exemplo, a minha idade – em que era quase impossível pensar egoisticamente.

Em minha concepção, não haveria lugar para a felicidade pessoal. Antes, ela deveria passar pela felicidade geral de todos. De todos os que estávamos do lado de cá. Já que os que estavam do lado de lá – a minoria com as armas na mão – ditavam as regras que deveríamos seguir.

Não peguei em armas contra eles. Não cheguei a este extremo, como alguns companheiros de então. Talvez não tivesse este espírito. Esta disposição. Ou esta coragem.

Sempre achei que se pudesse combater com outro tipo de arma, que não fosse mortal ao corpo, mas sim ao pensamento.

No entanto, vivi o mesmo desespero de milhões de brasileiros que se submetiam a um regime injusto. E fiz do meu papel de professor, durante vinte e três anos, não só um mero passador de informações e conhecimentos, mas, principalmente, de um despertador de consciências.

Pessoalmente nunca fui infeliz. Não fui dotado pela natureza de pessimismo. E jamais tive ódios pessoais, bem como inimigos. Minha natureza não foi feita para isto.

Posso ter sido preguiçoso, mas nunca vacilei entre o que me parecia ético e o antiético. E, sobretudo, o respeito pelo outro. Postura que tenho até hoje e passei para meus filhos.

Se, em determinado tempo de minha vida, perdi a fé – esta coisa que nada tem a ver com erudição ou cultura, mas está em outro patamar –, assim mesmo, nunca abdiquei de princípios. O ser humano é a medida de todas as coisas, para mim. Apesar de todas as suas fraquezas e erros. Mas fora do homem não há solução. Nada se salvará.

E, se nós somos os culpados por todas as desgraças, todas as misérias e injustiças que há, sem nós não haverá salvação possível. Embora sejamos os lobos de nós mesmos, teremos de aprender a ser solidários e fraternos, antes que a natureza varra da face da terra a nossa existência.

E, então, a felicidade será uma verdade social e não apenas um valor individual que se possa esfregar na cara de nosso semelhante.

E a miséria, a fome, o desamparo e a injustiça serão alguma coisa vaga na memória dos mais velhos, dos mais antigos. As futuras gerações só saberão disto, ao lerem nos manuais escolares, como coisa do passado.

É com isto que eu sonho!

Valquíria Barros, Trabalhadores do café (em anuncios.adclass.com.br).

22 de setembro de 2015

LUMIAR X SÃO PEDRO DA SERRA



Voltei de Lumiar ontem à tardinha. Já há alguns anos não ia por aquelas montanhas tão aprazíveis de Nova Friburgo. Até me lembro da agradável impressão de quando estive na vila de São Pedro pela primeira vez. Jane e eu chegamos no finzinho de uma sexta-feira comum, e me encantei vendo as crianças saindo da escola. Comentei, então, que nunca havia visto uma tão grande concentração de crianças bonitas, bem nutridas e felizes daquele jeito. Foi aquela primeira impressão que conquista o forasteiro.
Tempos depois, nosso amigo Eduardo Campos lá construiu uma bela casa a que, com certa frequência, íamos.
Por aquela época, São Pedro era o coração pulsante daquelas grimpas de serra. Lumiar, embora famosa pela canção magistral de Beto Guedes, mostrava-se extremamente pacata, recatada, como uma donzela pudica. Sua noite não tinha nada de excitante ou convidativa. São Pedro era o que se podia esperar de um lugarzinho pequeno e agitado, embora mantendo seu ar interiorano tão encantador.
Desta vez foi diferente.
Lumiar está um outro lugar. Transformou-se. Aquilo que nos parecia abandonado pelo poder público, como o laguinho no centro da cidade, que se resumia a uma grande poça d’água feiosa, agora está cuidado, com as margens perfeitamente urbanizadas, iluminação destacada e um entorno de bares e restaurantes, com mesas externas, música ao vivo e sedução para uma parada, uma cerveja artesanal, um vinho correto, uma comidinha honesta.

Lumiar à noite (foto do autor).
A antiga pracinha acabou de ser reinaugurada, com o tradicional coreto em seu centro, e está rodeada de lugares acolhedores para o encontro dos amigos. Por seu lado, as crianças divertem-se pelo espaço renovado com cuidado arquitetônico. O agito veio para cá.
São Pedro, ao contrário, perdeu seu elã, sua badalação. Os antigos hippies que faziam o sucesso de lá já não são notados. O agito tornou-se calma e modorra.
Durante um show na pracinha de Lumiar, no último sábado, uma mulher aparentemente doidona invadiu a apresentação do cantor que se se fazia acompanhar ao violão, para cantar sua versão de Hotel California, sob o riso generalizado dos que ali estavam. Ela terminou sua performance com o grito eufórico de que “São Pedro tinha virado um cemitério”.
Fiquei triste.
Nem São Pedro, nem Lumiar merecem este antagonismo antigo e estúpido que tanto rivaliza estados, cidades, vilas, bairros, ruas e gente vizinha. Podemos crescer juntos, sem que o outro regrida. Contudo é o que pude observar nesta última passagem por essas duas vilas simpaticíssimas da serra fluminense.
Seria tão bom que tanto São Pedro da Serra, quanto Lumiar, pudessem ter seu charme, seu encanto e sua badalação própria, sem que uma vila se sobrepujasse à outra.

Gostei muito de ver Lumiar como está agora. Mas fiquei triste em constatar que São Pedro, aonde já fomos passar o réveillon de 2003, logo depois de tê-lo feito em Paris em 2002, perdeu seu jeito todo especial de conquistar o visitante. Seus escolares devem continuar tão bonitos quanto antes, mas sua noite já não tem mais o encanto de outrora.

Encontro dos rios, Lumiar (foto do autor).


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PS: Excluído e republicado por ter saído com incorreções que não puderam ser corrigidas no texto anterior.

14 de setembro de 2015

QUANDO VOCÊ OUVE SENHOR PELA PRIMEIRA VEZ


Eu ainda era um homem razoavelmente jovem, porém nem tanto, quando ouvi de uma atendente de antigo videoclube perto de casa a palavra senhor dirigida a mim. Tomei um baita susto, na oportunidade. Como morássemos no mesmo condomínio, certo dia lhe disse daquela minha estranheza em ser chamado assim tão solenemente. Ela sorriu amarelo, em seus dentes brancos, em sua bela carinha ainda adolescente.
Essa primeira vez é a primeira vez de todos os acontecimentos na vida: você jamais esquece.
E eu já era professor de cursos de graduação há alguns anos – havia começado aos vinte e seis na atividade –, e recomendava, logo na primeira aula, que os alunos não me chamassem de professor, nem de senhor: eu era simplesmente o Saint-Clair.
Mas o tempo é inexorável. Se você não morre, ele continua passando sem apelo, sem barreiras ou barricadas, rompendo tudo, atropelando quem estiver pela frente. E vai levando de roldão nossa juventude, junto com nossos cabelos e as habilidades físicas de um modo geral e específico, que nem é bom lembrar.
Há poucos anos, adquiri legalmente o direito à fila preferencial, ao transporte gratuito, à vaga reservada, que tento não usar, enquanto tiver alguma força física e financeira para parecer um pouco menos dependente das benesses do sistema.
Entretanto, neste fim de semana, tive a certeza de que não é assim que os outros já me veem. Eu, acostumado todos os dias a me olhar ao espelho, não percebo – como todos os meus semelhantes – os estragos que o tempo deve estar a fazer nesta minha pessoa despretensiosa.
Vejam só em que me baseio, para tal constatação.
Na quinta-feira, fui a um supermercado de esteira rolante. Ao sair com o carrinho de compras, uma mocinha, no pleno gozo da sua adolescência mas já no trabalho, no princípio da descida, se pôs a me ajudar a conduzir o veículo até embaixo. Antes uma mulher mais nova passou por ela, sem ter esse tipo de deferência.
Voltei no dia seguinte e, ao procurar vaga onde parar o carro, um homem jovem se apressou a tirar o carrinho de compras que atrapalhava o completo estacionamento do veículo. Eu lhe agradeci a gentileza, e ele sorriu com bonomia para mim.
O pior, contudo, a prova cabal e irrefutável de que virei realmente um senhor maduro – já chegando, quiçá, à velhice irremediável – me foi dada por um homem um pouco mais novo do que eu, dono do bar onde encomendara torresmos para abrilhantar a feijoada de domingo. Conforme combinado, liguei para saber se a encomenda estava pronta. Ele disse que iria verificar, deixou o telefone apoiado em algum lugar – o barulho indicava isto – e gritou para a cozinha no fundo do estabelecimento:
- Zé, o torresmo do coroa ficou pronto?
Confesso que só fui buscar o torresmo, que, aliás, é deliciosamente crocante, porque já havia pagado por antecipação. Caso contrário, deixaria que o boquirroto ficasse com o coroa preso na garganta, a vender suas cachacinhas miúdas e suas cervejas cheias de milho e arroz, para a clientela condescendente que frequenta aquele pé-sujo. E prometo não voltar lá. A não ser que a vontade de comer torresmo seja irrefreável!

Imagem em catracalivre.com.br.

9 de setembro de 2015

UM CONHAQUE AMARGO NO CHALÉ


Por um descuido, fui tomar conhaque no Botequim Chalé, localizado de frente para a Praia de Icaraí, na noite de ontem, quarta-feira.

Como estivesse sozinho, aos poucos fui-me insinuando na conversa de dois fregueses, aparentemente da minha faixa etária, que tratavam de um assunto interessante.

Botequim tem esta característica altamente simpática e democrática: é possível, com tato, se meter em todas as rodas de conversa.

Rapidamente soube que meus dois interlocutores eram engenheiros. Um deles, inclusive, o mais loquaz, falava das usinas hidrelétricas que tinha projetado pelo país afora, as duas últimas em construção no Rio Paraíba do Sul, na altura de Queluz/SP, já próximas à fronteira com o Estado do Rio.

Dizia de seu trabalho, de suas responsabilidades, de suas competências e experiências, e não deixou de tecer críticas a outros profissionais, como os arquitetos. Como se estes fossem artistas sonhadores, sem os conhecimentos teóricos e práticos de cálculos que os possibilitem aos voos de seus projetos.

Isto me fez refletir sobre a pequenez da alma humana: não basta ao homem vangloriar-se do que faz; é preciso desmerecer o outro.

Que merda de gente somos nós! Quão ridículos em nossas presunções!

A minha magnificência só se completa diante da incompetência alheia. É isto?

Eu sou sempre o fodão, aquele que sabe, que conhece, que resolve. E todos os outros são um bando de incapazes, de incompetentes, que não se criariam senão através de nossa capacidade desmesurada.

Sorvi logo o último gole do conhaque, despedi-me e fui embora para casa.

Tenho mais o que não fazer, do que ficar ouvindo presunções soporíferas de quem sabe fazer hidrelétricas!

Como sempre arremata seus comentários semelhantes o meu amigo blogueiro Zatonio Lahud: Saco!

Imagem em konsulfree.com.br.

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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.